No entanto, em certos recantos do planeta, a Divindade parece escolher o som mais potente, a vibração mais profunda e o cenário mais grandioso para se fazer anunciar.
Lembramos, com a nitidez que só as emoções verdadeiras permitem guardar, de uma tarde em frente à Garganta do diabo, no lado argentino das Cataratas do Iguaçu.
Sheila acompanhava um produtor italiano de rádio e tv, homem afeito às grandes produções, aos palcos iluminados e à sofisticação das metrópoles europeias.
Ele trazia o olhar curioso do viajante.
Também o cansaço típico de quem lida com o efêmero todos os dias.
À medida que caminhavam pelas passarelas que serpenteiam sobre o rio Iguaçu, o som ia crescendo.
Não era um ruído comum.
Era um grave profundo que parecia vir das entranhas do mundo.
Então, chegaram diante da queda monumental.
Milhões de litros de água despencando em uma coreografia de força e bruma, em que o arco-íris insiste em nascer mesmo sob o império do caos.
O turista italiano ficou imóvel.
Ele não sacou a câmera.
Não tentou enquadrar o infinito no visor limitado de um celular.
Ele apenas ficou parado, as mãos apoiadas no guarda-corpo, os olhos perdidos na imensidão branca.
O silêncio interno que se instalou, apesar do rugido ensurdecedor das águas, era sagrado.
Era como se o barulho externo fosse tão vasto que acabasse por anular qualquer ruído mental, permitindo que apenas o essencial permanecesse.
Passaram-se minutos que pareceram horas de uma liturgia natural.
Por fim, ele se virou para a jovem.
Com a voz embargada, ele disse algo que soou como uma das declarações mais profundas e verdadeiras:
-É nestas horas que temos certeza de que Deus existe.
Naquele instante, a Garganta do diabo mudou de nome.
Passou a ser a Garganta de Deus.
Ali, naquele altar de rocha e água, o produtor italiano, acostumado a criar conteúdos para o mundo, sentiu-se parte de uma Criação que não precisa de roteiro, nem de edição.
A certeza de Deus não veio de um raciocínio lógico, mas de um impacto sensorial.
Quando a beleza é tamanha que o ego se cala, o que sobra é a evidência do Criador.
A água que cai na Garganta do diabo é a mesma que irriga a semente na terra e que corre em nossos rios.
Mas ali, em sua queda vertiginosa, ela nos recorda da nossa pequenez e, paradoxalmente, da nossa importância.
Somos pequenos diante da força, mas somos grandes o suficiente para percebermos a presença do Pai naquela força.
Deus fala em todas as frequências.
Às vezes, Ele escolhe o trovão das águas para nos dizer que está no comando, que a vida se renova eternamente e que a beleza é a assinatura de Sua justiça e de Seu amor.
A Voz de Deus ainda ecoa naquelas quedas, e continuará ecoando em todos os corações que se permitirem, por um momento que seja, simplesmente parar e sentir.
Como bem disse aquele irmão de terras distantes:
-Há momentos em que a dúvida se dissolve na névoa, e a única coisa que resta, majestosa, é a certeza da Presença Divina.
Redação do Momento Espírita
Em 23.06.2026






