domingo, 8 de março de 2026

A MULHER SOL

Não a conheço. 
Jamais a vira antes e, possivelmente, nesta cidade onde transitam milhares de pessoas, todos os dias, jamais tornarei a vê-la. 
Ela transitava pela calçada, no sentido contrário ao da minha caminhada. 
O que me chamou a atenção foram seus cabelos de prata que admirei. 
Seriam tingidos pelos dedos do tempo ou por produtos químicos? 
Ao passar por mim, o rosto dela se iluminou, num sorriso aberto, espontâneo. 
Seus lábios se abriram e disseram com uma agradável entonação: 
-Bom dia! 
Senti uma vibração de paz invadir-me. Uma aura de harmonia abraçar-me. 
E, naquele átimo de segundo em que nos cruzamos, enquanto lhe respondia ao cumprimento, pude lhe ver o rosto. 
As rugas haviam iniciado a desenhar arabescos em linhas suaves, denunciando o passar dos anos. 
Os olhos claros brilhavam na manhã ensolarada. 
Gravei-lhe a expressão na memória. 
Nestes dias de tanto atropelo, tanta pressa, em que as pessoas parecem correr como se desejassem recuperar minutos que já se foram, deparar com um rosto tão tranquilo, realmente, é inusitado. 
Também encontrar alguém que deseje Bom dia! 
Com vontade, com sincero desejo de que seja um dia muito bom. 
Nada mecânico.
Nada convencional. 
Continuei meu caminho quase num enlevo, envolvido nas vibrações harmônicas jorradas daquela expressão fisionômica tão serena. 
Fiquei pensando em quantas pessoas ela haveria de encontrar em seu dia e para quantas a sua presença, o seu olhar, o seu sorriso ou o seu cumprimento fariam a grande diferença. 
Como fizera comigo, em rápido segundo. 
A quantas ela ofereceria aquele cumprimento tão especial. E não pude deixar de indagar a mim mesmo: 
-Terá ela saído de casa com esse propósito de iluminar as horas das pessoas que encontrasse? Ou aquilo lhe seria, simplesmente, a maneira natural de ser em sua vida?
* * * 
Quantos de nós temos essa capacidade de beneficiar alguém com nossa presença? 
Capacidade para iluminar o dia, alegrar as horas de quem caminha ao nosso lado ou de quem, simplesmente, passa por nós. 
Quantos de nós temos esse condão de tornar o dia de alguém muito diferente, melhor? 
Transformar brumas em sol, nuvens em claridade, problemas em soluções. 
Somente pode fazer sol quem tem raios de luz dentro de si.
Somente pode irradiar serenidade quem alcançou a harmonia interior, quem suplantou a si próprio e administra muito bem as dificuldades que se apresentam. 
Alcançar esse estágio deveria ser uma meta para nós.
Destoarmos no mundo. 
Sermos irradiadores do bem, do belo, das coisas positivas e grandiosas. 
Para isso, basta-nos a vontade, o querer. 
Por isso, enquanto o dia canta esperanças, enquanto as horas se renovam, iniciemos nossa campanha particular, individual.
A campanha de fazer sol nas alheias vidas. 
Redação do Momento Espírita.
Em 28.12.2017.

sábado, 7 de março de 2026

A HORA DA MORTE

Michael Tan
Das certezas que podemos ter, neste mundo, a morte é sem dúvida uma delas. 
Nenhum ser vivo pode se furtar a ela. 
Mensageira estranha, por vezes, abraça os mais jovens e os sadios, deixando para trás idosos e doentes. Contudo, sempre chega. 
Paradoxalmente, é um dos assuntos que quase todos evitamos tocar. 
Por isso mesmo, quando chega, surpreende e muitas lágrimas são derramadas. 
Lágrimas que se casam a exclamações como: Se eu soubesse que era o seu último dia! 
-Se eu soubesse que ele iria morrer, não teria sido tão mau! Se eu soubesse que ele partiria tão cedo, teria abraçado mais, dito como o amava, sido melhor para ele. 
É bom considerarmos que nossa existência é efêmera. 
Hoje estamos aqui, amanhã poderemos não nos encontrar mais deste lado da vida. 
O ser amado que se despede para o trabalho diário pode não retornar. 
A criança que corre pela rua, rumo à escola, pode não voltar para casa. 
Como a irmã daquele menino de dez anos. 
Ele entrou em casa e chamou pela mãe. 
Ela estava no quarto, sentada, quieta. 
-Sua irmã morreu esta manhã. – Foi o que ela disse. 
O conceito de morte não tinha um significado concreto para aquele garotinho. 
Durante muito tempo ele perguntava para a mãe: Ela vai voltar? 
Por que ela teve de morrer? 
Por muitos dias, ficava em frente à casa, esperando que o ônibus escolar a trouxesse de volta. 
Entrava no quarto dela e apanhava a sua pasta escolar. 
Tudo estava bem arrumado: os cadernos de um lado, os livros do outro, o estojo de lápis no meio.
A faixa preta de elástico que ela usava nos cabelos quando fora para o colégio naquela última manhã. 
Depois, devolvia tudo no seu lugar. 
Perguntava-se se a irmã ficaria zangada por ele ter mexido em suas coisas. 
O que ele sempre lembraria foi o que acontecera duas noites antes de a irmã morrer. 
Ela chegara em casa preocupada. 
Esquecera de um trabalho de arte que devia entregar no dia seguinte. 
Ele se dispôs a ajudá-la. 
Juntos fizeram doze borboletas coloridas, de antenas enroladas e asas triangulares. 
No dia em que ela morreu, ele estranhamente despertara mais cedo. 
Observou-a se aprontando para a escola e ficou segurando a porta aberta para que ela saísse com tranquilidade. 
Em uma das mãos, ela segurava a pasta, a outra balançava, enquanto descia os degraus. 
Estava de uniforme azul.
Tinha só quatorze anos.
E suas últimas palavras para Michael foram: 
-Até logo, irmão. 
Passadas mais de quatro décadas, Michael ainda guardava a lembrança de sua irmã e de todos esses detalhes. 
Quando vê uma borboleta, recorda de imediato daquele último trabalho que fizeram juntos. 
E espera. 
Porque, um dia, ele também fará essa viagem para o Grande Além. 
Nesse dia, finalmente, ele a verá outra vez. 
* * * 
Amemos muito. 
Usufruamos a companhia dos afetos. 
Quando um deles se for, poderemos acalentar nossos dias com as doces lembranças dos afagos compartilhados. 
E isso amenizará nossa grande saudade até o dia do reencontro. 
Redação do Momento Espírita, com base no artigo A despedida, de Michael Tan, da revista Seleções Reader´s Digest, de out/2005.
Em 07.03.2026

sexta-feira, 6 de março de 2026

MULTIPLICANDO O BEM

JOANNA DE ÂNGELIS(espírito)
DIVALDO PEREIRA FRANCO(✝︎)
A cena era comovente. 
Repórteres com seus microfones e câmeras apontados para aquele homem simples e maltrapilho que, um tanto sem jeito, contava a sua história. 
Ele, um mendigo que vivia nos bancos das praças, fora condecorado por ter salvo a vida de três crianças. 
Dizia, comovido diante das câmeras, que só as tinha livrado dos marginais porque teve uma experiência singular. 
Contou que, tempos antes, num cair de tarde como tantos outros, monótonos e sem esperança, resolvera dar cabo da vida. 
Não suportava mais aquela situação miserável em que se encontrava depois que perdera a família num acidente e os poucos bens que possuía, para um sócio corrupto. 
Havia batido de porta em porta à procura de um serviço digno de onde pudesse retirar o próprio sustento, mas a resposta era sempre a mesma: 
-Sentimos muito, mas o senhor está acima da faixa etária para admissão. 
Então resolvera que aquela seria a última noite que contemplaria o céu bordado de estrelas, única companhia daqueles dias amargos. 
-Todavia, dizia ele, Deus possuía outros planos para mim...Naquela, que eu pretendia fosse a minha última noite, apareceu um anjo, digo um anjo porque era uma mulher jovem com expressões de doçura que eu nem imaginava que existissem. Sentou-se ao meu lado naquele banco que, por muito tempo, tinha me servido de lar, e iniciou um diálogo afetuoso. Interessou-se por minha história e condoeu-se com a minha desdita. Falou-me de Jesus, o Sublime Nazareno que a todos ama, inclusive os pobres e aflitos, como eu. Disse-me para que elevasse o pensamento e Lhe pedisse forças para suportar o fardo pesado que me fora colocado sobre os ombros, e eu o fiz. Desisti do suicídio e consegui um serviço de jardineiro. Não ganho o suficiente para morar numa casa confortável, mas consigo pagar um pequeno barraco que me abriga das intempéries e não preciso mais me alimentar de restos colhidos na lixeira. Aquela foi a primeira e única vez que vi aquela jovem senhora, mas suas palavras ainda embalam minhas horas difíceis. E cada vez que o fardo me parece pesado demais, lembro das palavras de Jesus: "Vinde a mim todos vós que sofreis... Meu fardo é leve e meu jugo é suave..." E foi porque alguém me estendeu as mãos e me retirou das portas do suicídio que eu pude salvar essas crianças das mãos dos marginais que as haviam sequestrado. Porque um dia alguém me olhou e me fez ver que também sou filho de Deus é que resolvi multiplicar o bem que me foi feito, tornando-me útil. Hoje eu entendo que não temos o direito de interromper a vida de quem quer que seja, mesmo que seja a nossa. Gostaria de agradecer àquela moça que ousou se aproximar de um mendigo e estender-lhe a mão. 
* * * 
Não esqueças de que o bem que se faz é o único trabalho que faz bem. 
E esse serviço em favor dos outros é a caridade única em favor de nós mesmos, que pode atingir o cerne da alma, libertando-a para o sacerdócio do soerguimento do mundo.
Redação do Momento Espírita, com base no verbete Bem, do livro Repositório de sabedoria, pelo Espírito Joanna de Ângelis, psicografia de Divaldo Pereira Franco, ed. Leal. 
Em 10.08.2009.

quinta-feira, 5 de março de 2026

MÚLTIPLAS NOVIDADES

RAUL TEIXEIRA
Constantemente encontramos pessoas indispostas e queixosas, diante dos compromissos que assumiram espontaneamente, ou que tiveram que assumir, obrigadas pela necessidade. 
Muitas delas, tornadas infelizes, passam a não fazer bem feito o que têm aos seus cuidados, sob mil alegações: 
-Não ganho para isso... Ninguém me dá valor... Estou estressado com tantas coisas... Enquanto me acabo, há outros que não fazem nada... 
É verdade que vemos mães e pais de família sobrecarregados diante dos deveres domésticos que lhes pesam. 
Os compromissos de cuidar, ao mesmo tempo, do lar, da família e da profissão, provocam, indiscutivelmente, desgastes e cansaços. 
No entanto, partindo-se do princípio de que Deus não concede um fardo maior do que as forças de quem o vai conduzir, como estabelece a voz popular, constatamos que os aborrecimentos são injustificados. 
Concebendo-se a perfeição das leis Divinas em tudo, também esse rol de atividades e de lutas está dentro dessa Divina perfeição. 
Por outro lado, a adoção das reclamações e do mau humor permanente não solucionará os problemas, nem diminuirá os deveres, antes, ampliará as torturas sob as quais alegamos viver. 
Podemos escolher: fazer o que temos que fazer com raiva, má vontade, e tornar nosso dia terrível, ou, fazer o que temos que fazer conservando a calma, a paciência, e buscando nessas atividades algo que nos ensine sobre a vida. 
Podemos, ainda, verificar se realmente não estamos trabalhando demais, cansando-nos demais, em virtude de querer ter mais coisas, de desejar manter um nível de vida econômico e financeiro melhor. 
Se for por isso, a reclamação é indevida. 
A situação só depende de nós para ser resolvida. 
Se somos obrigados a essas múltiplas atividades, porque são vitais para o equilíbrio social da família, da nossa vida, se não há modo de alterar esse quadro sem graves prejuízos, então, estamos em meio a vicissitudes importantes para o reequilíbrio geral, perante as leis de Deus. 
Se nossa jornada múltipla atende a necessidades intransponíveis, seja numa fase da nossa vida ou durante toda a vida terrena, pensemos na importância disso para o nosso reajustamento espiritual, pensemos na sementeira abençoada para o próximo futuro. 
Vejamos, por outro lado, que trabalhamos muito agora, sim, e censuramos os que nada ou muito pouco fazem, no campo dos seus conhecimentos. 
Avaliemos que a situação que essas pessoas vivem hoje em dia, de modo displicente, cria para elas a necessidade do reacerto com as leis eternas, no futuro. 
A diferença entre elas e nós é que já nos encontramos em franco processo de reajustamento, respondendo pela má utilização do tempo em épocas passadas. 
* * * 
Façamos tudo com alegria íntima porque estamos em rota de libertação. 
O que nos dói não é o trabalho em si, pois o trabalho é lei de Deus. 
O que nos atormenta é o preço do resgate, caracterizado pela indiferença do mundo para com nossa luta particular. 
Da próxima vez que lamentarmos a respeito de nossas muitas atividades, lembremos disso: o trabalho é oportunidade maravilhosa de crescimento interior. 
Redação do Momento Espírita, com base no cap. 23, do livro Para uso diário, pelo Espírito Joanes, psicografia de Raul Teixeira, ed. Fráter. 
Em 13.09.2014.

quarta-feira, 4 de março de 2026

EU TE VI

AMÉLIA RODRIGUES(espírito)
DIVALDO PEREIRA FRANCO(✝︎)
Bartolomeu é sobrenome hebraico, que corresponde a “filho de Tolmai”, enquanto seu nome, que é Natanael, significa “Deus deu”, ficando, portanto, denominado como “Natanael bar Tolmai”. 
Os livros do Novo Testamento referem-se a ele poucas vezes.
O suficiente para se saber que era de caráter nobre e introspectivo, silencioso, como quem busca algo que deseja ardentemente. e a isso se dedicava com interesse. 
Tinha por hábito consultar os “escritos sagrados”, o que fazia à sombra das figueiras que lhe cercavam a casa modesta. 
O seu relacionamento com Filipe, outro apóstolo de Jesus, era constante. 
Estavam sempre juntos, quando dialogavam sobre aquela expectativa que a ambos afligia: a vinda do Messias. 
Naquela época uma voz procedia do deserto conclamando à penitência, pois que o “reino” estava próximo de ser edificado e o “Messias” já se encontrava na Terra, preparando-o. 
João fizera-se conhecido pela sua pregação e pelo hábito de batizar aqueles que se arrependiam dos erros e necessitavam de uma nova oportunidade para serem felizes. 
Os dois amigos haviam-no escutado e estavam realmente comovidos com a mensagem que lhes banhava a alma de santas emoções. 
Filipe foi o primeiro a conhecer Jesus e ficara fascinado. 
Tudo nEle era especial e incomum. 
Suas palavras eram pérolas luminosas que abrilhantavam o coração. 
Natanael o encontrou em seguida. 
Ficamos a imaginar seu primeiro momento com o Mestre.
Filipe o levou. 
Talvez não tenha dito quem era, deixando que o momento falasse por si mesmo. 
Jesus se antecipa dizendo: 
-Eis aqui um verdadeiro filho de Israel. Este é um israelita sem dolo! 
Natanael tem o semblante transformado. 
Pensa e externa: 
-De onde me conheces Tu? 
E ele ouve o lance genial do Cristo: 
-Vem, Natanael! Eu te vi à sombra da figueira meditando…
Natanael tem um choque. 
Meditava em solitude, isolado. 
Ninguém o sabia. 
Possivelmente, em algumas de suas meditações, deveria ter evocado a presença do Messias aguardado. 
Agora Ele estava ali, à sua frente. 
Podemos aquilatar sua emoção. 
Um verdadeiro homem de fé não torna complexa a vida, não questiona quando a verdade lhe é clara. 
Assim fez Natanael. 
Sua resposta é imediata: 
-Rabi! Tu és o filho de Deus, tu és o rei de Israel. 
Totalmente tocado pela sua beleza e mensagem, desde aquele momento entregou-se-lhe em regime de totalidade. 
A partir de então, discreto e diligente, esteve ao lado do amado Rabi. 
* * * 
É tão belo esse entendimento imediato de cada discípulo quando em contato com Jesus. 
Não se tratava de uma fé cega. 
Tratava-se de uma fé viva, raciocinada e muito bem apoiada por uma força que estava na frente de cada um deles.
Pensando nos dias atuais, em nossa conduta, é de nos perguntarmos: 
-Por que temos complicado tanto? Por que deixamos tanto ruído interferir entre nós e nossa fé viva? Por que demorar tanto tempo para aceitar o convite de Jesus de segui-lO mais de perto? 
Permitamo-nos ouvir também: 
-Vem, filho! Eu te vi meditando… 
Redação do Momento Espírita, com base no cap. 19, do livro O essencial, pelo Espírito Amélia Rodrigues, psicografia de Divaldo Pereira Franco, ed. LEAL.
Em 02.03.2026

terça-feira, 3 de março de 2026

AS MEDALHAS DE DEUS

Eric Liddell
Ele foi imortalizado nas telas do cinema no filme Carruagens de fogo, vencedor de quatro Oscars. 
Eric Liddell nasceu em Tianjin, no norte da China. 
Cresceu num ambiente permeado por valores religiosos sólidos. 
Seus pais e seus quatro irmãos eram missionários presbiterianos.
Estudando em Londres, foi capitão dos times de rúgbi e críquete. 
Aos vinte anos, participou de sete jogos internacionais escoceses e se consagrou como o corredor mais veloz da Escócia. 
Optando com exclusividade pelo atletismo aos vinte e um anos, havia conquistado títulos nacionais, conseguindo estabelecer um recorde britânico, nas cem jardas, que duraria vinte e três anos. 
Em 1924, estava em Paris para os jogos olímpicos de verão.
Tudo apontava para o ouro olímpico na prova dos cem metros rasos. 
Então, ele foi envolvido num grande escândalo. 
Ao tomar conhecimento de que as eliminatórias dessa prova seriam disputadas em um domingo, anunciou que não correria. 
Aquele dia era reservado a Deus. 
A imprensa britânica o chamou de traidor. 
Ele permaneceu firme.
É a minha crença, afirmou, não critico os outros, mas não vou correr no domingo. 
Inscreveu-se nos quatrocentos metros, prova para a qual não era cotado. 
Venceu a final com cinco metros de vantagem, quebrando o recorde mundial com 47,6 segundos. 
O jornal The Times descreveu a prova como a corrida mais dramática já vista em uma pista de atletismo. 
A consagração olímpica, porém, não foi o ponto final de sua vida pública, mas um ponto de partida. 
Em 1925, Liddell voltou para a China, seguindo os passos dos pais. 
Tornou-se professor em Tianjin, dedicando-se ao ensino, ao esporte e ao trabalho pastoral. 
Sua atuação missionária unia fé e ação concreta. 
Além das aulas, treinava jovens, dirigia escola dominical e ajudava a projetar um estádio em Tianjin. 
Os anos 1930 e 1940 trouxeram tempos sombrios para a China, marcados pela invasão japonesa e pela Segunda Guerra Mundial. 
Em 1941, quando o governo britânico aconselhou seus cidadãos a deixarem o país, Eric tomou a decisão mais dolorosa. 
Enviou a esposa grávida e as duas filhas para o Canadá e permaneceu para cuidar dos que não tinham para onde ir.
Dois anos depois, foi preso e detido no campo de internação na província de Shandong, junto com centenas de britânicos e americanos. 
Dedicou-se às crianças órfãs, organizou atividades, confortou os idosos e dava aulas, sempre com bom humor e espírito sereno. 
Em 1945, sucumbiu a um tumor cerebral, sem ter conhecido sua filha caçula. 
De forma surpreendente, seu maior legado não se mede em medalhas nem homenagens. 
Foi sua fé inabalável, sua coragem na renúncia e sua dedicação aos outros que o tornaram inesquecível. 
Ele afirmou: 
-Foi uma experiência maravilhosa competir nos jogos olímpicos e trazer para casa uma medalha de ouro. Mas, desde que eu era jovem, eu tinha meus olhos em um prêmio diferente. Cada um de nós está em uma corrida maior do que qualquer uma das que eu já corri em Paris, e esta corrida termina quando Deus distribui as medalhas. 
Que extraordinária medalha o aguardava na Espiritualidade!
Redação do Momento Espírita, com base em dados da coluna Trabalhadores do Bem, de Mary Ishiyama, do Jornal Mundo Espírita, de dezembro 2025, ed. FEP. 
Em 03.03.2026

segunda-feira, 2 de março de 2026

UMA MULHER SINGULAR

WILMA ARCARI
Nasceu em família de nobre conduta, mas de dificuldades de toda sorte. 
Aos oito anos de idade, ante um problema dentário, procurou o dentista da escola. 
O tratamento era gratuito mas, segundo ele, uma extração dentária, como era exigida no caso dela, precisaria ser paga.
Ela sabia que seus pais não poderiam arcar com qualquer custo. 
Como toda criança acostumada a driblar problemas, principiou a negociar com o profissional. 
Ela não tinha dinheiro. 
Ele aceitaria alguma outra coisa como pagamento? 
-O que, por exemplo? - Indagou ele. 
-O senhor gosta de cães? Não tem nenhum? Todo mundo precisa ter um cão. Lá em casa temos uma ninhada recente. Posso trazer um cãozinho para o senhor. 
O cirurgião estabeleceu suas exigências: queria um macho, sadio. 
E lá se foi a menina, no dia seguinte, levando um filhote por dentro da blusa, com todo o cuidado, para o dentista. 
Essa disposição de dar a volta por cima, de encontrar soluções, a acompanharia para tudo. 
Dinâmica, criativa, inventava sempre algo mais com que se ocupar, com que honrar os seus dias. 
Criou uma marca de roupas jeans e gerenciou uma fábrica de alta produção. 
Casou-se, teve duas filhas. 
Costureira de mão cheia, não se cansou de lhes providenciar vestidos, agasalhos, shorts, abrigos. 
Depois, quando as jovens deixaram o lar, como aves formando seus próprios ninhos, ela costurou centenas e centenas de enxovais para mães carentes. 
Também peças lindas para o bazar da instituição beneficente em que se voluntariou há muitos anos. 
Quem lhe conhece o capricho com que tudo confecciona, reconhece seu produto de imediato. 
Amando tudo que faz, tem sempre um pãozinho recheado de ternura para receber a família ou os amigos, a qualquer hora que batam à porta.
Um pãozinho especial que também serve para curar as dores físicas ou emocionais. 
Entre abraços, um café, um pedacinho do pão alimenta a alma e sacia o corpo. 
Dona da receita de bolo de morango mais saborosa do planeta, segundo uma de suas filhas, é com ele que adoça as festas de aniversário, noivado, ou um encontro de amigas.
Não tendo podido adentrar a Universidade, na juventude, depois das filhas casadas, prestou vestibular e formou-se em Pedagogia. 
Quando precisou ser cuidadora, enfermeira em tempo integral para sua mãe idosa, somente teve palavras de gratidão pela oportunidade de conviver mais estreitamente com ela.
E, mesmo que superficialmente, poder retribuir os tantos cuidados que ela mesma recebeu durante anos. Uma mulher singular. 
Esposa, mãe, avó. 
Confidente, conselheira, amiga. 
Quanto mais acrescenta anos à idade, mais conquista a admiração dos que com ela convivem no lar, na instituição religiosa, onde quer que se apresente.
* * * 
Existem muitas criaturas assim, portas adentro de nossos lares. 
Criaturas que iluminam outras vidas, que exemplificam a renúncia, o cuidado, a dedicação. 
Que se doam de forma ampla, sem pedir nada em troca.
Olhemos ao nosso redor e descubramos quantas pessoas maravilhosas gravitam em nosso entorno. 
Redação do Momento Espírita, com base em dados biográficos de Wilma Arcari. 
Em 02.09.2024