Ele vivia numa mansão esplêndida, tinha pais que o amavam, divertia-se brincando com seu pônei.
Um dia, no entanto, aconteceu algo doloroso.
O jardineiro, aquele homem gentil que enchia de coloridos perfumados os canteiros do jardim, não despertou.
Quando perguntou para sua mãe o que acontecera, Rodrigo recebeu como resposta que o homem resolvera descansar para sempre.
-Posso ir vê-lo dormir?
A negativa foi acompanhada da explicação de que ele partira para uma viagem muito longa.
E nunca mais voltaria.
Estranho, pensou o pequeno.
-Não se viaja de olhos fechados. Se está dormindo, podia ter me dito boa noite. Se partiu, podia ter se despedido. Não dá para entender.
Resolvido a desvendar aquele mistério, como toda criança que desconfia de que estão lhe escondendo a verdade, foi buscar respostas com outras pessoas.
A cozinheira lhe respondeu que o coitado do senhor Tadeu estava no céu.
E agora era muito mais feliz.
A cabecinha de Rodrigo continuou a funcionar:
-Se está feliz, por que dizer que é coitado? Se é coitado, como pode ser feliz?
A resposta, dada pela prima idosa, deixou tudo ainda mais intrigante:
-Tadeu está debaixo da terra, no cemitério.
-Como assim? Indagou Rodrigo. Está debaixo da terra ou no céu? Não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo.
Finalmente, alguém lhe disse:
-É simples. Tadeu morreu.
E o garoto aprendeu que não é somente a guerra que mata homens.
Ela é somente uma ajudante da morte.
As pessoas morrem porque ficam muito velhas.
-Toda vida termina assim, concluiu um dos professores.
O garoto teve a impressão de que o sol perdia o seu brilho, o prado se tornava escuro e o ar difícil de respirar.
São os sinais que as pessoas grandes pensam que somente elas têm.
Não percebem que as crianças também sofrem desse mal, que se chama desgosto.
Depois de chorar por um tempo, Rodrigo decidiu descobrir onde estaria Tadeu:
-Debaixo da terra ou no céu?
Foi ao cemitério.
Procurou e descobriu uma lápide na qual estava escrito:
Aqui jaz Tadeu,
Jardineiro dos melhores.
Uma lágrima por ele
Que foi amigo das flores.
Já sei como despertar Tadeu, pensou o menino.
E encheu a sepultura das mais belas flores.
Tudo em vão.
A sepultura ficou maravilhosa com tantas cores e perfumes.
Mas Tadeu não respondeu.
Com a alma mergulhada em sombras, Rodrigo descobriu que as flores não tinham poder contra aquele mal chamado morte.
Voltou para casa para chorar e chorar, totalmente sozinho.
* * *
De todas as questões da vida, uma certeza existe: mais dia, menos dia, a morte nos abraça.
Ninguém, por mais rico, poderoso, inteligente ou fenomenal pode se furtar a ela.
Ela chega de variadas maneiras: devagar, de repente, de mansinho ou violenta.
Se é inexorável, por que não temos aulas sobre ela?
Por que não falamos dela para nossas crianças, com a mesma clareza com que lhes mostramos o céu, o amor, as letras, a vida?
Redação do Momento Espírita, com base no
cap. 19, do livro O menino do dedo verde,
de Maurice Druon, ed. José Olympio.
Em 04.04.2026







