domingo, 7 de novembro de 2021

GRATIDÃO

O homem, por detrás do balcão olhava a rua de forma distraída. Uma garotinha se aproximou da loja e apertou o narizinho contra o vidro da vitrine. Os olhos da cor do céu brilharam quando ela viu determinado objeto. Entrou à loja e pediu para ver o colar de turquesas azuis. 
-É para minha irmã. Pode fazer um pacote bem bonito? 
O dono da loja olhou desconfiado para a garotinha e lhe perguntou: 
-Quanto dinheiro você tem? 
Sem hesitar, ela tirou do bolso da saia um lenço todo amarradinho e foi desfazendo os nós. Colocou-o sobre o balcão e feliz, disse: 
-Isto dá, não dá? 
Eram apenas algumas moedas, que ela exibia orgulhosa. 
-Sabe, eu quero dar este colar azul para a minha irmã mais velha. Desde que morreu nossa mãe, ela cuida da gente e não tem tempo para ela. É seu aniversário e tenho certeza que ela ficará feliz com o colar que é da cor dos olhos dela. 
O homem foi para o interior da loja, colocou o colar em um estojo, embrulhou com um vistoso papel vermelho e fez um laço caprichado com uma fita verde. 
-Tome, leve com cuidado. 
Ela saiu feliz, saltitando rua abaixo. Ainda não acabara o dia quando uma linda jovem, de cabelos loiros e longos e maravilhosos olhos azuis, adentrou a loja. Colocou sobre o balcão o já conhecido embrulho desfeito e perguntou: 
-Este colar foi comprado aqui? 
-Sim, senhora. 
-E quanto custou? 
-Ah!, falou o homem, o preço de qualquer produto da minha loja é sempre um assunto confidencial entre o vendedor e o cliente. 
A moça continuou: 
-Mas minha irmã tinha somente algumas moedas. O colar é verdadeiro, não é? Ela não teria dinheiro para pagá-lo! 
O homem tomou o estojo, refez o embrulho com extremo carinho, colocou a fita e devolveu à jovem dizendo: 
-Ela pagou o preço mais alto que qualquer pessoa pode pagar. Ela deu tudo o que tinha. 
O silêncio encheu a pequena loja, e duas lágrimas rolaram pelas faces jovens, enquanto suas mãos tomavam o embrulho e ela retornava ao lar, emocionada. 
* * * 
Verdadeira doação é dar-se por inteiro, sem restrições. 
Gratidão de quem ama não coloca limites para os gestos de ternura. 
E gratidão é sempre manifestação dos Espíritos que têm riqueza de emoções e altruísmo. 
Sê sempre grato, mas não espere pelo reconhecimento de ninguém. 
A gratidão é dever que não aquece apenas quem a recebe, mas também reconforta quem a oferece. 
Redação do Momento Espírita com base no texto O colar de turquesas azuis, do livro Remotos cânticos de Belém, de Wallace Leal Rodrigues, ed. O Clarim. Disponível no CD Momento Espírita, v. 2, ed. FEP. 
Em 13.7.2017.

sábado, 6 de novembro de 2021

A GRATIDÃO SEMPRE NOS ALCANÇA

Ela era uma menina de oito anos de idade, quando os nazistas invadiram a França. Judia, ela foi obrigada a levar no peito uma enorme estrela amarela, para que todos soubessem a sua origem. Francine Christophe, com sua família, foi enviada para o campo de concentração Bergen-Belsen, na Alemanha. Conta que, por serem filhas de prisioneiros de guerra, tinham o direito de levar consigo uma pequena bolsa. Tão pequena que poderia ter em seu interior um torrão de açúcar, um punhado de arroz, um pedaço de chocolate. Sua mãe optou por levar dois pedaços de chocolate e disse que quando a pequena Francine estivesse destroçada, acabada, talvez aquela porçãozinha de chocolate tivesse o condão de reerguê-la. Certo dia, chegou ao campo uma mulher. Estava grávida. Mas, tão magra, que mal dava para ver-lhe a silhueta. Chegou o dia do parto. A mãe de Francine, que era chefe de barraca, a acompanhou até um certo local tido como enfermaria. Quando estava para sair da barraca, foi até sua filha e lhe perguntou se ela ainda tinha um dos pedaços de chocolate. Ante a afirmativa da menina, disse-lhe que um parto naquelas condições traria, com quase certeza, a morte para a parturiente. Quem sabe se ela oferecesse aquele chocolate, poderia ajudar. A garota entregou a sua preciosidade. A mulher deu à luz um bebê minúsculo. Nem ela morreu, nem o bebê que, no entanto, jamais chorou. Nunca deu sequer um gemido. Seis meses depois, quando aconteceu a libertação, ao ser desenrolada aquela coisinha minúscula, ela gritou. Foi emocionante. Segundo Francine, foi naquele dia que o bebê verdadeiramente nasceu. Muitos anos depois, casada, Francine foi indagada por sua própria filha se tudo não teria sido diferente se os prisioneiros dos campos de concentração, ao retornarem para seus países, tivessem tido o apoio de psicólogos. 
-Como teria sido? - se perguntou Francine. 
E, resolveu organizar uma conferência, aberta a quem desejasse: sobreviventes, psicólogos, psiquiatras, jovens, idosos. O tema era: 
-Se tivesse havido psicólogos quando voltamos dos campos de concentração, como teria sido? 
No dia da conferência, pouco antes de iniciar a sua fala, uma psiquiatra, residente na cidade francesa de Marselha, se aproximou. Disse que tinha um presente para lhe oferecer. Mexeu no bolso e retirou de lá um chocolate. Entregou-o, emocionada, para a palestrante e disse somente: 
-Eu sou o bebê. 
* * * 
Todo bem que façamos, por mais insignificante nos possa parecer ou por mais grandioso tenha sido, não passa em branco. Numa alma nobre, a gratidão fica registrada. Podem passar os dias, a alegria retornar, a vida ser refeita, para quem viveu o caos da fome, da miséria, do quase esquecimento de ser gente, de ser uma criatura humana. Tudo pode ser deixado para trás, na tentativa de buscar o sentido para a própria vida. Para encontrar caminhos para seguir em frente. Nada disso fará com que a gratidão se apague. Por vezes, difícil se torna agradecer pessoalmente ao benfeitor. No entanto, alguns de nós, como a psiquiatra francesa, tem ocasião de conseguir isso. Sim, a gratidão sempre nos alcança. 
Redação do Momento Espírita, com base em relato oral de Francine Christophe, no vídeo HUMAN, produzido por Bettencourt Schueller Foundation e Good Planet Foundation. 
Em 24.9.2020.

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

A RESPEITO DE UM FRANCISCO

SÃO FRANCISCO DE ASSIS
Ele nasceu em setembro de 1182, filho de um mercador que enriquecera no comércio de tecidos e roupas. Ele gozou tudo o que a riqueza lhe poderia oferecer. Liderava a juventude de Assis, em noites de muitas festas. Servia-se de sua voz e de seu talento musical para as serenatas com que honrava as jovens da cidade. Seu sonho era se tornar cavaleiro, o defensor dos oprimidos e sofredores. Por isso, se serviu de armas e lutou em Assis, em Perugia. Paramentou-se ricamente para acompanhar um nobre a caminho das cruzadas. Então, em Spoleto, a trinta e seis quilômetros de Assis, em sonho, lhe é recordado de que lhe compete servir ao Senhor. Reprisando as palavras de Maria de Nazaré, ao receber a ratificação da sua missão como Mãe do Messias, pelo mensageiro celeste, ele indaga: 
-Senhor, que queres que eu faça? 
É o servo se dispondo a servir, conforme a Vontade Superior. 
A resposta nos remete, igualmente, a versículos de Atos dos Apóstolos, quando o Cristo, em pleno sol do meio-dia, recomenda a Saulo de Tarso, às portas de Damasco, que entre à cidade e aguarde. 
A Francisco é recomendado que volte para Assis. 
Lá ele saberá o que fazer. 
A visão que tivera, anteriormente, de adentrar uma sala cheia de armas, armadura brilhante, deveria, igualmente, ser interpretada de forma diferente. 
Sim, não eram das armas do mundo que ele deveria se utilizar, mas das propostas, feitas séculos antes, por um carpinteiro, nas estradas da Galileia. 
Ainda um tempo demoraria Francisco para bem entender o que lhe estava determinado como missão. 
Os homens se haviam afastado muito da fonte generosa da Boa Nova. 
A lei de amor, a compaixão, o atender ao irmão desfavorecido – tudo havia sido esquecido. 
Mais importante, para os homens da época, era a posse do ouro, o dominar o seu semelhante, a fim de que os servissem em totalidade. 
Haviam esquecido de que o Senhor dos céus viera ao mundo e aqui Se colocara como Aquele que serve. 
Também, Aquele que não responde agressão com agressão, nem arquiteta vingança de qualquer ordem. 
A ordem que ensinara fora o perdão das ofensas, a oferta da outra face, a da paz, da mansidão. 
Por isso, a missão de Francisco de Assis marca, de forma indelével, aqueles dias, lembrados até a atualidade. 
Pobreza extrema, atender somente às mínimas necessidades do corpo, não se permitir os prazeres do mundo. 
Pobreza, humildade, castidade. 
Seu exemplo causa assombro, choca mesmo. 
E nos remete a uma lição extraordinária dos Espíritos do Bem, que nos dizem que é preciso que o mal chegue ao excesso, para tornar compreensível a necessidade do bem e das reformas. 
Então, as ações de quase miserabilidade, de não se permitir nada, exemplificadas e pregadas por Francisco, causam espanto. 
Elas se faziam de importância para que os homens prestassem atenção e comparassem sua maneira de agir com as novas propostas. 
Era preciso chocar a Humanidade, a fim de que os homens pudessem se dar conta do quanto distantes andavam da simplicidade das pombas, do amor que se oferece em holocausto pelo bem do seu irmão. 
Pensemos nisso. 
Redação do Momento Espírita, com base em dados biográficos de Francisco de Assis e transcrição da questão 784, de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, ed. FEB.
Em 5.11.2021.

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

REFORMA ÍNTIMA

É bem possível que tenhamos ouvido, mais de uma vez, as palavras reforma íntima. Quase sempre, o termo nos desperta a ideia de que tudo em nós está errado e necessita ser reformulado. Ou de que somos portadores somente de coisas negativas, ruins, que devem ser modificadas. 
Reforma quer dizer retificação, mudança. Mas, também, melhoria, aprimoramento, dar melhor forma a alguma coisa. Quando dizemos que faremos uma reforma em nossa casa, não significa que ela está ruim. Pode simplesmente querer dizer que desejamos melhorá-la, ampliá-la, torná-la mais confortável. Assim, a reforma pode compreender uma repintura externa, porque a atual está começando a descascar ou se encontra desbotada, pelo longo tempo de exposição às intempéries. Ou até mesmo porque desejamos alterar a cor, por outra, que conceda melhor aparência ao imóvel. Durante uma inspeção para reforma, poderemos descobrir que precisamos substituir o assoalho de um cômodo, uma parede, um pedaço do teto. Quem sabe, substituir algumas telhas quebradas, calhas. Com certeza, haveremos de encontrar na casa, que nos dispomos a reformar, um cômodo quase ideal, que, ao menos por ora, não demanda nenhum retoque. É um lugar aconchegante, com boa iluminação, móveis bem dispostos, pintura excelente. Enfim, ali tudo está bem e não necessitará ser tocado, como dissemos, não agora. 
Assim também é quando falamos em reforma íntima. 
Analisando as nossas disposições individuais, a nossa forma de ser, de pensar e agir, vamos descobrir que temos defeitos, sim. 
Entretanto, também virtudes. 
Os defeitos são aqueles que devemos nos esmerar para nos libertarmos. Naturalmente, a pouco e pouco. 
Exatamente como a reforma de qualquer casa, quer seja por condições financeiras, quer seja por condições técnicas, não se faz de um dia para o outro.
Tempo, esforço, atenção é o que é exigido para irmos nos liberando de defeitos pequenos e grandes. 
É o ciúme que teima em aparecer, a impaciência que nos faz explodir por quase nada, o egoísmo falando mais alto. 
Como toda reforma tem a ver com uma certa desarrumação, sujeira de caliça, madeira e pó, quando iniciamos a reforma íntima, por vezes, vamos nos sentir como se tudo estivesse muito mal. 
Parecer-nos-á que só temos defeitos e não os iremos superar nunca. 
Paciência conosco! 
A natureza não dá saltos e vícios de muitos anos necessitarão de tempo para serem eliminados. 
Um dia, com a reforma completada, tudo estará arrumado, bem disposto, no lugar correto. 
E, é claro, nossa alma enfeitada com as flores viçosas, os vasos delicados das virtudes conquistadas. 
* * * 
Jesus, o Mestre, no intuito de nos incentivar à própria melhoria, lecionou que quem estivesse no telhado, não descesse para o interior da casa; que quem estivesse no campo, não retornasse para a cidade. 
O convite é no sentido de que, vencidas as etapas, as pequenas deficiências, abolidos alguns erros, não nos permitamos cometê-los outra vez. 
Não nos permitamos retornar a cometer o mesmo equívoco, nem mesmo com a desculpa 
Só hoje, só agora. 
Pensemos a respeito e iniciemos nossa reforma íntima. 
Redação do Momento Espírita, com citação do Evangelho de Mateus, cap. 24, vers. 17. 
Em 3.11.2021.

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

GRATIDÃO É PARA SEMPRE

Dawnielle Davison e Mike Hughes
É louvável o sentimento de gratidão que desenvolvemos para com as pessoas que nos auxiliam. Pessoas que alteraram o rumo das nossas vidas, pessoas que, em algum momento, nos dirigiram palavras de tal profundidade, que nos redirecionaram o sentido da existência. 
Nesse rol, se encontram pais, avós, tios, colegas, amigos, professores. Pessoas que fizeram a grande diferença em nossa jornada. 
Contudo, existem outras que transitam pela nossa vida uma única vez, nos oferecem algo grandioso e se vão. Por vezes, nem temos ciência do quanto devemos a essas criaturas. Coisas que o tempo se encarrega de nos elucidar, vez ou outra. 
É o caso de Mike Hughes que, em 1998, nos Estados Unidos, durante um incêndio, entrou em uma casa repleta de fumaça e fogo, para realizar o seu trabalho. Bombeiro experiente, algo lhe segredou que revisasse determinado quarto, onde ele encontrou, no berço, uma menina de nove meses. Ela inalara muita fumaça e se mostrava assustada. Ele a tomou nos braços, foi para fora e iniciou os processos de conclusão do resgate. A presteza do atendimento determinou que Dawnielle Davison fosse salva. Os anos se passaram. Aposentado, Hughes descobriu um recorte de jornal do dia em que realizara aquele resgate. Ficou curioso sobre o paradeiro da menina e a procurou no facebook. Ela estava com dezessete anos. Os dois conversaram online. A garota confessou que não tinha ideia de quão perigosa tinha sido sua situação, naquele incêndio. Emocionou-se ao descobrir quem a salvara e que, decorridos anos, se importara o suficiente para procurá-la, a fim de saber como estava. Então, para a sua formatura do colegial, além da presença da família e dos amigos, ela convidou o seu herói. E ele compareceu. Foi um reencontro emocionante. Salvador e resgatada se abraçaram, sorrindo. Confessou o bombeiro: 
-Fiquei muito feliz ao receber o convite. Não sei como descrever esse reencontro. As lágrimas são de felicidade ao perceber como as coisas poderiam ter dado errado.
* * * 
Aprendemos que o amor de Deus designa a cada um de Seus filhos um anjo de guarda. 
Um guardião que lhe abençoa a vida e zela por seu tutelado. 
É essa presença amiga que nos intui, por vezes, de forma sutil, orientando-nos a que busquemos esse ou aquele caminho. 
Preserva-nos de muitos perigos. 
Inspira-nos para o bem. 
Ao lado desse guardião espiritual, temos ainda Espíritos amigos, do agora ou de tempos idos, que nos amam e nos dispensam cuidados. 
Também Espíritos familiares nos acompanham a trajetória, desejando que triunfemos em nossos empreendimentos. 
Enfim, enquanto encarnados, todos podemos ser objeto de cuidados de pessoas transformadas em agentes do bem, que atuam em nosso benefício, sob a influência generosa dessas criaturas abnegadas. 
Afeitas ao atendimento ao próximo, mostram-se abertas às intuições. 
É assim que entram em um quarto para salvar da morte um bebê. 
Ou têm suas mãos orientadas em delicada cirurgia para o êxito pleno da restauração de uma vida. 
Anjos de guarda – no Além e na Terra. 
Sempre os temos. 
Recordemos de demonstrar gratidão. 
Redação do Momento Espírita, com base em fatos. 
Em 6.8.2016.

terça-feira, 2 de novembro de 2021

UMA NOVA ESTRADA

A morte não é o final. 
Eu somente passei para a sala seguinte. 
Nada aconteceu. 
Tudo permanece exatamente como sempre foi. 
Eu sou eu, você é você, e a antiga vida que vivemos tão maravilhosamente juntos, permanece intocada, imutável. 
O que quer que tenhamos sido um para o outro, ainda somos. 
Chame-me pelo antigo apelido familiar. 
Fale de mim da maneira como sempre fez. 
Não mude o tom. 
Não use nenhum ar solene ou de dor. 
Ria como sempre o fizemos juntos. 
Brinque, sorria, pense em mim, reze por mim. 
Deixe que meu nome seja uma palavra comum em casa, como sempre foi. 
Faça com que seja falado sem esforço, sem sombra. 
A vida continua a ter o significado que sempre teve. 
Existe uma continuidade absoluta e inquebrável. 
A ligação não foi interrompida. 
O que é a morte? 
Por que ficarei fora dos seus pensamentos apenas porque estou fora do alcance da sua visão? 
Eu não estou longe, apenas estou do outro lado do caminho. 
Estou simplesmente à sua espera, como num intervalo bem próximo, na outra esquina. 
Você que aí ficou, siga em frente. 
A vida continua bela, como sempre foi. 
Tudo está bem. 
* * * 
A morte é somente a cessação da vida orgânica. É apenas o fim do corpo físico e de mais uma etapa da programação Divina. 
A essência humana sobrevive para além da vida física, pois o Espírito não tem fim.
Somos imortais. 
A morte vem apenas nos dizer que chegou o momento da alma retornar à vida plena e verdadeira. Mostra-nos que o Espírito se despediu do corpo, que o abrigou durante a jornada terrestre, para se elevar a outras dimensões e continuar sua trajetória evolutiva. 
A afeição real, de alma a alma, é durável, e também sobrevive à destruição do corpo. Apenas as afeições de natureza carnal se extinguem com a causa que lhes deu origem. 
O amor que nutrimos uns pelos outros continuará existindo na Espiritualidade. 
Ao desencarnarmos, seremos recebidos, do outro lado da vida, por aqueles a quem estamos ligados por laços de afeto e que desencarnaram antes de nós. 
Será o momento de rever seres amados que nos aguardam. 
O reencontro na Espiritualidade ou em vidas futuras, através de uma nova encarnação, haverá de acontecer. 
E, todas as vezes que a saudade daquele que partiu parecer maior do que nossas forças possam suportar, busquemos o lenitivo da oração. 
Nossas preces alcançam os seres amados onde quer que estejam, levando até eles nossas melhores vibrações. 
E, para que possamos sentir as vibrações enviadas pelo pensamento dos amores que hoje vivem em outras dimensões, aquietemos nossas mentes e corações. Com certeza, experimentaremos algum conforto. 
A prece é mecanismo abençoado que nos aproxima de Deus e dos afetos que estão distantes. 
Redação do Momento Espírita, com base em texto de autoria desconhecida. 
Em 1º.11.2021

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

GRATIDÃO E AMOR

Shou Wen Allegretti
Júlia e Nêne casaram muito jovens. Os anos se passaram, os filhos chegaram e partiram. A velhice os apanhou e, no caminho, o casal se deu conta de que a idade, com seu rol de coisas pertinentes, havia chegado. Um dia, Nêne saiu a caminhar e demorou muito para voltar. Foi então que Júlia percebeu que seu amado perdera a clareza do raciocínio. A senilidade o abraçara fortemente. O aprendizado dessa nova realidade exigiu grande esforço. Entretanto, como o amor supera as dificuldades, o casal reforçou seus laços afetivos. Contudo, logo mais, a meningite atingiu Nêne e a já debilitada capacidade mental perdeu-se completamente. Ela se sentiu desamparada, abandonada por Deus, e não lhe saía da cabeça a terrível pergunta: 
-Por que nós? 
As sombras da tristeza pousaram sobre o lar. Nêne não conseguia sequer andar. Tornara-se um ser estranho, totalmente dependente. E Júlia despejou lágrimas amargas, colocando para fora a cachoeira da sua tristeza. Então, depois de se esgotarem as pérolas líquidas, ela teve uma ideia. Pensou que se tornasse a enfeitar a casa, poderia reconquistar a alegria de viver. Resolveu chamar o jardineiro que anos atrás cuidara do seu jardim. E o senhor José chegou, simples, mal trajado. Com as mãos calejadas, pediu permissão para trazer o sinhozinho para a varanda, onde poderia vê-lo trabalhar, ver o jardim se transformar. Ao final do dia, disse a Júlia que tinha algumas noções de massagem. 
-Será que ele poderia massagear os pés do doutor? 
Muito reservada, ela autorizou, apesar de não ver muito sentido nisso. Mesmo porque não houve reação alguma por parte do marido. Ela imaginou que José logo se cansaria e desistiria. Para sua surpresa, José voltava todos os dias. Massageava e conversava, contava causos antigos, coisas vividas com sinhozinho. Fatos dos quais ela nunca tivera conhecimento. E descobriu ações bondosas praticadas pelo seu querido companheiro: como quando ele permitira que aquela família que deveria ser despejada da fazenda recém adquirida, ali permanecesse por mais um tempo. Tempo que se alongou até que todos os filhos crescessem e tomassem o próprio rumo. E da ocasião em que o sinhozinho levara a esposa do senhor José para o hospital e ficara aguardando até que o médico a atendesse. E quando trouxera guloseimas para as crianças, quando dera dinheiro para o uniforme e para o material escolar... E José voltava e voltava, cobrando apenas pelo trabalho de jardinagem. A massagem era um presente. Com o transcorrer do tempo, Júlia observou que Nêne acompanhava com os olhos o trabalho do jardineiro e que esse devolvia o olhar. Ambos tinham um linguajar particular em que José entendia que devia plantar as flores onde o sinhozinho lhe indicava, ali, de onde ele da varanda podia observar o seu crescimento e o desabrochar da beleza. 
O jardim ficou pronto, mas continua sendo cuidado pelo senhor José. 
Um jardineiro muito especial, que espantou a tristeza semeando flores nos canteiros e na alma daquele casal. 
É, de onde menos se espera, vêm as mãos de Deus espalhar esperança e alegria.
Por vezes, através de um jardineiro simples, com um coração cheio de gratidão e de amor. 
Redação do Momento Espírita, com base em fato narrado por Shou Wen Allegretti. Disponível no CD Momento Espírita, v. 29, ed. 
FEP. Em 22.3.2016