Lúcia tinha dezenove anos quando conheceu Fernando, através de uma prima, que a convidou para sair com ela, seu namorado e um amigo.
Foram meses de diversão com risadas e bate-papos alegres. Coisas de jovens.
Fernando comentou que namorava uma moça, residente em Fortaleza, e que tinha intenção de se casar.
Por sua vez, Lúcia, residindo no Rio de Janeiro, tinha desfeito um namoro de quatro anos, e desejava liberdade para recomeçar sua vida.
Naquele momento, queria apenas curtir a amizade com Fernando.
Contudo, com o passar dos meses, ela percebeu que algo mais profundo poderia surgir.
Conversaram a respeito e decidiram que melhor seria se afastarem.
Afinal, ele tinha um compromisso de namoro e ela desejava atender aos projetos de sua carreira.
Rolaram os anos.
Ela soube do casamento de Fernando, de sua residência nos Estados Unidos, retorno ao Brasil.
Por motivos profissionais, Lúcia transferiu residência para Campinas, viajou para o Exterior, fez novos amigos.
Enfim, atendeu ao que planejara.
Então, no ano de 1978, foi surpreendida por uma ligação telefônica.
Era ele:
-Lembra de mim? Sou o Fernando, nos conhecemos há uns dez anos, no Rio de Janeiro.
Ela reconheceu a voz de imediato.
Ele enviuvara, há alguns meses, depois de acompanhar o sofrimento da esposa, portadora de leucemia, por três longos anos.
Fernando foi a Campinas, reataram antigos gostos comuns, a conversa tão amiga.
Ela foi a São Paulo, a seu convite, para conhecer seus dois filhos.
Em seis meses, estavam casados.
Corajosa, ela se tornou mãe dos dois pequenos.
Quase cinquenta anos se passaram, durante os quais uma filha veio selar de forma magnífica o amor que os une.
* * *
Essa história nos lembra que a vida não utiliza relógios de pulso, mas o compasso das estrelas.
É um lembrete de que a vida não é uma linha reta, mas um bordado que faz sentido apenas quando olhamos pelo lado do avesso.
Naquele primeiro encontro, a juventude ardia, mas o mundo ainda era vasto demais e as estradas divergiam.
Eles se soltaram, cada um carregando um fragmento do outro no silêncio da memória, sem saber que o tempo estava apenas respirando fundo.
Quando os olhos se cruzaram, dez anos depois, não eram as mesmas pessoas.
Ele trazia as marcas da vida e as mãos ocupadas pelo amor de seus filhos.
Ela trazia a serenidade de quem soube esperar sem saber o que aguardava.
Foi ali que o invisível se tornou claro: a separação não foi um erro, foi o intervalo necessário.
O silêncio não foi esquecimento, foi o amadurecimento do fruto.
A dor dele precisava do porto dela.
A espera dela precisava do transbordar dele.
Hoje, após quase cinco décadas de mãos dadas, eles são a prova viva de que o que é nosso sempre encontra o caminho de volta.
A intensidade do amor que vivem não nasceu do acaso, mas da paciência.
Afinal, o amor não é encontrar a pessoa certa no momento certo.
É confiar que, mesmo quando o tempo parece errado, a vida está apenas escrevendo um capítulo mais bonito do que aquele que tentamos ditar.
Redação do Momento Espírita,
com base em fatos.
Em 23.03.2026






