quarta-feira, 7 de junho de 2023

LOUVORES VAZIOS

Vicente de Paulo
Contam as tradições do mundo espiritual que, certa feita, estava Vicente de Paulo, o nobre sacerdote francês, a celebrar um ofício religioso. 
O nobre clérigo, que ganharia a História pela sua devoção aos pobres e por sua humildade, verifica, em meio à solenidade, repentino louvor público. 
Aproxima-se do altar velho pirata que, em altos brados, inicia sua ladainha de agradecimentos. 
-Obrigado meu Deus, dizia ele, pelos ricos navios que colocaste no meu caminho, pelas boas presas, vítimas dos meus roubos e saques. Graças à Tua generosidade Senhor, pude tomar-lhes as riquezas e os tesouros. Não permitas nunca que este Teu filho se perca na miséria. 
Na sequência, aproxima-se do altar jovem rapaz que, por sua vez, passa a tecer os motivos que tinha de agradecimentos ao Senhor. 
-Obrigado meu Deus, pela herança que permitiste que eu herdasse com a morte de meu avô. Ele, que fez fortuna na guerra e nas batalhas, nos deixa volumosa soma em dinheiro. Assim, passarei a existência no ócio e na diversão, sem a necessidade do trabalho. 
Em seguida, foi um cavalheiro maduro quem se aproximou do altar para seus agradecimentos públicos. 
-Mestre Divino, agradeço-te o amparo pela vitória na batalha que encetei para ampliar os domínios de minhas terras. Agora, graças ao Teu poder, ampliarei minha fortuna e meus bens. 
Não tardou para adornada senhora tomar a posição de agradecimento. 
-Eu Te agradeço Senhor, pelos escravos que me conferiste em minhas terras coloniais. Graças ao trabalho deles, tenho fortuna, poder e riqueza, sem grandes preocupações com meu futuro e o dos meus. 
Os agradecimentos continuavam, quando São Vicente de Paulo, assombrado, reparou que a imagem do Mestre de Nazaré, estática no altar, adquiria vida e movimento. 
Reparando que o Mestre, em prantos, afastava-se a passos rápidos, o nobre sacerdote, tomado de susto, lhe indaga: 
-Mestre, por que Te afastas de nós? 
O Celeste Amigo, melancólico, dirige-se ao sacerdote:
-Vicente, afasto-me porque me sinto envergonhado de receber louvores e agradecimentos daqueles que esquecem e desprezam os fracos, os infelizes, os desafortunados e pensam apenas em si mesmos. 
A partir desse dia, São Vicente de Paulo nunca mais abandonou a túnica da pobreza, trabalhando incessantemente na caridade. 
* * * 
Não diferente desses, muitas vezes, agimos de forma semelhante.
Lembramos de agradecer a Deus, com os lábios e palavras. 
Porém, esquecemo-nos de que, como nos lembra Jesus, a cada um daqueles que dermos de vestir, de beber e de comer, será a Ele que estaremos servindo. 
A melhor forma de agradecer a Deus, será sempre servindo ao próximo.
Dar o agasalho, o pão, ou ainda, dar do nosso tempo e da nossa atenção para quem cruza o nosso caminho, será a maneira mais nobre e feliz de agradecermos as bênçãos da vida. 
Redação do Momento Espírita, com base no cap. 13, do livro Contos e Apólogos, pelo Espírito Irmão X, psicografia de Francisco Cândido Xavier, ed. FEB. 
Em 7.6.2023.

terça-feira, 6 de junho de 2023

JUSTIÇA E MISERICÓRDIA

Altivo Ferreira
Quando nos referimos aos atributos Divinos, dizemos que Deus é infinito em todas as Suas atribuições. 
Dizemos que Ele é único, eterno, imutável, imaterial, onipotente, soberanamente justo. 
Dizemos ainda que Ele é misericordioso e bom. 
Justiça é a faculdade de julgar segundo o direito e melhor consciência.
Misericórdia é a compaixão, o pesar, a piedade ante a dor alheia. 
Será possível que andem juntas a misericórdia e a justiça Divinas? 
O cancioneiro popular Adorinan Barbosa colocou na boca do filósofo Joca, em uma de suas produções musicais, que Deus dá o frio conforme o cobertor. 
Essa imagem bem traduz a justiça e a misericórdia Divinas. 
O frio é a justiça Divina alcançando o ser que ontem fraudou, burlou a lei.
O cobertor, que auxilia a vencer a intempérie, significa a misericórdia que se estende a esse mesmo devedor. 
Se prestarmos atenção, veremos que, em todas as situações da vida, a justiça de Deus se manifesta ao lado da Sua misericórdia. 
Assim, no mundo de vicissitudes em que vivemos, encontramos as enfermidades abraçando vidas. 
É a justiça de Deus cobrando aos seres os seus descalabros do ontem ou do hoje: excessos, abusos, intemperança. 
Ao seu lado se multiplicam médicos, enfermeiros e atendentes receitando, medicando, minimizando dores... 
São os intérpretes da misericórdia de Deus. 
Ao lado deles cientistas se debruçam sobre tubos de ensaio, investindo noites e horas sem fim, com o objetivo de descobrir novas fórmulas para curar enfermidades ou diminuir sofrimentos. 
Outros profissionais se importam com o bem-estar moral dos seus pacientes e estabelecem linhas mestras de atendimento, onde a atenção, o tempo, a renúncia, são notas constantes. 
A justiça de Deus estabelece que a cada um deve ser dado conforme as suas obras. 
Geralmente, quem retirou dos cofres públicos quantias preciosas, retorna para devolver a esses mesmos cofres, através do seu trabalho, tudo que usurpou indevidamente. 
Mas a misericórdia de Deus permite que a criatura, nesse contexto, se mantenha e sustente os seus com essa mesma atividade. 
Muitas vezes, quem se serviu do corpo perfeito para a prática do mal, retorna em outro momento, com determinada deficiência. 
No entanto, não lhe faltarão seres abnegados que o receberão como filho, professores que se dedicarão para que ele viva o melhor possível, face às suas limitações. 
Não raro a justiça Divina estabelece que devedor e credor se reencontrem no ninho doméstico para os devidos ajustes. 
A misericórdia concede a um e outro o esquecimento do passado a fim de que a reparação se concretize em ambiente isento de acusações infelizes.
A justiça alcança o devedor e o cobra. 
A misericórdia se coloca ao lado e lhe oferta o ombro amigo para chorar, o braço forte para amparar, uma voz para renovar o ânimo. 
Deus é justiça. 
Também Pai amoroso e bom. 
A justiça estabelece o ressarcimento à lei. 
A bondade estende oportunidades de reparação. 
* * * 
A sabedoria providencial das Leis Divinas se revela, nas pequeninas coisas, como nas maiores. 
Essa sabedoria não permite se duvide nem da justiça, nem da misericórdia de Deus. 
Justiça e misericórdia se manifestam na Terra em forma de cobrança e oportunidade, resgate e compensação. 
Preste atenção e descubra você mesmo como a justiça e a misericórdia Divinas andam de mãos dadas. 
Redação do Momento Espírita, com base em palestra de Altivo Ferreira, na Federação Espírita do Paraná, em 28.8.2005.
Em 28.4.2014.

segunda-feira, 5 de junho de 2023

ONDE ESTÁS Ó DEUS QUE NÃO RESPONDES?

POETA CASTRO ALVES
Assim, o poeta Castro Alves inicia seu poema Vozes da África. 
É o lamento do continente africano, vendo seus filhos serem levados como animais ao mercado de escravos. 
Deus! Ó Deus! Onde estás que não respondes! 
Em que mundo, em qu´estrela tu te escondes 
Embuçado nos céus? 
Há dois mil anos te mandei meu grito, 
Que embalde, desde então, corre o infinito... 
Onde estás, Senhor Deus? 
À semelhança dos versos do poeta, muitas vozes se ergueram quando aconteceu o 11 de setembro de 2001, para indagar onde estava Deus naquele momento. 
Por que permitiu que mais de duas mil vidas fossem destroçadas naquela manhã?
Por quê? 
Poder-se-ia perguntar ainda onde estava Deus quando fomentamos a Primeira e a Segunda Guerra Mundial. 
Quando foram eliminados seis milhões de judeus, em nome de uma imaginária raça superior. 
E quando empreendemos as Cruzadas, levando a morte àqueles que eram qualificados de infiéis?
E durante a Inquisição com tanta barbárie? 
E todos os dias, onde está Deus?
Onde está Deus quando enganamos nosso irmão? 
Quando mentimos para conseguir favores que desejamos? 
Quando desonramos o lar com o adultério? 
Quando eliminamos a vida no ventre materno, porque não desejamos o filho em gestação? 
Onde está Deus quando deixamos nossos filhos à matroca, sem orientação, porque preferimos a acomodação? 
Onde está Deus quando, utilizando o poder que o mundo nos confere, ferimos pessoas, destruímos a honra de outras vidas? 
Onde está Deus quando levantamos as bandeiras da pena de morte ao nosso irmão? 
Ou da eutanásia? 
Para todas as perguntas, a resposta é a mesma: 
-Deus está dentro de nós, dentro de cada criatura. 
Soberanamente sábio, criou-nos a todos iguais, partindo de um mesmo ponto de simplicidade e ignorância. 
Criou os mundos para que neles trabalhássemos, utilizássemos nossas forças e crescêssemos em intelecto e moral. 
A ninguém concedeu privilégios. 
A todos concedeu a liberdade de pensar, de decidir, de agir, mas com a consequente lei de causa e efeito. 
Estabeleceu que a cada um será dado conforme as suas obras e que todos deverão chegar ao mesmo destino, não importa quanto demore, que é a perfeição. 
Ele nos permite a livre semeadura, mas estabelece que a colheita seja obrigatória. 
Por isso, uns semeiam ventos e colhem tempestades. 
Outros lançam ao solo as sementes da bondade, do bem e alcançam felicidade. 
Uns estão semeando hoje. 
Outros tantos estão realizando a colheita das bênçãos ou das desgraças que se permitiram semear. 
Conhecedor das fragilidades de Seus filhos, aguarda que cada um desperte, a seu tempo, cansado das dores que para si mesmo conseguiu.
Portanto, não indague onde está Deus, quando você contemple a injustiça.
Trabalhe pela justiça. 
Não pergunte onde está Deus, quando observe a violência. 
Semeie a paz. 
Não questione onde está Deus quando a miséria campeia.
Utilize seus recursos para semear riquezas. 
Enfim, onde quer que você esteja, lembre que Deus está em você e com você. 
E espera que você seja o Seu mensageiro de bênçãos, onde se encontre.
Pense nisso. 
Pense agora e comece a demonstrar ao mundo o Deus que existe em sua intimidade. 
Redação do Momento Espírita. Disponível no CD Momento Espírita, v. 13 e no livro Momento Espírita, v. 6, ed. FEP. 
Em 05.06.2023.

domingo, 4 de junho de 2023

JUSTIÇA E EQUILÍBRIO

CHICO XAVIER E EMMANUEL
Em determinada passagem de Epístola, o Apóstolo Paulo afirma: 
-Pois aquilo que o homem semear, isto também ceifará. 
Habitualmente, se entende que somente após a vida terrestre faremos um balanço de nossas ações, recebendo a justa recompensa, seja paz ou desequilíbrio. 
Ocorre que não é necessário morrer para perceber a atuação da lei das compensações. 
Reparemos o cenário da luta vulgar na Terra. 
Há homens que são indiferentes às dores do próximo. 
Por seu turno, eles também recebem a indiferença quanto às dores que experimentam. 
Muitos optam pelo afastamento do convívio social. 
Para esses a solidão deprimente é a resposta ao mundo. 
Alguns se permitem utilizar extrema severidade no trato com o semelhante. 
Mas também são julgados pelos outros com rigor e aspereza. 
Há quem pratique, em sociedade ou em família, a hostilidade e a aversão.
Naturalmente, encontra entre vizinhos e parentes, primordialmente, antipatia e desconfiança. 
Entretanto, muitos optam por demonstrar carinho e respeito, mesmo por desconhecidos. 
Esses gestos amigos granjeiam o concurso fraterno até de grupos anônimos que a todos cercam. 
Pequeninas sementeiras de bondade geram abençoadas fontes de alegria. 
O trabalho bem vivido produz o tesouro da competência. 
Atitudes de compreensão e gentileza estabelecem solidariedade e respeito, junto a nós. 
Otimismo e esperança, nobreza de caráter e puras intenções atraem preciosas oportunidades de serviço, em nosso favor. 
Todo dia é tempo de semear. 
Todo dia é tempo de colher. 
Não é necessário atravessar as portas do túmulo para encontrar a justiça, face a face. 
A justiça revela-se no cotidiano, nos princípios de causa e efeito, em todos os instantes de nossa vida.  ­
A justiça Divina é, em última instância, uma lei de harmonia. 
Deus criou o mundo com base em leis perfeitas, que regem a vida e a evolução das criaturas. 
A energia que lançamos no mundo, seja de paz ou de desarmonia, nos pertence. 
Ela até pode afetar momentaneamente os outros, mas sempre volta à origem, para quem a emitiu. 
Esse raciocínio evidencia o equívoco de pretender que Deus castiga Suas criaturas. 
É inconcebível imaginar Deus no papel de carrasco, sondando os atos de cada um de Seus filhos, para puni-los ao menor desvio. 
Ele nos dá livre-arbítrio, a fim de que cresçamos em experiência, discernimento e compreensão. 
Mas também nos dá responsabilidade por nossos atos, permitindo que experimentemos as consequências de todos eles. 
Assim, se causamos desequilíbrio no Universo, fazendo mal a um semelhante, devemos restabelecer o equilíbrio original, reparando as consequências. 
Nesse contexto, está inteiramente em nossas mãos optar pela paz ou pela discórdia, pela saúde ou pela doença. 
Se tudo o que ofertamos ao mundo a nós retorna, é questão de bom senso adotarmos um padrão de conduta generoso e nobre. 
A sementeira de ontem já foi lançada e hoje colhemos os seus frutos. 
Não há como retornar sobre os próprios passos e desfazer o passado.
Mas o amanhã está inteiro por construir. 
Optemos firmemente pelo bem, seguindo os exemplos do Cristo. 
Bem rápido a vida nos dará frutos de paz e amor. 
Afinal, como disse o Apóstolo, aquilo que o homem semear, isto também ceifará. 
Redação do Momento Espírita, com base no cap. XXXIV do livro Segue-me!, pelo Espírito Emmanuel, psicografia de Francisco Cândido Xavier, ed. O Clarim. 
Em 23.7.2014.

sábado, 3 de junho de 2023

JUSTIÇA E DISCURSO

ESPÍRITO ANDRÉ LUIZ
E
CHICO XAVIER
As pessoas costumam discursar a respeito da justiça. 
Em geral, o que não agrada é tido como injusto. 
Esse hábito em muito se assemelha à forma pela qual as crianças veem o mundo. 
O discurso infantil é centrado no atendimento dos próprios desejos.
Qualquer obstáculo é visto como indevido. 
Essa infantilidade no modo de perceber o mundo se reflete nos mais variados contextos. 
No trabalho, o designado para desempenhar uma tarefa árdua ou dar uma notícia desagradável sente-se injustiçado. 
Dentre os filhos, se um precisa devotar mais tempo a pais velhos ou enfermos, a percepção costuma ser essa. 
Esse sentir focado no egoísmo também assume outros contornos. 
Ganha importância na sociedade a cultura da indenização. 
Ao menor transtorno, busca-se responsabilizar o pretenso causador. 
Em face de desentendimentos, procura-se colocar tudo em pratos limpos.
É como se ninguém estivesse disposto a compreender, a contemporizar e a perdoar. 
Contudo, o discurso da busca de justiça muitas vezes disfarça o sentimento de vingança. 
No mundo, muitos crimes se praticam sob a justificativa de se estar fazendo ou buscando justiça. 
Para quem se afirma cristão, é imperioso refletir um pouco antes de trilhar esse caminho. 
Jesus sempre se posicionou com bastante firmeza. 
Defendeu a mulher adúltera, em face de quem queria apedrejá-la.
Sustentou com vigor que o templo fosse utilizado de forma santa, em vez de se converter em um mercado. 
Ele se mantinha vigilante em todos os atos alusivos à justiça para com os outros. 
Nunca lhe faltou coragem e nem capacidade de argumentação. 
Contudo, quando encaminhado à cruz, não clamou pela justiça dos homens. 
Ao assim agir, sinalizou a grandeza que existe em abdicar das próprias razões, em prol de um objetivo maior. 
Por certo, tal atitude não implicou desconsideração para com o trabalho dos juízes honestos no mundo. 
Mas estabeleceu um padrão de prudência para todos os discípulos de seu evangelho. 
Quando em pauta interesses alheios, é importante atentar para o estrito cumprimento dos imperativos legais. 
Entretanto, quando os assuntos difíceis e dolorosos envolvem o eu, convém moderar os impulsos de reivindicação. 
A visão humana é incompleta para perceber a extensão dos dramas que se apresentam. 
Muitas vezes, a aparente injustiça que se vive representa o resgate de graves equívocos do passado. 
É difícil ter certeza quanto à própria posição perante a vida, considerada nos termos mais vastos de várias encarnações. 
Na dúvida, a abstenção de reclamos é uma medida a ser considerada.
Antes de discursar contra qualquer injustiça pessoal, pense nisso.
Redação do Momento Espírita, com base no cap. 18, do livro Missionários da luz, pelo Espírito André Luiz, pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, ed. Feb. 
Em 24.05.2012.

sexta-feira, 2 de junho de 2023

QUANDO NOS DOAMOS

William Glasser
O psiquiatra William Glasser, a partir de sua experiência, elaborou a Pirâmide de Aprendizagem, mostrando as percentagens de retenção de conhecimento relacionados à atividade educacional realizada. 
Apesar das controvérsias e dúvidas, diversos elementos do modelo dessa pirâmide podem ser aproveitados na educação, seja em instituições de ensino ou empresas. 
E nós diríamos, para o próprio estudante de qualquer conteúdo ou para a grande escola da vida. 
Glasser demonstrou que quando lemos, conseguimos reter 10% do conteúdo. 
No entanto, se escutamos, a apreensão sobe para 20%. O visual tem um papel importante porque se assistimos ou observamos algo, podemos apreender 30%, subindo para 50% se combinamos escuta e visualização.
Mas, se conversamos, discutimos ou debatemos a respeito de algum tema, o aprendizado sobe para 70%. 
O extraordinário fica pela possibilidade de 95% de retenção do que seja, quando nos propomos a ensinar alguém, explicando, resumindo, definindo, estruturando o conhecimento. 
De imediato, nos lembramos de alguns métodos que revolucionaram o ensino em tempos passados. 
Como na escola de Yverdun, na Suíça, quando o mestre Pestalozzi estabelecia que os meninos maiores ensinassem aos menores. 
Alunos mais adiantados repassassem o aprendido aos que tinham dificuldades. 
A memória também nos remete a um Mestre Galileu que estabeleceu: 
-Ide e pregai. Ensinai a todas as gentes. 
Em uma palavra: 
-Compartilhai, não retende o aprendido. 
Ele estimulava que fosse repassado pelos ouvintes a terceiros aquilo que dEle vissem e ouvissem. 
Não foi outra senão essa, a grande vitória da divulgação da Boa Nova pelo Oriente até o Ocidente. 
Foi assim que os apóstolos se transformaram em disseminadores do Evangelho, que espalharam as suas sementes ao mundo. 
Descobrimos os pescadores, conhecedores dos segredos do mar, dos ventos, entendendo de redes e de preços de mercado de peixes, se transformarem em pescadores de homens. 
Simão Pedro sai de sua casa e viaja, espalhando aos ventos o que ouvira e vira de um Mestre ilustre, durante quase três anos. 
Vejamos a técnica do Mestre de Nazaré: falava, realizava atos que impactassem as mentes. 
Assim, os Seus seguidores se transformaram em líderes de povos sedentos de uma nova ordem, que lhes falasse de paz, de harmonia, de liberdade, não mais de opressão e subjugação. 
Encontramos a síntese desse ensino no poema/prece que surgiu durante a Primeira Guerra Mundial e, por sintetizar o ideal de vida de Francisco de Assis, a ele acabou sendo atribuída.
Em seus versos finais, a prece exalta que há maior contentamento na criatura em consolar, do que ser consolada. 
Em compreender do que ser compreendida, em amar do que ser amada. E conclui, de forma magistral, porque é dando que se recebe. 
Eis aí a grande lei da vida. 
Quanto mais se dá, mais nos devolve a vida. 
Alguns afirmam: 
-Quando se dá, o Universo conspira a nosso favor. 
Quando damos, quando oferecemos, nos abrimos, nos tornamos receptivos a tudo que é bom, grande, belo. Tudo que nos pode alimentar a alma, a mente e o coração. 
Pensemos nisso. 
Redação do Momento Espírita 
Em 02.06.2023

quinta-feira, 1 de junho de 2023

JUSTIÇA DIVINA

Amália Domingo Soler
Eles eram jovens, amáveis e simpáticos. 
Seus semblantes irradiavam alegria. Amavam-se com esse primeiro amor que se assemelha a uma árvore florida que espera a estação propícia para se transformar em um celeiro de frutos. 
Uniram-se por amor. 
Ele era um modesto empregado e ela costureira. 
Viram-se e se amaram. 
Amaram-se e se uniram. 
Ao se unirem, logo pensaram na bênção de um primeiro filho. 
A moça, olhando gravuras de querubins, pediu a Deus que lhe desse um filho tão lindo como uma daquelas figuras angelicais. 
Um ano se passou. 
O amoroso par juntou economias e preparou o necessário para vestir um recém-nascido. 
Ela costurou roupinhas de cambraia com preciosas rendas, conjuntos brancos com finos bordados, gorros, tudo de mais belo e delicado para receber o seu bebê. 
Esperaram o filho que imaginavam belo e que deveria chegar pedindo beijos com seus sorrisos. 
Enfim, chegou o momento do parto. 
Áurea sentiu as primeiras dores e depois de um laborioso período deu à luz um menino. 
Logo quis vê-lo, mas seu esposo e as pessoas que a rodeavam simplesmente a olhavam com tristeza. 
Entre si trocavam olhares melancólicos e cochichavam algo que ela não conseguia entender. 
Por fim, depois de insistir, Áurea acabou por gritar: 
-Vocês não me escutam? Quero abraçar meu filho. Por acaso está morto?
-Não, disseram-lhe. É que...o menino não tem braços, nem pernas! 
Áurea estendeu os próprios braços e respondeu com ansiedade: 
-Pois tragam-no. Se não tem braços, nem pernas, ele estará mais tempo em meus braços. 
O menino era lindo. 
Olhos azuis, expressivos, cabelos louros muito abundantes. Os pais o amaram. 
Mas o pai, quando sua esposa não podia ouvir, dizia com profunda amargura: 
-Eu queria tanto um filho. E ele veio sem braços nem pernas. Que grande injustiça cometeu Deus para comigo. Se ao menos eu fosse rico, mas sou tão pobre! 
* * * 
Ante um quadro tão doloroso, a Doutrina Espírita nos oferece profundas elucidações, através da lei dos renascimentos, da tese das múltiplas existências, da Lei de Causa e Efeito. 
Ela nos permite abrir uma porta para o nosso ontem, o nosso passado, dentro da História da Humanidade terrestre. 
Em O livro dos Espíritos, os mensageiros espirituais esclarecem a grande questão do sofrimento, da dor, da enfermidade, afirmando que não são fatores propostos pelo Criador, mas consequências das violações de Suas Leis. 
Assim, de acordo com a natureza das faltas cometidas pelo Espírito, ele mesmo escolhe as provas que queira sofrer.
Provas que o levem à expiação das faltas cometidas e a progredir mais depressa. 
Deus, na Sua justiça, permite que o culpado retorne ao cenário onde delinquiu, para a retificação dos seus erros. 
E como ensinou Jesus: 
-Se teu olho for causa de escândalo, arranca-o e joga-o fora, as deficiências e mutilações do hoje retratam exatamente a qualidade dos desacertos do ontem. 
Mas, como Deus é justiça e também misericórdia, permite que almas devedoras nasçam junto a corações amorosos que as aceitam e as ajudam com devoção, em sua trajetória de resgates e dores. 
Por isso mesmo, é comum encontrarmos mães carregando filhos que não andam, sem lamentar o esforço que realizam. 
Mães que vivem com filhos de ouvidos e lábios fechados e que, no entanto, lhes falam à acústica da alma, dizendo-lhes do seu amor. 
Mães que recebem filhos deficientes de toda ordem e que a eles se dedicam, heroínas anônimas, com desprendimento e amor. 
Redação do Momento Espírita, com base no cap. Sem braços e sem pernas, do livro Reencarnação e vida, de Amália Domingo Soler, ed. Ide e nos itens 258 e 264 de O livro dos Espíritos, de Allan Kardec, ed. Feb. 
Em 15.08.2011