sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

UMA CERTA ARACY

ARACY DE CARVALHO GUIMARÃES ROSA
E
JOÃO GUIMARÃES ROSA
Eles se conheceram em Hamburgo, na Alemanha, às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Ele, menino pobre, viu na carreira diplomática uma maneira de conhecer o mundo. Em 1934, prestou o concurso para o Itamaraty e foi ser cônsul adjunto na Alemanha. Ela, paranaense, foi morar com uma tia na Alemanha, após a sua separação matrimonial. Por dominar o idioma alemão, o inglês e o francês, fácil lhe foi conseguir uma nomeação para o Consulado Brasileiro em Hamburgo. Acabou sendo encarregada da seção de vistos. No ano de 1938, entrou em vigor, no Brasil, a célebre Circular Secreta 1.127, que restringia a entrada de judeus no país. É aí que se revela o coração humanitário de Aracy. Ela resolveu ignorar a Circular que proibia a concessão de vistos a judeus. Por sua conta e risco, à revelia das ordens do Itamaraty, continuou a preparar os processos de vistos a judeus. Como despachava com o cônsul geral, ela colocava os vistos entre a papelada para as assinaturas. Quantas vidas terá salvo das garras nazistas? Quantos descendentes de judeus andarão pelo nosso país, na atualidade, desconhecedores de que devem sua vida a essa extraordinária mulher? Cônsul adjunto à época, seu futuro segundo marido, João Guimarães Rosa, não era responsável pelos vistos. Mas sabia o que ela fazia e a apoiava. Em Israel, no Museu do Holocausto, há uma placa em homenagem a essa excepcional brasileira. Fica no bosque que tem o nome de Jardim dos Justos entre as Nações. O nome dela consta da relação de dezoito diplomatas que ajudaram a salvar judeus, durante a Segunda Guerra. Aracy de Carvalho Guimarães Rosa é a única mulher. Mas seu denodo, sua coragem não pararam aí. Na vigência do infausto AI 5, já no Brasil, numa reunião de intelectuais e artistas, ela soube que um compositor era procurado pela ditadura militar. Naquele ano de 1968, ela deu abrigo durante dois meses ao cantor e compositor que conseguiu, sem ser molestado, fugir para país vizinho. Ela o escondeu no escritório de seu apartamento. Aquele mesmo local onde seu marido, João Guimarães Rosa, escrevera tanta história de coronel e jagunço. Durante todos aqueles dias, o abrigado observava, da janela, a movimentação frenética do Exército no quartel do Forte de Copacabana. Reservada, Aracy enviuvou em 1967 e jamais voltou a se casar. Recusou-se a viver da glória de ter sido a mulher de um dos maiores escritores de todos os tempos. Em verdade, ela tem suas próprias realizações para celebrar. Morreu em 28 de fevereiro de 2011, em São Paulo. Poucos conhecem sua história cheia de coragem, aventura, determinação, romance, literatura e solidariedade. Mas os seus feitos merecem ser conhecidos por todos, ensinados nas escolas. Nossas crianças, os cidadãos do Brasil necessitam de tais modelos para os dias que vivemos. Seu marido a imortalizou em seu livro Grande sertão: veredas. Doou a ela a sua obra mais importante. Aracy desafiou o nazismo, o Estado Novo de Getúlio Vargas e a ditadura militar dos anos 60. Uma mulher que merece nossas homenagens. Uma brasileira de valor. Uma verdadeira cidadã do mundo. 
Redação do Momento Espírita, com base no artigo Uma certa Aracy, um certo João, de René Daniel Decol, publicado na Revista Gol (de bordo), de agosto 2007. 
Em 6.2.2020.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

ESTABELECENDO METAS

Se você não sabe aonde quer ir, como poderá chegar lá? Esta é uma questão óbvia. Por isso, quando se planejam férias, escolhemos o local. Porque, dependendo do local escolhido, selecionaremos o tipo de transporte, faremos reservas para hospedagem, providenciaremos a roupa adequada. Quando se sai a passeio, escolhemos o local da mesma forma. Iremos ao campo, à praia, à casa de amigos? Porque, justamente a partir dessa definição, ajustaremos horários, convidaremos essa ou aquela pessoa, faremos contatos preliminares. De uma forma muito paradoxal, contudo, quando falamos de nossos objetivos existenciais, poucos têm metas bem definidas. Essa é uma das causas de depressão, nos dias atuais. A pessoa diz que quer ter uma vida normal, simplesmente. Mas, não estabelece o que seria essa vida normal. O que deseja para si. O que gostaria de fazer? Profissionalmente, o que pretende: onde deseja trabalhar, com quem, que cursos ainda planeja fazer, que aperfeiçoamentos almeja? Pessoalmente, pensa em se casar, em ter filhos, em viver numa casa ou num apartamento, no campo ou na cidade, neste país, em outro país? Culturalmente, deseja se aprimorar no estudo da arte, de outro idioma, artesanato? Quando as perguntas surgem, as respostas quase sempre são evasivas: 
-Sei lá, qualquer coisa, o que vier está bom. 
Algumas pessoas se recusam a idealizar, a sonhar. Dizem que é para não sofrerem decepções. Outras se dizem incapacitadas de sonhar seus próprios sonhos. Pensam em se realizar através de outras pessoas. Ou que outras pessoas as façam felizes. Eis a questão: se não há meta a atingir, se não há um objetivo a ser alcançado, como encontrar ânimo e energia para se viver com intensidade a cada dia? Onde a alegria da conquista? Onde o sorriso da vitória? Onde o contentamento de se afirmar vencedor? Sem meta não se vive. Simplesmente se obedece a automatismos. É um adormecer psicológico que conduz a criatura a estados de indiferença, desânimo, descontentamento, até o desprezo pela vida. Para se ter saúde é imperioso se ter um projeto pessoal, definindo exatamente o que se deseja. Alcançar ou não é outra questão. Mas o importante é o esforço, a luta continuada. 
Pensemos nisso e façamos uma análise de nossas metas, nossos sonhos. Se até aqui estamos vivendo por viver, trabalhando, estudando, porque está no contexto em que nos movemos, façamos uma parada. Reformulemos nossa vida. Elejamos ao menos uma meta a alcançar. E não nos deixemos intimidar pelos anos transcorridos ou pelos muitos dias já vividos. Sempre é tempo de aprender, de ser feliz. 
Pensemos nisso! 
Redação do Momento Espírita. Disponível no livro Momento Espírita, v. 8, ed. FEP. 
Em 5.3.2014.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

UM TANTO MAIS

Você guarda a impressão de haver esgotado o estoque de todos os seus recursos, em determinada tarefa de amor, mas se você perseverar um tanto mais no devotamento, ninguém pode prever os louros de luz que brilharão em seu passo. 
Você está doente e pretende obter licenças de longo prazo, mas se você continuar um tanto mais em serviço, ninguém pode prever o tesouro de forças novas que lhe aparecerá no caminho. 
Você encontrou imensas dificuldades no exercício das boas obras e anseia fugir delas, mas se você persistir um tanto mais na construção da beneficência, ninguém pode prever o triunfo que as suas horas recolherão, nas fontes vivas da caridade. 
Você acredita que não pode tolerar o amigo importuno, o filho teimoso, o irmão inconsciente, a esposa inconstante ou o marido insensato, mas se você suportar um tanto mais a luta em família, ninguém pode prever a extensão do júbilo porvindouro em seu ninho doméstico. 
Você supõe que o azar é o seu clima e chora na bica do desespero, mas se você cultivar um tanto mais de fidelidade às próprias obrigações, ninguém pode prever a amplitude do seu êxito, no amanhã que vem perto. 
Você experimenta enorme cansaço e não quer dar ouvidos ao companheiro de longa conversa, mas se você esticar um tanto mais o seu sacrifício, ninguém pode prever os prodígios da colheita de bênçãos que surgirão dos seus breves minutos de gentileza. 
Observe que você mesmo para realizar isso ou aquilo, exige incessantemente dos semelhantes um tanto mais de bondade, um tanto mais de cooperação, um tanto mais de tempo, um tanto mais de carinho... O gênio é a paciência que não se acaba. É justo que você deseje um tanto mais de felicidade, mas para isso, é necessário que você ajude um tanto mais a felicidade dos outros. Repare você as lições da vida e compreenderá que a vitória no bem é sempre trabalhar conforme o dever e servir... um tanto mais. 
 * * * 
O mestre da Antiguidade, Confúcio, elaborando ideias a respeito da perseverança, afirma: Se há pessoas que não estudam ou que, se estudam, não aproveitam, elas que não se desencorajem e não desistam. Se há pessoas que não interrogam os homens instruídos para esclarecer as suas dúvidas ou o que ignoram, ou que, mesmo interrogando-os, não conseguem ficar mais instruídas, elas que não se desencorajem e não desistam. Se há pessoas que não meditam ou que, mesmo que meditem, não conseguem adquirir um conhecimento claro do princípio do bem, elas que não se desencorajem e não desistam. Se há pessoas que não distinguem o bem do mal ou que, mesmo que distingam, não têm uma percepção clara e nítida, elas que não se desencorajem e não desistam. Se há pessoas que não praticam o bem ou que, mesmo que o pratiquem, não podem aplicar nisso todas as suas forças, elas que não se desencorajem e não desistam. O que outros fariam numa só vez, elas o farão em dez. O que outros fariam em cem vezes, elas o farão em mil, porque aquele que seguir verdadeiramente esta regra da perseverança, por mais ignorante que seja, tornar-se-á uma pessoa esclarecida; por mais fraco que seja, tornar-se-á necessariamente forte. 
Redação do Momento Espírita com base no cap.71, do livro Ideal Espírita, pelo Espírito André Luiz, psicografia de Francisco Cândido Xavier, ed. CEC e do texto A perseverança, do livro A sabedoria de Confúcio, de Confúcio, ed. José Olympio. 
Em 5.2.2020.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

CAIXINHA DE BEIJOS

BERNADETE ANDRADE
Certo dia, um homem chegou em casa e ficou muito irritado com sua filha de três anos. Ela havia apanhado um rolo de papel de presente dourado e literalmente desperdiçado fazendo um embrulho. Porque o dinheiro andasse curto e o papel fosse muito caro, ele não poupou recriminações para a garotinha, que ficou triste e chorou. Naquela mesma noite, o pai descobriu num canto da sala, no local onde a família colocara os presentes para serem distribuídos no dia de Natal, um embrulho dourado não muito bem feito. Na manhã seguinte, logo que despertou, a menininha correu para ele com o embrulho nas mãos, abraçou forte o seu pescoço, encheu seu rosto de beijos e lhe entregou o presente. 
-Isto é pra você, paizinho! 
Foi o que ela disse. 
Ele se sentiu muito envergonhado com sua furiosa reação do dia anterior. Mas, logo que abriu o embrulho, voltou a explodir. Era uma caixinha vazia. Gritou para a filha: 
-Você não sabe que quando se dá um presente a alguém, a gente coloca alguma coisa dentro da caixa? 
A criança olhou para ele, com os olhos cheios de lágrimas e disse:
-Mas, papai, a caixinha não está vazia. Eu soprei muitos beijos dentro dela. Todos para você, papai. 
O pai quase morreu de vergonha. Abraçou a menina e suplicou que ela o perdoasse. Dizem que o homem guardou a caixa dourada ao lado de sua cama por anos. Sempre que se sentia triste, chateado, deprimido, ele tomava da caixa um beijo imaginário e recordava o amor que sua filha havia posto ali. 
 * * * 
De uma forma simples, cada um de nós, humanos, temos recebido uma caixinha dourada, cheia de amor incondicional de nossos pais, de nossos filhos, de nossos irmãos e amigos. Entretanto, nem sempre nos damos conta. Estamos tão preocupados com o ter, com valores do mundo, que as coisas pequenas não são percebidas por nós. Assim, a esposa não valoriza o ramalhete de flores do campo que o marido lhe enviou, no dia do aniversário. É que ela esperava ganhar uma valiosa joia e não aquela insignificância. O marido nem agradece o fato da esposa, no dia em que comemoram mais um ano de casados, esperá-lo com um jantar simples, a dois, em casa. Ele estava esperando uma comemoração em grande estilo, ruidosa, cercado de amigos e muitos comes e bebes. Os pais não dão importância para aquele cartão meio amassado que os pequenos trazem da escola, pintado com as mãos de quem apenas ensaia a arte de dominar as tintas e os pincéis nas mãos pequeninas. Eles estão mais envolvidos com as contas que a escola está cobrando e acreditam que, pelo tanto que lhes custa a mensalidade escolar, os professores deveriam ter lhes enviado um presente de valor. É, muitos de nós não encontramos os beijos na caixinha dourada. Só vemos a caixinha vazia. 
 * * * 
O amor é feito de pequeninas coisas. Não exige fortunas para se manifestar. Por vezes, é um ato de renúncia, como a daquele homem que no dia de Natal, em plena guerra, conseguiu apenas uma laranja para a ceia dele e da esposa. Então a descascou, colocou em um prato, criando uma careta com os gomos bem dispostos e entregou para a esposa, com um beijo e um pedaço de papel escrito: 
-Feliz Natal! 
E ficou a observando comer, com vagar, feliz por ver os olhos dela brilharem e ela se deliciar com a fruta tão rara naqueles dias, naquele local. 
Redação do Momento Espírita, a partir de mensagem intitulada A caixinha, assinada Bernadete. Em 4.2.2020.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

VIRTUDES E DEFEITOS

É notável como conseguimos ver, todos os dias, a todos os instantes, os defeitos alheios. Dificilmente encontraremos alguém que não se mostre propenso a apontar erros e absurdos dos outros. Muitos casamentos acabam porque marido e mulher passam a ver tanto os defeitos um do outro, que se esquecem que se uniram porque acreditavam se amar. Amigos de infância, certo dia, se surpreendem a descobrir falhas de caráter um no outro. Desencantados se afastam, perdendo o tesouro precioso da amizade. Colegas de trabalho culpam o outro por falhas que, em verdade, em muitos casos, é da equipe como um todo. Foi observando esse quadro que alguém escreveu que os homens caminham pela face da Terra em fila indiana, cada um carregando uma sacola na frente e outra atrás. Na sacola da frente, estão colocadas as qualidades positivas, as virtudes de cada um. Na sacola de trás são guardados todos os defeitos, as paixões, as más qualidades do Espírito. Por isso, durante a jornada pela vida, mantemos os olhos fixos nas virtudes que possuímos presas em nosso peito. Ao mesmo tempo, reparamos de forma impiedosa, nas costas do companheiro que está à frente, todos os defeitos que ele possui. Assim nos julgamos melhores que ele, sem perceber que a pessoa andando atrás de nós, está pensando a mesma coisa a nosso respeito. A imagem é significativa e nos remete à reflexão. Talvez seja muito importante que saiamos da fila indiana e passemos a andar ao lado do outro. E, no relacionamento familiar, profissional, social em geral, que nos coloquemos de frente um para o outro. Aí veremos as virtudes nossas, que devem ser trabalhadas, para crescerem mais e também as virtudes do outro. Com certeza nos surpreenderemos com as descobertas que faremos. Haveremos de encontrar colegas de trabalho que supúnhamos orgulhosos, como profissionais conscientes, dispostos a estender as mãos e laborar em equipe. Irmãos que acreditávamos extremamente egoístas, com capacidade de ceder o que possuam, a bem dos demais membros da família. Pais e mães que eram tidos como distantes, em verdade estarem ávidos por um diálogo aberto e amigo. Esposos e esposas que cultivavam amarguras, encontrarem um novo motivo para estarem juntos, redescobrindo os encantos dos dias primeiros do namoro. 
 * * *
A crítica só é válida quando serve para demonstrar erros graves que possam causar prejuízo para os outros ou quando sirva para auxiliar aquele a quem criticamos. Portanto, resistir ao impulso de ressaltar as falhas dos outros, exercitando-nos em perceber o que eles tenham de positivo, é a meta que devemos alcançar. Não esqueçamos de que se desejamos que o bem cresça e apareça, devemos divulgá-lo sempre. Falar bem é fazer o bem. Apontar o belo é auxiliar outros a verem a beleza. 
Redação do Momento Espírita, com base no texto Sem olhar para trás, de Gilberto Nucci. 
Em 3.2.2020.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

ESSES OUTROS TERRORISMOS

RAUL TEIXEIRA
Nos dias atuais as palavras terrorismo e terrorista ganharam espaço nas mídias do mundo inteiro. 
Mas, afinal de contas, o que significam realmente esses termos? 
Pois bem: terrorismo, segundo os dicionários, é um ato de violência contra um indivíduo ou uma comunidade. 
E terrorista é aquele que infunde terror. Que espalha boatos assustadores ou prediz acontecimentos amargos. 
Assim sendo, será que o terrorismo está distante de nós, ou, se bem analisado, poderíamos dizer que faz parte do nosso dia-a-dia mais do que imaginamos? 
Será que poderíamos dizer que muitos de nós, de uma forma ou de outra, espalhamos o terror? 
Terror quer dizer grave perturbação trazida por perigo imediato, real ou não; medo, pavor. Ameaça. Dessa forma, quando analisamos nossas atitudes diárias vamos encontrar, em muitas ocasiões, verdadeiros atos terroristas. Quando, por exemplo, um pai diz a uma filha: 
-Se casar com aquele rapaz, mando-a embora de casa! - está fazendo uma ameaça que infunde pavor e, portanto, está fazendo terrorismo.
Quando um esposo ou namorado impõe a sua companheira grávida: 
-Ou você faz o aborto ou abandono você! - está praticando terrorismo e induzindo ao homicídio de um ser indefeso. 
Quando uma mãe diz ao filho pequeno que se ele não obedecer irá embora de casa e o deixará à própria sorte, está cometendo um ato terrorista dos mais sérios, impondo medo e pavor a uma criança que confia em seus pais. Filhos que sabem da preocupação dos genitores e os aterrorizam com ameaças de suicídio ou de fugas que nunca se efetivam, mas infelicitam e apavoram, são terroristas domésticos agindo soltos. Imposições e ameaças de chefes, baseadas em carências de funcionários, que dependem do emprego para sobreviver, são atos terroristas que infelicitam e matam a esperança. Religiosos que ameaçam seus fiéis com castigos e penas eternas, inventando um Deus temível e vingativo, espalhando pânico e terror nos corações incautos, são terroristas da fé, que agem livremente. Por tudo isso vale a pena meditar sobre esses outros terrorismos que passam despercebidos a muitos olhares. São tantos os terrores domésticos que infelicitam os seres, portas adentro dos lares, onde deveriam reinar o amor e a fraternidade. Assim sendo, não imaginemos que o terrorismo está no seio deste ou daquele povo, desta ou daquela raça, pois ele está na alma humana, independente de nacionalidade ou religião. Não imaginemos que o terrorismo está presente nos povos menos civilizados. Ele se encontra em cada coração capaz de promover o terror, seja em que nível for. O preconceito de toda ordem também é uma forma de terror, e vamos encontrá-lo em todas as esferas sociais. Nestes dias, em que os olhares do mundo inteiro se voltam contra o terrorismo, vale meditar sobre nossos terrorismos particulares que tantas desgraças têm promovido. E vale também lembrar que as grandes guerras e os grandes atentados terroristas são alimentados por guerras e terrorismos menores aos quais não damos importância. Pensemos nisso e comecemos, de vez por todas, uma ação efetiva pela paz. Iniciemos por baixar as armas internas da agressividade, da calúnia, da indiferença, da infidelidade, da violência, enfim. Optemos por construir um mundo de paz, pacificando os nossos lares, nosso ambiente de trabalho, nossa própria alma. Agindo dessa maneira, podemos ter a certeza de que teremos um mundo em paz, mesmo que seja apenas o nosso próprio mundo que, em última análise, seria o início de tudo. 
Redação do Momento Espírita com base em palestra proferida por Raul Teixeira, no dia 12 de outubro de 2001, na cidade de Ponta Grossa/PR.
Em 25.04.2011.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

ESSES OUTROS SERES

Os animais são seres que muito colaboram com o homem. A História registra o valor excepcional dessas criaturas, ombreando com o ser humano, no desbravar das terras, no cultivo das searas, no aconchego das cavernas, nas primeiras cabanas. Desde alguns anos, cientistas passaram a estudar as relações e interações entre animais e humanos, que existem desde sempre. Baseados nesses estudos, que pontuaram os benefícios que os animais trazem para o bem-estar e a saúde dos homens, foi criada a zooterapia. Também conhecida como terapia assistida por animais, é uma técnica de reabilitação e reeducação física, psíquica, social e sensorial, na qual os animais são usados como assistentes. Essa terapia, tanto pode tratar problemas psicológicos quanto físicos. O cavalo, por exemplo, por seus movimentos para cima e para baixo, para a esquerda e para a direita, para a frente e para trás, similares aos padrões do movimento humano, auxilia no desenvolvimento psicossocial de crianças e indivíduos com necessidades educativas especiais. Entre eles, deficientes físicos ou portadores de atraso mental e autismo. É no nosso dia a dia, entretanto, que alguns animais revelam suas qualidades mais surpreendentes. O cão, por exemplo, considerado o melhor amigo do homem, fiel até após a morte do seu dono. É comum os observarmos, ao lado dos humanos, de tal forma interagindo, que não se sabe bem quem pertence a quem. E, homens e mulheres que não falariam com estranhos, de forma alguma, no parque, na praça, no pet shop, observando um o cão do outro, rapidamente se aproximam, conversam, trocam impressões. Elogiam o pelo do animal, indagam a respeito de produtos utilizados, a ração mais adequada, a época das vacinas e por aí afora. Por sua vez, crianças habitualmente tímidas, de imediato, interagem com o animal que lhes atrai a atenção. Aproximam-se, acariciam, abraçam como se fosse um reencontro. E, para surpresa dos próprios pais, descrevem, a quem desejar ouvir, em total descontração, o comportamento do seu animalzinho, do que ele gosta ou não gosta. 
 * * * 
A Divindade tem múltiplas formas de auxiliar o ser humano. Criou a lei de sociedade, levando-nos a essa convivência, a fim de nos auxiliarmos mutuamente, para que cresçamos juntos. Proporciona ainda a presença desses outros seres, que têm a capacidade de acabar com a tristeza embutida, apenas com o seu alegre abanar da cauda, com as lambidas que nos afagam o rosto e as mãos, com o roçar dengoso em nossas pernas e o abraço inesperado num salto ágil em nossos braços. Quem pode resistir a tanta insistência? Nós, os humanos, quando somos rechaçados, nos ressentimos e nos fechamos. Mas, o cão, ao qual dizemos para se afastar, para ir para longe, volta logo mais e torna a oferecer a sua alegria, de todas as formas possíveis. Deveríamos aprender com esse ser irracional. Pensemos nisso e, responsáveis por qualquer animal, lembremos de, além de lhe providenciar o essencial, lhe termos respeito, zelando pelo seu bem-estar. 
Redação do Momento Espírita. 
Em 3.10.2017.