domingo, 19 de abril de 2026

O MUNDO QUE EU DESEJO!

É frequente, não raro mesmo, ouvirmos das pessoas reclamações a respeito do mundo em que vivemos, lamúrias e queixas a respeito da sociedade contemporânea. 
Várias são as vezes em que as pessoas se reúnem para se queixar dos dias cada vez piores, segundo elas. 
E às vezes somos nós mesmos a iniciar a lista de reclamações e queixas.
Gostaríamos de dias com mais honestidade, reclamam uns. 
Outros desejariam uma sociedade mais pacificada, menos violenta, menos agressiva. 
Tantos outros gostariam de ter relações sociais permeadas com mais paciência, solidariedade, compreensão. 
Nada mais compreensivo para esses dias que se mostram tão desafiadores e tão contrastantes. 
Porém, antes de iniciarmos a elencar tudo o que desejaríamos para nossa sociedade, há que se perguntar: 
-O que vimos oferecendo para o mundo em que vivemos? 
Se desejamos um mundo honesto, a honestidade deve iniciar-se em nós.
Se nos choca ver políticos a desviarem verbas e valores que não são seus, o que falar quando nos evadimos da padaria ou do supermercado com troco a mais, levando um dinheiro que não nos pertence? 
Se reclamamos da falta de honestidade dessa ou daquela pessoa, precisamos pensar quantas vezes não somos os primeiros a ensinar ao filho os caminhos da mentira, pedindo-lhe para afirmar ao telefone ou à porta da residência que não nos encontramos. 
Não nos causam mais forte comoção a violência do mundo, as guerras, lutas de gangues, o barateamento da vida que tomba pelas armas de fogo, pelos motivos mais banais. 
Só não podemos esquecer que, muitas vezes, somos nós a semear a discórdia, a guerra e a malquerença no ambiente de trabalho ou na própria família.
A sociedade é o retrato dos seus habitantes. 
São os Espíritos reencarnados, com seus valores e vivências, que fazem os dias que ora vivemos.
E se fomos convidados pela Providência Divina a reencarnar em dias tão desafiadores é porque eles nos oferecem lições valiosas.
Talvez se faça necessário vivenciar os extremos da violência para nos decidirmos a implantar a paz em nosso agir. 
Ou talvez seja necessário o cansar da desonestidade que permeia a tudo, para revermos os valores pelos quais nos conduzimos, e decidirmos resolutamente pelo bem. 
Não vivemos nesses dias que se passam por mero acaso Divino. 
Essa sociedade que se nos oferece é a oportunidade que a vida nos dá para os melhores aprendizados para a alma. 
E se hoje percebemos que não nos servem mais os valores e conceitos que o mundo ainda elege por padrão, que se inicie em nós a mudança para uma sociedade melhor. 
Ninguém pode exigir da vida aquilo que ainda não lhe oferece. 
Logo, elejamos os valores pelos quais queremos que o mundo caminhe, e iniciemos os primeiros movimentos para tal. 
Tomemos os valores que desejamos para o mundo e comecemos a sua vivência. 
Não tardará que outros, admirados pela nossa coragem e disposição, principiem a sua trajetória. 
De início, tímida e silenciosa. 
Mas será através da mudança da intimidade de cada um de nós que o mundo, definitivamente, irá mudar. 
Redação do Momento Espírita. 
Em 15.10.2010.

sábado, 18 de abril de 2026

FOTOGRAFIAS SEM SORRISOS

Olhamos com certa estranheza os velhos álbuns de fotografia.
Nos retratos, nas poses em grupo, raramente se identifica um sorriso. 
Os que julgamos precipitadamente podemos conjeturar: 
As pessoas eram menos felizes naquela época! 
Ou ainda: 
Como eram contidos, sisudos, nossos antepassados!
Analisemos com vagar e talvez descubramos que não se trata de uma nem de outra situação. 
Quem sabe fazendo o exercício inverso, a título de uma breve brincadeira, possamos compreender melhor. 
Imaginemos que essas pessoas do passado tivessem a chance de ter em mãos coleções de fotos de habitantes do futuro, ou seja, da nossa atualidade. 
Não apenas isso, mas também ter acesso às memórias por trás de cada fotografia. 
Eis um primeiro comentário que poderia surgir: 
Por que eles acham que precisam sorrir em todas as fotografias? 
Por que, mesmo não querendo, eles forçam sorrisos? 
Vejam! 
Aprenderam a ser atores em alguns momentos, pois conseguem trocar os rostos amarrados, por vezes espumando de ódio, por lindas expressões de alegria! 
Que tipo de fenômeno foi esse que aconteceu com a Humanidade? 
Eles conseguem armar e desarmar um sorriso como quem arma e desarma um guarda-chuva! 
E que tal este outro fenômeno curioso: tantas fotografias de si mesmos, em várias posições, como se estivessem buscando alguma coisa, como se estivessem em frente a um espelho que não os satisfaz. 
Os comentários poderiam seguir e teríamos ainda boas reflexões. 
E os habitantes do passado poderiam justificar sua aparente seriedade dizendo: 
-Fotos eram registros, documentos, momentos estranhos, normalmente em frente a um profissional que mal conhecíamos. 
Não havia por que sorrir. 
Guardávamos os sorrisos para os momentos importantes da vida, quando tínhamos realmente vontade de sorrir. 
Muitas vezes, sorríamos logo depois que aquelas sessões cansativas terminavam! 
Sorríamos de alívio, pois não estávamos acostumados com aquelas coisas. 
Sorríamos em casa, quando acordávamos e olhávamos pela janela ou quando abraçávamos nossos filhos e netos.
Sorríamos quando recebíamos visitas ou quando visitávamos alguém que estimávamos muito. 
* * * 
Os tempos são outros. 
Reflitamos como banalizamos o sorrir a ponto de não sabermos mais quando ele é genuíno ou montado.
Nem dos outros e o mais grave: nem o nosso! 
As redes sociais estão repletas de sorrisos de mentira, de expressões armadas para parecer algo que não está lá ou que não existe de fato. 
Queremos parecer, mostrar, estar bem na foto, para pertencer, para sermos aceitos e amados. 
Tudo isso antes do mais importante: arrumar a casa interna.
Estar bem conosco mesmo. 
O verdadeiro sorriso precisa vir de dentro, do coração em paz, do coração grato, da alma em equilíbrio. 
Sorrir porque está todo mundo sorrindo? 
Sorrir porque senão vão achar ou pensar isso ou aquilo de nós? 
Não. 
Vamos sorrir quando estivermos preparados para sorrir. 
Se procurarmos bem, perceberemos que temos muitos motivos. 
Podemos ainda não ter encontrado devido a uma fase difícil, mas ele está esperando com paciência por nós. 
Redação do Momento Espírita 
Em 18.04.2026

sexta-feira, 17 de abril de 2026

A FÚRIA DA NATUREZA

Foram dez minutos de forte vendaval, chuva arrasadora.
Galhos de árvores antigas foram arrancados e levados para longe. 
Tormenta alucinante. 
O ulular do vento semelhava adolescente despejando sua revolta por não ter seus desejos atendidos. 
Quando se apresenta a fúria da natureza, nos lembramos de rogar ao Senhor dos mundos o amainar das consequências, como o profeta do Antigo Testamento. 
Que não sejam levados os telhados, nem destruídas as habitações. 
Que sejam poupadas as vidas e diminuídas as desastrosas agruras da passagem dos elementos rebeldes. 
Dez minutos apenas que deixaram marcas profundas. 
Para alguns de nós, mais do que a outros. 
Telhados carregados para longe, postes arrancados, residências abaladas, enxurrada arrastando tudo pelo caminho. 
Noite de tristeza, de incertezas, de intranquilidade. 
* * * 
Após o rugido da noite, onde o céu desabou e o vento açoitou o mundo, o silêncio do alvorecer nasce como um milagre manso, límpido e profundo. 
A tormenta que, em sua violência, levou ninhos e dobrou o orgulho das pedras, dá lugar a um ouro líquido que escorre pelas frestas e cura as velhas fendas. 
O sol desperta com dedos de seda, tocando as ruínas com uma calma luz, transformando o rastro da lama em um espelho onde o azul se reproduz. 
Ainda há galhos partidos no chão, cicatrizes de um tempo que não perdoou. 
Mas a brisa agora sopra um hálito doce, provando que a vida não se findou. 
As casas, que tremeram sob o açoite do raio e o peso da água bruta, erguem-se banhadas em cores, vencendo a mais amarga e longa luta. 
Muros derrubados mostram seu porte ferido, aguardando mãos habilidosas que os venham recompor. 
Cada gota que pende das telhas, sobrevivente da fúria que tudo invadiu, brilha como um pequeno diamante, celebrando o novo dia que enfim se abriu. 
Os passarinhos, sem casa, mas com voz, ensaiam os primeiros cantos, pois o céu, antes carrasco e escuro, se veste com o mais puro manto. 
Não há destruição que resista ao calor que abraça a Terra em renovação, pois a beleza é teimosa e floresce, mesmo após a maior e mais vil devastação. 
A luz de hoje não apenas ilumina. 
Ela acolhe, restaura e promete o bem, lembrando que o sol, depois da tempestade, é a maior vitória que a vida tem. 
O homem contempla as ruínas com olhos cansados, mas despertos. 
Onde antes havia o teto protetor, agora resta apenas o chão coberto pelo barro da desolação. 
Com uma força que brota do âmago da sobrevivência, ele ergue a primeira pedra, a primeira viga, a parede, limpando os escombros do que um dia chamou de lar. 
Ele reconstrói a rua, convoca o vizinho e redesenha os limites da cidade com a teimosia de quem se recusa a ser apagado.
A plantação, embora devastada, guarda no solo a memória da colheita, esperando pelo suor que a trará de volta à vida. 
Tudo o que foi demolido torna-se alicerce para algo mais sólido: a convicção de que a alma humana é o único abrigo que nenhuma tormenta consegue derrubar. 
Redação do Momento Espírita 
Em 17.04.2026

quinta-feira, 16 de abril de 2026

O FRUTO QUE DESAFIA ESTAÇÕES

Sarah Garret
A maturidade é um estado de espírito que, frequentemente, ignora o calendário, revelando-se pela profundidade com que absorve a vida. 
Trata-se de uma sabedoria silenciosa, que floresce precocemente naqueles que mal despontam na adolescência, subvertendo a lógica do tempo linear. 
Enquanto muitos associam o amadurecimento ao declínio da juventude, ele se manifesta, na verdade, na capacidade de discernir o essencial em meio ao caos da descoberta. 
Esse discernimento costuma ser forjado em experiências que exigem responsabilidade antes da hora, transformando o ímpeto juvenil em uma temperança rara. 
Assistir a esse fenômeno é testemunhar que a alma pode ser antiga, em um corpo que ainda descobre o mundo. 
A maturidade independente da idade é o reconhecimento de que a dor e o aprendizado não esperam momento certo para chegar. 
Foi o que viveu Sarah Garret, ao chegar em casa, depois de um dia inteiro lavando roupa. 
Ela tinha quinze anos e descobriu que seu pai, dado aos vícios da bebida e do jogo, não tendo nada mais para apostar, colocara sobre a mesa suja de cartas a filha de oito anos.
Perdera a rodada. 
Em poucas horas, o ganhador da aposta viria buscar a menina para levá-la a um acampamento mineiro. 
Sabia-se que naquele lugar as mãos pequenas sangravam na separação do minério. 
E não se sobrevivia até os quinze anos. 
Corria o ano de 1877. 
Sarah não avançou contra o pai insano. 
Ela sabia que ele assinara um contrato para parecer legal aquela entrega. 
Sabia também que na cidade havia um juiz recém-nomeado que afirmara publicamente que nenhuma criança devia pagar a dívida de um adulto. 
Enquanto todos ainda dormiam, ela caminhou até o tribunal.
Relatou, com voz trêmula, o drama de sua irmãzinha.
Denunciou a servidão por dívida e o estado de embriaguez do pai no momento da assinatura. 
Ao meio-dia, quando o homem voltou para buscar a pequena Emma, encontrou Sarah na porta segurando um documento com selo judicial. 
O contrato fora anulado. 
O juiz declarou a transação ilegal e retirou de Thomas Garret qualquer autoridade sobre as filhas. 
Nomeou Sarah como tutora da irmã. 
A adolescente nem teve tempo de comemorar.
Estavam juntas, mas sem casa. 
Sem pais. Sem dinheiro. 
Sarah bateu a portas, ofereceu trabalho duro em troca de teto e comida. 
Depois de várias recusas, uma viúva aceitou. 
Por três anos, Sarah trabalhou dezesseis horas por dia.
Guardou cada moeda.
Dormiu pouco. Não reclamou. 
Então, abriu a própria lavanderia, empregou mulheres e pagou salários justos. 
Emma estudou. Cresceu. 
Tornou-se professora, diretora e defensora das leis contra o trabalho infantil. 
Sarah nunca se casou. 
Dizia que criara uma menina e o fizera melhor do que muitos.
Com sua atitude, provou que há almas que amanhecem antes do sol, trazendo no olhar adolescente o outono sereno de quem já compreendeu o mundo. 
Afinal, a maturidade é o fruto que desafia as estações, provando que o Espírito pode florescer em sabedoria enquanto a pele ainda celebra a primavera. 
Redação do Momento Espírita, com base em fatos. 
Em 16.04.2026

quarta-feira, 15 de abril de 2026

A CADA MIL LÁGRIMAS

Itamar Assumpção e Alice Ruiz
Em caso de dor ponha gelo. 
Mude o corte do cabelo. 
Mude como modelo. 
Vá ao cinema. 
Dê um sorriso 
Ainda que amarelo. 
Esqueça seu cotovelo. 
Se amargo foi já ter sido 
Troque já esse vestido. 
Troque o padrão do tecido. 
Saia do sério, deixe os critérios. 
Siga todos os sentidos. 
Faça fazer sentido. 
A cada mil lágrimas sai um milagre... 
 A cada mil lágrimas sai um milagre... 
* * * 
A letra da belíssima canção de Itamar Assumpção e Alice Ruiz é inspiradora. 
Fala-nos de como encarar as dores do mundo com inteligência, com coragem e com estilo.
Inteligência de quem vê na dor oportunidade de mudança e aprendizado.
Coragem de quem aceita mudar. 
Estilo de quem sofre e ainda consegue sorrir, chorar, sem perder a linha, sem perder o passo. 
A dor chega sem aviso, de cara cruel, como um monstro invencível e desproporcional ao nosso tamanho. 
Chega destruindo tudo... 
E tudo parece o fim. Mas não... 
Descobrimos que ela ensina, orienta, cuida. 
É o cinzel que esculpe, que talha, que faz o bloco amorfo de mármore se transformar em estátua, em obra de arte. 
A dor é o convite à mudança de hábitos, de pensamento, de rumo, talvez. 
Trocar o vestido da alma é renová-la. 
Mudar o padrão de seus tecidos é não permanecer preso às mesmas ideias, aos mesmos vícios. 
É necessário deixar a vida fazer sentido. 
Uma vida sem sentido é quase como uma escuridão. 
Nada se vê, nem a si próprio. 
Nada se encontra, pois não se sabe onde está e onde se deve chegar. 
E o milagre após as lágrimas é tantas coisas!... 
O milagre de se encontrar, de ver a si mesmo com suas forças e fraquezas, mas sem máscaras, sem ilusões. 
O milagre de perceber que se está melhor, que as feridas cicatrizam sempre, e que ali a pele se torna mais resistente. 
O milagre do recomeço, de nascer de novo, de se dar nova chance.
O milagre de descobrir os amores ao redor, e quanto prezam por nós; de descobrir aqueles que nunca nos abandonam, não importa o que aconteça. 
O milagre de saber que a vida procura nos levar sempre para cima, para diante, e nunca para trás. 
E a dor é lei de equilíbrio e educação. 
A cada mil lágrimas sai um milagre. 
* * * 
Léon Denis
O sofrimento, muitas vezes, não é mais do que a repercussão das violações da ordem eterna cometidas. Mas, sendo partilha de todos, deve ser considerado como necessidade de ordem geral, como agente de desenvolvimento, condição do progresso. Todos os seres têm de, por sua vez, passar por ele. Sua ação é benfazeja para quem sabe compreendê-lo. Mas, somente podem compreendê-lo aqueles que lhe sentiram os poderosos efeitos.
Redação do Momento Espírita, com base na letra da música Milágrimas, de Itamar Assumpção e Alice Ruiz e pensamentos finais extraídos do cap XXVI do livro O problema do ser, do destino e da dor, de Léon Denis, ed. FEB. Disponível no livro Momento Espírita, v. 9, ed. FEP. 
Em 15.04.2026

terça-feira, 14 de abril de 2026

O MUNDO PERFEITO

Marina Costa Macedo
Se as crianças pudessem reinventar o mundo, podemos imaginar como seria? 
Certa feita, ouvimos uma garota de sete anos, falar a respeito.
Segundo ela, deveria haver um tobogã para descer do apartamento para a lan house. Facilitaria. 
E, na lan house, bastaria falar os sites e eles apareceriam, automaticamente. 
Preguiça de digitar? 
Não, é que algumas pessoas não sabem escrever direito e assim todos poderiam acessá-los para navegar. 
Bem se vê que ela estava preocupada com quem demonstrava algumas dificuldades. 
Na rua, haveria malabaristas e bailarinas. 
E grandes borboletas, que poderiam ser montadas pelas crianças. 
Mas teriam que ser borboletas de cara bonita. 
Assim, todos teriam acesso a brincadeiras e seriam felizes.
Nas praças, haveria música de todo tipo. 
Isso possibilitaria que cada qual ouvisse a que mais gostasse.
Os fios de luz não dariam choque e, toda vez que se encostasse neles, se poderia formular um desejo. 
Com isso, ficaria eliminado o perigo que atravessam algumas crianças, por ignorância ou descuido de quem as deveria proteger. 
E, conforme a sua lógica, se nunca é tarde para se começar a fazer coisas boas, então nunca é tarde para dormir. 
Isso, naturalmente, dito em causa própria, nessa vontade de ficar até mais tarde nas brincadeiras, ou em frente à televisão.
Sim, se as crianças pudessem, alterariam muitas coisas no mundo. 
Acabariam as guerras, porque criança se desentende com o amigo agora, briga, diz que nunca mais falará com ele para, logo depois, buscá-lo e tornar a brincar. 
É a lição da boa vizinhança, do perdão, da diplomacia.
Acabariam as disputas por terras e pedaços de terra. 
Afinal, não seria legal poder brincar em todas as praças do mundo, visitar todos os parques do mundo, nadar em todos os rios? 
Tudo seria compartilhado, dividido, usufruído em conjunto. 
As barreiras linguísticas seriam superadas, de forma rápida, porque nada mais fácil para uma criança do que se entender com a outra, quando deseja brincar. 
E, de igual forma, uma aprende com a outra o idioma. 
Haveria menos preocupações com festas dispendiosas e mais simplicidade porque o importante numa festa é reunir os amigos, brincar até cansar. 
Depois, se sobrar tempo, pode-se comer cachorro-quente, pizza, sanduíche, bolo de chocolate ou pão com manteiga. 
O importante são as brincadeiras, é o desfrutar da companhia dos amigos por horas. 
E não perder um minuto sequer de nenhuma delas. 
O sono seria profundo, fruto do cansaço prazeroso. 
E não haveria tanta preocupação com roupas, porque o que as crianças desejam é estar confortáveis para correr, pular, subir em árvores, chutar bola, jogar-se na piscina. 
Não importa se a roupa é de grife ou comprada no mercado próximo, ficará suja logo, logo, com tanta poeira e suor. 
* * * 
Seria bom que, por vezes, olhássemos com mais atenção para as crianças, que as ouvíssemos, que lhes seguíssemos alguns exemplos. 
A vida, com certeza, se tornaria menos complicada. 
E talvez aprendêssemos a ser mais descontraídos, menos sisudos, a dedicar menos horas ao trabalho e um pouco mais ao prazer de estar com a família, com os amigos.
Pensemos nisso. 
Redação do Momento Espírita, com algumas frases escritas por Marina Costa Macedo, aos sete anos de idade. 
Em 07.11.2014.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

O MUNDO PELO AVESSO

Foi no aniversário de seus setenta anos que Iracema, pela primeira vez, ouviu sua neta lhe dizer que estava ficando velha. 
A frase lhe causou surpresa. 
Jamais pensara nos tantos anos somados, décadas acumuladas. 
Olhava-se ao espelho e percebia, naturalmente, não trazer mais o viço da juventude, mas não se dera conta do tempo transcorrido. 
A vida fora plena de realizações. 
Ali mesmo, na sala, nesse dia, ela podia contemplar os filhos, com suas esposas, os netos.
Quando o dia findou e ela ficou só, percebeu que viver e envelhecer, como lhe acontecera, era muito gratificante. 
Um verdadeiro presente de Deus. 
Foi então que passou sua vida a limpo. 
Viu-se criança, vivendo em uma casa sem luz elétrica, sem asfalto, com fogão e forno a lenha, raros carros na cidade. 
As notícias de familiares distantes chegavam por cartas e as mais urgentes, por telegramas. 
Os primeiros telefones tinham centrais, para as quais era solicitada a ligação, que nem sempre acontecia. 
A chegada da luz elétrica foi uma festa. 
Conheceu os noticiários, as manchetes, pelo rádio, que mais parecia um enorme caixote sobre o armário, sendo ligado só pelo pai ou pela mãe. 
Viu as primeiras conservas em latas, com as quais, depois de vazias, fazia canecas e vasos para flores. 
A chegada da televisão foi outro acontecimento. 
Os comentários eram dos que se admiravam em ter o cinema, dentro de casa. 
A tecnologia surpreendia na criação de equipamentos incríveis, em todos os setores. 
Para as mulheres daqueles anos era um sonho pensar que poderiam vir a ter, em algum momento, máquina para lavar roupas, para lavar louças, ferro elétrico, enceradeira. 
Veio depois o telefone sem fio, que poderia ser levado de um lugar para outro. 
Logo, surgiu o celular. 
Portátil, e com várias funções: falar, ouvir, ver, enviar mensagem. 
Em certo momento, as lembranças foram se embaralhando porque as novas tecnologias foram surgindo mais rapidamente do que ela as podia dominar. 
Mas, se deu conta de que atravessou anos de quase coisa nenhuma e hoje se serve do celular, manuseia um computador. 
Vivenciando a pandemia, aprendeu a assistir aulas e palestras, através de plataformas diferenciadas. 
-Nossa, exclamou para si mesma, vivi setenta anos, vi o mundo pelo avesso e não havia percebido. Sinto vontade de viver mais setenta só para ver o quanto vai melhorar. De tudo, porém, o mais importante em minha vida foi conhecer uma nova doutrina que me abriu os olhos e a alma para a realidade imortal, onde a pele enrugada, o cabelo ralo e branco, a perna mancando, a dor nos quadris, não fazem diferença alguma. Quanto mais vivo, mais aprendo, não paro no tempo. Vivo em busca de me aprimorar mais e mais, engrandecendo minha alma e me tornando mais sábia. E ainda divido o que sei, para multiplicar esse saber entre todos que me rodeiam. Obrigada, Senhor, pela minha vida. 
Possamos nós aprender com essa senhora, que envelhece no corpo, ilustrando a mente. 
Redação do Momento Espírita 
Em 19.11.2022.