quinta-feira, 21 de outubro de 2021

O PERDÃO

O perdão incondicional no mundo atual é muito raro. 
Além de não perdoar com facilidade as ofensas de parentes e amigos, encontramos impedimentos enormes para a sua prática, no que se refere aos inimigos. 
O orgulho é de tal ordem que basta um familiar cometer um deslize qualquer para ficarmos furiosos. 
Em vez de desculpar a fragilidade moral do infeliz e procurar lhe dar apoio para suavizar as punhaladas do remorso, ficamos a atirar pedras. 
Pedras do desprezo, da indiferença, sem medir as consequências de tal atitude.
Conta o escritor John Lageman um fato contemporâneo. 
Ocorreu com um ex-presidiário, que sofreu na alma a incompreensão e o abandono dos seus familiares, durante todo o tempo em que esteve recluso numa penitenciária. Os seus parentes o isolaram totalmente. Nenhum deles lhe escreveu sequer uma linha. Nunca foram visitá-lo na prisão durante a sua permanência lá. Tudo aconteceu a partir do momento em que o ex­-presidiário, depois de conseguir a liberdade condicional, por bom comportamento, tomou o trem de retorno ao lar. Por uma coincidência que somente a Providência Divina explica, um amigo do diretor da penitenciária se sentou ao seu lado. Por ser uma pessoa sensível, identificou a inquietação e a ansiedade na fisionomia sofrida do companheiro de viagem e, com gentileza, lhe falou: 
-O amigo parece muito angustiado! Não gostaria de conversar um pouco? Talvez pudesse diminuir o desconforto. 
O ex-detento deu um profundo suspiro e, constrangido, falou: 
-Realmente, estou muito tenso. Estou voltando ao lar. Escrevi para minha família e pedi que colocasse uma fita branca na macieira existente nas imediações da estação, caso tivesse me perdoado o ato vergonhoso. Se não me quisessem de volta, não deveriam fazer nada. Então eu permanecerei no trem e rumarei para lugar incerto. 
O novo amigo verificou como sofria aquele homem. Ele sofreu uma dupla penalidade: a da sociedade que o segregou e a da família que o abandonou.
Condoeu-se e se ofereceu para vigiar pela janela o aparecimento da árvore. 
A macieira que selaria o destino daquele homem.
Dez minutos depois, colocou a mão no braço do ex­-condenado e falou quase num sussurro: 
-Lá está ela! 
E mais baixo ainda, disse: 
-Não existe uma fita branca na macieira! 
Fez uma pausa, que parecia uma eternidade e falou novamente:
-... A macieira está toda coberta de fitas brancas. 
A terapia do perdão dissipou, naquele exato momento, toda a amargura que havia envenenado por tanto tempo uma vida humana. 
O pobre homem reabilitado deixou que as lágrimas escorressem pelas faces, como a lavar todas as marcas da angústia que até então o atormentara.
* * * 
A simbologia das fitas brancas do perdão incondicional deve ficar gravada em nossa mente. 
Deve nos lembrar sempre as palavras de Jesus: 
Aquele dentre vós que estiver sem pecado, atire a primeira pedra. 
Quem de nós não necessita de perdão? 
Quem já não errou, se equivocou, faliu? 
A própria reencarnação é, para cada um de nós, o perdão incondicional de Deus, a nos oferecer uma nova chance para o resgate dos débitos e retomada do caminho, do aprendizado sem fim. 
Redação do Momento Espírita, com base em conto publicado na Revista Presença Espírita, nº 155, ed. LEAL. Disponível no CD Momento Espírita, v. 2, ed. FEP. 
Em 21.10.2021

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

COM PESAR?

Não soa estranho que aqueles que afirmamos crer na imortalidade da alma, que divulgamos, aos quatro ventos, que a vida prossegue para além desta vida, sejamos aqueles que, cientes da morte de alguém, expressemos nosso pesar?
Talvez devamos tornar a ler as páginas que nos foram endereçadas e que nos indagam: 
Acaso deveremos lastimar que, estando prisioneiros, um de nós se liberte antes, por ter cumprido toda sua sentença? 
Naturalmente, sempre que a morte abraça alguém a quem estimamos e, sobretudo, se amarmos intensamente, nosso coração padece. 
Dizem que, na Terra, a dor mais pungente é a da separação física dos nossos amores. Isso porque aquele ser amado, deixando de estar conosco, nos impede de privar da sua presença, do seu calor. Sentimos falta do riso, do sorriso, do carinho. Sim, a partida dos afetos, dos amigos, dos que ombreiam conosco nas tarefas de ordem profissional ou voluntária, nos machuca. Sua ausência é sentida a cada passo. Sua presença é recordada, a cada momento, em que retornamos a realizar algo que fazíamos juntos. 
Em alguns dias, a saudade parece amenizar. 
Em outros, parece ficar mais aguda e mais intensa. 
No entanto, pensemos que aquele que parte concluiu a sua tarefa e os que ficamos, a precisamos concluir. 
Recordemos que a verdadeira liberdade, para o Espírito, consiste no rompimento dos laços que o prendem ao corpo. Portanto, deveríamos nos felicitar com aquele que se libertou, sobretudo se, examinando seus atos, nos damos conta das tantas bênçãos distribuídas por ele. 
É comum, ante o corpo daquele que fechou os olhos da carne, recordarmos do quanto era importante para nós, para a comunidade, para os colegas. Pois continuemos a lembrá-lo assim, louvando por poder comparecer perante a consciência liberta, com muitos frutos nas mãos. Com muitas boas ações, que o referendam a ser bem acolhido pelos Espíritos do bem, a ser bem recepcionado por tantos amores que, desta vida ou de experiências anteriores, o aguardam, jubilosos. 
Aqui, é uma despedida. 
Do outro lado, o retorno de alguém que realizou uma curta ou longa jornada.
Lembramos dos primitivos cristãos que entravam na arena, para enfrentar as feras, que os haveriam de trucidar, entre hinos de louvor. Cantavam, unindo-se ao Pai Celeste, que os envolvia em vibrações superiores, de forma a lhes insuflar ainda maior coragem para o martírio. 
Assim, ante a morte que se apresenta e, quase sempre, no momento em que menos se espera, aprendamos a orar. 
E, interpretando a dor que vai na alma dos familiares, manifestemo-nos a eles de forma diferente. 
Sejam as nossas palavras de bom ânimo, de encorajamento, de apoio. 
Se precisarmos anunciar, a quem quer que seja, a morte de um colega, de um amigo, de um amor, escrevamos algo que expresse nossos melhores sentimentos.
Compreendemos a sua dor, nesse momento. 
Oramos pelo seu fortalecimento moral. 
Vibramos, em prece, pelo companheiro que partiu. 
Que os bons Espíritos o envolvam em luz. 
Conte conosco. 
Estamos aqui. 
Redação do Momento Espírita. 
Em 20.10.2021.

terça-feira, 19 de outubro de 2021

A GRANDEZA INIGUALÁVEL DE DEUS!

Não há quem visite as Cataratas do Iguaçu e não se mostre extasiado ante a imponência do espetáculo das águas e das quedas. São duzentas e setenta e cinco quedas d’água, com uma altura superior a setenta metros, ao longo de mais de dois quilômetros do Rio Iguaçu. 
O termo Iguaçu, na língua guarani, deriva de y – água, rio e guasu ou guaçu – grande. Isso quer dizer, água grande ou rio de grandes águas. 
Ao lado da exuberância da paisagem, quer seja nos dias de cheia ou de escassez, a dança incessante das águas cantantes, não cansa os olhos. Há sempre mais um detalhe a ser observado. 
As aves, que fazem seus ninhos, no interior da rocha, entrando e saindo pela cortina de água; as águas que descem barrentas, na cheia, e despejando-se com força, levantam uma nuvem de impecável brancura; as gotas que se debatem, ao final da queda, correndo lépidas, desejando vencer o leito do rio, brilhando aos beijos do sol, como cristal líquido. 
Há os que olham e ficam quietos. 
Há os que tiram fotos para mostrar para os amigos. 
Ninguém vai acreditar numa coisa tão incrível, como esta queda d’água! – dizem alguns, contemplando a garganta em forma de U invertido, com cento e cinquenta metros de largura e oitenta metros de altura. 
A famosa Garganta do Diabo. Há os que se deliciam, se encharcando com as nuvens de água formadas pelas quedas. 
E capturam o momento, deixando-se fotografar. 
Outros ainda se deixam levar pela emoção da lenda da criação das Cataratas. Uma lenda tupi-guarani que fala que, há muito tempo, o Rio Iguaçu corria livre, sem corredeiras e sem cataratas. Em suas margens, viviam os índios Caigangues, que reverenciavam o deus-serpente, filho de Tupã. O cacique da tribo tinha uma filha, formosa, chamada Naipi. Ela deveria ser consagrada ao culto da divindade, da grande serpente. Um jovem guerreiro, de nome Tarobá, se enamorou de Naipi. No dia da consagração da jovem, o casal fugiu para o rio. Ambos desceram o rio numa canoa. Furiosa com os fugitivos, a grande serpente penetrou na terra e retorceu-se. Provocou desmoronamentos, que foram caindo sobre o rio, formando os abismos das cataratas. Envolvido pelas águas, o casal caiu de uma grande altura. Então, Tarobá se transformou numa palmeira à beira do abismo. Naipi se transformou numa pedra junto da grande cachoeira, constantemente açoitada pela força das águas. Vigiados pelo deus-serpente, eles permanecem ali. Tarobá condenado a contemplar eternamente sua amada, sem a poder tocar. 
A lenda é apaixonante e envolvente. 
Os namorados a apreciam e se encantam, descobrindo a palmeira e a pedra. 
Em verdade, quem se detenha a observar a majestade do conjunto das cataratas, quedas, corredeiras, luxuriante vegetação, não pode deixar de pensar na grandiosidade de Deus. 
Deus, o escultor incansável que talhou as rochas, no decurso do tempo, com Sua vontade. Deus, que criou a abundância das águas e lhes conferiu sonoridade, de forma que quem ouve a sequência das quedas, constante, pode perceber um mantra. 
Ou um cantochão. 
E embalar a própria alma. 
Enquanto ainda nem havíamos acordado como homens, senhores de nossa razão, Deus espalhava as sementes do Seu amor, criando a mata diversificada, de mil nuances diferentes. 
De verdes que se sucedem e se misturam.
De folhas, flores, diversidades, onde as borboletas ensaiam bailados de intraduzível colorido. 
E, pintor inigualável, continua até hoje, alternando as cores nos arco-íris. 
Um aqui, outro acolá, indo de um lado a outro da enorme cratera por onde se esvaem, constantemente, as águas no leito do rio. 
Pai Excelso, ainda idealizou uma lição de fraternidade para os povos. 
A maioria das quedas d’água fica em território argentino. 
Mas, efetivamente, é do lado brasileiro que se apreciam os mais belos panoramas.
Então, os povos se abraçam. 
Brasileiros vão à Argentina para ter a vista de lá. 
Argentinos vêm ao Brasil para assistir ao espetáculo das suas próprias quedas d'água. 
Ah! A Grandeza inigualável de Deus! 
Redação do Momento Espírita. Disponível no CD Momento Espírita, v. 23 e no livro Momento Espírita, v. 6, ed. FEP. 
Em 6.1.2014.

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

A GRANDEZA DO PEQUENO

O garoto, de apenas oito anos de idade, chega feliz da festa de aniversário do seu melhor amigo e vai contar as novidades para sua mãe. Com toda a espontaneidade de uma criança fala das brincadeiras, dos amigos que estavam presentes, de como havia se divertido e, o que é mais importante, conta uma de suas atitudes, que deixa a mãe com lágrimas nos olhos, pela sua grandeza. Diz ele que, em determinado momento, procura a mãe do aniversariante para pegar uma ficha e jogar fliperama, que era uma das brincadeiras proporcionadas na festa. 
-Tia, o que é preciso para ganhar uma ficha e brincar no fliperama? 
-Ah!, é preciso jogar boliche pelo menos cinco minutos, depois ganha a ficha. Mas você não precisa fazer isto, pois é o melhor amigo de meu filho. Tome a ficha. Pode brincar. 
-Não, tia, eu vou jogar boliche depois venho pegar a ficha como todos os meus amigos. 
A mãe do amigo tentou entregar-lhe a ficha mas ele já estava longe, correndo na direção dos demais garotos que estavam jogando boliche para adquirir direito ao fliperama. A mãezinha, emocionada, perguntou por que ele não aceitou a oferta e ele respondeu simplesmente: 
-Eu não quero ser diferente dos outros. Isso não é justo. 
Naquele momento, a mãe se deu conta da importância da educação para a construção de um mundo mais justo e mais humano. Parabenizou o filho pela grandeza da sua atitude, pois ele havia sacrificado um interesse pessoal por amor à justiça. 
* * * 
Talvez muitos digam que o garoto é um tolo e que deixou escapar uma chance de levar vantagem. Mas, para quem tem olhos de ver, perceberá que esse mundo tem jeito pois, quando esse garoto crescer, agirá de forma diferente da de muitos adultos de hoje, e ajudará na construção de uma sociedade mais justa. 
Muito se fala que a justiça é cega, mas nem sempre assim é, quando se leva em conta a importância ou a influência de uma das partes. 
No entanto, uma criança de apenas oito anos deu um exemplo de verdadeira justiça, pois não levou em conta o seu interesse e, sim, a justiça, de forma imparcial. 
E você, tem agido com imparcialidade em se tratando de justiça? 
Se lhe oferecem uma chance de passar à frente de alguém, você a aceita ou diz que não é justo? 
Se surge a oportunidade de apressar um processo, subornando o funcionário, você aceita? 
E se você é o funcionário e lhe oferecem benefícios para desconsiderar a fila de espera, você concorda? 
Se encontra um amigo na fila do banco e ele se oferece para pagar as suas contas, passando à frente de todos os demais que estão ali esperando, há horas, você aceita? 
Se há um congestionamento no trânsito, você dá um jeitinho de passar à frente, pela lateral, deixando os outros para trás? 
Jesus afirmou que serão bem-aventurados os que têm sede de justiça, mas somente tem sede de justiça quem a respeita integralmente. 
Por essa razão, vale a pena que pensemos muito bem antes de erguermos a voz para pedir justiça. 
É preciso, antes de tudo, avaliar como anda o nosso senso de justiça. 
* * * 
A Justiça Divina não usa de pesos e medidas diferentes para julgar nossos atos. 
Deus sempre leva em conta a intenção e o grau evolutivo das criaturas, jamais a posição social ou as posses materiais. 
Por essa razão, vale a pena pensarmos em justiça nesses moldes, para que não venhamos a nos arrepender mais tarde. 
Redação do Momento Espírita 
Em 13.09.2010.

domingo, 17 de outubro de 2021

A GRANDEZA DE SERVIR

Gabriela Mistral
Servir tem sido um verbo difícil de ser conjugado. 
Todos apreciam ser servidos. 
Vê-se como as crianças apreciam que todos estejam ao seu serviço. Gostam de pedir as coisas e que essas lhes sejam dadas de forma rápida. 
O Mestre Jesus, contudo, lecionou diferente. 
Quem quiser ser o maior, seja esse o servo de todos. Na última ceia que fez com os discípulos, lavou os pés de todos, ante a surpresa deles. Aquela era uma noite de despedidas e Jesus lhes deixou as mais belas lições de serviço ao próximo. Como se já não bastasse ter exemplificado durante seus quase três anos de vida pública. No lago de Genesaré, nas estradas da Galileia, em casa de Pedro, na sinagoga, no templo, Ele serviu aos Seus irmãos. 
Se observarmos bem, perceberemos que toda a natureza serve ao homem. 
Serve a chuva, serve o vento, serve a nuvem. 
A semente enclausurada na terra, rebenta, brota e se transforma em árvore frondosa, servindo ao homem, dando-lhe sombra, abrigo, flores e frutos. 
Os animais se esmeram por servir. Dão ao homem alimento, produzindo leite, ovos, carne. Envolvem-no nas noites de inverno, com suas peles e lãs. Conduzem-no por ruas, praças e avenidas com segurança, quando o homem se apresenta desprovido de visão.
Aprendamos com a natureza. 
Aprendamos com Jesus. 
Onde houver uma árvore para plantar, sejamos voluntários. 
Onde houver um erro a ser corrigido, coloquemo-nos à disposição para corrigir.
Onde houver uma tarefa que ninguém deseje, aceitemos e a desempenhemos com alegria. 
Se houver uma pedra no caminho, não esperemos por outros. Retiremo-la nós mesmos. Mas também nos disponhamos a retirar as pedras das dificuldades e o ódio dos corações. 
Tenhamos em mente que não devemos fazer somente as coisas fáceis. 
É maravilhoso poder executar o que os outros se recusam a fazer. 
Existem pequenas tarefas que são bons serviços: enfeitar uma mesa para a refeição; arrumar livros sobre a estante; colher flores e dispô-las no vaso; pentear uma criança; acomodar um idoso em seu leito. 
O mundo é verdadeiramente belo porque há muito por fazer. 
Imaginemos como ele seria triste se tudo estivesse feito. 
Se não houvesse uma roseira para plantar; uma iniciativa para tomar; uma cerca para pintar; uma casa para embelezar; uma criança para educar; um idoso para acarinhar; um amor para amar. 
* * * 
Servir é um verbo que se conjuga na comunidade. 
O primeiro tempo se inicia no ninho doméstico, entre as quatro paredes do lar. 
É o tempo presente. 
Desde cedo, a criança aprende a servir, executando pequenas tarefas, sentindo-se responsável e útil. 
O aprendizado prossegue com os vizinhos, os colegas, os amigos. 
É a conjugação do futuro. 
Um animal a alimentar, um jardim para regar, uma árvore para podar. 
Servindo sempre, estaremos dando o exemplo àqueles que nos são próximos.
Redação do Momento Espírita, com base no poema O prazer de servir, de Gabriela Mistral. 
Em 7.7.2017.

sábado, 16 de outubro de 2021

ATÉ QUANDO SEREMOS ASSIM?

Andrey Cechelero
Até quando cairemos Sem aprender as lições da queda? 
Até quando faremos escolhas egoístas Quando tudo aponta para uma existência de colaboração? 
 Até quando nos perderemos por tão pouco Confundindo o que é meio com o que é fim? 
Até quando afundaremos na lama Segurando o fôlego, em agonia, Desejando estar em outro lugar? 
* * * 
Os erros se repetem. 
A História se repete, em muitos aspectos. 
Mudam as gerações e vemos os mesmos vícios ainda tão presentes. As questões sociais, as disputas políticas, os problemas familiares. Tudo isso reflete ainda o ser em transformação lenta. 
Olhando assim, é bastante desanimador. 
No entanto, não nos enganemos e não nos permitamos contagiar pelos pessimistas de plantão. Nem por aqueles que insistem em apenas enxergar a doença e não, também, o trabalho silencioso e necessário que ela realiza na intimidade da alma humana. 
As mudanças são lentas, graduais. 
Mas, elas têm acontecido. 
Basta ter olhos de ver. 
Há uma geração antiga, que persiste nos mesmos caminhos desastrosos. 
Há, também, já encarnando na Terra, há algum tempo, uma geração nova, fazendo tudo isso mudar. 
E, quando falamos de geração antiga e geração nova não nos referimos aos que somos mais velhos ou mais novos de idade. 
Referimo-nos a uma geração de hábitos e pensamentos viciados em ideias ultrapassadas, que cultivam o individualismo, o preconceito e a violência. 
A geração nova, falando em termos espirituais, é aquela que está aberta ao diálogo, que sabe ouvir, que desenvolve a compaixão, que não consegue ver o próximo em sofrimento ao seu lado, sem fazer algo em seu benefício. 
Vivemos tempos em que as duas gerações se misturam no planeta. 
A antiga, recebendo a última chance de mudar. 
A nova, tendo como missão liderar, influenciar e carregar multidões, pelo seu exemplo. 
Independente de geração, somos irmãos em evolução no planeta, aprendendo uns com os outros, diariamente. 
Dessa forma, a resposta para o Até quando? é individual, é de cada um. 
* * * 
Só você pode dizer até quando irá aceitar certas coisas como normais ou toleráveis. 
Só você poderá dar aquele próximo passo e dizer Chega! 
Não sou mais assim. 
Ou, Não quero mais essa vida para mim. 
Só você consegue estancar, pelo perdão, o ódio de séculos. 
Ou a raiva, de alguns dias, dizendo: 
-Vamos deixar isso de lado e seguir adiante. 
Só você, com todo seu empenho e persistência, poderá dizer: 
-Venci mais essa! 
Até quando? – é uma pergunta a se fazer todos os dias. 
É um questionamento necessário para quem deseja crescer, ir adiante, conquistar e conquistar-se. 
Até quando? - vai além de uma indignação de sofá, de quem observa o mundo em chamas, mas não é capaz de apanhar sequer um balde d’água. 
É a questão da mudança, do despertar, do agora. 
* * * 
Até quando cairemos Sem aprender as lições da queda? 
Até quando faremos escolhas egoístas Quando tudo aponta para uma existência de colaboração? 
Até quando nos perderemos por tão pouco Confundindo o que é meio com o que é fim? 
Até quando afundaremos na lama Segurando o fôlego, em agonia, Desejando estar em outro lugar? 
Redação do Momento Espírita, com citação do poema Até quando, do livro O Essencial e o Invisível, de Andrey Cechelero, ed. Immortality Books. 
Em 15.10.2021.

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

GRANDEZA DA RENÚNCIA

Alberto Dürer, o excelente pintor alemão, antes de notabilizar-se, necessitando estudar, combinou com um jovem amigo, igualmente artista, sobre a necessidade de procurarem um núcleo de maior cultura. Mudariam de cidade para que ambos pudessem aprimorar seu estilo. Porque não dispusessem de um mecenas, ou seja, um financiador ou padrinho que os ajudasse, estabeleceram um plano: um trabalharia como lavador de pratos, enquanto o outro iria estudar pintura. Assim, com a venda dos primeiros quadros, o que trabalhava passaria também a estudar. Chegando ao local pretendido, Alberto afirmou: 
-Eu me dedicarei ao trabalho de lavar pratos. 
Contudo, o companheiro respondeu: 
-Não. Eu sou mais velho e já tenho emprego no restaurante. 
Dessa forma, graças à disposição do amigo, Dürer começou a estudar e a pintar. Depois de um tempo, Alberto reunira uma soma que permitiria que o companheiro estudasse. Ele deixou o trabalho no restaurante e se dirigiu à escola. Percebeu, porém, que a atividade rude lhe destruíra a sensibilidade táctil, desequilibrara o ritmo motor. Deu-se conta de que nunca atingiria a genialidade, ainda mais, descobrindo a qualidade superior de Dürer. Dotado de sentimentos nobres, renunciou à carreira e retornou ao trabalho de lavador de pratos. Numa noite em que Dürer voltou ao estúdio, ao abrir silenciosamente a porta, estacou na sombra, vendo pela claraboia do teto o reflexo do luar que adentrava pelo cômodo. A luz alumiava duas mãos postas em atitude de prece. Era o amigo, ajoelhado, que rogava bênçãos para o companheiro triunfar na pintura. O artista, comovido ante a cena, imortalizou-a numa pequena tela, que passou à posteridade como Estudo para as mãos de um Apóstolo, para o altar de Heller, hoje na galeria Albertina, em Viena. 
* * * 
Será que somos capazes de viver tal grau de renúncia? 
Em dias em que a competição nos desespera e afoga, exigindo que sejamos sempre melhores do que os outros, senão não somos ninguém - será que já descobrimos o caminho seguro da renúncia? 
A renúncia é a emoção dos Espíritos superiores transformada em bênçãos pelo caminho dos homens. 
Quem renuncia estabelece, para o próximo, a diretriz do futuro em clima de paz. A renúncia é melhor para quem a oferta. 
Poder ceder, quando é fácil disputar; reconhecer o valor de outrem, quando se lhe está ao lado, ensejando-lhe oportunidade de crescimento; ajudar sem competir, são expressões elevadas da renúncia que dá à vida um sentido de significativa grandeza. 
Felizes aqueles que hoje cedem para amanhã receber; os que agora doam para mais tarde enriquecer-se; os que compreendem que a verdadeira felicidade consiste em ajudar e passar, sem impor nem tomar. 
Quem renuncia, enfloresce a alma de paz, granjeando a gratidão da vida pelo que recebe. 
Redação do Momento Espírita com base no cap. 8, do livro Receitas de paz, pelo Espírito Joanna de Ângelis, psicografia de Divaldo Pereira Franco, ed. Leal. 
Em 11.9.2012.