quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

ANTES QUE O MANTO DA SAUDADE NOS ENVOLVA...

Christopher com o pai Eric 
Ele era o mais jovem dos três filhos. 
Parecia não ter muitos compromissos com a vida. 
Gostava de sair com os amigos, brincar. 
Estudava, mas não tanto, o que era motivo constante de conversas sérias com seu pai. 
Quando não conseguiu a classificação ideal para acompanhar o irmão para a Universidade mais conceituada do país, foi uma decepção para o pai. 
Para ele próprio também. 
Se tivesse se esforçado mais, teria conseguido. 
Foi o que ouviu do pai. 
A mãe lhe disse que ele não deveria ficar tão triste consigo mesmo. 
Talvez, na Universidade que estava adentrando, algo muito especial lhe estivesse reservado. 
Afinal, somente Deus tem ciência do que está para vir. 
Ela também disse ao filho que a vida é um presente e pode ser um passeio lindo, incrível e fantástico. 
Naturalmente, nem sempre é fácil. 
Foi na Universidade que ele conheceu uma garota incrível. 
Foi amor à primeira vista, ou talvez seja melhor dizer, à segunda vista, porque ele ficou admirado no primeiro esbarrão que deu nela. 
E encantado quando aconteceu o segundo. 
Por causa dela, se tornou voluntário em uma patrulha na Universidade e até resolveu conquistar sua habilitação de motorista, para melhor auxiliar. 
Foi depois de um animado final de semana com toda a família, que ele teve um desmaio, foi levado para a emergência hospitalar e nunca mais retornou à consciência. 
Ele partiu, vitimado por um aneurisma. 
Na despedida, ante o corpo inerte do filho, o pai, entre lágrimas, externalizou os seus sentimentos: 
-Chris, como eu gostaria que você não tivesse partido. Tão pouco tempo você esteve conosco. Somente dezenove anos. Olhando para esses anos, eu me pergunto por que não usufrui mais de sua companhia. Por que perdi tanto tempo reclamando das suas notas, que poderiam ser mais altas, da carteira de motorista que você poderia ter conseguido mais cedo, da sua falta de interesse por algumas matérias? Reclamei, e reclamei. Poderia ter me servido desse tempo para olhar mais para você, descobrir a vida que brilhava em seus olhos. Olhos que se fecharam e não verei mais. Poderia ter abraçado mais você para ouvir o seu coração batendo junto ao meu. Coração que nunca mais ouvirei. Eu poderia ter feito tantas coisas. E me pergunto de que valeram tantas reclamações quando eu poderia ter vivido muito mais intensamente a sua vida, meu filho.
* * * 
A vida é curta. 
A vida é breve, é impermanente. 
Hoje estamos aqui e, logo mais, poderemos ser convidados a tomar da bagagem das nossas conquistas pessoais e partir para o Grande Além. 
De igual forma, os que amamos. 
Então, agora, se estamos ao lado de quem amamos, aproveitemos para dizer como essa pessoa é importante, como lhe queremos bem, como ela faz a grande diferença em nossa vida. 
Agora, enquanto é tempo e estamos lado a lado, digamos ao nosso cônjuge, ao nosso filho, ao nosso amigo, que o amamos. 
Repitamos isso amanhã, depois e depois. 
A cada manhã, a cada despertar, a cada aperto de mão, a cada abraço, a cada hora. 
Usufruamos o convívio enquanto estamos a caminho. 
Antes que somente a saudade seja o manto que nos envolva.
Redação do Momento Espírita, inspirado no filme Dois corações. 
Em 21.01.2026

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

AS MUITAS PORTAS

A religiosidade é um sentimento que nos conecta ao Divino, aquece nossos corações e preenche nossas almas de paz. 
A busca por perfeição e plenitude a que estamos destinados, transcendendo o mero fato de existir, confere dinâmica e significado para nossas vidas. 
Desde que começamos a manifestar os rudimentos de consciência sobre nós mesmos e as coisas ao nosso redor, intuímos a existência de um Ser Superior. 
Esse sentimento, que nos é inato, provém das Leis Divinas insculpidas em nossa consciência. 
Por isso, jamais se encontrou um povo que não acreditasse num Ser Supremo, dotado de qualidades superiores. 
Nessa busca de união com o Criador, cultuamos a natureza e seus fenômenos: o sol, a lua, as estrelas, o raio, o trovão, as montanhas. 
Criamos muitos deuses, abraçando uma fase politeísta e mitológica, chegando, por fim, ao monoteísmo. 
No princípio, concebemos um Deus antropomórfico, ou seja, à nossa semelhança, detentor das nossas mesmas qualidades e defeitos. 
Somente com a vinda de Jesus fomos apresentados ao Deus Pai, ao Deus amor, soberanamente justo e bom. 
Exatamente esse Pai de amor, para facilitar que cheguemos a Ele, porque somos diferentes em intelecto e moral, nos oferece inúmeros caminhos. 
Ou, se preferirmos, múltiplas portas. 
Embora possam ter formatos diferentes, todas as que pregam o amor, a caridade, a humildade e o perdão nos convidam à conexão com o Divino. 
Para alguns de nós, a porta que mais nos toca o coração tem as cores da disciplina e do irrestrito cumprimento dos mandamentos da crença que abraçamos. 
Outros nos sensibilizamos com a filosofia, com a ciência, a fé raciocinada. 
Apreciamos os princípios que nos apresentam a multiplicidade das experiências corporais, a comunicação com os seres que partiram. 
Algumas crenças pregam a salvação pela graça; outras, pelo exercício da caridade - o amor em ação -, manifestado no contínuo esforço de autoaperfeiçoamento. 
Deus a todos acolhe, não importando a porta que adentremos para encontrá-lO. 
Ele lê o que está escrito em nossos corações mais do que ouve o que pronunciam nossos lábios, pois a estrada que a Ele conduz é pavimentada pelo bem que fazemos. 
* * * 
Façamos da nossa busca pela Divindade uma sinfonia de paz e fraternidade com todos os que estão ao nosso redor. 
Não permitamos que o preconceito de qualquer ordem nos prejudique a caminhada, junto a todos os demais filhos de Deus. 
Deus é único, misericordioso, justo e bom, e nos criou a todos para a mesma espetacular destinação: a perfeição. 
E, enquanto nos encontramos a caminho, atravessando portas variadas, rumando por estradas de Terra, bordadas de flores ou de cascalho ou sobre impecável tapete asfáltico, segue-nos com Seu olhar. 
Não importa em que idioma a Ele nos dirijamos, como o louvemos ou em que posição a Ele dirijamos nossas súplicas, a todos atende de igual forma. 
E a todos nos aguarda, como o Pai saudoso, estendendo o olhar na distância, para acolher todos os Seus filhos.
Pensemos nisso. 
Redação do Momento Espírita 
Em 17.05.20

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

COLHEITA DA GRATIDÃO

Tratava-se de um Congresso Estadual. 
As pessoas chegavam de todas as bandas e os largos corredores de acesso ao auditório principal se apresentavam movimentados. 
Pequenos grupos se formavam, aqui e ali, onde abraços e risos se misturavam, percebendo-se que se tratava de reencontros de amigos. 
Amigos de cidades diferentes, de outros Estados que novamente se encontravam. 
A expectativa, para a sessão de abertura, era de dez mil pessoas. 
Os voluntários estavam em toda parte: na recepção, no setor de informações, nas livrarias, onde grande era igualmente a movimentação. 
Uma senhora conversava, animada, com amigos, quando se aproximou um dos voluntários, pedindo-lhe ajuda para uma das livrarias. 
O movimento se fizera de tal intensidade que os atendentes precisavam de um apoio extra. 
Feliz por servir, a senhora logo se postou atrás do balcão.
Entre sorrisos e cumprimentos, a um indicava o lançamento mais recente em livro, CD e DVD. 
A outro, esclarecia a respeito do conteúdo do produto que tinha em mãos. 
Vendia, acondicionava em sacolas e entregava a mercadoria.
Bastante conhecida, detinha-se a brincar com um ou outro dos que se achegavam para tomar ciência das novidades editoriais. 
Então, alguém lhe perguntou: 
-Poderia me dizer se, há uns catorze anos, a senhora esteve na Maternidade Y, a visitar algum parente seu? 
A pergunta surpreendeu a voluntária. 
Contudo, consultou os arquivos da memória e respondeu de forma afirmativa. 
Há catorze anos, pelo período de trinta dias, estivera, muitas vezes, na citada Maternidade. 
Sua sobrinha nascera prematura e estava no Centro de Terapia Intensiva Neonatal. 
E concluiu: 
-Desculpe-me, mas por que a pergunta? 
Então, entre a emoção mal contida, os olhos marejados de lágrimas, disse a indagante: 
-Eu nunca soube seu nome. Mas jamais esqueci seu rosto. Fico muito feliz em encontrá-la, agora e poder lhe agradecer.
E, ante o surpreso silêncio, ela continuou: 
-Eu sou aquela mulher que a senhora viu a chorar na recepção. Sem me conhecer, notando meu desespero, se aproximou de mim e perguntou: “Por que chora tanto? O que aconteceu?” E eu contei sobre a doença do meu filhinho de poucos meses, do pavor de perdê-lo, da dor de ter que deixá-lo hospitalizado, das tantas incertezas da minha alma de mãe ansiosa. Então, a senhora me envolveu em um abraço terno e me disse: ”Confie em Deus. Entregue seu filho aos cuidados dEle. Ore, acalme-se e guarde a certeza: seu filho ficará bem.” E eu me acalmei, ao influxo das vibrações que recebi do seu abraço. Orei, esperei. E meu filho aí está, prestes a completar seus quinze anos. Por isso, por aquele dia ter acalmado o desespero de uma estranha, eu lhe agradeço. A partir de hoje, tenho um nome para guardar em gratidão. 
Um abraço prolongado encerrou a narrativa. 
A senhora sequer lembrava do fato mas, em sua intimidade, agradeceu a Deus pela felicidade de colher flores no seu caminho. 
Flores de gratidão de uma estranha, guardadas há pouco mais de catorze anos. 
Verdadeiramente, pensou, o bem faz bem a quem o realiza
Redação do Momento Espírita, com base em fato. 
Em 19.01.2026

domingo, 18 de janeiro de 2026

MUITAS MORADAS NA CASA DO PAI

O Evangelista João registrou, em seu evangelho, as palavras do Cristo, na noite de despedida, pouco antes de se dirigir ao Jardim das Oliveiras, onde seria preso. 
São palavras de uma grande esperança, um acenar de bênçãos: 
-Não se turbe o vosso coração. Credes em Deus, crede também em mim. Há muitas moradas na casa de meu Pai. Se assim não fora, já eu vô-lo teria dito. 
Numa época em que sequer se cogitava da existência de outros planetas, em que as estrelas eram simplesmente pontos luminosos para alumiar a noite, o maior Cientista, que a Terra já conheceu, falou de outras habitações, na Casa do Pai, que é o Universo. 
Desde então, passamos a contemplar os céus, até onde nossos olhos possam alcançar, pensando onde estaremos nos próximos milênios. 
Em que planeta, em que sistema solar, haveremos de nos encontrar, depois de vários séculos? 
Ficamos a cogitar como serão esses outros mundos, naturalmente superiores àquele em que vivemos.
Mundos que poderemos habitar, após ter adquirido todo o progresso que essa bendita Terra nos permite. 
As informações espirituais nos falam de mundos em que as condições da vida moral e material são muito diversas das que conhecemos em nosso planeta como por toda parte, a forma corpórea é sempre a humana, mas embelezada, aperfeiçoada. 
O corpo já não tão material quanto o que possuímos, na Terra, ainda de provas e expiações, não estará mais sujeito às necessidades, nem às doenças tão próprias da matéria de que nos revestimos. 
A locomoção, por conseguinte, será mais rápida e fácil. 
Em vez de nos arrastarmos penosamente pelo solo, deslizaremos, pela superfície, bastando o esforço da vontade.
Algo que vemos, vez ou outra, retratado em filmes ditos de ficção científica. 
Não seria o anúncio do que alguém intuiu? 
Afinal, somos apenas Espíritos emigrando de um planeta a outro, dentro das condições evolutivas de que sejamos portadores. 
Nesses mundos venturosos, as relações, sempre amistosas entre os povos, jamais são perturbadas pela ambição, da parte de qualquer deles, de escravizar o seu vizinho, nem pela guerra que daí decorre. 
Não há senhores, nem escravos, nem privilegiados pelo nascimento. 
Somente a superioridade moral e intelectual estabelece diferença entre as condições de uns e outros. 
A autoridade merece o respeito de todos, porque somente ao mérito é conferida e se exerce sempre com justiça. 
São desconhecidos o ódio, os mesquinhos ciúmes, as cobiças da inveja. 
Um laço de amor e fraternidade prende uns aos outros todos os homens, ajudando os mais fortes aos mais fracos.
Possuem bens, em maior ou menor quantidade, conforme os tenham adquirido, mais ou menos por meio da inteligência.
Ninguém, todavia, sofre, por lhe faltar o necessário. 
Numa palavra, nada de mal existe nesses mundos.
Deus nos permita possamos, em tempo não muito distante, conhecer as venturas desses mundos superiores, nos quais continuaremos a realizar a nossa escalada evolutiva.
Pensemos nisso. 
Redação do Momento Espírita, com base no cap. III, itens 1, 9 e 10 de O Evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, ed. FEB. 
Em 10.07.2020.

sábado, 17 de janeiro de 2026

MUITAS FORMAS DE LOUVAR AO SENHOR

Clóvis Tavares
Louvar a Deus pode significar o ato de glorificar, adorar ao Criador.
Também a demonstração de reverência e amor ao Todo Poderoso. 
De um modo geral, quando se menciona louvor a Deus, a mente nos remete a religiosos enclausurados em conventos e mosteiros, que dedicam sua vida a cantar hinos, à meditação e preces.
Entretanto, ao nos reportarmos à prece, verificamos que é louvor, pedido e agradecimento. 
Será possível ao homem comum, com família, profissão, tantos deveres a atender, externalizar louvor ao seu Criador?
Recordamos de um criado que vivia na abadia de Whitby, na Inglaterra, no século VII. 
Era um homem dócil, silencioso e desajeitado. 
De canto, por exemplo, não tinha a menor noção. 
Quando chegava a hora de cantar, nos dias de festa, temeroso de que o convidassem, deixava o recinto e ia se trancar no seu quartinho. 
Certo dia em que a abadessa convidou as freiras para os cânticos sagrados, o humilde servidor se afastou, tímido, do refeitório e se dirigiu ao estábulo da abadia... 
Sentou-se em um monte de feno, pensando na sua incapacidade para cantar os hinos sacros. 
Entristecido com a própria insignificância, adormeceu e sonhou. 
Sonhou que um homem, formoso e imponente, lhe aparecia no estábulo. 
Olhava-o com ternura, e, sorrindo, insistia para que ele cantasse. 
-Tu podes, Cedmon!-dizia o homem-Canta a obra da Criação! 
Cedmon começou a cantar, como jamais fizera. 
Quando estava para terminar, acordou. 
Impressionado com o que sonhara, lembrando-se de todos os detalhes, terminou o hino. 
Com toda a simplicidade, procurou a abadessa e lhe contou o ocorrido, repetindo-lhe a composição. 
Ao ouvi-lo, a abadessa lhe disse que ele recebera de Deus um dom especial para a poesia.
E lhe deu algumas passagens da Bíblia para que ele compusesse versos. 
Tão bem ele se desincumbiu da tarefa, ao fim do dia, que ela o colocou num mosteiro, como monge, para que se desse ao estudo das escrituras. 
Cedmon se tornou o autor das mais antigas poesias escritas em língua inglesa. 
Seus versos eram de uma força desconhecida. 
A doçura, mais o poder de expressão, davam-lhe um toque celestial. 
Ele encontrara uma forma diferente de louvar ao Senhor.
* * * 
Há muitas formas de louvar ao Criador de todas as coisas.
Pode-se orar, enaltecendo as tantas bênçãos ofertadas, diariamente, pelo Pai de bondade. 
Pode-se compor versos expondo a beleza da natureza; ou peças musicais, que embevecerão corações, unindo-os ao louvor. 
Pode-se gravar em uma tela, com a maestria de quem domina a arte da pintura, o encanto de uma paisagem, um pôr de sol em cores laranja, vermelho e ouro. 
Pode-se utilizar a arte da fotografia para deter digitalmente o alvorecer de um dia de luz, um pinheiro solitário à beira do caminho, distribuindo pinhas a aves e homens. 
Pode-se servir da cinematografia e oferecer ao mundo êxtases de beleza, unindo fotografia, animação, música. 
Sim, há muitas formas de louvar ao Criador incriado, ao Pai de todos nós. 
Louvar é divulgar, mostrar, anunciar, propagar, publicar o que é belo, grandioso no mundo: plantas, árvores, animais, seres humanos. 
A grandiosidade da vida. 
Pensemos nisso e optemos pela melhor forma de louvarmos a Deus, nosso Pai, gratos pela vida que nos foi dada a viver.
Redação do Momento Espírita, com base no cap. 11, do livro Mediunidade dos santos, de Clóvis Tavares, ed. IDE. 
Em 05.02.2015.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

MUITA FELICIDADE

Bertha Celeste Homem de Mello 
Corria o ano de 1942. 
A Rádio Tupi do Rio de Janeiro resolveu fazer um concurso de quadrinhas para substituir a letra em inglês da famosa música americana Happy birthday to you
Na versão estrangeira original o título da canção era repetido quatro vezes, sendo que na terceira, era acrescido da palavra dear (querido ou querida)e mais o nome do aniversariante.
Foram cerca de cinco mil inscritos. 
O júri foi composto por imortais da Academia Brasileira de Letras. 
E os versinhos vencedores foram da paulista Bertha Celeste Homem de Mello. 
Os jurados escolheram sua obra principalmente por trazer versos diferentes para cada linha, ao invés de se repetirem como na versão americana, fórmula que fora seguida pela grande maioria dos candidatos. 
Bertha, até sua desencarnação em 1999, fazia questão de que as pessoas cantassem a letra da exata maneira que escrevera: 
Parabéns a você. 
Nesta data querida. 
Muita felicidade. 
Muitos anos de vida. 
Há dois detalhes importantes a serem destacados. 
Primeiro: a autora, até a sua despedida, em todas as entrevistas que dava, frisava que a letra original dizia: a você e não pra você. 
O pra você foi se popularizando através dos anos em algumas regiões do país. 
Não deixa de estar correto, mas não é fiel à letra original.
Segundo, e aqui está o item mais interessante: 
Bertha, em uma de suas últimas manifestações, afirmou:
-Canta-se errado. Não é “muitas felicidades”, é “muita felicidade”, pois felicidade é uma só. 
* * * 
Quem sabe, durante este tempo todo de nossa História como Humanidade, tenhamos buscado apenas colecionar muitas felicidades. 
E então, aquela tão sonhada ventura plena, aquela que julgamos estar no final de tudo, lá estaria, montada com a soma de todas essas felicidades colhidas pelo caminho.
Pensemos um pouco sobre isso. 
Não parece uma visão muito pequena? 
Será que a nossa felicidade íntima é feita apenas dos bons momentos que vivemos? 
Momentos felizes são importantes, é certo. 
Eles nos animam, nos dão energia, vontade de viver.
Momentos inesquecíveis ao lado de quem se ama nos dão forças para seguir, nos dão identidade, nos dão raízes.
Momentos de vitórias, de conquistas, realizações, fazem parte da construção segura da felicidade completa da alma. 
Ser feliz, porém, é um passo além de ter, no caminho, muitas felicidades. 
Há quem diga que é possível, inclusive, ser feliz sem tê-las sempre. 
Ser feliz até na dor. 
Os momentos de luta árdua, de prova dolorida, de sofrimento atroz, também edificam a felicidade verdadeira. 
A felicidade é um edifício que se constrói em meio aos momentos felizes e infelizes das vidas, pois ela está no que se aprende com eles. 
As belas telas são feitas de luz e sombra.
As esculturas que nos encantam os olhos foram moldadas não apenas pelo carinho de mãos dedicadas, mas, principalmente, pelo cinzel insistente e seguro.
Todos estamos sendo moldados, formados, esculpidos pelo planeta para construirmos aqui parte da nossa felicidade, com muitas felicidades ou sem elas. 
Redação do Momento Espírita. 
Em 13.09.2018.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

DESSAS PEQUENAS FELICIDADES CERTAS

Houve um tempo em que na minha janela havia um pequeno jardim seco. 
Era um tempo de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. 
Todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde e em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. 
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. 
Eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava feliz. 
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas e outros finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim. 
* * * 
Meireles, Drummond, Kolodys, Bandeiras, dos Anjos, Alves, Quintanas, esses menestréis das linhas escritas parecem, por vezes, almas que enxergavam mais do que nossos olhares.
Como se, observando uma mesma paisagem, um mesmo rosto, um mesmo sentimento, percebessem dimensões desconhecidas para os olhos duros, entorpecidos, de uma Humanidade cambaleante.
Mostravam-se dotados de sentidos que não temos, ou talvez, como afirma a poetisa Cecília Meirelles, simplesmente aprenderam a olhar. 
Notar as minúcias, as pequenas grandes coisas, as singelas belezas, faz-nos desenvolver esse novo sentido, um novo grau de percepção, que sente, que capta, certamente, outras esferas sensoriais. 
Um sentido que nos faz atentos, que nos faz conscientes de toda a finalidade do viver, como se jamais deixássemos de perder o controle, o leme da embarcação que conduzimos através dos oceanos universais. 
Mas é certo que essa conquista não é futura, ela é construída aos poucos, e agora. 
Sempre idealizamos uma felicidade prêmio, um tesouro ao final de uma longa e tortuosa jornada. 
Porém, ela é, em verdade, uma construção ao longo do caminho. 
Uma edificação gradual e certa, feita de milhares de pequenos cristais preciosos, como essas pequenas felicidades certas que a sensibilidade de Cecília nos faz divisar: 
Nasceres do sol. A harmonia da fauna, da flora. O encanto dos incontáveis tons que pintam o céu todas as manhãs – dos cinzas aos anis. 
* * * 
Andrey Cechelero
Reparemos mais no mundo à nossa volta. 
Não apenas para constatar seus problemas, como costumeiramente fazemos, mas principalmente para descobrir suas alegrias, seus valores, suas virtudes.
Aprendamos com os poetas e deixemo-nos encantar pelo pardal que pula no muro, pelas borboletas brancas que voam juntas, pelo fechar dos olhos de um gato, pelo cantar distante de um galo, pelo voo de um avião. 
Pelo sorriso de um estranho, pelo encontro da água com a terra fértil de um pequeno jardim... 
Troquemos, como afirma uma jovem poetisa, um relógio de tempo rápido por um relógio de horas longas. 
Para olhar a natureza, e apreciar os pássaros. 
Troquemos um dia rápido, por um dia solto, leve e comprido. Inundemos nossa vida dessas pequenas felicidades certas.
Redação do Momento Espírita com base no cap. A arte de ser feliz, do livro Escolha O Seu Sonho: crônicas, de Cecília Meirelles, ed. Record e no cap. Dessas pequenas felicidades certas, do livro O que as águas não refletem, de Andrey Cechelero, ed. Imortality. 
Em 15.01.2026