terça-feira, 22 de setembro de 2026

O NATURALISTA CRISTÃO

MALBA TAHAN
Abuzit, famoso naturalista, morava em Genebra. 
Todas as manhãs, com a maior cautela, ele media a pressão do ar e anotava-a cuidadosamente.
Assim ele procedia, seguindo a marcha de seus estudos, a vinte e dois anos. 
Um dia, uma nova criada começou o serviço por uma grande limpeza no seu gabinete de trabalho. 
Abuzit, ao entrar, perguntou-lhe preocupado:
-“Onde você pôs os papéis que estavam aqui, junto ao barômetro?” 
-“Queimei-os, senhor.” – respondeu a moça com tranqüilidade –“estavam sujos e amarelados. Mas não se preocupe, patrão, porque coloquei papel limpo no lugar deles.” 
O naturalista, num relance, deu-se conta do desastre. 
A jovem, por ignorância, havia atirado ao fogo todas as tabelas numéricas, destruindo o trabalho metódico e paciente de vinte e dois anos.
O que lhe disse, então o sábio?
Cruzou os braços, quem sabe para reprimir a tempestade que ameaçava se desencadear nele, e depois falou-lhe com serenidade: 
-“Você acaba de atirar ao fogo o resultado de vinte e dois anos de trabalho. De hoje em diante, peço-lhe encarecidamente que não toque em coisa alguma que estiver no meu gabinete.”
Reagir violentamente às ofensas e aos prejuízos que nos atingem as fibras mais íntimas não resolve os dramas estabelecidos. 
Ao contrário, em geral a reação violenta costuma causar novos males, em um ciclo contínuo. 
Paulo, o apóstolo dos gentios, orienta-nos que não devemos deixar que o sol se ponha sobre nossa cólera. 
Jesus, irmão e mestre, convida-nos à reconciliação com os nossos inimigos, enquanto estamos a caminho. 
Ele nos ensina que o sacrifício mais meritório aos olhos de Deus é aquele que diz respeito ao ressentimento superado pela criatura. 
Questionado sobre tal tema, Jesus afirmou que devemos perdoar não apenas sete vezes a ofensa recebida, mas sim, setenta vezes sete vezes. 
Estabeleceu, assim, o perdão incondicional e ilimitado. 
O exercício do perdão ensina às criaturas o esquecimento de si mesmas, tornando-as invulneráveis às injúrias e aos maus procedimentos. 
Além disso, o mérito do perdão é proporcional à gravidade do mal sofrido. 
Não há nenhum merecimento em relevar agravos que não passam de simples arranhões e que não nos atingiram efetivamente. 
Tampouco pode o perdão das injúrias ser um termo vão, que atinge apenas os lábios. 
O verdadeiro perdão é aquele que lança um véu sobre o passado, esquecendo completa e absolutamente qualquer ofensa. 
Somos responsáveis também pelos nossos pensamentos, os quais, todos, são conhecidos do Pai Criador, que sabe o que pulsa no coração de cada um de seus filhos. 
Ele não se satisfaz com meras aparências, sondando o recesso de nossos corações e nossos mais secretos pensamentos. 
Extirpemos de nossa intimidade qualquer sentimento de rancor, a fim de sermos merecedores do perdão que nós próprios pleiteamos perante Deus. 
Pense nisso! 
Perdoar aos inimigos é pedir perdão para si próprio. 
Perdoar aos amigos é dar-lhes uma prova de amizade.
Perdoar as ofensas é mostrar-se melhor do que era.
Perdoemos a fim de que Deus nos perdoe, porque se formos intransigentes e inflexíveis para com nossos irmãos, como poderemos querer que o pai seja indulgente para com as nossas faltas? 
Pensemos nisso! 
Equipe de Redação do Momento Espírita, com base no livro Lendas do Céu e da Terra, de Malba Tahan, p. 100, 22ª edição, Editora Record e capítulo X de O Evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec.

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