segunda-feira, 14 de março de 2016

O CAMINHO

Diante do turbilhão de problemas e conflitos, aturdidos, receosos e a um passo do desequilíbrio, perguntamos a nós mesmos: Que caminho seguir? Qual a conduta a adotar? Certamente todo empreendimento deve ser precedido de uma planificação, de um roteiro de programa. Sem esses fatores, o comportamento faz-se anárquico, e o trabalho se dirige à desordem. A experiência carnal é uma viagem que o Espírito empreende com objetivos definidos pela Divindade, que a todos reserva a perfeição. Como alcançá-la, e em quanto tempo, depende de cada viajor. Assim, vários são os caminhos e cada indivíduo toma o que eleger, pela sua livre vontade. Há caminhos que conduzem a despenhadeiros, a desertos, a pantanais, a regiões perigosas. Outros são convidativos e repletos de distrações, prazeres, comodidades, armadilhas. Uns levam à ruína demorada, que envilece e infelicita. Vários dão acesso à glória transitória, ao poder arbitrário, às regalias que o túmulo interrompe. A afirmação de Jesus, porém, não deixa dúvidas: Eu sou o caminho. Portanto, a única opção para chegar-se a Deus. Se você se encontra diante de várias opções de caminhos, sem saber qual deles tomar, reflita sobre a proposta de Jesus. Pense que o caminho que eleger agora, será decisivo para a conquista da sua felicidade ou infelicidade. Há caminhos aparentemente fáceis de percorrer, até que nos deparemos com os precipícios a que eles conduzem. E há os caminhos que, em princípio, nos parecem longos e cheios de espinhos, mas que nos levam a um lugar seguro, onde a esperança habita. Se optamos pelo caminho da corrupção, da vileza, do descaso, da indiferença, da injustiça, chegaremos facilmente ao vazio, ao desespero, ao tédio. Mas se tomamos o caminho da honestidade, da dignidade, da honradez, chegaremos, com segurança, ao porto da consciência tranquila. Se elegemos o caminho da discórdia, da intriga, da incompreensão, da infidelidade, aportaremos no cais da solidão. Mas se seguimos o caminho da amizade, da sinceridade, da lealdade, do perdão, conheceremos o oásis de um coração pleno de afeto. Lembremo-nos de que há caminhos e caminhos... E que, nem sempre os que parecem mais curtos nos levam a destinos seguros e promissores, do ponto de vista espiritual. 
Se você elegeu o caminho que conduz à felicidade e se encontra a ponto de desistir da luta, busque forças em Jesus, através da oração. Se há obstáculos no trecho, peça a Deus que o ajude a superá-los. Se os pés estão feridos e as mãos cansadas, rogue o amparo do Alto, que nunca nos falta nas horas difíceis. E antes de pensar em tomar os caminhos aparentemente mais fáceis, lembre-se de que o Mestre falou a respeito da porta estreita, e prossiga sem esmorecimento... Pense nisso! 
Redação do Momento Espírita com base no cap. 6 do livro Momentos enriquecedores, pelo Espírito Joanna de Ângelis, psicografia de Divaldo Pereira Franco, ed. Leal. Em 07.12.2009.

domingo, 13 de março de 2016

CAMINHÃO DE MUDANÇA

Dia desses vi um caminhão de mudança. Não era desses bonitos, carroceria fechada, dos quais somente se sabe que serve para fazer transporte de móveis porque está com uma enorme logomarca da empresa que o identifica. Era um caminhão de carroceria aberta. E estava cheio de armários, cama, mesa, cadeiras, fogão, um sofá vermelho desbotado. Entre os móveis, panos separando uns dos outros, a título de proteção. Não estragar o que já era tão velho, tão antigo, tão usado. Alguns desses panos tremulavam ao vento, imitando bandeiras amarelas, vermelhas, brancas. Feito uma lona, um tapete velho estava jogado sobre parte da mudança, como se pudesse cobri-la. Mas, a carroceria baixa, de madeira, com os flancos descobertos, deixava à mostra toda a intimidade dos objetos de uso. Um colchão estava no topo da carga. À medida que o caminhão avançava pelas ruas asfaltadas, o colchão balançava e permitia ver que estava marcado, demonstrando muito uso. Sol do meio-dia. O caminhão prossegue no seu rumo. Cordas enviesadas amarram aqueles pertences, conteúdo de algumas vidas. A impressão que se tem é de que o dono da mudança pede desculpas, à medida em que o veículo passa, por enfear as ruas elegantes do bairro nobre pelo qual transita, em direção à periferia. Perguntas ficam no ar. O que fez com que o dono dessa mudança esteja trocando de endereço? Terá sido despejado? Terá ocorrido uma separação do casal e os bens estão sendo divididos? Será uma família que se está transferindo para uma nova vizinhança? Será ou não bem aceita nesse novo local para onde se dirige? As crianças estarão deixando amigos? Existe uma família ou o dono da mudança vai morar só? As respostas bailam na imaginação dos passantes. Verdade é que aqueles poucos móveis registram histórias de pessoas comuns, pessoas lutadoras, pessoas que fazem planos, pessoas que tiveram seus planos destroçados, pessoas que acreditam ou talvez pessoas que tenham perdido toda esperança. 
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Noeval de Quadros
Um caminhão de mudanças, alguns móveis... E quantas perguntas... Quanto a nossa imaginação se agita, pensando no que cada uma daquelas peças representa na vida de uma ou de várias pessoas. E, por fim, pensamos que talvez, o dono daqueles objetos possa ter partido para a Espiritualidade e a casa onde morava foi esvaziada. E tudo o que representou o seu tesouro na Terra está ali, na carroceria daquele caminhão. Então, nos acode à mente de como somos frágeis e passageiros. Hoje estamos aqui e amanhã poderemos estar em outra dimensão. E tudo de que nos servimos, o que se constituiu nossa propriedade ficará por aqui, para ser levado para algum lugar, para servir a outras pessoas, ou simplesmente ser descartado. De nós, no mundo, somente restarão as lembranças do que fomos e do que fizemos, do amor que cultivamos nos corações, dos benefícios que produzimos, das vidas que influenciamos. E seremos Espíritos livres, numa outra realidade, empreendendo nova jornada para a continuidade do progresso até a perfeição. Pensemos nisso e utilizemos os bens materiais com a sabedoria de quem tem certeza de que eles são apenas empréstimos temporários. Sirvamo-nos deles mas treinemos desapego porque nós somos passageiros em trânsito, na nave chamada Terra. Pensemos nisso. 
Redação do Momento Espírita, a partir de pensamentos de Noeval de Quadros. Em 25.6.2014.

sábado, 12 de março de 2016

CÂMERAS DE VIGILÂNCIA INTERNA

Cada vez mais o mundo externo está sendo vigiado. São sistemas de vigilância nos estabelecimentos comerciais e residenciais; são câmeras que apontam para vários lugares públicos, ruas, estradas. Com a facilidade e popularização da tecnologia, muitos têm acesso fácil a uma filmadora, uma web-cam, uma máquina fotográfica digital. Nunca o mundo exterior foi tão documentado, acompanhado, espreitado de perto. Acompanhamos diariamente todos os acontecimentos no mundo através de imagens reais, cinegrafistas amadores, telefones celulares que registram tudo. Nada mais escapa. Principalmente, é claro, as desgraças, as fofocas, as notícias sensacionalistas, isto é: tudo aquilo que vende. Somos a geração do espiar a vida dos outros, em reality shows que expõem a vida íntima das pessoas – e que, obviamente, são pagos para se expor. A geração que tem as pessoas, o mundo e seus acontecimentos nas mãos, mas que se esqueceu de si mesma. Há plena vigilância externa, e escassez de observação interior. A tecnologia não tem culpa alguma. A mídia, em si, não tem responsabilidade alguma. Quem opera e direciona o uso da tecnologia é o homem. Quem alimenta as mídias é a própria população. Vê-se claramente assim, que tudo isso é apenas uma manifestação moderna, de condutas viciosas antigas do ser humano. Muito mais fácil e confortável observar as janelas do vizinho, do que ter que enfrentar um espelho. Muito mais simples se envolver nos problemas alheios, que não nos dizem respeito, do que facear as tribulações domésticas, as dúvidas íntimas, as procuras e dificuldades da alma. Fuga. Eis mais uma das maneiras que encontramos de fugir de nós mesmos, de escapar de nossos verdadeiros objetivos, de nossos embates prioritários. A natureza e as leis da vida são, porém, implacáveis e respondem imediatamente. Nenhuma ação humana, individual ou coletiva, fica sem resposta ou sem consequências a serem provadas. Assim, já podemos verificar os efeitos disso em diferentes esferas da vida social, mas principalmente na intimidade do Espírito encarnado na Terra. Vazio existencial, depressão, fobias, desestruturação fisiológica, e um sem número de distúrbios outros que convencionamos chamar de psicológicos. É a resposta da natureza para os excessos, de um lado, e para a falta de cuidado consigo mesmo, de outro lado. Ao invés de nos ocuparmos tanto com a vida dos outros, com a vigilância do mundo, deveríamos investir nossas energias na observância interna. Instalar câmeras de vigilância, de observação, de monitoramento interior, cuidando de nossos pensamentos, de nossas ações, de nossos próprios passos. É a proposta antiquíssima de autoconhecer-se, de notar os sentimentos, de onde eles vêm, quando e por que os temos. É a higiene da alma, que nos proporciona acompanhar nosso crescimento de perto, que nos faculta traçar objetivos espirituais e ter condições de monitorá-los, de segui-los com proximidade. Imaginemos que possamos ter câmeras que filmam nossas ações e que nos proporcionam poder voltar a vê-las mais tarde, na posição de espectador atencioso e desejoso de se conhecer melhor. Filmadoras internas da consciência, que registram, sem cortes, todas as cenas vividas em cada dia. E que depois nos mostram o que podemos melhorar, o que fizemos de certo e de errado. Instalemos câmeras de vigilância interna!
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E os homens se vão a contemplar os topos das montanhas, as vastas ondas do mar, as amplas correntes dos rios, a imensidão do oceano, o curso dos astros, e não pensam em si mesmos... 
Redação do Momento Espírita com base no item 8, do cap. X, do livro Confissões, de Santo Agostinho, ed. Vozes. Em 27.7.2013.

sexta-feira, 11 de março de 2016

CAMELOS TAMBÉM CHORAM

Affonso Romano de Sant´anna
Primavera no deserto de Gobi, sul da Mongólia. Uma família de pastores nômades assiste ao nascimento de filhotes de camelo. A rotina é quebrada com o parto difícil de um dos camelinhos albinos. A mãe, então, o rejeita. O filho ali, branquinho, mal se sustentando sobre as pernas, querendo mamar e ela fugindo, dando patadas e indo acariciar outro filhote, enquanto o rejeitado geme e segue inutilmente a mãe na seca paisagem. A família mongol e vizinhos tentam forçar a mãe camela a alimentar o filho. Em vão. Só há uma solução, diz alguém da família. Mandar chamar o músico.E o milagre começou musicalmente a acontecer. Dois meninos montam agilmente seus camelos, numa aventura até uma vila próxima, tentando encontrar o músico. É uma vila pobre, mas já com coisas da modernidade, motos, televisão, e, na escola de música, dentro daquele deserto, jovens tocam instrumentos e dançam, como se a arte brotasse lindamente das pedras. O professor de música, qual um médico de aldeia chamado para uma emergência, viaja com seu instrumento de arco e cordas para tentar resolver a questão da rejeição materna. Chega. E ali no descampado, primeiro coloca o instrumento com uma bela fita azul sobre o dorso da mãe camela. A família mongol assiste à cena. Um vento suave começa a tanger as cordas do instrumento. A natureza por si mesma harpeja sua harmônica sabedoria. A camela percebe. Todos os camelos percebem uma música reordenando suavemente os sentidos. Erguem a cabeça, aguçam os ouvidos e esperam. A seguir, o músico retoma seu instrumento e começa a tocá-lo. A dona da camela afaga o animal e canta. E, enquanto cordas e voz soam, a mãe camela começa a acolher o filhote, empurrando-o docemente para suas tetas. E o filhote, antes rejeitado e infeliz, vem e mama, mama, desesperadamente feliz. Enquanto se alimenta e a música continua, acontece então um fato impressionante. Lágrimas desbordam umas após outras dos olhos da mãe camela, dando sinais de que a natureza se reencontrou a si mesma, a rejeição foi superada, o afeto reuniu num todo amoroso os apartados elementos. 
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Nós, humanos, na plateia, olhamos estarrecidos. Maravilhados. Os mongóis em cena constatam apenas mais um exercício de sua milenar sabedoria. E nós, que perdemos o contato com o micro e o macrocosmos, ficamos pasmos com nossa ignorância de coisas tão simples e essenciais. Os antigos falavam da terapêutica musical. Casos de instrumentos que abrandavam a fúria, curavam a surdez, a hipocondria e saravam até a mania de perseguição. O pensamento místico hindu dizia que a vida se consubstancia no Universo com o primeiro som audível - um ré bemol - e que a palavra só surgiria mais tarde. E nós, da era da tecnologia, da comunicação instantânea, dos avanços científicos jamais sonhados... E nós? O que sabemos dessas coisas? Coisas que os camelos já sabem, que os mongóis já vivem. Coisas dos sentimentos, coisas do coração. O que sabemos nós? Será que sabíamos que os camelos também choram? 
Redação do Momento Espírita com base em crônica de Affonso Romano de Sant´anna, encontrada no
http://acaodopensamento.blogspot.com. Em 25.04.2011.

quinta-feira, 10 de março de 2016

O calor escaldante dos desertos da vida

AUGUSTO CURY
O alimento e a bebida ingeridos por Cristo na última ceia foram importantes para sustentá-Lo. Eles não Lhe dariam pão nem água durante o Seu tormento. Sabia o que O aguardava, por isso nutriu-Se calmamente para suportar o desfecho de Sua história. Após a oração, foi sem medo ao encontro de Seus opositores. Entregou-Se espontaneamente. Procurou um lugar tranquilo, sem o assédio da multidão, pois não desejava qualquer tipo de tumulto ou violência. Não queria que nenhum dos Seus mais próximos corresse perigo. Preocupou-Se até mesmo com a segurança dos homens encarregados de prendê-Lo, pois censurou o ato agressivo de Pedro a um dos soldados. O Mestre era tão dócil que por onde Ele passava florescia a paz, nunca a violência. Os homens podiam ser agressivos com Ele, mas Ele não era agressivo com ninguém. Um odor de tranquilidade invadia os ambientes em que transitava. O amor que Jesus sentia pelo ser humano O protegia do calor escaldante dos desertos da vida. Chegou ao impensável, ao aparentemente absurdo, de amar Seus próprios inimigos... 
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E como estamos nós? Como nos protegemos das altas temperaturas dos desertos da existência? A tranquilidade de Jesus vinha de Sua moral elevada, sustentada por um amor incondicional por todos. A calma do Mestre vinha de Sua fé, em nível tão elevado, que O fazia ser Um com o Pai. Semeando amor, colhemos felicidade nos campos de Deus. Sem a pretensão de receber recompensas na Terra, pelos atos nobres que praticamos, perceberemos que a consciência em paz é fortaleza indestrutível. Amando, passaremos pelos suplícios da existência com mais equilíbrio. Tal amor dá à alma em aprendizado uma certeza íntima imperturbável, segura de estar no caminho certo, e de não estar sozinha nestas paragens. Amando, nunca estamos sós. A Terra poderá nos oferecer solidão temporária, mas o mundo real, o mundo maior, nos dará a companhia dos grandes. Se estamos em momento grave na existência, sofrendo ataque de inimigos do bem... lembremos de Jesus e de Seu exemplo precioso. Quem ama e está nas sendas do bem, não tem porque pensar em vingança, em responder violência com violência. Quem ama tem sempre um refrigério constante no íntimo, ao enfrentar o calor escaldante da crueldade alheia. Quem ama e trilha os caminhos do bem, não precisa temer, assim como Jesus não temeu, em momento algum, o que Lhe aguardava. Sofreu, ao ver a fragilidade da alma humana tomando decisões ainda tão tolas, mas não teve medo, jamais, pois estava sempre acompanhado de um amor sem igual pela Humanidade inteira. Ama e aguarda. Ama e confia. Ama e resiste. 
Redação do Momento Espírita com base no cap. 6 do livro O mestre da sensibilidade, de Augusto Cury, ed. Academia de inteligência. Em 30.06.2009.

quarta-feira, 9 de março de 2016

O CÁLICE DAS PÉROLAS

Era uma vez... As histórias maravilhosas começam assim. Não importa o tamanho delas. Se começam por era uma vez, são sempre maravilhosas. Pois era uma vez um homem. Um homem pobre que de precioso só tinha um cálice. Nele, ele bebia a água do riacho que passava próximo à sua casa. Nele, bebia leite, quando o conseguia, em troca de algum trabalho. Era pobre, mas feliz. Feliz com sua esposa, que o amava. Feliz em sua pequena casa, que o sol abraçava nos dias quentes, tornando-a semelhante a um forno. Feliz com a árvore nos fundos do terreno, onde escapava da canícula. Saía pelas manhãs em busca de algum trabalho que lhe garantisse o alimento a ele e à esposa, a cada dia. Assim transcorria a vida, em calma e felicidade. Nas tardes mornas, quando retornava ao lar, era sempre recebido com muita alegria. Era um homem feliz. Trazia o coração em paz, sem maiores vôos de ambição. Então, um dia... Sempre há um dia em que as coisas acontecem e mudam o rumo da História. Pois, nesse dia, nem ele mesmo sabendo o porquê, uma lágrima caiu de seus olhos, dentro do cálice. De imediato, o homem ouviu um pequeno ruído, como de algo sólido, que bateu no fundo do recipiente. Olhou e recolheu entre os dedos uma pérola. Sua lágrima se transformara em uma pérola. Então, o homem pensou que poderia ficar muito rico se chorasse bastante. Como não tinha motivos para chorar, ele começou a criá-los. Precisava se tornar uma pessoa triste, chorosa, para enriquecer. Com o dinheiro da venda das pérolas pensava comprar lindas roupas para sua esposa, uma casa mais confortável, propriedades, um carro. E assim foi. Ele começou a buscar motivos para ficar triste e para chorar muito. Conseguiu muitas riquezas. Ele poderia tornar a ser feliz. No entanto, desejava mais. As pequenas coisas que antes lhe ofertavam alegrias, agora, de nada valiam. Que lhe importava o raio de sol para se aquecer no inverno? Com dinheiro, ele mandou colocar calefação interna em toda sua residência. Por que aguardar os ventos generosos para arrefecer o calor nos dias de verão? Com dinheiro, ele pediu para ser instalado ar condicionado em toda a sua casa. E no carro, e no escritório que adquiriu para gerir os negócios que o dinheiro gerara. E a tristeza sempre precisava ser maior. Do tamanho da ambição que o dominava. Nunca era o bastante. Os afagos da esposa, no final do dia e nos amanheceres de luz deixaram de ser imprescindíveis. Ele não podia perder tempo. Precisava chorar. Precisava descobrir fórmulas de ficar mais triste e derramar mais lágrimas. Finalmente, quando o homem se deu conta, estava sem esposa, sem amigos. Só... Com seu dinheiro, toda sua imensa fortuna. Chorando agora, estava tão desolado, que nem mais se importava em despejar o dique das lágrimas no cálice. A depressão tomara conta dele e nada mais tinha significado. A história parece um conto de fadas. Mas nos leva a nos perguntarmos quantas vezes desprezamos os tesouros que temos, indo à cata de riquezas efêmeras. Pensemos nisso e não desperdicemos os valores verdadeiros de que dispomos. Nem pensemos em trocá-los por posses exageradas. A tudo confiramos o devido valor, jamais perdendo nossa alegria. Haveres conquistados à troca de infelicidade somente geram infelicidade. Pensemos nisso! 
Redação do Momento Espírita a partir de pequeno conto do cap. 4 do livro O caçador de pipas, de Khaled Hosseini, ed. Nova Fronteira.

terça-feira, 8 de março de 2016

CALAR A DISCÓRDIA

A harmonia plena ainda constitui um sonho distante de qualquer organização humana. Os homens guardam grandes diferenças entre si. Diversos fatores induzem a distintas formas de entender e viver a vida. A educação recebida no lar, as experiências profissionais e afetivas, os professores e os amigos. Todos esses elementos contribuem para a singularidade da personalidade humana. A diversidade produz a riqueza. Se todos os homens pensassem do mesmo modo, o marasmo e a mesmice tomariam conta do mundo. Uma assembléia ou equipe composta de forma heterogênea possui grande potencial. Ocorre que conviver em harmonia com o diferente pressupõe maturidade. Em qualquer gênero de relacionamento humano, é necessário respeitar o próximo. Mas é preciso também manter o foco em um objetivo maior. Toda associação humana possui uma finalidade. No âmbito profissional, busca-se o crescimento da empresa na qual se participa. Na esfera familiar, colima-se a educação e o preparo de seus membros para a vida, em um contexto de dignidade. Em uma associação filantrópica, tem-se por meta a prática do bem. A noção clara do objetivo que se persegue facilita a convivência. O fato de alguém discordar de suas idéias não significa que esteja contra você. O relevante é verificar qual o modo mais eficiente de atingir a meta almejada pelo grupo. A convivência humana raramente deixa de produzir algum atrito. Mas é preciso saber calar a discórdia. Se o embate de idéias e posições não é ruim, a agressividade e o radicalismo sempre o são. Pense sobre as instituições que você integra. Sua presença em tais ambientes visa ao interesse coletivo, ou à exaltação de seu ego? É melhor afastar-se delas do que, por mesquinharia, ser causa de desestabilização e brigas. Mas o ideal é aprender a sacrificar seu interesse pessoal em prol de uma causa maior. Se uma controvérsia surge, reflita com serenidade sobre os pontos de vista envolvidos. Caso sua posição não seja defensável, abdique dela. Procure ser um elemento pacificador nos meios em que se movimenta. Há pouca coisa tão cansativa quanto um altercador contumaz. Certas posturas são toleráveis apenas em pessoas muito jovens. Na maturidade, a rebeldia e a vaidade sistemáticas são ridículas. Não canse seus semelhantes, com posições inflexíveis e injustificáveis. Aprenda a ceder e a compatibilizar, quando isso não comprometer sua honestidade e sua ética. De que lhe adianta vencer um debate, se a causa que você defende sofre com isso? O homem sábio identifica quando deve avançar e quando deve recuar. Mas sempre o faz de forma sincera e digna. De nada adianta afetar concordância e semear a discórdia nos bastidores. A dissimulação e a intriga são indignas de uma pessoa honrada. Reflita sobre isso, quando se vir envolvido em debates e contendas. Quando se engajar em uma causa, sirva-a com desinteresse. Jamais se permita servir-se dela para aparecer. Mas principalmente nunca a prejudique por radicalismo e imaturidade. 
Equipe de Redação do Momento Espírita.