terça-feira, 3 de novembro de 2026

TORNANDO-SE CLARO!

Rachel Naomi Remen
Quantas vezes, durante um simples dia, nos servimos da palavra Claro? 
Quando afirmamos que faremos o que nos pedem, que estaremos presentes na reunião marcada, sintetizamos com Claro. 
Se nos questionam sobre a veracidade de um fato, dizemos:
-Claro, como sinônimo de afirmação imediata. 
Esse vocábulo tem mais de sessenta significados. 
E o convite que a vida nos faz vai além da superfície dos dicionários e das nossas conversas rotineiras. 
É para que possamos, na intimidade do nosso ser, dia após dia, nos tornarmos claros. 
Trata-se de um processo contínuo de libertação e de despertar. 
É permitir que a luz do entendimento dissipe, com suavidade, as sombras que ainda habitam o nosso mundo interior. 
É compreender que somos Espíritos imortais, viajantes do universo, fadados à perfeição. 
Nossas asas espirituais não foram forjadas para a gaiola do comodismo ou da pequenez. 
Ser claro é expandir os horizontes, sem as barreiras que nós mesmos nos impomos. 
É realizar o trabalho silencioso de limpar a vidraça do próprio coração. 
É retirar, com a flanela do perdão, o pó do ressentimento, a fuligem da mágoa e a espessa teia de aranha do egoísmo.
Dessa maneira, a luz do amor poderá nos atravessar e iluminar o próximo. 
Não significa ter a presunção de possuir todas as respostas do universo, mas abrigar a fé inabalável de que o leme de nossa vida está em boas mãos. 
Ser claro é confiar na pedagogia divina, sabendo que cada lágrima e cada sorriso são lições perfeitamente desenhadas para o nosso burilamento moral. 
É permitir que o rio da bondade flua através de nós, sem as pesadas pedras do orgulho a barrar a correnteza. 
É nos tornarmos instrumento dócil da paz, um canal desobstruído por onde a misericórdia flui, facilitando a jornada daqueles que caminham ao nosso lado. 
É perdoar a nós mesmos. 
Compreender que o erro cometido foi apenas o degrau áspero e doloroso que nos ensinou a subir. 
Ser claro é recusar carregar o peso esmagador de um passado que não pode ser alterado, utilizando, em vez disso, suas duras lições para retificar o presente. 
Tornar-se claro é, sobretudo, adotar uma postura íntima de coragem e de renovação. 
É tomar a decisão consciente de não alimentar os monstros da ansiedade e do pavor, criados pelas ilusões da nossa mente. 
***
Enfrentemos as situações, por mais desafiadoras, com a serenidade de quem sabe que toda tempestade é passageira. Não estamos sós. 
O Criador do universo, em Seu amor incondicional, sustenta cada um de nossos passos. 
Ele sussurra coragem na brisa suave da manhã, oferece consolo no silêncio repousante da noite e derrama bênçãos de recomeço a cada novo amanhecer. 
Aceitemos esse inadiável convite. 
Retiremos, um a um, os véus que nos encobrem e deixemos brilhar a centelha divina que trazemos guardada no peito.
Tornemo-nos claros como a água pura da fonte, claros como a verdade que liberta, claros como o amanhecer que triunfa, invariavelmente, sobre a mais escura e longa das noites. 
Redação do Momento Espírita, com base no cap. Tornando-se claro, do livro As bênçãos do meu avô, de Rachel Naomi Remen, ed. Sextante 
Em 03.11.2026

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

AS DÁDIVAS DA VIDA

Na encruzilhada da existência, todos nos encontramos, em algum instante, postos a cultivar a paciência e a observação.
Imaginemo-nos parados na esquina do calçadão do tempo, vendo a multidão que vem e vai. 
Rostos cansados, rostos iluminados, rostos esperançosos. 
Se prestarmos atenção, perceberemos que esse local não é apenas um ponto de passagem. 
Trata-se de um local de trocas invisíveis. 
Cada pessoa que caminha em nossa direção traz algo nas mãos. 
Ao passar por nós, sem interromper o passo, cada uma nos entrega um objeto singular. 
Há quem ofereça uma flor perfumada, ou uma pedra gasta pelo uso. 
Alguém nos entrega um livro antigo. 
O próximo, apenas um pedaço de pão, uma fita colorida ou uma semente seca. 
Todos seguem em frente, misturando-se novamente à brisa do tempo, sem pedir nada em troca. 
Diante desse fluxo incessante, a gratidão deve ser a nossa primeira e mais profunda resposta. 
Nada do que recebemos nessa esquina é por acaso. 
A flor nos ensina a beleza efêmera e a delicadeza. 
A pedra nos fala da resistência necessária nos dias difíceis. 
O livro nos oferta a sabedoria e a semente nos convida à fé no amanhã. 
Mesmo os gestos mais simples guardam um valor inestimável.
Por vezes, a vaidade do mundo tenta nos seduzir. 
Vozes ao nosso redor nos afirmam que somos extraordinários, dotados de inteligência superior, detentores de criatividade ímpar e singularmente especiais. 
No entanto, como verdadeiros aprendizes da vida, tenhamos consciência de que o orgulho é uma venda sobre os olhos.
Nenhuma virtude individual é tão brilhante que possa ofuscar o brilho presente no próximo. 
Por mais talentosos que possamos parecer, jamais saberemos tudo, nem seremos autossuficientes. 
Cada ser humano que cruza o nosso caminho é um tesouro vivo, uma obra em construção sob as bênçãos do Criador.
Não há alma desprovida de luz ou destituída de um propósito sagrado. 
Se nos posicionarmos com humildade e atenção genuína, seremos capazes de perceber a dádiva que cada passante compartilha conosco. 
O viajante cansado nos ensina a empatia. 
A criança sorridente nos devolve a esperança. 
O idoso nos entrega a paciência lapidada pelos anos. 
O enfermo nos repassa resiliência e força moral. 
Aprender a colher esses presentes exige silêncio interior e um olhar desarmado. 
Exige enxergar além das aparências, das limitações temporárias e das ruidosas distrações cotidianas. 
Aquele que nos parece simples ou rude pode ser, na verdade, o portador da lição mais profunda que precisávamos receber naquele exato instante. 
Ao final da jornada, ao olharmos para as nossas mãos repletas dessas oferendas e memórias, perceberemos que nunca caminhamos sós. 
Somos o tecido vivo feito das experiências, dos afetos e do aprendizado que coletamos em cada esquina. 
Saibamos, portanto, abençoar cada pessoa que passa, guardar cada oferta com reverência e reconhecer que, na grande escola da vida, todos somos doadores e receptores da infinita bondade de Deus. 
Redação do Momento Espírita 
Em 02.11.2026

domingo, 1 de novembro de 2026

NEM CEDO, NEM TARDE!

...e CHICO XAVIER
O presente é hoje. 
O passado está no arquivo. 
O futuro é uma interrogação. 
Faça hoje mesmo o bem que escolheu fazer. 
Se você tem algo a entregar, entregue isso agora. 
Se deseja apagar um erro que cometeu, consciente ou inconscientemente, procure sanar essa falha sem demora.
Caso se sinta na obrigação de escrever uma carta, uma mensagem, não deixe que caia no esquecimento. 
Na hipótese de idealizar algum novo trabalho que poderá ser de utilidade geral, não adie a sua realização. 
Se alguém lhe ofendeu, desculpe e esqueça, para que não siga adiante carregando sombras no coração. 
Auxilie os outros, enquanto os dias lhe favorecem. 
Faça o bem agora, pois, na maioria dos casos, "depois" significa "fora do tempo" ou "tarde demais". 
* * * 
A vida é breve, a alma é vasta, já dizia o grande poeta português, Fernando Pessoa. 
A existência na Terra é um sopro. 
Tudo passa muito rápido. 
Além disso, chegamos sem saber quando será o instante da volta. 
Algo providencial, assim como o esquecimento do passado, pois isso nos dá a grande lição do recomeço e da urgência. 
O recomeçar deixando seja lá o que fizemos e o que fomos para trás; a urgência de aproveitar a oportunidade ao máximo.
Não confundamos urgência com a pressa que vem acompanhada da ansiedade. 
A urgência aqui é no sentido de prontidão, iniciativa e importante necessidade. 
Realmente, não sabemos quanto tempo temos. 
Saímos para o trabalho, fazemos uma breve viagem, vamos à panificadora. 
Quem garante que iremos voltar? 
Não se trata de nos aterrorizarmos e ficarmos aguardando o instante da morte a qualquer momento, mas de entendermos que se trata de um fenômeno natural e que não sabemos o que está em nosso planejamento reencarnatório. 
Adiar questões importantes da vida será sempre uma aposta arriscada. 
Deixar mais para frente aquilo que sonhamos ou que nosso coração pede que realizemos sempre será uma jogada duvidosa. 
Vejamos que, muitas vezes, a intuição nos é muito clara:
Faça agora! Diga! Vá até lá! 
Telefone para Fulano, converse um pouco. 
Ignoramos as intuições, porque deixamos que elas se misturem às atribulações e às preocupações menores. 
E lá se vão grandes oportunidades. 
Nem cedo, nem tarde, a hora é agora. 
Reflitamos sobre tudo aquilo que vai no coração. 
Aquilo que acreditamos ser importante realizar ou mudar em nossa vida. 
Não enchamos a vida de quando eu... 
Ou depois que eu... 
A frustração de chegarmos no plano espiritual, mais uma vez, deixando questões importantes para trás, atravessa o peito como espada incandescente. 
Culpa, decepção, arrependimento. 
Não queremos isso em nosso Espírito já tão marcado pelos acontecimentos dos tempos passados. 
Realizemos agora. 
Comecemos hoje. 
Um primeiro passo pelo menos. 
Façamos do dia de hoje um dia único. 
Surpreendamos aos outros e nos surpreendamos. 
Lembremos sempre: 
-Faça o bem agora, pois, na maioria dos casos, "depois" significa "fora do tempo" ou "tarde demais". 
Redação do Momento Espírita com base no cap. 3, do livro Hora certa, pelo Espírito Emmanuel, psicografia de Francisco Cândido Xavier, ed. GEEM. 
Em 19.04.2024.

sábado, 31 de outubro de 2026

TUDO RESSURGE E BRILHA

Constâncio Alves
Não chores quem se vai, quando a faina termina!… 
Para lá do sepulcro outra senda começa… 
A natureza, em tudo, é sublime promessa, 
Tudo ressurge e brilha, ante a glória divina!… 
***
Esses versos sublimes de Constâncio Alves são uma verdadeira canção de esperança para os nossos dias de saudade. 
Eles traduzem a lição de Jesus: Deus não é de mortos, mas, sim, de vivos. 
Para acalmar o coração, é imprescindível compreender a morte não como extinção, mas como uma atividade transformadora da própria vida. 
Espiritualmente falando, apenas conhecemos um gênero temível de morte: a morte da consciência denegrida no mal, torturada de remorso ou paralisada nos despenhadeiros que marginam a estrada da insensatez e do crime. 
Essa sim, é a verdadeira morte da alma, que se encarcera nas sombras de seus próprios desatinos.
Fora disso, é chegada a época de reconhecermos que todos somos vivos na Criação eterna.
Por tardar esse conhecimento em nós, constatamos grandes erros diante da morte dos entes queridos. 
Em razão disso, a teologia criou céus e infernos artificiais, rejeitando a lógica reencarnacionista. 
Algumas pessoas se apegam à letra, crentes de que o corpo material - apenas vestimenta temporária - deverá ressurgir dos sepulcros. 
E outras veem os Espíritos como fantasmas de laboratório, vagando indefinidamente pelo espaço. 
Quem passa pela sepultura prossegue trabalhando e aprendendo nas estações do Além. 
Lá, tanto quanto aqui, só existe desordem para o desordeiro e equilíbrio para o trabalhador do bem.
Na crosta da Terra ou além dos seus círculos, permanecemos vivos invariavelmente. 
Os desencarnados não são magos ou adivinhos para satisfazer curiosidades. 
São irmãos de jornada que continuam na luta do próprio aprimoramento. 
Tiveram seu tempo na encarnação atual e agora continuam os planos individuais em outra dimensão. 
Podem permanecer nesse estado por pouco ou muito tempo, porém, tão logo seja necessário, planejam novo retorno, assim como o fizeram antes. 
Recordemos que lidamos com algo semelhante aqui mesmo no planeta, quando parte da família habita outro continente; quando irmãos, filhos, amigos queridos, enfrentam o desafio de um emprego ou um longo período de estudos fora do país.
Há os que se mudam para realizar tratamentos específicos de saúde e ainda os que encontram sua nova família no outro lado do oceano. 
O amor não conhece distâncias e se faz ponte de luz sobre todos os abismos do caminho. 
Ninguém morre. 
Ninguém desaparece. 
Apenas entramos em fases diferentes da vida do Espírito, que é muito maior do que esta que chamamos de existência.
Todos nós já passamos por isso antes. 
Confiemos nas forças da Providência Divina. 
A natureza em tudo é sublime promessa. 
Tudo ressurge e brilha!
Tudo em Deus tem um significado muito maior do que podemos, muitas vezes, compreender. 
Ou mesmo imaginar. 
A razão e o coração nos apontam: a morte não existe. 
Os mortos vivem. 
O amor dura para sempre. 
EMMANUEL E CHICO XAVIER
Redação do Momento Espírita com base no poema Os mortos vivem, do livro Estrelas no chão, por Espíritos diversos, psicografia de Francisco Cândido Xavier, ed. GEEM e no cap. 42, do livro Pão nosso, pelo Espírito Emmanuel, psicografia de Francisco Cândido Xavier, ed. FEB. 
Em 31.10.2026 

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

GRANDE É A GENTILEZA

No imenso tecido da jornada humana, muitos instantes de aparente acaso são caminhos silenciosos da Providência. 
A internet, por vezes criticada, foi o palco de uma bela história de solidariedade, iniciada por um simples erro. 
Em março de 2018, a jovem Sydney estava provando um vestido de festa. 
Ela enviou as fotos no espelho para o celular de uma amiga, porém as fotos acabaram no aparelho de um estranho.
Número errado. 
Sabemos que isso representa um certo perigo: fotos de nossa intimidade indo para algum lugar que não sabemos onde.
Mas, quem recebeu a mensagem foi Tony Wood, pai de seis filhos. 
Ele teria várias opções após receber as fotos. 
Vale a pena pensar o que faríamos se acontecesse conosco, lembrando que são fotos de uma adolescente. 
Ele poderia ter apagado a mensagem. 
Poderia ter respondido de forma fria: Número errado. 
Poderia ter feito algum tipo de brincadeira de mau gosto ou se aproveitado da situação. 
No entanto, ele decidiu fazer daquele momento um gesto de gentileza, respondendo com bom humor: 
-Sua mensagem foi para o número errado. Eu queria ajudar, mas minha esposa não está em casa, então não pude pedir a opinião dela. Contudo, eu e os meus filhos achamos que você ficou deslumbrante nesse vestido! Com certeza deveria comprar! 
Para deixar a reação descontraída, Tony anexou uma foto de cinco de seus filhos no sofá, sorrindo com sinal de positivo com o polegar. 
Sydney achou sensacional. 
Pediu desculpas, e fez questão de compartilhar com a amiga, aquela que deveria ter recebido as fotos. 
As duas deram boas risadas e viram uma oportunidade de divulgar como há pessoas gentis no mundo. 
E publicaram a história nas redes sociais. 
A foto das cinco crianças encantou a todos. porém, os internautas encontraram algo estranho. 
Tony era pai de seis filhos e na foto só havia cinco. 
Onde estava o sexto? 
Assim, a internet descobriu que o caçula de Tony, Kaizler, de apenas quatro anos, lutava contra a leucemia desde 2015.
Havia, inclusive, uma campanha on-line da família para arrecadar vinte mil dólares para o tratamento, mas que mal havia chegado aos dois mil. 
Ao descobrir a história, a comunidade virtual se mobilizou em velocidade recorde. 
Em dias, as doações ultrapassaram sessenta mil dólares. 
A própria Sydney contribuiu.
O valor cobriu o tratamento e, em abril de 2019, Kaizler concluiu a última quimioterapia. 
Curado, tornou-se destaque no atletismo escolar. 
***
Essa história ilustra o quão grande é a gentileza. 
Tony, ao responder com carinho a uma desconhecida, não imaginava que semeava a salvação do seu filho. 
Ele não pediu ajuda, porém, sua gentileza preparou o caminho para as bênçãos que a Providência Divina se propunha entregar. 
Que possamos escolher sempre o trato ameno e a compreensão diante dos acasos que nos surjam. 
Muitas vezes, os imprevistos são bênçãos de Deus convidando-nos a exercer o amor e a transformar a nossa existência numa perene canção de luz. 
Redação do Momento Espírita com base na história real O erro mais certo da Internet, de Sydney Usilton e Tony Wood.
Em 30.10.2026

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

NEM CASTIGO, NEM PERDÃO!

Um dos maiores temores que vibram no coração do homem é o medo do castigo divino.
Convivendo com a possibilidade de que Deus possa se ofender e castiga-lo por suas faltas, o indivíduo sofre e se divide entre o amor e o temor de Deus.
Atribuindo ao Criador os mesmos vícios que ainda possui, o ser humano teme ser castigado a qualquer momento por um Deus caprichoso e cruel que está sempre à procura de defeitos para se vingar, impondo-nos sofrimentos. 
Paulo, o apóstolo, se manifestou a respeito desse tema dizendo o seguinte:
-“Gravitar para a unidade divina, eis o fim da humanidade. Para atingi-lo, três coisas são necessárias: a justiça, o amor e a ciência. Três coisas lhe são opostas e contrárias: a ignorância, o ódio e a injustiça. Pois bem! Digo-vos, em verdade, que mentis a estes princípios fundamentais, comprometendo a idéia de Deus, exagerando-lhe a severidade. Duplamente a comprometeis, deixando que no espírito da criatura penetre a suposição de que há nela mais clemência, mais virtude, amor e verdadeira justiça, do que atribuis ao ser infinito." 
Quem é, com efeito, o culpado? 
É aquele que, por um desvio, por um falso movimento da alma, se afasta do objetivo da criação, que consiste no culto harmonioso do belo, do bem, idealizados pelo arquétipo humano, pelo Homem-Deus, por Jesus-Cristo. 
Que é o castigo? 
A conseqüência natural, derivada desse falso movimento; uma certa soma de dores necessária a desgosta-lo da sua deformidade, pela experimentação do sofrimento. 
Assim, o que se chama castigo é apenas a conseqüência das leis naturais. 
É graças à dor física que a criatura procura o remédio para sua enfermidade. 
É graças ao sofrimento moral que a alma busca a própria cura. 
O sofrimento só tem por finalidade a reabilitação, o retorno do aprendiz ao caminho reto. 
Como podemos perceber, o mal não é de essência divina, é gerado pelas criaturas, ainda imperfeitas. 
O sofrimento não é imposto por Deus como castigo, é o efeito natural do falso movimento da criatura, e que a estimula, pela amargura, a se dobrar sobre si mesma, a voltar ao objetivo traçado pelas leis divinas, que é a harmonia. 
E essas leis são justas, imparciais e amorosas. 
Um exemplo disso acontece quando um homem, enlouquecido, assassina várias pessoas, foge e, na fuga, se fere profundamente. 
O que acontece com seu organismo? 
Suas células, obedecendo a lei natural, começam imediatamente a se movimentar para estancar o sangue, cicatrizar a ferida e expulsar os germes que causam infecção.
Se Deus quisesse castiga-lo, derrogaria suas próprias leis e faria com que as células desse indivíduo não trabalhassem a seu favor, mas se rebelassem e o deixassem morrer. 
Afinal, ele é um criminoso! 
Mas não é isso que acontece. 
As leis divinas seguem naturalmente seu curso. 
O sol brilha, incansável, sobre justos e injustos, sem se importar com o que acontece sob sua luz. 
A chuva cai sobre a mansão e sobre o casebre. 
O frio fustiga a pobres e ricos. 
As catástrofes naturais arrebatam sábios e ignorantes, velhos e crianças, fortes e fracos. 
Por todas essas razões devemos entender que o Criador não derroga suas próprias leis para nos punir ou para nos premiar.
As nossas ações é que geram efeitos sobre essas leis. 
As boas ações geram efeitos positivos, e as infrações às leis geram efeitos desajustados. 
Nada mais justo do que esta sentença: “a cada um segundo suas obras.” 
Nem castigo, nem perdão. 
Deus não castiga porque suas leis são de amor, e não perdoa porque jamais se ofende. 
Pensemos nisso, e busquemos atender essas leis soberanas que estão inscritas em nossa própria consciência. 
Texto da Equipe de Redação do Momento Espírita, com base no item 1009 de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec.

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

QUAL JESUS HABITA EM NÓS?

Simão Pedro de Lima
No silêncio das nossas reflexões, uma pergunta ecoa na alma: 
-Afinal, qual Jesus habita em nós? Será o Jesus simples e acolhedor dos Evangelhos, ou Aquele que construímos ao longo dos séculos, enclausurado em doutrinas, instituições e autoridades religiosas? 
Talvez tenhamos complicado demais o caminho até Ele. 
Criamos especialistas para explicá-lO, passamos séculos debatendo Suas palavras e, quase sem perceber, geramos a falsa ilusão de que alguns sabem chegar a Jesus melhor do que outros. 
Como se o conhecimento intelectual concedesse algum privilégio espiritual. 
Mas, quando olhamos para a vida do Mestre, não encontramos essas barreiras. 
Jesus conversava com os pescadores, com os doentes, com as mulheres, com os estrangeiros e com os situados à margem da sociedade. 
Para chegar até Ele, era suficiente se aproximar. 
Uma de Suas frases mais belas é, também, a mais direta e amorosa: 
-Vinde a mim, todos vós que estais cansados e sobrecarregados. 
Ele não pediu para procurarmos primeiro quem pudesse explicá-lO. 
Não exigiu que soubéssemos explicar Seus ensinos de maneira impecável. 
Ele apenas disse: Vinde. 
Há um Jesus anterior às nossas disputas e denominações.
Um Jesus que não pergunta à pessoa exausta o que ela sabe sobre religião. 
Simplesmente oferece o Seu abraço. 
Talvez seja esse o Jesus que precisamos reencontrar. 
Não Aquele sobre quem aprendemos a falar de forma eloquente, mas Aquele com quem podemos conversar, de coração a coração. 
Se retirarmos de nossas vidas as instituições, os rótulos e tudo que dizemos acreditar, o que sobra do cristianismo em nós? 
Jesus respondeu a isso de maneira simples: 
-Conhece-se a árvore pelos frutos. 
É fácil pertencer a uma denominação, defender uma ideia, participar de celebrações e falar do Cristo. 
Os frutos, porém, germinam em outro terreno. 
Eles aparecem na maneira como tratamos quem não pensa como nós. 
Na nossa facilidade ou dificuldade de perdoar. 
Na vaidade que conseguimos conter. 
No julgamento que evitamos. 
Na mão que estendemos no anonimato. 
Os frutos aparecem, sobretudo, naquilo que somos quando estamos longe dos lugares onde parecemos religiosos. 
Talvez tenhamos dedicado tempo demais perguntando quem possui a interpretação correta das escrituras, quando Ele nos deixou um espelho muito mais simples para observar: o que a nossa presença produz na vida do outro? 
Se a nossa presença produz acolhimento, misericórdia, paz e esperança, então alguma coisa do Evangelho está acontecendo em nós. 
Se produzimos arrogância, exclusão, ressentimento e julgamento, é sinal de que precisamos reler com o coração aquilo que julgamos conhecer tão bem. 
A profundidade do ensinamento cristão está naquilo que conseguimos viver conforme o que Ele ensinou. 
Oportuno seria nos perguntarmos: 
-Se ninguém soubesse qual é a nossa religião, e não pudesse ouvir aquilo que dizemos acreditar, as pessoas conseguiriam perceber, pela maneira como vivemos, que o Evangelho passou por nós? 
Redação do Momento Espírita, com base no artigo O que fizemos com a simplicidade do Evangelho?, de Simão Pedro de Lima. 
Em 28.10.2026