Nada além de olhar.
O vento soprava constante, varrendo a praia com delicadeza e força ao mesmo tempo.
Grãos de areia se moviam sem resistência, formando pequenos desenhos que logo se desfaziam.
Folhas secas, esquecidas, eram levadas para longe, sem escolher o destino.
Por alguns instantes, ela acompanhou aquele movimento simples.
Nada parecia desordenado, embora tudo estivesse em mudança.
O vento não perguntava para onde ir.
Apenas seguia, conduzindo o que encontrava pelo caminho.
Pensou na própria vida.
Quantas vezes fora retirada do lugar sem aviso?
Planos interrompidos, mudanças inesperadas, perdas, recomeços forçados.
Situações que a deslocaram de onde se sentia segura e a lançaram em direções jamais cogitadas.
Tudo lhe parecia confuso, injusto, difícil de compreender.
Talvez porque ainda não fosse o tempo de entender, mas apenas de atravessar.
Talvez aquela norma que ouvira, em algum momento, de não se inquietar pelo dia de amanhã, porque para cada dia basta o seu mal fosse algo verdadeiro.
Talvez não nos caiba decifrar o sentido de algumas fases da vida, mas confiar que ele existe.
E aceitar que o amanhã se constrói passo a passo, não de uma só vez.
O vento da vida não pede permissão.
Ele chega quando menos esperamos.
Desorganiza o que parecia estável, desfaz certezas, muda rotas.
Quase sempre resistimos, tentando nos fixar onde já não é possível permanecer.
Ali, diante do mar, algo ficou claro: o vento não destrói por capricho.
Ele move para renovar.
Afasta o que precisa seguir adiante.
Abre espaço para novos caminhos.
Aquilo que se deixa conduzir não se perde. Apenas encontra outro lugar.
Na vida, acontece assim.
Nem sempre somos levados para onde desejamos, mas somos conduzidos exatamente para onde precisamos estar.
O que parece perda se revela propósito. O que nos soa como desvio se mostra aprendizado.
Confiar é aceitar que nem todos os ventos são contrários. Alguns são necessários.
Eles nos arrancam do comodismo, quebram a ilusão de controle e nos ensinam a seguir com mais fé do que certeza.
Assim como a areia da praia, não fomos feitos para permanecer imóveis.
Somos convidados ao movimento, ao crescimento, à transformação.
Quando resistimos demais, sofremos. Quando confiamos, aprendemos.
Afinal, a vida não nos pede respostas prontas, mas confiança. Confiança em Deus.
Confiança de que cada vento tem um motivo, mesmo quando não o compreendemos.
De que não somos levados ao acaso, ainda que o caminho pareça incerto.
E de que nada se perde no vasto campo da jornada terrena.
Dessa maneira, quando os ventos da vida soprarem mais fortes, tenhamos em mente que não estamos sendo afastados do que importa, mas conduzidos ao que é essencial.
Há um cuidado maior sustentando cada passo, uma sabedoria silenciosa orientando o movimento.
E, mesmo sem vislumbrar o destino, sigamos seguros de que a travessia também faz parte do chegar.
Pensemos nisso.
Redação do Momento Espírita, com referência
do Evangelho de Mateus, cap. 6, vers. 34.
Em 04.05.2026






