quinta-feira, 7 de outubro de 2021

GRANDES MESTRES

Elisabeth Kübler-Ross
Quando a doutora Elisabeth Kübler-Ross iniciou os seus estudos sobre a morte e o morrer observou que, no hospital, havia uma faxineira que exercia sobre os doentes um efeito todo especial. Ela era negra e a doutora a encontrava, durante seus plantões, entrando e saindo dos quartos, limpando e limpando. Aquela mulher nunca cursou uma universidade, mas com certeza sabia um grande segredo. Cada vez que ela saía dos quartos, a doutora notava uma sensível diferença em seus pacientes. Finalmente, certo dia, cruzando com ela no corredor, lhe perguntou: 
-O que é que você está fazendo com os meus pacientes terminais? 
Em um tom de voz muito educado, a negra respondeu: 
-Estou apenas limpando o chão. 
E se afastou. Nas semanas seguintes, a doutora Elisabeth literalmente espionou a faxineira. Até que um dia, a faxineira se aproximou dela, levou-a para trás de um balcão e, quando estavam totalmente a sós, falou: 
-Doutora, cresci na pobreza e na miséria. Minha casa é um cortiço e as crianças vivem doentes. Um dia, meu menino de três anos ficou com pneumonia. Eu o levei ao setor de emergência do hospital mais próximo, mas não fui atendida porque estava devendo dez dólares ali. Fui até o hospital onde aceitavam indigentes. Entrei numa sala cheia de gente como eu. Esperei... Esperei... Depois de três horas sentada, aguardando a vez de ser atendida, vi meu filho arquejar, sufocar e morrer, enquanto eu o embalava nos braços. Sabe, doutora, a morte não é uma estranha para mim. É uma velha conhecida, de muito tempo. Não tenho mais medo dela. 
Embora rememorando todos aqueles acontecimentos, a faxineira não demonstrava amargura ou negatividade. Havia nela somente uma grande tristeza. E isso causou admiração na Doutora Elisabeth. Com a voz calma e mansa, concluiu a mulher:
-Quando entro ao quarto de alguns pacientes, vejo que eles estão petrificados de medo e não têm ninguém com quem falar. Daí, chego perto deles. Muitas vezes até seguro suas mãos e digo a eles que não se preocupem, que não é tão horrível assim. 
Estava revelado o segredo da faxineira: a sua grande sabedoria. Pouco tempo depois, a Doutora Elisabeth a promoveu a sua principal assistente. E foi ela, precisamente, quem proporcionou apoio à pesquisadora da morte e do morrer, exatamente quando médicos, universitários e sábios não estavam dando o mínimo crédito àquelas pesquisas, que deram nascimento à Tanatologia, o estudo da morte. 
* * * 
Não precisamos de conselheiros especiais para crescer. 
Existem mestres e professores por toda a parte. 
Crianças em sua inocência, doentes terminais em seus leitos de morte, pessoas simples com muita sabedoria, como a faxineira desta história. 
O importante é estar atento às pessoas e às lições. 
Em verdade, nenhuma teoria ou ciência do mundo ajuda tanto uma pessoa quanto um outro ser humano que não tem medo de abrir o coração para seu semelhante.
Redação do Momento Espírita com base no cap. 19, do livro A roda da vida, de Elisabeth Kübler-Ross, ed. Sextante. 
Em 30.10.2012.

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

GRANDES LIÇÕES

Grandes lições não são apanágio de pessoas ilustres, letradas, ou ocupantes de altos cargos. Por vezes, são exatamente as pessoas simples que nos oferecem as mais profundas lições. 
Em uma cidade do interior do Estado do Paraná, o funcionário da empresa de energia elétrica extraiu extraordinário aprendizado em um de seus dias de trabalho. Um dia de trabalho como outro qualquer. Uma atividade que realiza de segunda a sexta-feira. Como ele mesmo confessa, algo que, muitas vezes, lhe corta o coração executar. Como naquele dia em que chegou no barraco de madeira, onde morava uma mãe com seus três filhos. Ele deveria cortar o fornecimento da energia elétrica da casa, porque a moradora estava em débito com duas contas. A mulher, sentada num banco de madeira, rodeada pelas crianças, argumentou: 
-Sei que estou com duas contas atrasadas. Mas, recebo meu pagamento no dia nove e nesse dia, eu pagarei. 
-Hoje é dia nove, falou o funcionário, já com o coração doído por ter de deixar aquelas crianças sem luz. 
Quando a noite chegasse, pensou ele, será que elas teriam medo do escuro? Será que ficariam todas ao redor da mãe, talvez dormindo juntas, na mesma cama? Tentando ajudar, ele fez uma proposta: 
-Vejamos, se a senhora pagar hoje, prometo que volto no final da tarde e faço a religação. 
Enquanto encerrava a tarefa no seu tablet, uma das crianças se aproximou: 
-Moço, tem um real? 
-Um real! 
O rapaz colocou a mão no bolso. Nenhuma moeda. Encontrou uma nota solitária de cinco reais. Estendeu para o menino e orientou: 
-Você precisa repartir com suas irmãzinhas, tá bom? 
O garoto balançou a cabeça positivamente e saiu, saltitando. 
-Crianças pedintes! – Pensou o rapaz. O que será delas, quando desde cedo se acostumam a pedir? Pobre infância! 
Caía a tarde quando ele voltou. Conforme prometera, veio fazer a religação. Mal estacionou sua camionete em frente ao barraco e a criançada correu ao seu encontro. 
-Moço, que bom que você voltou! – Gritou o menino, de nome Eugênio. 
O profissional imaginou que a calorosa recepção era por conta da religação da energia elétrica. No entanto, o garotinho abriu sua pequena, suada e suja mão, mostrou uma nota de dois reais e exclamou: 
-Quero devolver o seu troco! 
-Que troco? – Disse o rapaz. O dinheiro era para vocês. 
-Ué, questionou o pequeno, não era um real para cada um? 
* * * 
Naquele instante, de forma simples e descontraída, Eugênio estava demonstrando um grande exemplo de honestidade e responsabilidade. Em tempos de crise moral, em que parece que quase todas as instituições se mostram contaminadas, em que a corrupção é a tônica entre os poderosos, um menino de mãozinhas sujas alimenta a chama da esperança. 
Nosso país tem jeito! 
Enquanto houver criaturas que se preocupam e se alegram por poderem devolver simples dois reais, depois de realizada a correta divisão, é de emocionar. 
Isso nos confere a certeza de que a esperança está nas crianças, essas futuras gerações que se ensaiam para a vida. 
São os cidadãos do amanhã, nossos irmãos, brasileiros! 
Redação do Momento Espírita, com base em fatos. 
Em 27.12.2017.

terça-feira, 5 de outubro de 2021

DUAS CEREJEIRAS

Cena curiosa à beira do caminho. 
Duas árvores, duas cerejeiras plantadas no canteiro, próximo à calçada. Uma delas exuberante, repleta de vermelho, cheia de vida e chamando a atenção de quem passa. A outra, no entanto, há menos de cinco passos de distância, de aparência absolutamente oposta, totalmente seca, mirrada, como se estivesse morta. Causa estranhamento à vista de uns, causa pena a outros, olhar aquelas obras de Deus, assim, em desigualdade tão grande. Estão no mesmo solo, recebem a mesma rega, o mesmo sol, mas tão distintas uma da outra. 
Um enigma. 
O tempo, contudo, tudo esclarece. 
As semanas passam, e o mistério é esclarecido. 
Quem olha com atenção, percebe que algo mudou significativamente: a bela cerejeira que antes estava florida, agora está desnuda, sem cores. 
E aquela que antes inspirava piedade, agora está deslumbrante e colorida. 
Cada uma teve seu tempo, cada uma realizou seu ciclo anual, em momento distinto, e ambas trouxeram beleza ao mundo da mesma forma. 
* * * 
O exemplo das cerejeiras é lição para a alma. 
Cada um de nós floresce em seu tempo, quando alcança as condições necessárias. 
Filhos que cresceram no mesmo lar, recebendo as mesmas condições de desenvolvimento, a rega do amor, a disciplina da poda, o sol da atenção, podem despertar em flor em momentos distintos. 
Companheiros de coração endurecido, que se mostram insensíveis às dores alheias e que, muitas vezes, tornam a existência dos que os cercam um verdadeiro caos, também irão florir em seu tempo. 
Alguns, inclusive, podem até se manter como árvores secas durante uma ou algumas encarnações. 
Sua floração virá bem mais tarde. 
As semanas das árvores do caminho são séculos, milênios, por vezes, para as almas imortais. 
Por isso, saibamos cuidar e julgar com maturidade. 
Em algumas ocasiões, agimos como o motorista apressado que, ao observar as duas árvores tão diferentes, logo conclui: 
-Uma deu certo, a outra não! 
Ou ainda: 
-Uma está viva, a outra morreu. 
A natureza é muito mais sábia do que imaginamos. 
Ela nos ensina a esperar e a saber olhar. 
Importante cuidarmos com os rótulos apressados. 
Pau que nasce torto pode sim, se endireitar. 
Aliás, nasceu justamente para isso. 
E ainda, não nasceu torto por um capricho da natureza, mas porque se tornou torto no passado. 
Rótulos são perigosos. 
Atrapalham e nada ajudam. 
Todos têm jeito. 
Todos podem florir e vão florir. 
Talvez apenas não no tempo que nós esperamos ou que o mundo exige.
Lembrando das árvores do caminho, aprendamos com a sabedoria do tempo.
Olhemos mais vezes, olhemos o filme e não apenas a fotografia. 
Que a natureza continue nos ensinando e nos oferecendo essa visão ampla das coisas. 
Percebamos que na natureza nada é apressado, nada é instantâneo. 
Tudo se constrói, tudo se conquista. 
As leis divinas, que regem os mundos, são sábias. 
Aprendamos com elas. 
E, da próxima vez que observarmos uma árvore sem flores ou mesmo uma alma seca pelo caminho, recordemos das duas cerejeiras. 
Redação do Momento Espírita 
Em 5.10.2021.

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

COMO A ÁRVORE QUE ANDA!

 
Em momentos de escassez de alimentos na aldeia, um dos mais sábios índios foi para a floresta. Ele não tinha mais a agilidade para a caça. E se embrenhando na floresta, foi meditar ou tentar, no murmúrio da mata, ouvir as vozes dos antepassados, protetores da nação indígena. Foi ali, buscando um encontro com a natureza, que o índio viu que uma árvore, a Paxiúba, se deitara. Ela não desfrutava de sol porque árvores bem mais altas cobriam a luz que a deveria alimentar. Observando-a, o índio constatou que suas raízes não eram fixas. Que, deitada, ela lançara novas raízes. Dessa forma, percebeu que ela se deita, mas torna a se levantar quantas vezes sejam necessárias, até alcançar o seu alimento, o sol. Ela se deita, mas não tomba. Ela luta e se levanta, indo em busca do que necessita. O índio entendeu o recado da mãe natureza. Voltou para a sua aldeia e contou a singular experiência. Sabendo que, naquele momento, o alimento era a grande dificuldade para o povo, passaram a usar a madeira da Paxiúba para suas zarabatanas. Concluíram que, assim, teriam mais habilidade na caça, como se desejassem assimilar a simbologia da árvore guerreira. 
Cientistas observaram a estranha árvore, com muita admiração.
Constataram que se trata de uma espécie de palmeira, natural da América Central tropical, que chegou à América do Sul e é encontrada na bacia do rio Amazonas, no Brasil, onde não lhe falta sol. Nesse processo de tombar e lançar novas raízes, ela pode, no período de um ano, se deslocar até vinte metros. 
* * * 
A natureza nos surpreende. 
Um vegetal utiliza uma estratégia para se lançar em busca da luz, de que precisa. Interessante lição para as nossas vidas. 
Quando o desânimo nos fizer sucumbir, podemos cair. 
Quando o desespero nos abraçar, de forma demorada, podemos tombar.
Quando a tormenta se fizer tão forte, como um furacão que tudo destrói; quando tudo parecer dar errado, tudo estiver contrário aos nossos planos, aos nossos ideais, podemos nos deitar por terra. 
Quando os ventos nos atingirem, e tivermos que nos dobrar até o solo, quase vencidos... 
Nesse momento, deve luzir a nossa fé. 
E, se acreditarmos que a perdemos, em algum momento da jornada, procedamos como aquele pai, desejando ardentemente a cura do filho: 
-Eu creio, Senhor. Ajuda a minha incredulidade. 
E, da mesma forma que devolveu ao coração paterno o filho liberto das amarras obsessivas, Jesus, o Pastor, virá ao nosso encontro e nos auxiliará a reacender a centelha divina que existe em nós. 
Fará brilhar a luz que somos. 
Então, lançaremos novas raízes e, como a Paxiúba, tornaremos a nos erguer. 
A luta não acabou. 
Podemos ter perdido um combate contra a morte, contra as condições adversas, mas não perdemos a batalha. 
As respostas surgem, as soluções aparecem, mesmo tímidas, como um singelo brilho de esperança. 
Prossigamos. 
Oremos. 
Mesmo que possam parecer frases sem muito nexo, elas traduzirão a nossa vontade de nos erguermos, de buscarmos o sol de primeira grandeza, que se chama Jesus, nosso Governador Planetário. 
Nosso Modelo e Guia. 
Redação do Momento Espírita, com base no artigo Será que Jesus ainda ouve os homens?, de Arlete Nunes Magalhães, da revista Seareiro, nº 176, de julho/agosto 2021, ed. Seara Bendita Instituição Espírita e no Evangelho de Marcos, cap. 9, vers. 24. 
Em 4.10.2021.

domingo, 3 de outubro de 2021

GRANDES HOMENS, GRANDES GESTOS!

Ela era uma garota como tantas outras da sua idade. Alimentava os sonhos com os raios da esperança dos seus onze anos incompletos. Feliz, vivia entre o carinho dos pais no lar, as travessuras com os irmãos, a escola e o círculo de amigos. Um dia, contudo, sentiu-se muito mal e foi levada ao hospital. Depois de dias de internamento, exames especializados e muita medicação, veio o diagnóstico: ela era portadora de câncer nos pulmões. Os médicos pensaram em submetê-la a uma cirurgia para extração dos nódulos cancerígenos, mas verificaram ser inviável. Começaram, então, as sessões incômodas de quimioterapia. Vendo-a definhar, a olhos vistos, os pais imaginaram que a criança poderia ter algum grande desejo que deveria ser realizado, antes de sua morte. E ela tinha um grande sonho, sim. Era conhecer a Casa Branca, na capital americana. Os pais procuraram uma agência, dessas do tipo Ilha da Fantasia, que se esmera em realizar sonhos das pessoas e conseguiram, afinal, que a pequena visitasse a Casa Branca. Já bastante debilitada pela enfermidade, ela foi conduzida pelos pais, em uma cadeira de rodas até a Casa Branca. Adentrou-a, emocionada. Era dali, daquele local que emanavam as ordens, as leis que regiam a grande nação americana. Ela visitou várias salas, sendo-lhe explicado o que acontecia em cada uma delas. Até que, finalmente, chegaram ao salão oval. Ela não se cansava de admirar cada detalhe e seus olhos brilhavam na face pálida e cansada. Por alguns instantes, seus pais a deixaram a sós. Então, uma porta especial se abriu e um homem de passos firmes caminhou até ela. Quando chegou bem à sua frente, ajoelhou-se e lhe tomou as mãos miúdas entre as suas. Os olhos claros e profundos do homem ajoelhado penetraram os da pequena doente que, ao descobrir que se encontrava frente ao Presidente dos Estados Unidos, abriu os lábios num sorriso trêmulo e balbuciou: Senhor Presidente, é uma honra conhecer o senhor. Ao que ele, com a voz tomada pela emoção, respondeu: De forma nenhuma. A honra é toda minha em conhecer uma jovem americana tão corajosa como você. Você tem apenas onze anos e na sua dificuldade de saúde está dando uma grande lição de coragem e de civismo. 
* * * 
Todos os grandes homens sabem avaliar com exatidão a importância dos pequenos gestos. 
Todos os grandes homens administram, de tal forma, o seu tempo que podem dispor de alguns minutos para atender um sonho infantil, saciar um grande desejo de uma garotinha prestes a morrer. 
Todos os grandes homens conhecem a importância das pequenas coisas.
Foi por esse motivo que Jesus, o Mestre Incomparável, para as Suas lições magistrais, se serviu das coisas pequenas, muitas vezes esquecidas, como a erva do campo, os lírios, moedas, ovelhas, redes e peixes. 
E testificou a Sua grandeza acarinhando as crianças do povo, num final de tarde inesquecível, atraindo-as para Si e pedindo: 
-Deixai vir a mim as criancinhas. 
Redação do Momento Espírita, com base em documentário televisivo de 15.03.2001. 
Em 27.12.2012.

sábado, 2 de outubro de 2021

APENAS DOIS MENINOS

CHICO XAVIER 
E
HUMPBERTO CAMPOS
Eram duas crianças numa cidade, chamada Nazaré, que mais tarde receberia o título de flor da Galileia. Localizada sobre uma colina, era, então, um pequeno povoado de casas, quase sempre compostas por uma única sala, ligadas a uma gruta escavada na rocha. Naquela época tinha importância alguma, com suas casas pequenas, ruas humildes e pedregosas, lojas singulares. Os meninos estavam quase na mesma idade. O que nascera na cidade de Belém, numa noite quase fria, chamava-se Yeshua e tinha somente alguns meses menos que o primo João, que o visitava, naquela ocasião, trazido pelas mãos maternas. Enquanto suas mães cuidavam dos afazeres da casa e buscavam colocar em dia as tantas notícias a respeito de suas próprias vidas, saíram os garotos a andar. Quando o entardecer se anunciou, deixando que descessem as primeiras sombras da noite na paisagem, as duas mulheres se mostraram inquietas. Onde estariam os dois pequenos? E saíram a procurá-los. Maria e Isabel avistaram os filhos, lado a lado, sobre uma pequena elevação. Os cabelos de Yeshua esvoaçavam ao sopro caricioso da brisa. Seu pequeno indicador mostrava a João as paisagens que se multiplicavam à distância, como um grande general que estivesse dando detalhes dos seus planos a um oficial de sua confiança. João simplesmente ouvia e olhava o soberbo conjunto de montes e vales apontados, ao lado das águas cristalinas. Nunca ninguém soube o que estariam conversando. Talvez fosse a primeira combinação, na Terra, entre o amor e a verdade, para a implantação do reino de Deus. O que sabemos é que no dia seguinte, quando Isabel e João se despediam para retornarem ao próprio lar, perguntou Isabel: 
-Não gostarias de vir conosco? 
E o pequeno carpinteiro de Nazaré respondeu, prontamente, com ternura:
-João partirá primeiro. 
Não era bem uma resposta à indagação feita, mas a ratificação da missão do Batista: ir à frente, aplainar as veredas para que o Cordeiro de Deus se manifestasse entre os homens. Por isso, veremos, anos depois, o operário da primeira hora, vestido de peles, anunciando com energia: Eu sou a voz que clama no deserto dos corações. Endireitai o caminho do Senhor, como disse o profeta Isaías. 
* * * 
Todos trazemos, ao renascer, neste planeta, um plano de ação para nosso jornadear. 
Alguns não temos missões de grandeza ou de condução de outras mentes. 
O que nos cabe é atender aos compromissos familiares, profissionais, subirmos, um degrau que seja, na escala da evolução. 
Outros trazemos compromissos que têm a ver com o crescimento da Humanidade e do planeta. 
Por isso, temos os grandes destaques nas ciências, nas pesquisas, auxiliando na descoberta de medicamentos e vacinas para a conservação da vida humana. 
Também destaques na área da educação, da instrução, a fim de que muitas mentes possam ser ilustradas. 
Ou nas artes, oferecendo ao mundo a beleza dos poemas escritos e a poesia das suntuosas edificações, que se erguem, como desejando alcançar os céus. 
Que nossa estadia, neste mundo, seja para nosso crescimento, para o progresso de outros, para a glória de Deus. 
Redação do Momento Espírita, com base no cap. 2, do livro Boa Nova, pelo Espírito Humberto de Campos, psicografia de Francisco Cândido Xavier, ed. FEP. 
Em 1º.10.2021.

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

SÓ, NA PRESENÇA DO MAR

Andrey Cechelero
Quando abraço o oceano todo com um olhar, volto a questionar sete milhões de coisas... 
Tantas quanto as ondas velozes que ganham a areia a cada minuto. 
Volto a indagar: 
-Como alguém pode se sentir só, na presença do mar? Acariciado por esta brisa incessante? Preenchido por este perfume raro?... Como ainda posso me sentir só, sabendo que os braços do invisível me abraçam, que aqueles que partiram continuam existindo, e que todos nós, sem exceção, somos amados por alguém, em algum lugar, de alguma forma?... Como ainda posso me sentir só?... Talvez seja eu que me isole do mundo, e que exija demais das pessoas. Pode ser isso... Talvez seja eu que não permita que os outros conheçam minha vida, meus sonhos, minhas mazelas (e, percebendo melhor, acho que há um pouco de orgulho nisso)... Quem sabe seja eu que procure a solidão, e não ela que me persiga, como sempre imaginei... É... Talvez eu precise conversar mais com as pessoas, interessar-me mais por suas vidas... Ouvir mais... Há tempos que não ouço alguém. Um desconhecido relatando os acontecimentos corriqueiros do dia a dia; um colega de trabalho falando das peripécias de seus filhos; meu irmão... Puxa!... Há tempos não converso com meu irmão... É curioso, pois me lembro que, há algumas semanas, ouvi uma mensagem de cinco minutos, num programa de rádio, que falava exatamente sobre isso, sobre como as pessoas se isolam umas das outras, e do quanto isso é prejudicial para a saúde mental e física, já que uma é consequência da outra – dizia o locutor. Vem-me claramente à memória uma frase: 
-Quem ama não se sente só. 
É interessante, pois acho que sempre acreditei que para não se sentir só era necessário ser amado, e não amar. Dizia, ainda, que quando nos sentimos úteis, e concluímos que muitos dependem de nossa dedicação, de nosso amor, também esquecemos a solidão. É... Talvez ele tenha razão, pois lembro que, um dia desses, fui visitar uns parentes que não via há muito tempo, e aquela visita fez-me tão bem! Falamos de assuntos comuns, como notícias de televisão, de família (em verdade ouvi muito mais do que falei, pois eles desembestaram a falar que só vendo!) Mas, sabe que gostei de ouvir... Ao final, saí de lá com menos tensão, menos preocupado com a solidão... Percebi - não sei ao certo - um ar estranho entre os dois, como se estivessem cansados, entediados, possivelmente um pouco tristes... Abracei minha tia (lembrei o quanto gosto dela!), e a ouvi dizer com os olhos levemente umedecidos: 
-Gostamos muito de você, viu! Venha mais vezes! Não é sempre que recebemos visitas! 
Ela estava certa. Não é sempre que recebemos visitas, pois não é sempre que visitamos os outros, creio eu... Naquele final de tarde, vi que poderia ser útil em coisas tão pequenas, porém tão significativas!... E aquilo me afastava do desânimo, da solidão... Dentro do carro, voltando para casa, observando a vida lá fora, por entre gotas de uma garoa discreta, lembro-me que essas mesmas questões emergiram: 
-Como pode alguém sentir-se só, na presença de tanta gente, de tanta vida! Quantas dessas pessoas esperam apenas por uma visita? E quantos deles estão dispostos a fazer uma? 
Redação do Momento Espírita, com base no cap. Como alguém pode se sentir só, na presença do mar, do livro O que as águas não refletem, de Andrey Cechelero, edição do autor. 
Em 29.9.2021.