quinta-feira, 28 de maio de 2026

NOSSO HUMOR

Como anda nosso humor? 
Percebemos que ele é relativamente constante ou oscila bastante? 
Muitos altos e baixos? 
Como costumamos despertar? 
Somos daqueles que resmungam e não são capazes de olhar ninguém nos olhos, ou daqueles que despertam falantes, sorrindo? 
Cada um tem seu jeito e precisamos respeitar. 
Há idades, como a adolescência, que trazem condições peculiares, que necessitam atenção, mas também muita compreensão. 
Quem exige que um adolescente acorde cedo, falante, cheio de energia, talvez não se recorde como foi sua própria adolescência. 
As alterações de humor são relativamente normais em nossas vidas. 
O problema está quando se tornam repentinas e de muita intensidade. 
Nesses casos, valem algumas orientações, principalmente no que diz respeito ao estado de mau humor constante.
Conceituando de forma rápida, o mau humor é o estado emocional caracterizado por irritabilidade, impaciência, pessimismo e raiva. 
No mau humor, tendemos a enxergar apenas o lado negativo das situações e tomar decisões por impulso, o que, obviamente, nos traz consequências indesejadas.
Importante que toda vez que nos percebermos nesse estado mental, investiguemos suas raízes. 
Já somos capazes dessas viagens para dentro de nós mesmos para questionar: por que estou assim? 
Por que estou gratuitamente irritado com as pessoas? 
O que está me tirando a paz neste instante? 
Alguns de nós descobriremos rapidamente: algumas dívidas, uma enfermidade, problemas na família, expectativa não atendida, um revés. 
Por vezes, é um pequeno pensamento pessimista, um chamado balde de água fria que, sem que nos apercebamos, acaba com toda energia de nosso dia e nos atira nas teias da irritação. 
Fechamos a cara, baixamos a cabeça, tudo passa a ter tons de cinza e, ainda, descontamos em quem surgir a nossa frente! 
Porém, que culpa têm as pessoas? 
Por que o companheiro recebeu nossa resposta grosseira se ele não tem nada a ver com o fato de estarmos com problemas em casa? 
Por que deixamos de agradecer e sermos simpáticos com a atendente do supermercado naquele dia se ela nada sabe sobre nossas questões de saúde? 
Vejamos que descontar nos outros não leva a nada. 
Pelo contrário, espalhamos mau humor pelo mundo. 
E quem é capaz de dizer se o nosso mau humor, junto com o do outro, que virá logo em seguida, não estragará o dia de alguém que estava animado com a vida! 
Vejamos a nossa responsabilidade. 
Assim, toda vez que percebamos as nuvens escuras do mau humor querendo pairar acima de nós, ativemos uma espécie de modo de segurança: 
Auto-observação: por que estamos assim? 
O pequeno contratempo é motivo para tanto? 
Oração: elevemos o pensamento em prece. 
Peçamos ajuda, leiamos uma página que nos inspire o otimismo, a renovação. 
Contato com a natureza: as criações de Deus sempre nos darão sopro de vida na alma, sempre nos mostrarão como vale muito mais a pena sorrir do que manter o cenho fechado.
Cuidemos de nosso humor. 
Observemos como ele anda. 
Estaremos no rumo certo de cuidarmos de nossa saúde.
Redação do Momento Espírita 
Em 28.05.2026

quarta-feira, 27 de maio de 2026

NA MEMÓRIA SILENCIOSA DE DEUS

KHALIL GIBRAN
Certo dia, passeando pelo parque, notei dois idosos sentados em frente ao lago.
Mãos dadas, sorrisos largos e uma cumplicidade admirável entre eles. 
Tal cena me chamou profundamente a atenção. 
Por conta de minha natureza curiosa, me aproximei, no exato instante em que o senhor, distendendo seu braço, aproximou-se de sua amada e a envolveu. 
Os lábios brevemente se encostaram, seguido por um Eu te amo comovente e apaixonado. 
Depois de passar a enrugada mão pelo rosto da esposa, o senhor, sorrindo, virou-se em minha direção - eu, que por conta de minha curiosidade estava perto demais - e asseverou: 
-Sessenta e três anos, meu filho. 
-Perdão, meu senhor. Não compreendi bem, disse eu, um tanto quanto envergonhado por conta do flagrante. 
-Sessenta e três anos, repetiu ele, rindo, provavelmente por conta do meu rubor ligeiro. 
-Nesta semana, minha esposa e eu completamos sessenta e três anos de um casamento feliz e apaixonado. 
-Puxa! Exclamei. E qual o segredo para um casamento tão duradouro? 
-O rapaz tem tempo para ouvir a resposta? Hoje em dia, os jovens não têm tempo para nada. 
-Tenho sim, senhor, respondi, me sentando em outro banco, próximo ao apaixonado casal. 
-Bem, disse ele, certa vez li, em um livro, o que considero ser a receita para um casamento feliz. 
E, tomando as mãos de sua esposa entre as suas, o sábio idoso começou a declamar: 
-Nascestes juntos e juntos ficareis para sempre. Ficareis juntos quando as asas brancas da morte dispersarem os vossos dias. Sim, ficareis juntos até na memória silenciosa de Deus. Mas que haja espaço na vossa comunhão. E que os ventos do céu dancem no meio de vós. Amai-vos um ao outro, mas não façais do amor um empecilho: seja antes um mar vivo entre as praias das vossas almas. Enchei cada um o copo do outro, mas não bebais no mesmo copo. Partilhai o pão, mas não comais do mesmo bocado. Cantai e dançai juntos, sede alegres. Mas permaneça cada um sozinho, como estão sozinhas as cordas do alaúde, embora nelas vibre a mesma harmonia. Dai os vossos corações, mas não os confieis aos cuidados um do outro. Porque somente a mão da vida pode conter os vossos corações. Mantende-vos juntos, mas nunca demasiado próximos. Porque os pilares do templo elevam-se, distanciados, e o carvalho e o cipreste não crescem à sombra um do outro.
* * * 
Muitos são aqueles que respondem, superficialmente, que o objetivo do casamento é a perpetuação da Humanidade.
Todavia, a união entre dois seres é marco de progresso no seio da Humanidade. 
O objetivo maior é a evolução moral do ser. 
É assim que o casamento se constitui em excelente oportunidade de progresso para aqueles que bem sabem aproveitar. 
Nele, o meu torna-se nosso. 
Ainda, eis grande ensejo de desenvolvermos e praticarmos a fraternidade, a tolerância, o desprendimento, o companheirismo, a benevolência. 
O casamento é, acima de tudo, afortunada ocasião para compreendermos que o amor só é amor quando se doa, quando não há interesse, quando as necessidades do próximo são tão ou mais importantes do que as nossas. 
Pensemos nisso! 
Redação do Momento Espírita, com base no cap. O matrimônio, do livro O Profeta, de Khalil Gibran, ed. L&PM Pocket. 
Em 31.01.2024.

terça-feira, 26 de maio de 2026

NINGUÉM TE CONDENOU?

HUMBERTO DE CAMPOS
(espírito)
CHICO XAVIER(+)
Muitos de nós recordamos do encontro de Jesus com a mulher surpreendida em adultério. 
Ela recebeu o rótulo de adúltera devido ao vício humano de julgar sem indulgência. 
Ela era muitas outras coisas, tinha outras características. 
Por que rotulá-la por causa de um dos seus deslizes? 
Jesus interveio no momento certo, evitando mais um apedrejamento, comum na época e, curiosamente, ainda persistente nos tempos atuais, mesmo que seja com outras características. 
Passado o momento, o Apóstolo João, desejando aprender mais, voltou-se para o Mestre, inquirindo qual a razão de Ele não ter permitido que a lei antiga fosse cumprida. 
-Ela pecou e fez jus à punição. Não está escrito que os homens pagarão, ceitil por ceitil, os seus próprios erros?
Jesus se serve da indagação para demonstrar como as leis de Deus são muito maiores, muito mais amorosas e belas do que nossa compreensão. 
É nesse instante que o Nazareno apresenta o amor da Sua revelação em contrapartida à rigidez das leis antigas, sem jamais deixar de respeitá-las. 
Sorriu e, sem se perturbar, respondeu: 
-Ninguém pode contestar que ela tenha pecado. Porém, quem estará impecável na face da Terra? Há sacerdotes da lei, magistrados e filósofos que prostituíram suas almas por baixo preço. Contudo, ainda não vi seus acusadores. 
Vejamos que Jesus inicia concordando que houve equívoco e que todos somos passíveis de errar no mundo. 
Destaca a hipocrisia da sociedade que enxerga os erros de alguns apenas, enquanto mantém na penumbra equívocos maiores de tantos outros. 
E continuou esclarecendo: 
-Deus é o Pai de bondade infinita que aguarda os filhos pródigos em Sua casa. 
Faz menção à parábola antes contada, do pai amoroso que recebe o filho perdido de braços abertos, que deseja o bem de suas criaturas, que deseja o fim do pecado e não do pecador.
Em seguida, prosseguiu: 
-Podemos desejar para a pecadora tormento maior do que aquele a que ela própria se condenou por tempo indeterminado? Quantas vezes lhe tem faltado pão à boca faminta ou a manifestação de um carinho sincero à alma angustiada? Raras dores do mundo serão idênticas às agonias de suas noites silenciosas e tristes. Esse o seu doloroso inferno, sua aflitiva condenação.
Jesus oferece um novo ângulo para nossa visão: enxergar o outro, entender as suas dores, perceber que quem erra já sofre as consequências do mal praticado, isto é, já se encontra no processo de quitação de dívidas com as leis maiores. 
Esse é o ponto que nos escapa, como julgadores impiedosos.
Só vemos uma parte, não enxergamos o todo. 
Quem enxerga o todo é o Criador, por isso a justiça mais sábia estará sempre nas mãos divinas. 
Jesus entendeu que aquela punição era demasiada. 
Uno com Deus, conhecia as dores íntimas daquela mulher.
Conhecia-lhe toda a história. 
Será que, quando nos pomos a julgar, temos ciência de toda a história da pessoa que estamos condenando severamente?
Pensemos nisso. 
Lembremos de Jesus e de como compreendeu a história dessa mulher. 
Uma mulher, um ser humano, como você e eu, ainda falhos.
Apenas isso. 
Redação do Momento Espírita, com base no cap. 13, do livro Boa Nova, pelo Espírito Humberto de Campos, psicografia de Francisco Cândido Xavier, ed. FEB. 
Em 26.05.2026

segunda-feira, 25 de maio de 2026

PODERÍAMOS SER MELHORES

RAUL TEIXEIRA
Raul Teixeira narra, em oratória de profundas reflexões, episódio ocorrido consigo e que lhe conferiu sábia lição. 
Conta que foi a uma cidade e percebeu que, quando falava em determinada assembleia religiosa, os integrantes da outra instituição não compareciam. 
E vice-versa. 
Aquilo lhe causou estranheza. 
Como os lidadores do bem, os que se encontram vinculados a uma Instituição que tem por objetivo espalhar a semente da boa nova, podem ter esse tipo de comportamento? 
Ele mesmo se perguntou: 
-Como falarei de Cristo, de paz, de trabalho, de Evangelho no meio dos cristãos de mal um com o outro? 
Confessa que sofreu muito. 
Mas deu conta de todas as tarefas. 
De retorno à sua cidade, Niterói, chegou em casa, depôs a mala, sentou-se na cama e chorou. 
Descreve que a sensação que tinha era de quem enxugava gelo com pano quente. 
Para quem ele fora pregar? 
Recordou das palavras de advertência de Espírito amigo, que registrara: 
-Pregareis o desinteresse aos avaros, a abstinência aos dissolutos, a mansidão aos tiranos domésticos, como aos déspotas! 
Palavras perdidas, eu o sei; mas não importa. 
-Faz-se mister regueis com os vossos suores o terreno onde tendes de semear, porquanto ele não frutificará e não produzirá senão sob os reiterados golpes da enxada e da charrua evangélicas. Ide e pregai! 
Angustiado, deixava que as lágrimas lhe lavassem a face, quando lhe apareceu o Espírito Camilo, seu benfeitor espiritual. 
Olhou profunda e demoradamente a Raul, que se sentiu como que radiografado. 
Então, lhe perguntou como se já não houvesse auscultado a alma do seu pupilo: 
-Por que você chora? 
Acabrunhado, Raul declinou as razões, extravasou toda sua tristeza. Quando concluiu, ouviu a voz do amigo: 
-Pois é, meu filho, e pensar que você já poderia estar longe de tudo isto. 
A frase chocou o orador. 
Mas deu-se conta de que aquilo valia mesmo para ele. 
E vale, igualmente, para nós. 
Essa é a realidade dos que sofremos com a injustiça, que nos martirizamos com a criminalidade, que nos sentimos violados em nossos direitos com a violência tranquilamente livre nas nossas sociedades. 
Poderíamos ter saído desse tormento, deste mundo aturdido em que nos achamos. 
Quantas vezes já ouvimos o chamado de Jesus. 
E, com tudo que ouvimos, que nos foi reprisado, ainda não nos unimos a Ele. 
Poderíamos não mais viver as situações tristes que vivemos.
Poderíamos ser melhores. 
E, se fôssemos melhores, o mundo seria melhor. 
Já viveríamos o mundo de regeneração, de menos dores e mais trabalho no bem. 
De menos maldade e maiores benefícios pela família humana.
Poderíamos estar vivendo a realidade crística: 
-Os meus discípulos serão conhecidos por muito se amarem.
Isso é possível, de forma mais rápida. 
Basta nos decidirmos pela sua concretização. 
Talvez, para acelerar nossa vontade, nos recordemos dos convites do suave nazareno: 
-Vem e segue-me. O meu jugo é suave e meu fardo é leve. Vinde, benditos de meu pai para o reino que vos tenho preparado. 
Redação do Momento Espírita, com narrativa extraída do curta Poderíamos ser melhores, disponível no @canalfep e citação do cap. XX, item 4 de O Evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, ed. FEB. 
Em 25.05.2026

domingo, 24 de maio de 2026

COMO VEMOS O OUTRO

Não vemos os outros como realmente são. 
Vemos os outros como nós somos. 
É de se estranhar a afirmativa. 
Como assim, ver o outro como somos? 
Toda vez que fazemos um julgamento, toda vez que fazemos avaliação de uma pessoa, estamos fazendo com os instrumentos que temos, isto é, com a nossa própria lente.
Acontece que essa lente é complexa. 
Foi formada com nossas experiências ao longo de anos, séculos, até milênios. 
Cada um de nós enxerga com uma lente própria, com seus valores, com sua cultura, com tudo aquilo que aprendeu.
Nossos óculos têm um pouco dos óculos dos nossos pais. Têm outro tanto dos amigos com quem convivemos. 
Outra parte do próprio caldo cultural no qual estamos inseridos. 
Alguns de nós temos as lentes bastante distorcidas, rachadas, quebradas, pois vivemos experiências que nos marcaram ou traumatizaram profundamente. 
Em decorrência disso, a nossa visão está afetada.
Naturalmente, o nosso julgamento será diferente daquele que está ao nosso lado, e não sofreu o que sofremos. 
Imaginemos que cada um de nós se serve de um par de óculos. 
Esses óculos estão conosco há muito tempo e vêm sendo configurados conforme nossas necessidades.
Eles são parte de nós. 
Tudo que enxergamos é através deles. 
Podemos entender por que a visão que temos do outro, da vida, passa sempre pelo filtro próprio desses nossos óculos?
Eles podem estar escurecendo tudo. 
Pode ser um par de óculos, com filtro que bloqueia certos reflexos, mostrando cores diferentes do que outros enxergam.
Pode ainda estar com pequenos pontos de sujeira, o que nos fará jurar sempre que alguma coisa está errada em tudo que enxergarmos. 
Quem sabe possamos entender por que é temerário sair por aí emitindo julgamentos sobre a vida do outro, achando que somos os donos da verdade. 
O que seria a verdade? 
Seria a realidade sem lentes alteradas. E quem de nós a possui? 
Impossível não emitir julgamentos, alguém poderia argumentar. 
Sim, certamente, porém a lição é inspirada na prudência proposta por Jesus. 
Não julgueis, a fim de não serdes julgados, porquanto sereis julgados conforme houverdes julgado os outros. 
Vejamos, primeiro, exatamente a ideia das lentes. 
Uma vez que nos colocamos na posição de julgadores vorazes, naturalmente estamos nos expondo a sermos igualmente julgados dentro da mesma regra: por lentes limitadas e repletas de imperfeições. 
Em segundo lugar, o Mestre nos ensina que não devemos julgar os outros com mais severidade do que julgamos a nós mesmos, nem condenar em outrem aquilo de que nos absolvemos. 
Em nossos óculos, deve haver bondade, compreensão, indulgência. 
Em nossos óculos, devemos perceber a sutil incidência de raios de luz transversais que, ao baterem na lente pelo lado de dentro, mostram o nosso próprio reflexo. 
Olhar para o outro é olhar para nós mesmos. 
Por isso o sábio Mestre de Nazaré estabeleceu que a lei do amor mantém sempre unidas as propostas de amar ao próximo e a si mesmo. 
Pensemos nisso. 
Redação do Momento Espírita 
Em 23.05.2026

sábado, 23 de maio de 2026

NA MEDIDA CERTA

Ele adoecera gravemente. 
O diagnóstico fora quase aterrador. 
Parecia uma sentença de morte para quem estava prestes a cruzar a linha de chegada dos cem anos. 
O tratamento prescrevia quimioterapia e radioterapia. 
Sessões diárias, por semanas. 
Finalmente, conseguimos autorização dos que lhe compõem a família física e o pudemos visitar. 
O abatimento dele era visível. 
Natural, pensamos nós, para quem está com tratamento tão agressivo e soma mais de nove décadas. 
Emagrecera muito. 
A voz não possuía o vigor de a pouco, quando ainda o ouvíamos em suas atividades doutrinárias. 
No entanto, o que mais nos chocou foi o olhar. 
Parecia ter perdido o brilho, aquele brilho que estávamos acostumados a ver. 
Olhar que sabia sorrir, de longe, quando avistava um amigo.
Olhar que envolvia a pessoa, mesmo que ela estivesse à distância. 
Aquele olhar de tantos benefícios. 
Conversamos pouco. 
Sabíamos que não poderíamos nos deter em seus aposentos por muito tempo. 
Fôramos avisados para sermos breves. 
Como se fosse possível marcar tempo para a amizade, que deseja abraçar, aconchegar, contar novidades, trazer para dentro de quatro paredes todo o dinamismo de um mundo que aprendeu a amar esse ser tão especial. 
Como se pudéssemos traduzir de forma abreviada todos os recados dos tantos amigos que o amam, que estão distantes mas presentes. 
Como se rapidamente pudéssemos dizer dos que oram, dos que lhe enviam votos de recuperação, dos que gostariam de ter notícias suas... 
Quando acalmamos nossa torrente de notícias, o olhamos mais uma vez. 
Ele sorria, embora não fosse aquele sorriso espontâneo, atrás do qual estávamos acostumados a ouvir uma pergunta gentil, uma observação especial. 
Então, ele nos disse: 
-Atualmente, a única coisa que posso decidir em minha vida é se deixo a minha janela aberta ou fechada. 
A frase foi curta. Ligeira. 
Talvez se não tivéssemos ouvidos de ouvir nem tivéssemos percebido que o amigo, na atual condição de enfermidade que o maltrata, falava do quanto desejaria poder reger a própria vida. 
Como sempre fizera, desde os verdes anos da juventude quando saíra da casa paterna para conquistar o mundo, no mercado de trabalho. 
Depois, conquistar o universo dos corações, com sua dedicação ao bem e oferta da sua amizade. 
Ficamos a cogitar quantas vezes, nós, por desejarmos preservar o nosso afeto, em situações semelhantes, lhe tolhemos a liberdade. 
Estabelecemos regras rígidas de alimentação, de acomodação, de horários, do que pode ou não fazer. 
Não nos preocupamos em perguntar: 
-O que gostaria de fazer hoje? Quem sabe estar conosco à mesa? Gostaria que contatássemos algum amigo em especial para o vir visitar? Que podemos fazer para que você sinta que o amamos intensamente mas que não o desejamos sufocar com nosso amor? 
* * * 
O maior amor é aquele que renuncia em benefício do ser amado. 
Saibamos dosar nossos cuidados, não retirando a liberdade de quem pode estar idoso ou enfermo, mas está lúcido e prezaria tomar suas próprias decisões. 
A alegria se faz de pequenas coisas. 
Não retiremos isso de quem amamos. 
Redação do Momento Espírita. 
Em 24.03.2025

sexta-feira, 22 de maio de 2026

NA HORA MAIS AMARGA!

José Couto Ferraz
Ela é assim. 
Chega quando se está no auge da alegria, quando os planos são muitos e se espera o jamais alcançado. 
Chega e derruba sonhos, destrói prazeres idealizados, consome de dor os que permanecem. 
Conta a atriz Helen Hayes a sua inconformação com a morte de sua filha, de apenas dezenove anos de idade, levada por um ataque de poliomielite. 
-Por quê? – Gritava seu coração. Minha filha era jovem e inocente, por que razão ser levada desta forma, às vésperas de sua estreia na carreira teatral, em nova Iorque? 
Ela própria, envolta em luto, abandonou a carreira artística.
Como poderia criar beleza nos palcos, se estava morta por dentro? 
Passou a recusar compromissos sociais e profissionais, limitando-se a receber as pessoas mais íntimas da família.
Tentou encontrar Deus, na literatura. 
Leu São Tomás de Aquino, a vida e a obra de Gandhi, a Bíblia. Tudo, porém, sem êxito algum. 
Sua filha estava morta e ela só conseguia ver sombras espessas no mundo, na sua vida. 
Mas, Deus tem formas estranhas de informar da Sua existência e socorrer Seus filhos. 
Então, um tal Isaac Frantz começou a telefonar, diariamente, para sua casa, tentando lhe falar. 
Helen jamais o atendeu. 
Finalmente, como ele não desistisse, ela concordou em recebê-lo em sua casa. 
Ele chegou, com a esposa. 
E foi no início do diálogo que a atriz entendeu o motivo da visita do casal. 
A ideia fora do senhor Isaac, inclusive, sem o conhecimento da esposa, que ficara apavorada ao saber do compromisso.
Contudo, comparecera, considerando que o marido tivera tanta dificuldade para marcar aquele encontro. 
O que surpreendeu Helen foi a espontaneidade com que a visitante começou a falar do filho, desencarnado, há pouco tempo, vítima de paralisia infantil. 
Subitamente, percebeu que ela mesma estava mencionando o nome de sua filha, o que não havia feito desde a sua morte. 
E isso, emocionalmente, aliviara o seu coração. 
Entretanto, o que a escandalizou foi ouvir a visitante lhe dizer que tinha intenção de adotar um órfão de Israel. 
A senhora Frantz, delicadamente, lhe disse: 
-A senhora está pensando que esse órfão irá tomar o lugar do meu filho? Isso jamais poderá acontecer. No entanto, ainda há amor no meu coração e não desejo que esse sentimento se perca por falta de uso. Não posso morrer, emocionalmente, porque meu filho morreu biologicamente. Não devo amar menos por ter desaparecido fisicamente o afeto do coração. Devo amar ainda mais, porque o meu coração conhece o sofrimento dos que perderam o seu ente querido. 
Quando o casal se despediu, concluída a visita, Helen compreendeu porque não encontrara Deus anteriormente. 
É que ele, o Deus-amor, não está nas páginas de um livro. 
Ele reside no coração humano. 
Também reconheceu que Deus a ninguém privilegia. 
Pessoas famosas ou quase anônimas, todas são iguais, perante o Seu amor e a Sua justiça. 
* * * 
Na hora mais amarga, serão a resignação dinâmica e a busca de Deus que poderão aplacar a dor e estabelecer novas diretrizes para a continuidade da vida. 
Afinal, a aurora se faz extraordinária, explodindo em cores, a cada dia. 
E nos convida a amar, a não permitir que esse sentimento seque em nossa intimidade. 
Porque Deus é amor, por amor nos criou e nos sustenta.
Redação do Momento Espírita, com base no artigo Desencarnação de um ente querido, de José Couto Ferraz, da RevistaPresença Espírita nº 317, de novembro/dezembro 2016, ed. LEAL. 
Em 10.03.2017