quarta-feira, 6 de maio de 2026

MÚSICA EM NOSSAS VIDAS

LÉON DENIS
Conta-se que, um dia, ao ouvir o silvo do vento passar pelo tronco oco de uma árvore, o homem o desejou imitar. 
E inventou a flauta. 
Tudo na natureza tem musicalidade. 
O vento dedilha sons na vasta cabeleira das árvores e murmura melodias enquanto acarinha as pétalas das flores e os pequenos arbustos. 
Quando se prepara a tempestade, ribombam os trovões, como o som dos tambores marcando o passo dos soldados, em batidas ritmadas e fortes.
Quando cai a chuva sobre a terra seca pela estiagem, ouve-se o burburinho de quem bebe com pressa. 
Cantam os rios, as cachoeiras, ulula o mar bravio.
Tudo é som e harmonia na natureza. 
Mesmo quando os elementos parecem enlouquecidos, no prenúncio da tormenta. 
E lembramos das poderosas harmonias do Universo, gigantesca harpa vibrando sob o pensamento de Deus, do canto dos mundos, do ritmo eterno que embala a gênese dos astros e das humanidades. 
Em tudo há ritmo, harmonia, musicalidade. 
Em nosso corpo, bate ritmado o coração, trabalham os pulmões em ritmo próprio, escorre o sangue pelas veias e artérias. 
Tudo em tempo marcado. Harmonia. Nosso passo, nosso falar é marcado pelo ritmo. 
A música está na natureza e, por sermos parte integrante dela, temos música em nossa intimidade. 
Somos música. 
Por isso é que o homem, desde o princípio, compôs melodias para deliciar as suas noites, amenizar a saudade, cantar amores, lamentar os mortos.
Também aprendeu que, através das notas musicais, podia erguer hinos de louvor ao Criador de todas as coisas. 
E surgiu a música mística, a música sacra, o canto gregoriano.
Entre os celtas, era considerada bem inalienável a harpa, junto ao livro e à espada. 
Eles viam na música o ensinamento estético por excelência, o meio mais seguro de elevar o pensamento às alturas sublimes. 
Os cristãos primitivos, ao marcharem para o martírio, faziam-no entre hinos ao Senhor. 
Verdadeiras preces que os conduziam ao êxtase e os fortaleciam para enfrentar o fogo, as feras, a morte, sem temor algum. 
O rei de Israel, Saul, em suas crises nervosas e obsessivas, chamava o pastor Davi que, através dos sons de sua harpa, o acalmava. 
A música é a mais sublime de todas as artes. 
Desperta na alma impressões de arte e de beleza. 
Melhor do que a palavra, representa o movimento, que é uma das leis da vida. 
Por isso ela é a própria voz do mundo superior. 
A voz humana possui entonações de uma flexibilidade e de uma variedade que a tornam superior a todos os instrumentos.
Ela pode expressar os estados de espírito, todas as sensações de alegria e da dor, desde a invocação de amor até às entonações mais trágicas do desespero. 
É por isso que a introdução dos coros na música orquestrada e na sinfonia enriqueceu a arte de um elemento de encanto e de beleza. 
É por isso que a sabedoria popular adverte: 
-Quem canta, seus males espanta! 
Cantemos! 
Redação do Momento Espírita, com trechos do cap. VII do livro O espiritismo na arte, de Léon Denis, ed. Arte e cultura.
Em 19.07.2012.

terça-feira, 5 de maio de 2026

ALÉM DOS LIMITES

MAE BELLAMY
Existem histórias extraordinárias que nos chegam ao conhecimento. 
Verdadeiras umas, criadas outras para exaltar gestos de altruísmo e dedicação. 
O importante, no entanto, é destacar o grande papel do ser humano na face da Terra. 
Conta-se que, na primavera de 1926, uma jovem mãe foi cientificada de que seu filho Thomas, de cinco anos, tinha um crescimento perigoso na garganta. 
Cada respiração era um esforço. 
Cada noite parecia emprestada. 
Os médicos foram diretos: sem cirurgia, ele morreria em poucos meses. 
O único hospital capaz de realizar o procedimento ficava a seiscentos e quarenta quilômetros de distância.
Aquela mãe não tinha dinheiro. Não tinha carro. 
Não tinha ninguém para ajudá-la a levar o filho. 
Então, ela tomou uma decisão que desafiava a lógica.
Colocou Thomas nas costas, amarrou-o com panos firmes junto ao corpo e começou a caminhar. 
Durante trinta e um dias, ela caminhou do nascer ao pôr do sol. 
Enfrentou a chuva que encharcava suas roupas, a lama que engolia seus sapatos.
Dormia onde o cansaço a vencia: em celeiros, valas, debaixo de pontes. 
Quando a comida acabava, ela pedia e conseguia graças à bondade de alguns. 
Thomas não tinha forças para andar. 
Por isso, ela o carregava, sussurrando histórias, cantando baixinho, prometendo que estavam quase chegando, mesmo quando ainda faltava muito. 
Quando Thomas lutava para respirar, ela o apertava contra si e acelerava o passo, com medo de que parar significasse perdê-lo para sempre. 
Depois de trinta e um dias de caminhada, ela alcançou os degraus do hospital e desabou. 
Os médicos atenderam o menino às pressas. 
No dia seguinte, removeram a anomalia em sua garganta.
 Pela primeira vez, em meses, ele respirou sem dor. 
Thomas sobreviveu. Floresceu. Cresceu. Casou-se. Teve filhos. Tornou-se avô.
*** 
A jornada dessa mãe é um testemunho sagrado de que o amor não é apenas um sentimento, mas uma força física capaz de mover montanhas. 
Ou percorrer quilômetros infindáveis carregando seu bem mais precioso. 
É a prova definitiva de que a resistência materna não conhece limites geográficos ou biológicos. 
Onde se ausentam recursos de outros, o vigor de uma mulher transforma o próprio cansaço em solo firme para a sobrevivência do filho. 
Essa coragem, esse amor, que se faz ponte e escudo, é o que mantém a Humanidade acreditando em sua própria capacidade de superação. 
A cura de Thomas não começou no hospital, mas no primeiro passo dado por sua mãe, provando que o amor, quando absoluto, é a ferramenta mais poderosa contra a fatalidade.
Essa história transcende o mero relato biográfico para se tornar um manifesto sobre a resistência materna. 
Diante do abismo da escassez e da doença, o amor de mãe surge como uma força que desafia a lógica e a física.
Caminhar mais de seiscentos quilômetros com o filho às costas é a materialização de um afeto que supera qualquer óbice. 
A mulher-mãe converte o próprio corpo em transporte e escudo, demonstrando que a dedicação absoluta é capaz de reescrever a própria história. 
Redação do Momento Espírita, com relato de fato vivido por Mae Bellamy, nos Estados Unidos, no ano de 1926. 
Em 05.05.2026

segunda-feira, 4 de maio de 2026

VENTOS QUE CONDUZEM


Sentada na areia, em silêncio, ela observava o mar. 
Nada além de olhar. 
O vento soprava constante, varrendo a praia com delicadeza e força ao mesmo tempo. 
Grãos de areia se moviam sem resistência, formando pequenos desenhos que logo se desfaziam.
Folhas secas, esquecidas, eram levadas para longe, sem escolher o destino. 
Por alguns instantes, ela acompanhou aquele movimento simples. 
Nada parecia desordenado, embora tudo estivesse em mudança. 
O vento não perguntava para onde ir. 
Apenas seguia, conduzindo o que encontrava pelo caminho. Pensou na própria vida. 
Quantas vezes fora retirada do lugar sem aviso? 
Planos interrompidos, mudanças inesperadas, perdas, recomeços forçados. 
Situações que a deslocaram de onde se sentia segura e a lançaram em direções jamais cogitadas. 
Tudo lhe parecia confuso, injusto, difícil de compreender.
Talvez porque ainda não fosse o tempo de entender, mas apenas de atravessar. 
Talvez aquela norma que ouvira, em algum momento, de não se inquietar pelo dia de amanhã, porque para cada dia basta o seu mal fosse algo verdadeiro. 
Talvez não nos caiba decifrar o sentido de algumas fases da vida, mas confiar que ele existe. 
E aceitar que o amanhã se constrói passo a passo, não de uma só vez. 
O vento da vida não pede permissão. 
Ele chega quando menos esperamos. 
Desorganiza o que parecia estável, desfaz certezas, muda rotas. 
Quase sempre resistimos, tentando nos fixar onde já não é possível permanecer. 
Ali, diante do mar, algo ficou claro: o vento não destrói por capricho. 
Ele move para renovar. 
Afasta o que precisa seguir adiante. 
Abre espaço para novos caminhos. 
Aquilo que se deixa conduzir não se perde. Apenas encontra outro lugar. 
Na vida, acontece assim. 
Nem sempre somos levados para onde desejamos, mas somos conduzidos exatamente para onde precisamos estar. 
O que parece perda se revela propósito. O que nos soa como desvio se mostra aprendizado. 
Confiar é aceitar que nem todos os ventos são contrários. Alguns são necessários. 
Eles nos arrancam do comodismo, quebram a ilusão de controle e nos ensinam a seguir com mais fé do que certeza.
Assim como a areia da praia, não fomos feitos para permanecer imóveis. 
Somos convidados ao movimento, ao crescimento, à transformação. 
Quando resistimos demais, sofremos. Quando confiamos, aprendemos. 
Afinal, a vida não nos pede respostas prontas, mas confiança. Confiança em Deus. 
Confiança de que cada vento tem um motivo, mesmo quando não o compreendemos. 
De que não somos levados ao acaso, ainda que o caminho pareça incerto. 
E de que nada se perde no vasto campo da jornada terrena.
Dessa maneira, quando os ventos da vida soprarem mais fortes, tenhamos em mente que não estamos sendo afastados do que importa, mas conduzidos ao que é essencial. 
Há um cuidado maior sustentando cada passo, uma sabedoria silenciosa orientando o movimento. 
E, mesmo sem vislumbrar o destino, sigamos seguros de que a travessia também faz parte do chegar. 
Pensemos nisso. 
Redação do Momento Espírita, com referência do Evangelho de Mateus, cap. 6, vers. 34. 
Em 04.05.2026

domingo, 3 de maio de 2026

MÚSICA DE AMOR

Vickie Lynne Agee
Lester era filho de um pastor de uma pequena cidade.
Recebeu uma sólida educação, em que os valores da autoconfiança e da determinação se aliavam à alegria dos aspectos criativos da vida. 
Ele amava a música e para pagar suas aulas de piano, trabalhava cortando lenha.
Vieram os anos da depressão americana e puseram fim aos estudos da Faculdade e à sua carreira musical. 
Aos trinta anos, ele se casou e deu início à doce harmonia doméstica de um pequeno lar e uma família. 
O seu interesse pela música nunca cessou. 
Sempre que podia, ele ouvia e estudava os grandes compositores clássicos. 
No entanto, não tinha muitas oportunidades de exercitar os seus talentos. 
Com contas para pagar e a perspectiva de aumentar a família, ele nem podia pensar em adquirir um piano.
Em 1942, foi convocado para a guerra e enviado para os campos de batalha, na Europa. 
Todos os dias, em meio aos horrores da guerra, Lester encontrava tempo para escrever para sua querida Frances.
Sentia saudades dela e do homenzinho, como chamava o filho recém-nascido, que morava na pequena mansão, um título pomposo dado à sua casa modesta. 
Aquela correspondência, tão valiosa e cuidadosamente guardada, era lida e relida por Frances, que aguardava, ansiosa, a chegada da próxima carta. 
Lester remetia todo o dinheiro que podia para sustentar sua família e ela trabalhava meio período como enfermeira para complementar o orçamento. 
A economia era a nota constante.
Ela comprava o suficiente para as necessidades básicas e com suas orações pedia proteção continuamente para o seu marido. 
A guerra terminou e, no mês de março de 1946, Lester retornou para a sua pequena mansão. 
Uma grande surpresa o aguardava. 
Uma verdadeira dádiva de amor. 
Frances guardara todos os cheques que ele enviara, cuidadosamente, para comprar um presente que alimentaria a alma do seu amado. 
Renunciando ao próprio conforto, ela poupara quase tudo, a fim de adquirir um piano para ele. 
Na verdade, era uma espineta, um instrumento de cordas semelhante ao cravo. 
Mas, para Lester era o melhor e o mais belo piano de concerto do mundo. 
Era o saldo da renúncia máxima de uma mulher. 
O instrumento se tornou um símbolo de amor. 
Seus netos o guardaram com zelo e quando se sentam para tocá-lo têm a sensação de que trazem de volta à vida a história da família. 
É como se ouvissem o velho avô tocando canções de ninar para seus filhos, sinfonias arrebatadoras de Beethoven para a sua avó e músicas alegres para dançar. 
Cada nota do instrumento transmite o amor que Frances e Lester sentiam um pelo outro, pelos filhos e pelos netos. 
Eles partiram para a Espiritualidade mas legaram aos seus amores uma lição imortal: a do amor que supera a amargura, a distância, o tempo e a vida física. 
Também uma lição de renúncia e de espera pacífica. 
Afinal, quando se tem amor no coração, a necessidade do outro está sempre em primeiro lugar. 
Isso demonstrou Lester, renunciando em favor da família. 
Isso lecionou Frances renunciando em favor do amado.
Exemplos para serem pensados... 
Redação do Momento Espírita, com base no cap. Música de amor, de Corrie Franz Cowart e no cap. Lições de vida aprendidas com um casal de periquitos de Vickie Lynne Agee, da obra Histórias para o coração da mulher, de Alice Gray, ed. United Press. 
Em 18.06.2021.

sábado, 2 de maio de 2026

ELES ESTÃO ATENTOS

Ao olharmos o mundo, é comum nos determos a analisar tragédias ocasionadas pela revolta climática, que varrem cidades inteiras, como se as desejasse eliminar do mapa.
Catalogamos as absurdas deliberações de alguns governos e nos indagamos por que a Divindade tudo isso permite. 
Como permite que tantos maus exerçam sua maldade, de maneira impune e inconsequente?
Idealizamos como tudo poderia ser resolvido, ser amenizado, bastando uma mínima interferência dos céus. 
Nesse patamar, nos esquecemos de que o Ser Supremo do Universo, a Causa primária de todas as coisas, é soberanamente justo. 
Infinito em Suas qualidades, não se equivoca e mantém seus olhos fixos na Sua Criação. 
Nada lhe escapa ao olhar penetrante e sábio. 
Sutil como a brisa e firme como as leis que regem as galáxias, Ele sustenta a vida em todas as suas dimensões.
Acrescentemos que, no centro desse sistema soberano e infalível, destaca-se a figura de Jesus. 
O Seu olhar sobre a Terra é o de um Mestre que jamais abandona a Sua escola. 
Habitar este planeta, sob a égide de Sua governança espiritual, deve nos conceder a certeza de que a misericórdia precede qualquer justiça rigorosa. 
Jesus atua como o farol que vara a névoa dos séculos, oferecendo um norte ético e emocional que nos garante atravessar as tempestades com a convicção de que o destino da Humanidade é a luz. 
Consideremos ainda que a Assistência Divina nos providenciou uma plêiade de benfeitores, que renunciam a planos de repouso para se tornarem os guardiões de nossa caminhada.
São os amigos invisíveis que sussurram a intuição salvadora no momento da dúvida, que sustentam nossas mãos quando o cansaço ameaça nos fazer parar e que, com infinita paciência, organizam as circunstâncias de nossas vidas para que o aprendizado seja mais eficiente. 
Se prestarmos um mínimo de atenção, identificaremos Sua assinatura discreta em atos que nos alcançam. 
Reconhecer essa rede de proteção é transformar a própria visão de mundo. 
Quando compreendermos que somos assistidos diariamente pela Providência, guiados pelo olhar atento do Cristo e amparados pelos benfeitores que nos cercam, abandonaremos nossas análises e críticas inconsequentes.
Consideraremos a vida uma experiência sagrada de ascensão, em que cada amanhecer nos renova o convite para a nossa transformação interior.
E, porque nunca estamos sós, filhos de uma Sabedoria Infinita que nos conduz, nada mais nos compete senão reger nossa própria vida. 
Diante da perfeição da Providência Divina, que estabelece o equilíbrio dos mundos e as minúcias de cada dia; de Jesus, o Governador Planetário, que sustenta a Humanidade com Seu olhar de infinita misericórdia e paciência, preciso nos é ponderar que, como aprendizes, não nos cabe o papel de julgadores do mundo. 
Melhor faremos se, em vez de focar nas sombras externas, confiarmos e focarmos mais em nosso próprio aprimoramento.
Pensemos nisso. 
Redação do Momento Espírita 
Em 02.05.2026

sexta-feira, 1 de maio de 2026

REVISITANDO O ONTEM

Com extrema curiosidade, subo os degraus do castelo medieval, fortaleza de batalhas inglórias. Impressionam-me as marcas deixadas pelas águas do mar, que, a cada dia, investem contra as altas muralhas. 
Visito as alamedas com arbustos verdes, atravesso salas imensas, extasiando-me com a arquitetura de tempos tão recuados. 
Enfim, com quase devoção, adentro um imenso salão.
Um lamento seco ecoa pelas paredes descascadas, nas quais o tempo decidiu morar. 
O cheiro de pó e carvalho antigo invade-me os pulmões, trazendo o gosto metálico de eras que a História quase apagou. 
Caminho pelo salão vazio, sentindo o peso de séculos nas pontas dos dedos, ao tocar as colunas de mármore gasto e sem brilho.
Pareço vislumbrar mesas, banquetas, ocupadas por dedicados copistas. 
Recuo a séculos transatos. 
As sombras se alongam no recinto. 
O silêncio reina no lugar do raspar rítmico das penas de ganso. 
O cheiro de mofo e pergaminho velho ainda flutua no ar frio, evocando o tempo em que a luz das velas era a única guardiã do saber humano. 
Neste scriptorium deserto, as paredes guardam o eco de orações sussurradas entre letras banhadas a ouro e pigmentos de lápis-lazúli. 
Pareço descobrir as silhuetas curvadas de monges que dedicavam vidas inteiras a uma única obra, ignorando o mundo de fora, que parecia distante.
Cada mancha de tinta é uma cicatriz de um tempo em que a palavra era um tesouro esculpido à mão, caprichosamente.
Antes que as prensas de metal e o barulho mecânico de Gutenberg tornassem a escrita veloz, nesse espaço, o conhecimento respirava no compasso do coração. 
Os manuscritos partiram, as estantes estão nuas, e o que restou foi apenas a poeira de um pensamento que não precisava de máquinas para ser eterno. 
Sinto-me como um visitante em um templo de paciência esquecida, onde a alma do livro morreu antes mesmo de ser impressa em série pela primeira vez.
No vazio da sala, o tempo parou no exato instante em que a última pena caiu ao chão, cedendo lugar ao chumbo, antimônio e estanho. Indago a mim mesmo, ante a emoção que me invade, se não terei presenciado as cenas reais desse trabalho. 
Ou terei sido, em algum tempo, um desses dedicados copistas, desenhando letras, criando iluminuras, numa paciente e delicada obra de arte? 
Foram-se os anos. 
Hoje, no desfrutar de tanta tecnologia, honro na lembrança o trabalho heroico dos dedicados e anônimos registradores, que devotavam sua criatividade e seu esforço para que não se perdessem ditos e feitos de uma Humanidade em ascensão.
Para onde mais seguirão os passos dessa Humanidade, concebida à imagem e semelhança de um Criador insuperável? 
Que caminhos mais surpreendentes nos aguardam à frente, plenos de surpresas, de facilidades que mais nos permitirão gozar de tempo para viver em plenitude? 
Somente um Criador tão generoso e onipotente para traçar um destino grandioso, sem limites para Sua Criação. 
Redação do Momento Espírita 
Em 01º.05.2026

quinta-feira, 30 de abril de 2026

A MÚSICA DAS ESTRELAS

A música, dentre todas as expressões artísticas, é a mais misteriosa.
De que maneira sons combinados são capazes de nos despertar alegria, tristeza, ternura? 
De que maneira são capazes de evocar as mais doces lembranças, os sentimentos mais profundos de nossas almas? 
Uma antiga paixão, um pôr-do-sol especial, um momento de despedida ou de reencontro. 
Um velho amigo, uma ocasião festiva, lágrimas de solidão. Instantes únicos guardados em nossa memória e que são evocados através de uma música. 
Utilizando-se de relações matemáticas, o filósofo grego Pitágoras construiu uma escala musical baseada em razões simples entre números inteiros. 
De acordo com o pensador, todas as proporções geométricas existentes na natureza também podem ser descritas em razões numéricas. 
Logo, em tudo o que nos cerca há musicalidade, há melodia.
Ainda assim, e considerando que à época de Pitágoras acreditava-se que a Terra era o centro do Cosmo, era certo para o pensador de que as esferas guardavam proporções de distância fixas entre si. 
Logo, também entre os astros havia melodiosidade. 
A chamada Música das esferas. 
Os séculos se sucederam. 
O homem conheceu o sistema heliocêntrico. 
O cientista Johannes Kepler, nascido na Alemanha, em 1571, obteve três leis gerais que descrevem o movimento dos planetas. 
Através da observação dessas leis, Kepler deduziu os intervalos musicais para cada astro. 
Ele propôs serem eternos os sons de cada orbe, a variar continuamente entre o som mais grave e o mais agudo da escala musical de cada um deles. 
Os movimentos dos céus não são mais que uma eterna polifonia, afirmou o cientista. 
* * * 
Aos ouvidos e olhos mais atentos, tudo o que nos cerca é música, poesia, arte, harmonia, beleza. 
Você já parou hoje um instante para ouvir a melodia daquilo que nos cerca? 
Embora as guerras, a violência gratuita, os grandes sofrimentos, as desigualdades sociais sejam, muitas vezes, para nós nada além de ruídos desafinados, em tudo encontramos a sempre presente harmonia da Criação. 
Basta que ouçamos e vejamos com os ouvidos e com os olhos da alma, do coração, do amor. 
Onde há guerra, orquestremos a sinfonia da paz. 
Onde há mágoa, executemos a sinfonia do perdão. 
Onde há sofrimento, cantemos a melodia da esperança. 
Onde há solidão, arpejemos as notas da amizade. 
Onde há medo, construamos os acordes da fé. 
* * * 
É necessária muita sensibilidade para se ouvir as notas da melodia da vida. 
A cada passo que damos em direção ao progresso, novas harmonias são acrescentadas, novas vozes, novos instrumentos. 
Novos são os desafios, as oportunidades, os começos e recomeços. 
Muda-se o compasso, muda-se o tom, alternam-se momentos de sons com os de silêncio... 
Mas sempre se vai adiante, a melodia não retrocede jamais.
Por isso, embora as dificuldades inerentes à caminhada de cada um, jamais fechemos os olhos àquilo que nos cerca.
Sintamo-nos parte desse todo, desse equilíbrio, dessa música universal. 
Mais do que isso, nos sintamos co-criadores da melodia da vida, pois o Grande Maestro conta conosco na execução das notas harmônicas da Criação.
Redação do Momento Espírita.
Em 01.02.2014