domingo, 12 de julho de 2026

TRANSFORMANDO O CAOS EM ESPERANÇA

Lucie Aubrac
A cidade de Lyon, na França, guarda em suas pedras milenares a memória de quem sabe o que significa resistir.
Conhecida historicamente como a terra dos mártires, em 1943, ela se viu mergulhada em um dos períodos mais sombrios da alma humana. 
Sob o jugo da ocupação nazista, ela se transformou em um tabuleiro de sombras. 
Cada esquina, cada café e cada prédio pareciam vigiados por olhos invisíveis. 
O terror tinha um nome: Klaus Barbie, o carniceiro de Lyon. 
E uma sede: o Hotel Terminus, onde interrogatórios brutais silenciavam vozes para sempre. 
Foi nessa ambiência de medo, incertezas e dor que uma mulher se dispôs a alterar o rumo de algumas vidas. 
Lucie Aubrac era professora de História. 
Seu marido, Raymond, engenheiro. 
Aos olhos do mundo, um casal comum. 
Na intimidade do dever cívico, eram pilares da resistência francesa. 
Em junho de 1943, o véu da segurança rompeu-se: Raymond foi preso e levado para a temida prisão de Montluc.
Condenado à morte.
Grávida de cinco meses, Lucie não se permitiu o luxo do desespero. 
Recusou-se a aceitar o inevitável. 
Sozinha, ela atravessou as portas do Hotel Terminus e sentou-se diante de um dos torturadores mais temidos da Europa.
Dizendo-se uma noiva desesperada, alegou que precisava casar com o prisioneiro antes de sua execução para que seu filho tivesse o nome do pai e para salvar sua honra. 
O carrasco cedeu. 
A cerimônia de casamento era, na verdade, o gatilho para uma operação de resgate meticulosamente planejada. 
No dia 21 de outubro de 1943, após o breve encontro nupcial, o comando organizado por ela interceptou o comboio que reconduzia detidos à prisão. 
Em meio ao fogo cruzado e à neutralização dos guardas alemães, não apenas Raymond, mas outros treze prisioneiros foram arrancados das garras da morte e levados para a segurança. 
Uma única pessoa, agindo com inteligência e coragem, mudou a trajetória de catorze famílias e fortaleceu o espírito de uma resistência que se recusava a morrer. 
Após a emboscada, a família Aubrac conseguiu chegar a Londres, onde o seu segundo filho teve como padrinho Charles de Gaulle. 
* * * 
Diante das tempestades que assolam o mundo e das sombras que, por vezes, parecem obscurecer o horizonte da Humanidade, é comum sermos assaltados por um sentimento de profunda pequenez. 
Olhamos ao redor e nos questionamos: 
-O que pode um único coração fazer diante de tamanha desordem? 
A história que acabamos de percorrer nos recorda que, embora não possamos mudar o mundo inteiro, detemos o poder de mudar o mundo de alguém. 
Ou de plantar a semente que alterará o curso de uma vida.
Todos carregamos essa centelha transformadora. 
A noite escura que parece sufocar a última réstia de fé pode se tornar aquela que precede o espetáculo do sol que renasce. 
A aurora não pede licença para brilhar. 
Sejamos alvorada no panorama de sombras. 
Afinal, um único coração fiel ao bem é capaz de redirecionar o destino de uma ou de várias vidas. 
Redação do Momento Espírita, com base em dados biográficos de Lucie Aubrac. 
Em 11.07.2026

sábado, 11 de julho de 2026

NÃO JULGUEIS

Viktor E. Frankl
O Evangelista Mateus anotou, das palavras de Jesus, a grave advertência: 
-Não julgueis, a fim de não serdes julgados; porquanto sereis julgados conforme houverdes julgado os outros. 
Ocorre que, em nossas vidas, de modo geral, julgamos em demasia. 
Alguns de nós chegamos a expressar que nos basta um olhar para saber das qualidades ou dos defeitos das pessoas. 
Em verdade, damos uma olhada superficial e permitimos que o preconceito oriente a nossa apreciação. 
Recordamos que Victor Frankl, psiquiatra austríaco, que ficou prisioneiro em quatro campos de concentração, durante a Segunda Guerra Mundial, escreveu: 
O chefe do campo, no qual estive por último e do qual fui libertado, era um homem da SS. Depois da libertação do campo, descobriu-se algo que até então apenas o médico do campo (também ele prisioneiro) sabia: O chefe do campo cedia, do próprio bolso, quantias significativas de dinheiro para comprar remédios, destinados aos prisioneiros, na farmácia de um mercado próximo. 
A história teve uma continuação: depois da libertação, os prisioneiros judeus esconderam o homem da SS das tropas americanas e explicaram ao comandante que iriam entregá-lo única e exclusivamente com a condição de não lhe tocarem num único fio de cabelo. 
O comandante americano deu sua palavra de honra de oficial e os prisioneiros judeus apresentaram o antigo chefe do campo. 
O comandante americano voltou a nomear o homem da SS como chefe do campo – e o homem da SS organizou coleta de alimentos e de roupas para nós, entre a população dos vilarejos vizinhos. 
Este é um dos tantos exemplos em que, uma apreciação superficial nos diria que aquele homem, das tropas SS, um nazista, somente poderia ser mau, muito mau. 
Contudo, estivesse ali por imposição ou por necessidade imperiosa, o que era certo é que era um homem que, onde se encontrava, fazia o seu melhor. 
Discordava do tratamento dado aos prisioneiros e, às ocultas, buscava suavizar o sofrimento dos doentes daquele campo de concentração. 
Deu mostras, na sequência, da sua vontade de auxiliar e de como se importava com o seu semelhante, fosse ele quem fosse. 
O psiquiatra austríaco ainda conta que, depois da guerra, teve muitos aborrecimentos por defender alguns hitleristas. 
Ele teve a coragem de levantar a voz contra um julgamento generalizado. 
E dizia: 
-Eu sou o prisioneiro número cento e dezenove mil, cento e quatro e isso me permite fazer isso. 
Tenho de fazer. 
As pessoas acreditam em mim, e isso é um dever. 
* * * 
O gesto do psiquiatra de Viena condiz perfeitamente com a advertência de Jesus: Não julgueis. 
Pensemos nisso e, antes de estabelecer juízo de valor de quem quer que seja, nos permitamos o conhecimento prévio, a análise precisa. 
Lembremos de que a História registra as barbáries cometidas por indivíduos, por nações, pelo simples fato de julgarem a priori o seu semelhante. 
Não repitamos esse triste quadro em nossas vidas. 
Sejamos dos que busquem saber um tanto mais antes de julgar pessoas, instituições, doutrinas e pensamentos que surjam no mundo. 
Tenhamos em mente a advertência de quem é o sábio dos sábios: Não julgueis... 
Redação do Momento Espírita, com base no cap. Sobre a culpa coletiva, do livro O que não está escrito no meus livros, de Viktor E. Frankl, ed. É realizações.
Em 25.09.2013

sexta-feira, 10 de julho de 2026

NÃO HÁ MAIS TEMPO A PERDER

Quando paramos para refletir sobre os valores da nossa sociedade atual, vemos as enormes ondas do materialismo em todas as camadas sociais. 
As noções básicas de dignidade foram quase totalmente abandonadas a pretexto de uma falsa liberdade. 
As guerras possibilitam fortunas acumuladas sobre cadáveres de inocentes. 
Falar a respeito de Deus é visto com maus olhos. 
A hipocrisia é maior do que a justiça.
No coração de muitos esfriou o amor. 
Facilmente concluímos que estes são os tempos preditos desde há muito. 
Tempos em que os trabalhadores da última hora são chamados ao labor, sem tardança. 
Em que o joio será separado do trigo, e toda planta que o Pai Celestial não plantou será arrancada e lançada fora. 
Essas imagens fortes nos convidam à reflexão. 
Muitos ainda permanecemos em consciência de sono, nos atendo apenas às nossas funções orgânicas, como o alimento para o corpo, o sono reparador e a satisfação dos prazeres.
Corremos do trabalho para o lazer, e de novo para o trabalho, num círculo vicioso. 
Utilizamos nosso tempo cuidando das coisas que exaltam o nosso ego, esquecendo de cuidar do eu verdadeiro, nosso Espírito imortal. 
Deixamos de levar em conta que, após havermos percorrido nosso tempo na presente vida, somente restará o Espírito que nunca morre. 
É tempo de nos perguntarmos para onde estamos sendo levados, nessa ânsia das coisas materiais. 
Estamos cheios das coisas do mundo e vazios das coisas da Espiritualidade. 
Parecemo-nos com Marta, aquela da passagem evangélica, preocupados em arrumar a casa, preparar o alimento, guardar dinheiro para adquirir mais bens. 
Naturalmente, não estamos sugerindo que abandonemos o trabalho, os quefazeres de nossa responsabilidade. 
Ou que deixemos de viver no mundo e nos isolemos em algum local, longe de todos, em busca da conexão com o Criador. 
Apenas pensemos em nosso viver, que pode até mesmo contemplar as frivolidades de cada dia, mas com um sentimento de pureza que as possa santificar. 
Isso significa darmos sentido à nossa vida. 
Honrar o dia com nosso trabalho, que engrandece o mundo e aprimora nosso intelecto. 
Entretanto, dedicarmos um espaço para pensar na essência que somos, aquela que sobreviverá à transitoriedade das coisas. 
Como recomenda um benfeitor espiritual: impor silêncio aos ciúmes e às discórdias para que não sejamos promotores de desgraças. 
E nos dispormos a realizar alguma coisa em benefício do outro. 
Pode ser algo que alimente ou aqueça o corpo, ou algo que lhe fortaleça a alma.
Nem só de pão vive o homem, disse Jesus. 
E lembramos que o ser humano precisa do pão da alma, do carinho de um irmão, de um abraço afetuoso, para se sentir minimamente feliz. 
Nós mesmos não podemos viver na aridez dos sentimentos, como quem se encontra em um deserto de homens, sem nenhum oásis à vista. 
Não há mais tempo a perder. 
As guerras, as doenças, os desastres naturais, tudo nos convoca, todos os dias, a pensar no amanhã imortal.
Aprontemos nossa bagagem com coisas positivas, ações beneméritas, pacificação interior. 
Redação do Momento Espírita, com base no cap. XX, item 5 de O Evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, ed. FEB. 
Em 09.12.2023.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

NOSSAS INCOERÊNCIAS

RAUL TEIXEIRA
Muitas vezes, em nossas preces silenciosas ou no recolhimento do lar, elevamos o pensamento a Deus com um pedido recorrente: a saúde. 
É comum dizermos que, se o Criador nos conceder o bem-estar do corpo, o restante nós mesmos resolveremos.
Brindados com a saúde do corpo, acreditamos que poderemos trabalhar com honra para o sustento, estudar para iluminar a inteligência e guiar nossos filhos pelas veredas do bem. 
É um discurso bonito e, em sua essência, sincero. 
No entanto, compete-nos considerar se há coerência entre o que pedimos e nosso proceder. 
Por vezes, rogamos pela saúde ao mesmo tempo que agredimos nosso organismo com excessos à mesa ou nos entregando a vícios, como o tabaco, com suas dezenas de itens nocivos. 
Pedimos a bênção do equilíbrio enquanto nos permitimos o uso de alcoólicos que, naturalmente, nos desequilibrarão física e emocionalmente. 
Não raro, criamos problemas que transbordam para o ambiente doméstico, afetando aqueles que amamos por puro descontrole emocional. 
Nosso corpo físico é nosso instrumento precioso de trabalho nesta escola terrena. 
Mais do que isso, trata-se de uma obra-prima da engenharia divina, cedida por empréstimo para que nos alcemos para a luz. 
Quando o prejudicamos, criamos transtornos que poderão ser passageiros ou se instalar como doenças insidiosas. 
Da mesma forma, é habitual pedirmos paz. 
E Deus, em Sua bondade infinita, sempre a envia para nós.
Contudo, a conservação dessa paz em nosso íntimo é tarefa que nos cabe. 
A paz não é um estado estático que recebemos de fora, mas uma construção diária que exige o controle de nossas reações impulsivas, a disciplina de não agir impensadamente. 
Também o cuidado com as palavras agressivas que, uma vez lançadas, semeiam má vontade em nosso caminho. 
Como a toda ação corresponde uma reação de igual intensidade, mesma direção e sentido oposto, se oferecemos ofensas, colheremos, em algum momento, os frutos amargos, reflexo da nossa própria semeadura. 
Jesus, o Mestre por excelência, ensinou-nos que aquele que não é fiel no pouco, não conseguirá ser fiel no muito. 
É de nos indagarmos como poderemos gerir nosso destino se negligenciamos o cuidado com o nosso corpo, com nossas atitudes e com nossas ações mais simples. 
É indispensável um ajuste de rota. 
Precisamos nos libertar do que é supérfluo, daquilo que não promove o nosso bem-estar. 
Antes de nos deixarmos vencer por hábitos destruidores ou por atitudes que esfacelam nossa paz interior, vale o questionamento: 
-Para que isso me serve? 
Ao buscarmos o melhor para nós mesmos através da disciplina e do autocontrole, nossa oração ganhará uma nova força. 
Então, quando suplicarmos por saúde, equilíbrio e paz, a resposta será o suave abraço da Divindade, duplicando e consolidando tudo o que, com esforço e dedicação, estamos ensaiando dentro de nós. 
E seremos, na Terra, o reflexo de um Espírito que compreendeu que viver com equilíbrio é a forma mais bela de dizer: 
-Obrigado, Senhor, pelo dom da vida. 
Redação do Momento Espírita, com base no curta Por que somos incoerentes?, de Raul Teixeira, disponível no @canalfep. 
Em 09.07.2026

quarta-feira, 8 de julho de 2026

NÃO HÁ MAIOR ABISMO QUE O SILÊNCIO

AUGUSTO CURY
Entre pais e filhos não há maior abismo que o silêncio. 
O silêncio da indiferença, do esquecimento, da mágoa...
Silêncios que têm início na infância, talvez até antes do nascimento, quando os pais não consideram que ali, no ventre da mãe, já existe um ser. 
Embora aquele novo corpo físico ainda esteja em elaboração, ligado a ele, desde a concepção, já está o Espírito reencarnante. 
Assim, toda vida psíquica e comportamental da mãe, e também do pai, terá muita influência sobre o feto. 
A alma que regressa não está consciente, mas sente se é querida ou não, se há equilíbrio no lar ou não, se realmente terá um lar ou não... 
Desta forma, é importante conversar, desde esses primeiros momentos, com o bebê que irá nascer. 
Dizer a ele que é amado; que os pais irão preparar um lar onde reinará o carinho, a compreensão; que estão cientes da missão que estão recebendo e vão se esforçar para serem bem sucedidos. 
Os carinhos na barriga, os beijos suaves, as canções de ninar jamais serão esquecidos pelo Espírito, que cada dia se sentirá mais seguro em voltar ao palco terrestre. 
Os estímulos que podemos produzir por vezes são tão fortes, que presenciaremos vários casos em que há resposta.
O bebê se mexe, chuta, dá cambalhotas, como se quisesse dizer alguma coisa. 
Estudos mostram que, depois de nascida, a criança reconhece sons, música e vozes ouvidos no período da gestação. 
Assim, podemos entender que no útero materno não há silêncio, há vida. 
Vida que começou na concepção, e talvez até antes, se considerarmos o planejamento reencarnatório, o encontro com os futuros pais no mundo espiritual, os planos, os sonhos...
Não há espaço para o silêncio na família.
O hábito do diálogo, o hábito de se envolver com a vida do outro, da empatia, começa na gestação. 
Os pais podem iniciar o processo educacional do seu filho ainda no ventre, de modo desajustado ou feliz, pelos tipos e vida íntima que escolham. 
Pelos hábitos sociais e alimentares que adotem, enfim, pelas descargas de vida ou de morte que façam incidir sobre o seu filhinho. 
Conscientes da missão grandiosa que estão recebendo do Criador, os bons pais aproveitarão o período da gestação para darem boas-vindas ao Espírito que volta. 
Sendo um amor do passado, um opositor ou mesmo um estranho naquele núcleo, merece receber os cuidados necessários para que tenha em sua nova vida, todos os recursos para crescer. 
Em sua bagagem vêm muitos planos, muitas dificuldades, mas certamente a vontade de vencer, de acertar e de amar.
Procura amigos que o acolham, que o apóiem em seu novo tentame, e que estejam sempre presentes em sua vida. 
É isso que nos faz filhos e depois pais, que nos une em família, e que propicia que aprendamos a amar, primeiro poucos, para depois amarmos toda a Humanidade. 
No amor, não há lugar para o silêncio... 
* * * 
Bons pais conversam. 
Pais brilhantes dialogam. 
O eminente estudioso Augusto Cury, em uma de suas mais conhecidas obras, afirma que entre conversar e dialogar há um grande vale. 
Conversar é falar sobre o mundo que nos cerca, dialogar é falar sobre o mundo que somos. 
Outro especialista na área, Gardner, explica: 
Dialogar é contar experiências, é segredar o que está oculto no coração, é penetrar além da cortina dos comportamentos, é desenvolver inteligência interpessoal.
Redação do Momento Espírita com citações do livro Pais brilhantes, professores fascinantes, de Augusto Cury, ed. Sextante, 2003. 
Em 24.03.2008.

terça-feira, 7 de julho de 2026

BOTÕES

Possivelmente, você clicou em alguns botões para ouvir esta mensagem. 
Acessou um site, um link, usando o sistema de touch screen.
Aumentou volume, baixou. 
Para isso, teve de utilizar o smartphone, que também foi ligado por um botão. 
Ou um computador pessoal: ligou, clicou aqui, ali e abriu.
Perceba como sua vida é repleta de botões. 
Quantos controles remotos? 
Quantos controles para abrir portão, porta do carro, ligar ar-condicionado, acionar ou desligar alarmes. 
Botão para dar entrada num relógio de ponto. 
Botões e botões. 
Tudo se liga e se desliga, se acessa ou se desconecta por eles.
É uma grande praticidade. 
Tudo, menos você mesmo. 
Já percebeu isso? 
Não possuímos botões. 
Não temos esses sistemas e nunca tivemos. 
Somos outro tipo de máquina, outro tipo de sistema. 
Acontece que nos acostumamos tanto com o mundo do liga/desliga, com o mundo do standby, dos acessos rápidos para isso e aquilo, que muitos de nós começamos a nos tratar assim também. 
Temos certeza de que um dos nossos grandes inimigos é o alarme da manhã. 
Em tempos idos seria um relógio barulhento na cabeceira, treinado para nos acordar na hora marcada. 
Marcada com o compromisso, mas não com o corpo. Paramos para pensar nisso? 
Chegamos a inventar o rádio-relógio, que poderia nos despertar com música ou com um alarme que parecia um aviso de incêndio, de tão assustador. 
Muitos relógios e rádios foram destruídos por pessoas que se revoltavam contra aquela determinação das horas. 
Por que será? 
Porque nosso corpo não tem botões, não é uma máquina com circuitos, com placas, que pode ser simplesmente acordado a tal hora e sentir-se bem. 
Depende de muitos fatores. Passamos a nos tratar como se pudéssemos ser ligados e desligados a qualquer momento.
Deita na cama. 
Aperta o desliga. 
A tal hora, aperta o liga e sai vivendo. 
O corpo cansa. 
Algo que nos ameaça acontece. 
Aperta o botão da fome, da sede, do pequeno descanso. 
E tudo parece seguir funcionando bem. 
Sabemos que não é assim conosco. 
Nosso corpo, ligado diretamente à mente, comandado pelo Espírito, é muito mais complexo e precisa ser respeitado, precisa ser mais bem tratado. 
Precisamos entender como funcionamos. 
Precisamos perceber nosso ritmo e não sermos agressivos conosco mesmo. Ideal seria deixar o corpo acordar sem a utilização de recursos externos, barulhentos, que o colocam em alerta como preparado para o perigo. Ideal prepará-lo igualmente para o sono, reduzindo o ritmo gradualmente ao chegar a noite, cuidando dos hábitos, daquilo que assistimos, daquilo que lemos e com o que nos alimentamos. 
A oração será sempre um recurso precioso nesse preparo.
Não pode ser mais um botão, mas sim uma proposta de higiene da alma, uma transição saudável e lenta entre momentos importantes do dia. 
Pensemos nisso, na próxima vez que apertarmos qualquer botão. 
Quais deles nos fazem bem?
Quais deles estão quase nos escravizando e nos tornando dependentes de algo que não precisamos?
Lembremos: não temos em nós os botões de refletir, pensar, sentir. 
 Pensemos nisso. 
Redação do Momento Espírita 
Em 07.07.2026

segunda-feira, 6 de julho de 2026

LAÇOS DE AFETO

MÁRIO QUINTANA
Do poeta e escritor gaúcho Mário Quintana, encontramos uma preciosidade que fala sobre algo muito simples: um laço.
Escreveu ele: 
"Eu nunca tinha reparado como é curioso um laço... Uma fita... dando voltas. Enrosca-se, mas não se embola. Vira, revira, circula e pronto: está dado o laço. É assim que é o abraço: coração com coração, tudo isso cercado de braço. É assim que é o laço: um abraço no presente, no cabelo, no vestido, em qualquer coisa onde o faço. E quando puxo uma ponta, o que é que acontece? Vai escorregando... devagarzinho, desmancha, desfaz o abraço. Solta o presente, o cabelo, fica solto no vestido. E, na fita, que curioso, não faltou nem um pedaço. Ah, então, é assim o amor, a amizade. Tudo que é sentimento. Como um pedaço de fita. Enrosca, segura um pouquinho, mas pode se desfazer a qualquer hora, deixando livre as duas bandas do laço. Por isso é que se diz: laço afetivo, laço de amizade. E quando alguém briga, então se diz: romperam-se os laços. E saem as duas partes, igual meus pedaços de fita, sem perder nenhum pedaço. Então o amor e a amizade são isso... Não prendem, não escravizam, não apertam, não sufocam. Porque quando vira nó, já deixou de ser um laço! "
* * * 
ANDRÉ LUIZ
E CHICOXAVIER 
Tem toda razão o poeta em sua analogia. 
Amor e amizade são sentimentos altruístas. 
Quem ama somente deseja o bem do ser amado. 
Por isso, não interfere em suas escolhas, em seus desejos. 
Sugere, opina, mas deixa livre o outro para a tomada das próprias decisões.
Quem ama auxilia o amado a atingir seus objetivos. 
Nunca cobra o ofertado, nem exige nada em troca. 
Quem ama não aprisiona o amado, não o algema ao seu lado.
Ama e deixa o amado livre para estender suas asas. 
Assim crescem os dois, pois há espaços para ambos conquistarem. 
Na amizade, não se faz diferente o panorama. 
O verdadeiro amigo não deseja que o outro pense como ele próprio pois reconhece que os pensamentos são criações originais de cada um. 
Entende que o amigo é uma bênção que lhe cabe cultivar e o auxilia a realizar a sua felicidade sem cogitar da sua própria.
Sente-se feliz com o bem daquele a quem devota amizade.
Entende que cada criatura humana é um ser inteligente em transformação e que, por vezes, poderão ocorrer mudanças na forma de pensar, de agir do outro. 
Mudanças que nem sempre estarão na mesma direção das suas próprias escolhas. 
O amigo enxerga defeitos no coração do outro, mas sabe amá-lo e entendê-lo mesmo assim. 
E, se ventos diversos se apresentam, criando distâncias entre ambos, jamais buscará desacreditar ou desmoralizar aquele amigo. 
Tudo isso porque a ventura real da amizade é o bem dos entes queridos. 
Um laço que ata... 
Um laço que se desata.. 
Aqueles a quem oferecemos o coração, poderão se distanciar, buscar outros caminhos, atravessar outras fronteiras. 
Eles têm o direito de assim proceder, se o desejarem. 
De nossa parte, lembremos da leveza do laço e cuidemos para que não se transforme em nó, que prende e retém. 
Redação do Momento Espírita, com base em versos do poeta Mário Quintana e no cap. 12, do livro Sinal verde, pelo Espírito André Luiz, psicografia de Francisco Cândido Xavier, ed. CEC.
Em 06.07.2026