sábado, 17 de outubro de 2026

NECESSIDADE DE PERDOAR

Imaginemos a seguinte situação: uma criança é mandada para a escola e seus pais não admitem que ela erre. 
Exigem sempre a nota máxima e a perfeição nas ações e no aprendizado. 
Não concordam, em hipótese alguma, que seu filho possa errar. 
E fazem cobranças intensas e constantes a esse respeito.
Vendo tal situação, o que pensaríamos? 
Fatalmente não concordaríamos com atitude tão drástica. 
Ao educarmos, percebemos que o erro faz parte do processo de aprendizagem, permitindo a reflexão, a análise e o refazer da ação. 
Dessa forma, qualquer um que não tenha a possibilidade de errar, encontraria grandes dificuldades em aprender. 
Não que devamos ser permissivos com o erro, mas entendendo-o como processo natural de aprendizagem. 
* * * 
Assim como a criança na escola, estamos todos nós sob constante aprendizado em nossa vida. 
Não somos desafiados apenas intelectualmente, mas temos, em grande monta, lições de aprendizado emocional e moral.
Lições especialmente concretizadas nas oportunidades de relacionamento humano. 
Quando nos dispomos a nos relacionar, estamos nos oportunizando o aprendizado de novos valores e capacidades pessoais. 
É natural que essa vida de relação, a vida em sociedade, apresente dificuldades e problemas. 
Afinal, todos estamos aprendendo. 
Portanto, não podemos esperar dos outros que, a todo momento e em toda situação, ajam da melhor forma possível, da maneira mais adequada. 
Eles agirão conforme os valores e capacidades adquiridas ou que desenvolveram no seu mundo íntimo. 
Dessa forma analisando, percebemos que todos somos factíveis a erros e tropeços no relacionamento com o próximo; que esses erros são naturais no processo de aprendizado.
Afinal, é compreensível que pessoas ainda imperfeitas, nas suas capacidades e valores, gerem relacionamentos imperfeitos. 
Então, ao nos depararmos com essa ou aquela pessoa agindo de maneira equivocada, posicionando-se de um modo que não concordamos, não podemos esquecer que ela também está aprendendo. 
Cada um de nós oferece aquilo que dispõe em seu mundo interior, nada além disso. 
Por isso, se alguém agiu de maneira errônea conosco, pensemos sobre a possibilidade de perdão. 
Muitos de nossos erros não são nem pautados na maldade, mas apenas na limitação de nossas capacidades. 
Ao olharmos o próximo com essa compreensão, ao utilizarmos as lentes da benevolência para com ele, estaremos construindo um atalho para o entendimento que nos levará mais facilmente ao perdão. 
Aquele que hoje erra, amanhã, inevitavelmente, arcará com suas ações. 
Por outro lado, quem perdoa, evitará carregar pesado fardo ao longo de seu caminhar. 
Afinal, o coração que não sabe perdoar, sempre estará pesado. 
Colecionará mágoas, frases mal colocadas, situações problemáticas, ações infelizes, que nada contribuirão para sua felicidade. 
Ao perdoar, tudo isso sairá de nosso coração, abrindo espaço para sentimentos e valores mais nobres, valiosos e úteis, para o aprendizado de que nós mesmos temos necessidade.
Pensemos nisso. 
Redação do Momento Espírita. 
Em 21.02.2013.

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

PODEMOS CHORAR

Pâmela Magalhães
Numa sessão de terapia o paciente confessa sua incapacidade de chorar. 
Ele associa o choro à fraqueza. 
Tem medo de se mostrar frágil diante das pessoas.
A resposta da terapeuta é de uma doçura extraordinária, lembrando-o de que todos somos vulneráveis e que essa vulnerabilidade é transformadora. 
Quando choramos é como se a nossa emoção abraçasse a do outro, tornando-nos mais fortes porque, no encontro dessas águas, nos transformamos em oceano. 
O choro é o que hidrata a alma, mostrando que somos fortes o suficiente para olhar aquilo que nos toca, reconhecer o sentimento e perceber que o que mexe conosco nos mistura com o melhor de nós mesmos.
Isso nos fala um pouco sobre o ego iludido, essa tendência humana de usar máscaras sociais para esconder conflitos internos e aparentar uma felicidade que não corresponde à nossa verdade. 
Construímos uma fachada de bem-estar com bases muito instáveis, e quando essa estrutura desmorona, o resultado são angústias reprimidas e uma agressividade que transferimos para os outros. 
Mascaramos nossas inseguranças fiscalizando rigidamente a conduta alheia ou racionalizando demais os nossos erros.
Esse comportamento cobra um preço altíssimo da nossa saúde. 
Como adverte um benfeitor espiritual: 
-A saúde procede da harmonia mental, orgânica e do ajustamento social. 
Constituído pela energia do Espírito, qualquer distonia que nos perturbe abre caminho para enfermidades no corpo físico.
Escravos da mente, transitamos do cárcere à liberdade conforme direcionamos nossas energias. 
A insegurança gera medo e ansiedade, que, muitas vezes, confundimos com as ambições do ego. 
A angústia cultivada é semelhante a uma espessa carga tóxica que aspiramos lentamente, envenenando o coração com tristeza injustificável. 
O rancor acumulado vira um verdadeiro entulho psíquico que causa profundos danos emocionais. 
A vida impõe a necessidade de uma catarse libertadora para eliminar as sequelas do insucesso e limpar a nossa mente. 
O choro genuíno é essa catarse natural que hidrata a alma e nos purifica por dentro. 
Se desejamos conquistar o equilíbrio real, precisamos ter a coragem de abandonar a postura de juiz da vida alheia e deixar cair as nossas próprias defesas. 
Só nos sentimos verdadeiramente bem ao lado de pessoas que nos conhecem de fato, o que exige a coragem de nos permitirmos ser vistos com nossas fragilidades, erros e imperfeições. 
Portanto, nos permitamos retirar as máscaras e dobrar as armaduras do orgulho. 
Choremos sem medo quando a nossa emoção for tocada. Choremos de alegria quando nos sentirmos assim. Choremos quando uma lembrança significativa tocar os sentimentos. Choremos de tristeza e nos permitamos momentos a sós com nossas lágrimas. 
Evitemos as expressões: 
-Você não precisa chorar! Ou, não chore! 
Quando estivermos acolhendo a dor de alguém. 
Permitamos que o outro se expresse no choro e comecemos a perceber como esse hábito é saudável e natural. 
Podemos chorar... Aprendamos com as nossas emoções, com nossas alegrias e dores e reconquistemos a verdadeira saúde espiritual.
Redação do Momento Espírita com base em vídeo de Pamela Magalhães (@psipamela), no cap. 7 do livro O ser consciente e no cap. 17, do livro Momentos de saúde, ambos do Espírito Joanna de Ângelis, psicografia de Divaldo Pereira Franco, ed. LEAL. 
Em 15.10.2026

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

NECESSIDADE DE ORAR

AMÉLIA RODRIGUES(Espírito)
DIVALDO PEREIRA FRANCO(+)
A Sua voz, há pouco, terminara de envolver os homens nas esperanças e consolações do soberano código das Bem-aventuranças. 
O odor de santidade e o vigor da sabedoria, decorrentes da Sua magistral lição, ainda envolviam os ouvintes, quando Seus discípulos Dele se acercaram e um deles, comovido, interessado em compreendê-lO, interrogou: 
-Senhor, por que orais tanto? Sempre quando terminadas as tarefas, por que buscais o silêncio e penetrais na oração?
Havia sadia curiosidade no questionamento do discípulo devotado. 
Relanceando o olhar em torno, e aplaudido pela musicalidade da natureza em festa, 
Ele respondeu: 
-A alma tem necessidade da oração, mais do que o corpo tem necessidade de pão. Orar é buscar Deus, pedindo Seu auxílio, para absorver resistências nos Seus recursos divinos. 
O diálogo salutar prosseguiu e, mais à frente, surgiu novo questionamento por parte dos discípulos: 
-Mesmo vós - perguntou novamente o amigo - que sois o caminho para o Pai e o Seu Messias para a humanidade, tendes necessidade de orar? 
A resposta do Mestre foi doce e poética: 
-A chama que ilumina gasta o combustível que a sustenta, e a chuva que irriga o solo retorna à nuvem de onde provém.
* * * 
Jesus, a chama maior que já esteve entre nós, compreendia com perfeição a necessidade da conversa com o Criador, a necessidade deste contato constante com as esferas superiores. 
A prece é o alimento do Espírito, desse ser imortal criado por amor e para amar. 
A sintonia com as regiões mais elevadas nos confere novas energias, novo combustível, envolvendo-nos em vibrações de ânimo, de consolo, fazendo-nos mais fortes para enfrentar os nossos dias. 
No ato de louvor devemos expressar carinho e reconhecimento, fluindo de nosso ser, de modo a produzir uma sintonia, mediante a qual transmitimos os sentimentos de exaltação do bem. 
Quando pedimos, devemos colocar a Deus as reais necessidades de nossa alma, de modo que as solicitações não constituam uma imposição apaixonada, ou um capricho que não merece consideração. 
E, finalmente, quando confiamos e agradecemos, é necessário o nosso reconhecimento por tudo aquilo que recebemos, muitas vezes até sem perceber. 
Confiar na sabedoria Divina, em Seus desígnios, faz com que tenhamos fé, esta certeza íntima de que tudo sempre acontecerá para o nosso bem e que, no comando das Leis, da justiça do Universo, está o Pai soberanamente justo e bom. 
* * * 
Quando feitas de coração, todas as nossas preces recebem resposta. Raramente percebemos, mas a Providência Divina tem formas muito diversas de entrar em contato conosco. 
A resposta que buscamos pode estar na conversa com um amigo, nas linhas de um livro que manuseamos por acaso, nas lições de uma palestra, nos relatos trazidos por um filme, nos sonhos à primeira vista incompreensíveis, nas coincidências da vida que nos fazem parar por alguns instantes para pensar. 
Deus, como Pai amoroso, jamais deixaria Seus filhos sem respostas. 
Redação do Momento Espírita, com base no cap. 17, do livro Trigo de Deus, pelo Espírito Amélia Rodrigues, psicografia de Divaldo Pereira Franco, ed. Leal.
Em 28.09.2011.

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

ARMAS INVISÍVEIS

Ao analisar a guerra, os benfeitores espirituais estabelecem, respondendo às indagações humanas, que o homem é culpado das crueldades que nela cometa, sendo-lhe também levado em conta o sentimento de humanidade com que proceda.
Estipulam que a crueldade é o instinto de destruição no que tem de pior, porquanto, se, algumas vezes, a destruição constitui uma necessidade, com a crueldade jamais se dá o mesmo. 
Ela resulta sempre de uma natureza má. 
Quando pensamos em crueldade, é comum que a nossa mente viaje, quase de imediato, para os cenários desoladores dos grandes campos de batalha. 
Imaginamos as bombas, a crueldade física imposta ao semelhante sob o pretexto de disputas políticas e de conquistas territoriais. 
Esquecemos que existem outros campos de batalha, silenciosos e invisíveis. 
Eles se encontram no recôndito de nossos lares, nos corredores dos nossos ambientes de trabalho e nas ruas por onde transitamos. 
Nesses espaços, uma nuance da crueldade se veste de roupagens extremamente sutis, porém de uma letalidade devastadora para a alma imortal. 
Ela dilacera os tecidos do Espírito, quando matamos o ideal sagrado que floresce no peito do nosso irmão. 
Tornamo-nos cruéis quando desejamos reduzir o outro a mais absoluta insignificância, roubando-lhe a esperança e apagando o brilho dos olhos sonhadores. 
Agimos cruelmente quando enfatizamos a alguém, com a lâmina fria da nossa indiferença, que ele não é importante.
Quando as nossas atitudes demonstram cabalmente que o seu esforço diário, as suas lutas invisíveis e a sua própria existência não possuem qualquer significado. 
Decretamos, no tribunal do nosso egoísmo, que aquela vida não tem nenhum valor. 
É de crueldade dolorosa responder com distanciamento e frieza às indagações de quem nos procura em busca de um norte, de uma orientação ou de um mínimo de atenção. 
Deixar alguém falando sozinho, relegá-lo ao vazio de um aposento ou à invisibilidade social, é expressar-lhe todo o seu desvalor. 
O silêncio, quando utilizado como arma de punição ou de desprezo, é um dos mais perversos algozes da humanidade.
Esse silêncio gélido e calculado tem o terrível condão de destruir a vontade de servir do nosso semelhante, não importa onde ele esteja inserido. 
Ao negarmos reconhecimento, um sorriso ou a mais simples das respostas, nós o asfixiamos emocionalmente. 
* * * 
Quantos corações caminham ao nosso lado, arrastando-se nesses campos de batalha diários, feridos pela nossa brutal indiferença? 
Quantos ideais nobres foram precocemente sepultados na vala comum do desprezo? 
Reflitamos, com honestidade e brandura, sobre as armas invisíveis que temos empunhado em nossas relações afetivas e sociais. 
O Cristo, nosso Modelo e Guia, nunca foi indiferente a ninguém. 
Para Ele, não havia dor insignificante nem criatura humana invisível. 
Que possamos desarmar os nossos corações. 
Que façamos de nossa presença um oásis de acolhimento luminoso, lembrando que a maior e mais bela vitória que podemos conquistar é o resgate da dignidade do outro através da força inesgotável do amor. 
Redação do Momento espírita, com base em O Livro dos Espíritos, pt. 3, cap. VI, q. 749 e 752, ed. FEB.
Em 13.10.2026

terça-feira, 13 de outubro de 2026

QUANDO SANGRA O CORAÇÃO

Há dores que não deixam marcas visíveis na pele, mas que ferem profundamente a alma. 
O que fazer quando sangra o coração, pela cortante indiferença? 
Quando sintamos ameaçadas nossas forças, lembremos dos heróis da humanidade. 
Aqueles que travam as verdadeiras batalhas no bem possuem um código de honra inquebrantável: toda pessoa é importante.
Nos resgates heroicos, nos cenários onde a vida corre perigo, o verdadeiro soldado sabe que não se deixa para trás um companheiro ferido. 
Se os homens de bem na Terra já compreendem essa fraternidade, o que dirá o Governador de nossas almas?
Busquemos inspiração no Mestre de Nazaré. Jesus, o maior líder e psicólogo que a Terra já conheceu, deixou-nos a diretriz insuperável: 
-Amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei. 
Ele amou sem exclusões, sem cancelamentos. Jamais relegou alguém ao abandono. 
Recordemos Judas Iscariotes. 
O discípulo invigilante, iludido pelas sombras, entregou o Mestre. 
Contudo, tão logo Jesus despertou de Sua agonia no madeiro, desceu às zonas de profundo sofrimento no mundo invisível para buscar o amigo transviado. 
Envolveu-o em compaixão, amparando-o em seu desespero e propôs-lhe a bendita reabilitação pelo seu engano, através de novas oportunidades de serviço. 
Pensemos em Simão Pedro. 
O pescador, amedrontado, negou Jesus três vezes. 
Mas o Cristo não o ignorou. 
Ao retornar, vitorioso sobre a morte, o procurou.
Não cobrou, não humilhou. 
Apenas perguntou sobre seu amor e reafirmou sua confiança:
-Apascenta as minhas ovelhas. 
Pedro, doravante, seria o valoroso condutor daquelas almas, a rocha viva na qual se apoiaria a Boa Nova. 
Alarguemos ainda mais a nossa reflexão, buscando na figura emblemática de Saulo de Tarso o ápice dessa divina pedagogia. 
Saulo era o algoz, o perseguidor implacável dos primeiros seguidores do Cristo. 
Respirando ameaças, arrastava homens e mulheres para as prisões, semeando o pranto e o terror. 
Aos olhos humanos, ele seria o candidato perfeito para ser banido e definitivamente excluído. 
Mas, como agiu o Amor que não desampara? 
Em um dia radioso, nas estradas poeirentas que levavam a Damasco, o Cristo o buscou. 
Nimbado de luz ofuscante, Jesus não enviou emissários. 
Foi pessoalmente ao encontro daquele coração equivocado.
Ao envolvê-lo em Sua claridade magnânima, o Mestre resgatou Saulo das trevas do próprio orgulho, reconduzindo-o para a grande e sublime tarefa para a qual ele, de fato, renascera: espalhar o Evangelho pelo mundo. 
Aquele que transformou o perseguidor em apóstolo é o mesmo que hoje acolhe as lágrimas de qualquer coração ferido garantindo que, no reino de Deus, todo trabalhador é precioso, por menor seja a sua tarefa, na grandiosidade do mundo. 
Onde os homens erguem muros de silêncio, a Providência Divina constrói pontes de misericórdia. 
Continuemos oferecendo o nosso melhor. 
Ninguém que caminhe fazendo o bem tem retirado seu nome do livro dos céus, que registra os benfeitores anônimos a fim de que, quando alguém precise de apoio, seja acionado para o socorro que se faz necessário. 
Redação do Momento Espírita 
Em 12.10.2026

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Um dia de criança

-O dente caiu! O dente caiu! 
Foi assim durante todo o trajeto. 
A criança, no banco detrás de onde nos encontrávamos, no ônibus urbano, ia cantando pelo caminho. 
Repetia a frase e a cada vez em uma escala acima ou abaixo da anterior.
Ficamos a imaginar que ela deveria ter perdido o dente de leite e isso lhe constituía algo inusitado. 
Talvez os pais lhe tivessem prometido algo, como por vezes ocorre. 
Talvez a família tivesse comemorado o fato, por atestar que ela estava amadurecendo, no natural processo de substituição da primeira dentição. 
Fosse porque fosse, ficamos a imaginar como para a criança tudo é extremamente importante. 
Parece que quando nos tornamos adultos, vamos perdendo essa capacidade de dar importância para pequenas coisas.
Como adultos, reclamamos quando a chuva cai e precisamos sair para o trabalho, para os afazeres do cotidiano. 
A criança sai conosco e vai procurando todas as poças possíveis para bater os pés, adorando ver a água salpicar.
Não se importa se os respingos lhe molharão a roupa, sujarão a barra da calça. 
O que importa é se divertir, até o ponto de cantar, anunciando: -Eu vou pular nesta daqui. 
-E nesta aqui também. 
Adultos saímos à rua e nossos pensamentos nos precedem.
Vamos pensando no que precisamos fazer, no que temos que dizer, no que precisamos providenciar. 
Criança a caminho da escola vai olhando tudo, cada detalhe e o que mais se ouve é: 
-Olha, mãe! Pai, olha lá! 
Quanta coisa perdemos esquecendo de observar detalhes do nosso entorno.
Não vemos a flor que desabrochou, o beija-flor que dança entre os canteiros floridos, o andar displicente do sabiá nas alamedas... 
Nem percebemos que a rua ficou mais alegre porque o vizinho providenciou colorido novo na casa. 
E outro, mais acima, podou artisticamente os arbustos. 
Nós estamos preocupados com as contas a pagar, com o saldo bancário, com as compras a fazer, com os fornecedores que não atendem nossa demanda. 
A criança quer saber quantas pedrinhas encontrará pelo caminho para chutar, se conseguirá chutar para mais longe cada uma delas... 
Vidas despreocupadas. Vidas da infância. 
Período de repouso para o Espírito, ensinam os luminares da Espiritualidade. 
Verdade: nós adultos temos muitos compromissos, muitos deveres. 
Mas, vez ou outra, seria salutar que lembrássemos que fomos criança um dia e lembrássemos das tantas pequenas grandes coisas que faziam nossa felicidade. 
E reprisar algumas delas, enriquecendo-nos com o ouro de um dia de sol, os raios prateados da lua, o brilho exuberante das estrelas. 
Lembrarmos de nos encantarmos com uma clara noite de luar, uma noite quente de verão, os minúsculos grãos de areia da praia. 
Determo-nos para escutar o rugido do mar, o estrondo do trovão e o doce pipilar das avezitas na árvore em frente à nossa casa. 
Coisas pequenas. 
Coisas grandes. 
Coisas que fazem a grande diferença entre um dia insípido, sem graça alguma e um dia cheio de cor, som e alegria. 
Um dia de monotonia. 
Ou um dia de trabalho prazeroso, de contatos amistosos, de intenso viver. 
Permitamo-nos reviver, por vezes, as alegrias da infância descontraída e despreocupada. 
Com certeza, haveremos de querer repetir e repetir. 
E nos sentiremos rejuvenescidos, infinitamente gratos a Deus por nossa vida. 
Redação do Momento Espírita. 
Em 08.10.2026

domingo, 11 de outubro de 2026

NECESSIDADE DE AFETO

Mitch Albom
Morrie era um garoto de apenas oito anos. 
Seu pai era de origem russa e não sabia falar inglês. 
Por isso, quando chegou o telegrama, noticiando a morte da mãe, foi o próprio garoto quem leu. 
No cemitério, ele ficou olhando jogarem terra sobre o caixão de sua mãe e acreditou que nunca mais seria feliz sobre a face da Terra. 
Nos dias que se seguiram, para aliviar a saudade, ele procurava lembrar os doces momentos de ternura que tivera com a mãe. 
Eram muito pobres. 
O pai mudou-se para os Estados Unidos fugindo do exército russo e, nem sempre conseguia emprego. 
Por essa razão a família vivia mais da assistência pública do que dos próprios recursos. 
Depois da morte da mãe, o pequeno núcleo familiar se transferiu para uma região de muita mata. 
Durante o dia o garoto e seu irmão se divertiam a correr.
Quando chegava a noite, Morrie ficava olhando para o pai, esperando que ele o acariciasse. 
Mas o homem rude não manifestava qualquer gesto de afeto. Morrie se sentia muito só. 
Sentia grande falta do carinho da mãe. 
Um ano depois, com apenas nove anos de idade, já se sentia um velho. 
Parecia carregar o peso do mundo nos ombros. 
Então, uma imigrante romena, de feições singelas, se casou com seu pai. 
Foi o abraço salvador para o pequeno. 
Era uma mulher de muita energia. 
Tinha uma aura que aquecia o lar. 
Se o marido produzia uma atmosfera cinza, ela transformava em claridade. 
Se ele fazia silêncio, ela falava. 
À noite, cantava para os meninos com sua voz suave, que durante o dia sabia ministrar lições. 
Ela cantava músicas pobres e tristes, mas os acalentava. 
Eva era o seu nome e desejava boa noite aos dois com um beijo para cada um. 
Era um momento mágico para Morrie. 
Ele ficava esperando aquele beijo como um pequenino animal espera o seu prato de alimento. 
A presença de Eva lhe dizia que ele tinha uma mãe de novo.
Muitas vezes o único alimento que tinham era o pão. 
Mesmo assim, ela o ensinou a amar o estudo e a se preocupar com os outros. 
Eva considerava a instrução o único antídoto contra a pobreza. 
Ela aprimorava seu inglês, estudando com dedicação, à noite, enquanto os garotos, sentados à mesa da cozinha, também estudavam. 
Morrie cresceu e se tornou professor. 
Setenta anos depois, ao recordar do telegrama noticiando a morte de sua mãe, ainda sentia doer o coração, mas a lembrança de Eva lhe trazia de volta evocações ternas e doces de um tempo em que um menino, assustado e carente de afeto, encontrou um colo de mãe para se aninhar e crescer em segurança. 
* * * 
Os Espíritos nos dizem que Deus permite que haja órfãos, para que lhes sirvamos de pais. 
Amparar essas criaturinhas, evitando que sofram fome e frio e lhes dirigir a alma, para que não despenquem no vício, é caridade. 
No entanto, o mais precioso de todos os benefícios é o do amor. 
Nada que possa substituir uma carícia, um sorriso amistoso, uma palavra de carinho. 
Por isso, à criança que nos olha, além de pão e agasalho, ofertemos a proteção do nosso abraço e a música da nossa voz, dizendo-lhe: 
-Gosto muito de você. 
Redação do Momento Espírita, com base no cap. O professor, do livro A última grande lição, de Mitch Albom, ed. Sextante e no item 18, do cap. XVIII do livro O Evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, ed. Feb. 
Em 21.01.2012.