terça-feira, 29 de maio de 2018

UM NOVO CASAMENTO

Stephen Kanitz
Quando se encontram casais que estão juntos há anos, a primeira pergunta que surge é: 
-Como vocês conseguem? 
Na verdade, do jeito que as coisas andam, em que os casais se separam com a mesma rapidez com que se unem, é um pouco intrigante se encontrarem esses que permanecem juntos, ano após ano. Um homem teve a oportunidade de escrever a respeito, detalhando a sua experiência de homem casado, há trinta anos, com a mesma mulher. Diz ele que o segredo do casamento não é a harmonia eterna. Existem os desentendimentos, as rusgas. A solução é ponderar, se acalmar e partir de novo com a mesma mulher. O segredo, diz ainda, é renovar o casamento e não procurar um casamento novo. Isso exige alguns cuidados, esquecidos no dia a dia do casal. De tempos a tempos é preciso voltar a namorar, a cortejar. Fazer uma nova lua de mel, sem os filhos para exigirem atenção. Olhar para o outro como um pretendente em potencial. Sair para dançar, para olhar a lua e as estrelas. O que acontece quando a pessoa se divorcia e casa de novo? O mundo muda, o marido muda, o bairro, os amigos. Tudo muda. Então, não é preciso se divorciar. Basta mudar. Convenhamos que ninguém aguenta a mesma mulher, o mesmo marido por trinta anos, com a mesma roupa, o mesmo batom, o mesmo papo. Bastam alguns detalhes para tudo ficar diferente. Troque os móveis da casa. Se não puder comprar novos, então troque os antigos de lugar. Redecore a sua casa. Modifique o ambiente. Plante flores diferentes no jardim. Troque o guarda-roupa, o corte de cabelo, a cor do batom, a maquiagem. Quem se divorcia, normalmente perde peso, em pouco tempo. Verifique se você está acima do peso e decida-se a perder o excesso. Renove-se. Encante o outro, de novo. Reconquiste-o. Não mantenha somente os mesmos amigos. Conquiste outros. Permita-se conhecer novas pessoas. Saiam com outros casais. Mas também a sós. Reaprendam o prazer de conversar, de sussurrar segredos um no ouvido do outro. De rir de pequenas tolices. De tomar sorvete na mesma taça. Partilhar uma pizza. Lambuzarem-se comendo uma fruta da estação. Não realize sempre os mesmos programas, toda quarta, todo domingo. Inove. Surpreenda. Todo cônjuge precisa evoluir, estudar, aprimorar-se, interessar-se por coisas que jamais teria pensado fazer no início do casamento. No trabalho, para crescer profissionalmente, se faz isso. Por que não no casamento, na própria família? Tudo isso quer dizer: descubra o novo homem ou a nova mulher que vive ao seu lado. Em vez de sair por aí, tentando descobrir um novo e interessante par, olhe para o lado e case de novo... com o mesmo cônjuge. 
* * * 
A melhor estratégia para o casamento não é manter uma relação estável, sempre igual, mas saber mudar juntos. É aprender a importante lição de como crescer e evoluir unidos, apesar das desavenças, dos pequenos desacertos. Tenha certeza de que seus filhos respeitarão sua decisão de se casar de novo... com o mesmo par. 
Redação do Momento Espírita, com base na crônica Segredos para um bom casamento/relacionamento, de autoria de Stephen Kanitz, administrador por Harvard, publicado na Revista Veja, de 14.9.2005. Em 29.5.2018.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

A DIMENSÃO DO AMOR

DRÁUZIO VARELA
Quando nos enamoramos, o mundo toma as tonalidades da nossa emoção. O céu é mais azul, as flores são mais viçosas, o coração anda atropelado no peito à simples lembrança da figura amada. É comum que os primeiros anos do casamento sejam coroados de gentilezas e comemorações. Algo assim como a natural continuidade da doce fase do namoro. É também bastante comum que, à medida que os anos se somem, arrefeçam os arroubos espontâneos do afeto, escasseiem os telefonemas, a oferta de flores. É como se tudo fosse tomando ares de rotina. Foi por isso que o oncologista, ao receber aquele casal em seu consultório, admirou-se com a postura do marido. Era um comerciante de meia idade, ereto, recordando a formação militar. A esposa era portadora de um câncer raro, terrível. Concluída a consulta, o marido a acompanhou até a sala de espera e retornou para falar a sós com o médico. 
-Doutor, quando conheci minha esposa, há quarenta anos, e nos casamos, não tínhamos nada. Nem eu, nem ela. A pobreza era nossa hóspede. Juntos, trabalhamos e amealhamos fortuna. Temos muitas posses, conquistadas ao longo dos anos. Tudo é nosso. Somos sócios. O que quero lhe dizer é que se for preciso gastar todos os nossos bens, não teremos perdido nada. Simplesmente teremos voltado à condição inicial. Quero que o senhor se preocupe com o melhor tratamento existente em nosso país e no Exterior. Dinheiro é problema meu. Estamos entendidos? 
E assim foi. Ele jamais reclamou de gasto algum. Por duas vezes a levou a uma clínica nos Estados Unidos. Dois anos depois, ela morreria. Mais tarde, ele falaria ao médico do quanto amava aquela mulher. Ele a conhecera em um baile militar e a convidara para dançar. Quando a abraçou para a dança, ficou trêmulo e pensou: 
-Desejo passar o resto da vida abraçado com essa moça. 
Três meses depois se casaram. Ele fez um pedido formal mais ou menos nos seguintes termos: 
-Quero pedir você em casamento para sermos felizes. Prometo que nunca haveremos de brigar por tolices, como o tubo de pasta de dentes. Muito menos por ciúmes descabidos. Pretendo ser seu companheiro pelo resto da vida, sentar na sala com você à noite. Escutar a música que ambos apreciamos e me sentir em paz com a mulher que mais desejo, no melhor lugar do mundo, nosso lar. 
Ele cumpriu a promessa, até a última palavra. 
 * * * 
O amor tem a dimensão que você lhe dá. Torná-lo grandioso, altruísta, é de sua livre escolha. Fazer da vida a dois uma sucessão de momentos de felicidade, também. Pense nisso e não deixe passar a excelente oportunidade de ser feliz, o quanto possa, até que possa. 
Redação do Momento Espírita, com base no cap. Palavras, do livro Por um fio, de Drauzio Varella, ed. Companhia das letras. Em 26.1.2013.

domingo, 27 de maio de 2018

DILEMAS MORAIS

Nossa sociedade vive uma crise de valores. Há notícias de corrupção nos mais variados setores. Entre a tentação e o dever, a primeira tem prevalecido. Esse clima pode gerar descrença no futuro. Contudo, uma pequena retrospectiva histórica auxilia a manter a esperança. Embora de forma lenta, a Humanidade vem refinando seus valores. Há pouco tempo eram admitidas práticas hoje amplamente repudiadas. Por exemplo, a escravidão, a prisão por dívidas e o assassinato como forma de defesa da honra. A igualdade da mulher perante o homem constitui conquista recente da Civilização. Por certo, um padrão ilibado de conduta permanece distante da ampla maioria das pessoas. A honestidade ainda é uma casca muito fina a encobrir o desejo de levar vantagem. Se há a perspectiva de lucrar indevidamente, sem ser apanhado, muitos sucumbem. E tal se dá nos mais variados planos da existência humana. São comuns condutas sexuais desequilibradas, traições conjugais e profissionais, fofocas e trapaças. As pessoas se permitem tais desvirtuamentos na crença de que assim agem na conquista da felicidade. Ocorre que não há felicidade sem paz e nem paz sem consciência tranqüila. A tranqüilidade da consciência, por sua vez, pressupõe o dever bem cumprido. Conseqüentemente, traições, mentiras, preguiça e desonestidade não trazem felicidade para ninguém. Muitos se perguntam a razão pela qual os anseios do coração tão freqüentemente conflitam com o dever. É como se a vida negasse deliberadamente o que a criatura considera o ideal para ser feliz. O Espiritismo ajuda a entender esse aparente conflito. Ele ensina que os espíritos encarnam infinitas vezes, com o propósito de se aperfeiçoarem. Todos se destinam à mais completa felicidade. Na plenitude de sua evolução, serão anjos, plenos de amor e sabedoria. No princípio, são grandemente guiados pelos instintos. Mas de forma gradual desenvolvem a razão e conduzem-se por ela. Nesse gigantesco caminhar, cometem alguns equívocos e desenvolvem outros tantos vícios. Com o passar do tempo e o crescer espiritual, muitas fissuras morais não mais se justificam. A consciência despertada para realidades superiores clama por corrigenda. No plano espiritual, entre as existências terrenas, o Espírito contempla sua situação. Verifica quais vícios e equívocos prejudicam sua marcha para a plenitude e decide superá-los. Então, programa para si uma existência terrena com o intuito de melhorar-se. Assume compromissos de trabalho, voltados à sua reforma pessoal. Aceita como parentes Espíritos com quem tenha problemas para resolver. Pede para vivenciar algumas dificuldades, com a finalidade de corrigir-se. É por isso que na vida terrena o dever entra em conflito com os interesses pessoais e as paixões. De um lado há o homem velho, tentado pela perspectiva de cometer novamente antigos equívocos. De outro, um elaborado projeto de disciplina e engrandecimento pessoal. Se você deseja ser feliz, jamais titubeie entre a tentação e o dever. Perante um dilema moral, adote a conduta mais digna possível, mesmo que penosa. O comportamento digno e o cumprimento do dever o libertarão do passado e o habilitarão a vivências sublimes. Ao passo que ceder às tentações implicará a necessidade de retomar a tarefa no futuro, provavelmente em circunstâncias mais árduas. Pense nisso. 
Equipe de Redação do Momento Espírita.

sábado, 26 de maio de 2018

SINAIS DOS ANOS

Acontece com todos os que não morremos de forma prematura, no verdor dos anos. Um belo dia, nos olhamos no espelho e descobrimos uns sinais diferentes no mapa da face. São pequenas pregas. Sulcos de expressão, surgidos em consequência de determinados movimentos faciais repetidos, como por exemplo, o franzir a testa. Eles apontam o nosso processo de envelhecimento. Mais importante do que isso, são o registro vivo da história da nossa vida, dos acontecimentos que se constituíram em alegria, preocupação ou tristeza, no transcorrer do tempo. Foram os anos, com seus dedos miúdos, seu delicado pincel, que esculpiram aqueles caminhos na testa, como linhas paralelas, dizendo das tantas dificuldades vividas. Se pensarmos bem, poderemos recordar quando foi que elas surgiram: quando o desemprego nos marcou os meses e as contas começaram a avolumar. Quando o filho nasceu prematuro, requerendo cuidados especiais. Quando as horas noturnas nos exigiram estudos intensos com vistas ao concurso. E aquelas duas verticais, acima do nariz, entre os olhos? Ah, essas foram marcadas heroicamente nos dias de preocupação quando da assunção ao novo cargo, quando da mudança de residência, quando o filho precisou de uma cirurgia e as noites se converteram em horas insones. E aqueles vincos profundos, de ambos os lados da boca, dizem de quantas vezes sorrimos, rimos com amigos ou a sós. Sorrimos quando recebemos a confirmação da vitória no vestibular, quando concretizamos o casamento, quando nosso time ganhou o campeonato. E quando a promoção chegou, quando fomos contemplados com aumento salarial, quando assistimos a um filme, quando nos ofereceram uma festa surpresa. Essas marcas são caprichosas. Elas não somente aparecem ali quanto se apresentam nos cantos dos olhos, em linhas caprichosas, pequeninas, a princípio. Acentuando-se, depois. Sim, cada ruga, cada vinco tem uma história. Fala de uma experiência. Nós as podemos remover, alterar, amenizar com procedimentos cirúrgicos, com implantação de toxina botulínica, cremes, hidratantes. Tantas e tantas formas. Podemos retirá-las, podemos disfarçá-las, podemos... De algum modo, nos assemelhamos àquelas árvores que, a cada ano, produzem um anel em seu tronco. Contamos os anéis e podemos estimar sua idade. Nós acumulamos rugas que testificam dos anos vividos neste bendito planeta. Alguém ao nosso lado, que nos ame, as observará e dirá que sabe o exato momento em que cada uma dessas marcas foi desenhada em nossa face. Até poderá afirmar que ama, especialmente, cada uma delas. Se quisermos as amenizar, atenuar ou mesmo retirá-las totalmente, deixaremos de testificar nossa idade, pelas marcas da face. E, como aquelas árvores que acrescentam, a cada ano, um anel internamente, apenas nossa intimidade contará das experiências vividas. Será então, nossa forma de agir que dirá se os anos nos amadureceram o raciocínio, intensificaram a lucidez e o bom senso. Com rugas na face ou não, oxalá que os anos que vivamos sejam de progresso, crescimento espiritual para cada um de nós. Porque viver na Terra é uma oportunidade ímpar, que nos merece todo e especial empenho. 
Redação do Momento Espírita. Em 26.5.2018.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

NOTURNO EM MI BEMOL

FRÉDÉRIC CHOPIN
Em Mainsfield, Inglaterra, um policial visitou a residência de um senhor de noventa e três anos, que havia sido vítima de roubo. A casa simples, com móveis antigos e retratos de uma longa vida pelas paredes, estava em estado lastimável. Tudo revirado. O oficial comoveu-se ao ver o senhor sentado em sua velha poltrona, decepcionado e desnorteado. Precisava fazer um relatório, assim passou cuidadosa revista pelos cômodos. Foi quando, no canto oposto de onde estava o dono da casa, encontrou um velho piano. Estava empoeirado. Há tempos que ninguém o dedilhava. Aberto, sobre a estante do instrumento ainda imponente, estava um livro de partituras consumido pelo tempo. O policial reconheceu a peça da página exposta: Noturno em mi bemol, de Chopin
-Então, o senhor gosta dos noturnos de Chopin! 
Afirmou ele. 
-Sim, meu filho. 
-Este em especial, era o meu favorito quando ainda tocava o piano para minha esposa. Ela faleceu, na noite de Natal, alguns anos atrás. Sabe que também era o preferido de minha avó!
Disse o homem da polícia, num tom de quem buscava entabular conversa, a fim de distrair o morador, e quem sabe consolá-lo um pouco, após o ocorrido desagradável. Então, sem pensar muito, o homem sentou-se ao piano e começou a tocar. O idoso arregalou os olhos e começou a dedilhar também. As mãos enrugadas e trêmulas tocavam teclas no ar, numa mistura de interpretação ao piano e regência. O ambiente mudou. A música invadiu cada canto visível e invisível daquele lar de tantas histórias vividas. Não havia mais roubo, não havia mais casa em desordem. Até o tempo era outro. Tudo isso em função da sensibilidade de um homem da lei, que foi além de suas obrigações cotidianas, ou melhor, que entendeu seu grande dever como homem de bem na Terra. 
* * * 
Todos podemos ser instrumentos do bem na face da Terra. Em algum momento, em qualquer situação, podemos ser chamados a ser agentes de sensibilização, de consolo, de auxílio no mundo. E isso não está apenas nos grandes gestos. Aliás, neste campo, o que é considerado grande ou pequeno, é bem relativo. Somos todos capazes, basta a boa vontade, basta querer e estar em sintonia com esta proposta elevada de colaboração e de edificação. Ao acordarmos, diariamente, podemos nos propor intimamente a colaborar com a Criação, a sermos também criadores. Criadores de concórdia entre as pessoas. Criadores de harmonia no ambiente familiar. Criadores de momentos de alegria a quem passe por nós. Podemos ser sorriso onde haja a sisudez. Podemos ser otimismo onde só existam palavras negativas. Podemos ser calma onde reine o desespero. Enfim, podemos ser música em meio ao silêncio ou ao caos dos ruídos inquietantes do mundo atormentado. Sejamos agentes transformadores. Sejamos a música suave e bela que invade os ambientes, sem que ninguém perceba, levando harmonia e sensatez aos pensamentos. 
Redação do Momento Espírita, com base em relato colhido na Internet. Em 25.5.2018.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

DILATANDO O CORAÇÃO

SANTA MADRE TERESA DE CALCUTÁ
Você já reparou como, não raro, nos referimos a alguém como uma pessoa de grande coração? Como é frequente dizermos que alguém tem um coração imenso? É claro que a expressão não é literal e, muito menos, estamos querendo nos referir à sua anatomia. Quando assim nos expressamos, estamos, na verdade, manifestando nossa admiração quanto à capacidade de amar, de querer bem, de ser solidário, fraterno e amigo. Afinal, dizemos que tal ou qual pessoa tem um coração grande porque ela é capaz de abrigar muitos sentimentos nobres, com eles beneficiando os seus semelhantes. Seria interessante nos questionarmos: 
-Será possível dilatar o próprio coração? Será que conseguimos ter um coração maior do que aquele que hoje temos? 
Todas as virtudes e competências foram construídas em nossa intimidade, por esforço próprio, por investimento pessoal. Todos nós possuímos inteligência, a capacidade intelectual coerente com os esforços que empregamos para que ela se desenvolvesse. Da mesma forma, as conquistas dos bons sentimentos, dos nossos valores e virtudes são frutos do empenho e dedicação, investimento e persistência. Nenhum dom ou privilégio divino. De maneira nenhuma alguém agraciado em detrimento de outro. Somos exatamente o resultado daquilo que investimos e desenvolvemos ao longo de toda nossa trajetória que, é claro, iniciou-se muito antes desta vida. Dessa forma, fica fácil compreender porque algumas pessoas têm grande o coração. Passamos a entender porque elas conseguem manter, na tutela de seu coração, tantos sentimentos altruístas, tanta devoção a pessoas e agasalhar tantas virtudes. Não foram agraciadas, de forma gratuita. Não mereceram nenhum privilégio, graça ou dom divino. Tudo o que já conseguiram entesourar na intimidade é fruto de seu trabalho e investimento pessoal. 
 * * * 
Assim ocorre com todos nós. Na medida em que nos esforçamos por melhorar, novos valores começam a ocupar espaço em nós. E, na proporção em que buscamos desenvolver virtudes, aprender conceitos e valores nobres, eles passam a ter guarida em nosso coração. Então, como é natural, essas virtudes dilatam nosso coração, a fim de que consigam todas elas ali ganharem morada. Portanto, para termos grande o coração, cabe-nos o esforço individual, o empenho e o trabalho no bem. Não há dia em que a vida não oportunize esses exercícios. Os laços familiares mostram-se excelentes oportunidades. Os amigos, as relações profissionais, nossos contatos sociais, também funcionam como oficinas do coração. Quando alguns relacionamentos se mostrem difíceis, complicados, são também o convite generoso da vida a fim de que possamos ser daqueles que possuem um grande coração. Quando Jesus nos convida a caminhar dois mil passos com alguém que nos pede para andar mil, ou quando nos aconselha a oferecer a túnica para quem nos pede a capa, está nos ensinando que todo o esforço em prol da conquista das virtudes, que beneficiem nosso próximo, será sempre o melhor investimento que possamos fazer em favor do nosso próprio crescimento interior. Pensemos nisso. Redação do Momento Espírita. Em 17.5.2014.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

O CARVALHO

Max Lucado
Ele era um homem forte. Há três anos, principiara a notar um enfraquecimento de seus músculos. Começara pelas mãos, depois, nas panturrilhas, seguido pelos braços. Uma bateria de testes foi realizada: exames de sangue, neurológicos e musculares. E veio o diagnóstico: doença de Lou Gehrig. Um enfraquecimento devastador. Ninguém conhece a causa nem a cura dessa enfermidade. Somente que é cruel e precisa. É possível que outro homem tivesse ficado desesperado. Não ele, que guardava a certeza da Imortalidade. Seus dias estavam contados. Por isso, começou a colocar tudo em ordem. Ajeitou a casa para a esposa, instalando um sistema de rega para o jardim. Substituiu a porta da garagem por uma automatizada, mais prática. Pintou todo o madeiramento da casa. Atualizou seu testamento, verificou as políticas de seguro. Planejou seu funeral, adquirindo dois lotes no cemitério: um para si, outro para a esposa. Como desejava ser sepultado à sombra de um carvalho, uma árvore bem viva, conseguiu uma autorização junto ao conselho municipal da pequena cidade, para o plantar, num dos lotes. Comprou a muda da árvore e a plantou. Preparou seus filhos com palavras de estímulo e cartas de amor. Atos finais. Horas finais. Palavras finais. Tudo refletindo uma vida bem vivida. As horas finais estão chegando. A chama de sua vela se enfraquece cada vez mais. Ele está em paz. Seu corpo está morrendo, mas seu Espírito vive. Ele não consegue mais sair da cama. Escolheu viver os últimos dias em casa. Não será por muito tempo. Dia desses, o filho foi visitar o pequeno carvalho. A mudinha começou a se desenvolver, dando mostras da grande árvore que se tornará. Uma árvore especial, pensou o filho, com uma missão especial. Tocou o pequeno carvalho, sussurrando-lhe como se ele o pudesse ouvir: 
-Cresça. Fique alto e forte. Você guardará um tesouro valioso. 
No caminho para casa, continuou pensando sobre aquela árvore. As décadas a tornariam forte. Os anos lhe acrescentariam forças. Quando chegou em casa, o pai ainda estava acordado. O filho se curvou sobre a cama e o beijou. 
-Fui ver a árvore, confidenciou. Ela está crescendo. 
O velho pai apenas sorriu. 
* * * 
É mais fácil morrer com tranquilidade quando se vive em tranquilidade. Quando se guarda a certeza de que aqui se está de passagem. E quando se ama de verdade, age-se assim. Coloca-se a casa em ordem. Prepara-se os amores que ficarão. Tudo se providencia para não lhes causar maiores dores que a da própria separação, as despedidas do Até logo mais. Palavras finais. Atos finais. Cada qual abre um tesouro de promessas. O velho carvalho fará sombra à sepultura de um grande homem. Seu Espírito se alçará liberto, feliz por ter cumprido sua missão na Terra. 
Redação do Momento Espírita, com base no cap. O carvalho, de Max Lucado, do livro Histórias para o coração do homem, de Alice Gray e Al Gray, ed. United Press. Em 23.5.2018.