quarta-feira, 17 de julho de 2019

É PROIBIDO CHORAR?

Quando uma dor muito grande chega aos corações dos que se afirmam cristãos e, em especial, dos espíritas, ela se extravasa pelos olhos, em gotas de pranto. Nessa hora, é muito comum os adeptos da mesma filosofia, amigos, parentes se mostrarem admirados ante as lágrimas vertidas e formularem questões como: 
-Por que você está chorando? Você não é espírita? Onde está a sua fé? 
E os que choram, já com a alma despedaçada, pelo evento triste pelo qual passam, ainda devem administrar essas atitudes que ferem a sensibilidade como lâmina afiada. Então, esses companheiros sofridos, que aguardavam um ombro amigo para chorar, um aperto de mão, um abraço, passam a sofrer em silêncio. Choram por dentro. Porque por fora lhes foi vetado, por censuras tolas e inconsequentes. 
* * * 
Quem disse que não se pode chorar ante um ser amado que parte para a pátria verdadeira? Quem disse que não se pode verter lágrimas quando a carência bate à porta, nos braços do desemprego; quando o filho se envolve com drogas; quando a ingratidão chega, com seu punhal cruel? Para os que elegemos como Modelo e Guia o Mestre Jesus e nos preocupamos em conhecer a Sua biografia, encontramos nos Evangelhos informações preciosas a respeito da dor e da lágrima. Ao chegar a Betânia e ter a notícia da morte de Lázaro, ante as interrogações que lhe dirige Maria, a irmã de Lázaro, Jesus Se senta sobre uma pedra e chora. Por que teria chorado? Com certeza não pelo amigo que sabia não estar morto, somente em estado letárgico. Contudo, deixou que as lágrimas corressem livres. Talvez tenha chorado pela incompreensão das pessoas a respeito de quem Ele era, dos objetivos da vida e da certeza da vida imortal. Quando Madalena adentra a sala do banquete, em casa de um certo Simão, e derrama as lágrimas da sua dor, do seu remorso, misturadas às da alegria por ter encontrado o amor que buscava há tanto tempo, Jesus não a repreende. Antes, ensina ao anfitrião: 
-Simão, entrei em tua casa e não me deste água para os pés. Ela, porém, os banhou com suas lágrimas e os enxugou com seus cabelos. 
No trajeto doloroso ao Gólgota, ao Se deparar com as mulheres de Jerusalém, que choram a morte do justo, do ser que lhes abençoou os filhos tantas vezes, Jesus Se detém. Não as recrimina por estarem a chorar. Antes lhes diz que não devem chorar por Ele, que Se encaminha para a glorificação na cruz, mas por elas mesmas e por seus filhos. Vê-se, portanto, que o Modelo e Guia da Humanidade jamais falou contra as lágrimas da dor ou do arrependimento. Assim, justo é que se chore quando a alma se veste de luto, quando se envolve no manto da dor. O fato de ser cristão ou de ser espírita-cristão não nos transforma em criaturas insensíveis. Ao contrário, aprende-se a sentir a dor alheia inclusive. O que não é coerente é o desespero, a lástima, a queixa. Mas, lágrimas? Por que não, se elas traduzem o estado d´alma em lamento? Por que não, se o próprio Cristo chorou! Ele, o ser perfeito. Pensemos nisso e sejamos mais autênticos e sensatos, com ponderações bem ajustadas sobre a dor alheia, que nos merece, ao demais, todo respeito. Afinal, foi Jesus que nos lecionou: 
-Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 
Redação do Momento Espírita. 
Em 28.09.2009.

terça-feira, 16 de julho de 2019

A PALAVRA DA INOCÊNCIA

XUE XINRAN
Quase sempre acreditamos que as crianças não entendem o que acontece ao seu redor. Tomamos decisões, inclusive a respeito de suas próprias vidas, sem nos importar com seus sentimentos. Assim acontece nas separações conjugais, em que se decide com quem ficarão os filhos. Assim é quando se decide mudar de residência e até mesmo quando se opta por transferi-los de uma para outra escola. No entanto, as crianças estão atentas e percebem os acontecimentos muito mais do que possamos imaginar. A jornalista Xiran que, apesar do regime de opressão e abandono que viveu na China, manteve um programa de rádio, em Nanquim, conta uma história singular, em seu livro As boas mulheres da China. Havia uma jovem que se casou com um rapaz muito culto e de projeção política na China. Durante três anos, pelo seu status, ele foi estudar em Moscou. Ela viveu anos de felicidade ao seu lado. Um casamento que foi abençoado com dois filhos. Era uma mulher de sorte, comentava-se. Então, exatamente no momento em que o casal se alegrava com o nascimento do segundo filho, o marido teve um ataque cardíaco e morreu, repentinamente. No final do ano seguinte, o filho mais novo morreu de escarlatina. Com o sofrimento causado pela morte do marido e do filho, ela perdeu a coragem de viver. Um dia, pegou o filho que restava e seguiu para a margem do rio Yang-Tsé. Seu intuito era se unir ao marido e ao bebê na outra vida. Parada à beira do rio, ela se preparava para se despedir da vida, quando o filho perguntou, inocentemente: 
-Nós vamos ver o papai? 
Ela levou um choque. Como é que uma criança de cinco anos podia saber o que ela pretendia fazer? E perguntou: 
-O que é que você acha? 
Ele respondeu: 
-É claro que vamos ver o papai! Mas eu não trouxe o meu carrinho de brinquedo para mostrar para ele! 
Ela começou a chorar. Nada mais perguntou. Deu-se conta de que ele sabia muito bem o que ela pretendia. Compreendia que o pai não estava no mesmo mundo que eles, embora não fizesse uma distinção muito clara entre a vida e a morte. As lágrimas reavivaram nela o instinto materno e o senso de dever. Tomou o filho no colo e, deixando a correnteza do rio levar a sua fraqueza, retornou para sua casa. A mensagem de suicida que tinha escrito foi destruída. Enquanto fazia o caminho de volta ao lar, o menino tornou a perguntar: 
-E então, não vamos ver o papai?
Procurando engolir o pranto, ela respondeu: 
-O papai está muito longe. Você é pequeno demais para ir até lá. A mamãe vai ajudá-lo a crescer, para que você possa levar para ele mais coisas. E coisas muito melhores. 
Depois disso, ela fez tudo o que uma mãe sozinha pode fazer para dar ao filho o melhor. 
 * * * 
As crianças não são tolas. E muito mais do que possamos imaginar permanecem atentas, em especial a tudo que lhes diga respeito. Percebem os desentendimentos conjugais, as dificuldades domésticas, a ponto de ficar enfermas. Por tudo isso, preste mais atenção ao seu filho. E, sobretudo, fale com ele sobre as dificuldades e sobre as soluções possíveis. Não o deixe crescer ansioso e triste. Ajude-o a viver no mundo, seguro e firme.
Redação do Momento Espírita, com base no cap. A catadora de lixo, do livro As boas mulheres da China, de autoria de Xinran, ed. Companhia das Letras. 
Em 16.7.2019.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

É PRECISO SABER VIVER!

ERASMO E ROBERTO CARLOS
Dois grandes vultos da música brasileira, certa vez, compuseram os seguintes versos: 
Toda pedra do caminho você pode retirar. 
Numa flor que tem espinho, você pode se arranhar. 
Se o bem e o mal existem, você pode escolher. 
É preciso saber viver!
A canção expressa uma grande verdade. A vida é feita de escolhas. Todos nós, diariamente, nos deparamos com pessoas, com situações e fatos que nos instigam, exigindo-nos um posicionamento. Não há quem transite pelas estradas do mundo sem pedras em seu caminho. Nenhum de nós pode alimentar a ilusão de que não haverá espinhos que nos poderão ferir, mesmo que levemente. O que nos cabe é escolher como encarar tais situações, como lidar com pedras e espinhos. Alguns de nós acreditamos que a melhor forma de enfrentar essas situações é tendo como lema o olho por olho, dente por dente, conforme os registros do Antigo Testamento. Em outras palavras, se alguém nos dificulta a vida, fazermos o mesmo, tanto quanto possível. Se somos vítimas de maledicência, traição, calúnia, arquitetarmos situações para retribuir da mesma forma. Se é a grosseria, a má educação, a falta de civilidade que alguém nos impõe, imediatamente adotarmos a mesma postura, repetindo aquilo de que fomos alvo. No entanto, nos esquecemos de que, conforme cantam os poetas, se o mal e o bem existem, podemos fazer nossa opção. Se somos vítimas do mal, se alguma situação inconveniente nos alcança, quer sejam coisas corriqueiras ou graves, vale a pena refletir. É importante parar e analisar a ocorrência. É valioso ponderar antes de agir. Muitas vezes, nos sentimos provocados por situações desagradáveis, reagimos por impulso para, no momento seguinte, nos arrependermos pelas consequências que nos alcançam. Sem a reflexão, a ponderação, sobram-nos os instintos e os comportamentos menos nobres, que ainda trazemos como padrões de atitude e de ação. Portanto, o que nos cabe, como sugere a canção, é saber viver. Entre tantas possibilidades de agir, é necessário saber escolher. Se nos deixamos levar pelo atropelo das circunstâncias, pelas limitações e dificuldades dos outros, não teremos outro resultado que não sejam dificuldades e problemas. Saber viver talvez possa ser simplesmente mudar nossa postura perante a vida. Perante a calúnia, nos mantermos dignos, agindo corretamente, apoiados na consciência tranquila. Frente à grosseria e à descompostura de alguém, oferecermos a paciência que aguarda, a gentileza ou o silêncio, que desarmam as pessoas. Diante da traição, da covardia e do erro, oferecermos a compreensão, que alivia; trabalharmos o perdão, que dulcifica; aguardarmos o tempo, que oferece ponderação. Recordemos as palavras sábias do Amigo Jesus: Já ouvistes: amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo, amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. Tudo isso, conclui o Mestre da Galileia, para que nos tornemos filhos de nosso Pai. Em síntese, vivamos bem para vivermos mais tranquilos e mais felizes. 
Redação do Momento Espírita. 
Em 21.8.2018.

domingo, 14 de julho de 2019

É PRECISO OUVIR...

O turista viajava pelo Oriente e, atraído pelo que ouvira falar a respeito de renomado guru, resolveu visitá-lo. Sabedor que todos o tinham em extraordinário conceito pelos conselhos que dava a quem o buscava, pensou em lhe pedir orientação para sua vida, que estava um autêntico caos. Foi introduzido em uma saleta, junto a outros que, igualmente, seriam atendidos. A casa era simples e pequena. O guru procedia à cerimônia do chá, com que desejava brindar os visitantes. O turista, afoito e impaciente, começou a falar sem interrupção. Falava dos seus problemas, das suas dificuldades, acompanhando todos os passos do dono da casa, conforme ele se movia de um lado para o outro. Segurou a chávena que lhe foi entregue, sem muita atenção. Contudo, quando o guru nela despejou um pouco de chá, estando virada para baixo, inverteu o sentido das suas palavras para protestar: 
-O senhor viu o que fez? A chávena estava ao contrário e o chá derramou... 
Calmamente, respondeu o guru: 
-Exatamente como a sua mente! Você está tão preocupado em falar, que não escuta nada do que se lhe diga. É como despejar um bule cheio de chá na chávena virada para baixo. Mude a sua conduta. Pense antes de falar. Fale pouco, analisando o que diz. Quando agir assim, a sua vida vai melhorar. E concluiu: Pode se retirar. A consulta acabou. 
 * * * 
Quantos de nós nos assemelhamos a esse turista. Dizemos que desejamos respostas às nossas indagações. Entretanto, não paramos de fazer perguntas, não permitindo ao interlocutor possa nos responder. E, se ele tenta falar, o nosso gesto logo diz que ele deve esperar um pouco, porque não concluímos nossa narrativa. Isso quando não começamos a dar as respostas, conforme acreditemos devam ser. Como se lê no capítulo três, do livro bíblico Eclesiastes: 
Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.
Portanto, devemos concluir que, no relacionamento pessoal, há um tempo para falar e outro tempo deve ser dedicado a escutar. Grandes problemas se resolveriam em minutos se tivéssemos a calma para ouvir o que o outro tem a dizer. Desentendimentos sequer viriam a existir, se nos permitíssemos ouvir as pessoas. Aprenderíamos mais se nos dispuséssemos a ouvir quem deseja nos ensinar. E ouvir não quer dizer simplesmente, escutar. É ouvir com atenção, é buscar entender o que o outro expressou e, se não entendeu, humildemente, pedir:
-Pode repetir, por favor? O que você quer dizer, exatamente? 
E se dispor a ouvir um tanto mais. Se observarmos nosso organismo, veremos que Deus nos dotou de um par de ouvidos e uma só boca. Sabiamente, já prescrevia que mais se deve ouvir, e menos falar. Ouvir os conselhos dos mais maduros, dos que já vivenciaram certas experiências e podem nos auxiliar a não cair nos mesmos erros. Ouvir o que tem a dizer os nossos filhos: suas queixas, seus problemas, suas dificuldades com os amigos, os professores, no trabalho, no namoro. Aquele que tem ouvidos para ouvir, que ouça! Foi o registro do Evangelista Mateus, como advertência do sábio Mestre da Galileia. Disponhamo-nos a ouvir: a voz do outro, a sinfonia do mundo, o próprio silêncio. Ouçamos.
Redação do Momento Espírita, a partir de conto oriental, de autoria ignorada. 
Em 30.10.2014.

sábado, 13 de julho de 2019

É PRECISO ESFORÇO

Certo dia, um homem caminhava por uma estrada deserta e começou a sentir fome. Não estava prevenido, pois não sabia que a distância que ia percorrer era longa. Começou a prestar atenção na vegetação ao longo do caminho, na tentativa de encontrar alguma coisa para acalmar o estômago. De repente, notou que havia frutos maduros e suculentos em uma árvore. Aproximou-se mas logo desanimou, pois a árvore era muito alta e os frutos inacessíveis. Continuou andando e foi vencido pela fome e o cansaço. Sentou-se na beira do caminho e ficou ali lamentando a sorte. Não demorou muito e ele avistou outro viajante que vinha pelo mesmo caminho. Quando o viajante se aproximou, o homem notou que ele estava comendo os frutos saborosos que não pudera alcançar e lhe perguntou: 
-Amigo, belos frutos você encontrou. 
-É, respondeu o viajante. Eu os encontrei no caminho. 
-A natureza é pródiga em frutos suculentos. Mas você tem a pele machucada. 
Observou o homem. 
-Ah, mas isso não é nada! São apenas alguns arranhões que ficaram pelo esforço que fiz ao subir na árvore para colher os frutos. 
E o homem, agora com mais fome ainda, ficou sentado resmungando, de estômago vazio, enquanto o outro viajante seguiu em frente. 
 * * * 
Algumas vezes, fatos como esse também ocorrem conosco. Ficamos sentados lamentando o sofrimento mas não abrimos mão da acomodação para sair em busca da solução. Esquecemos que é preciso fazer esforços, lutar, persistir. É muito comum ouvir pessoas gritando por um lugar ao sol, mas as que verdadeiramente querem um lugar ao sol, trazem algumas queimaduras, fruto da luta pelo ideal que almejam. Outras, mais acomodadas, dizem que Deus alimenta até mesmo os pássaros. Por que não haveria de providenciar o de que necessitam? Essas estão certas, em parte, pois se é verdade que Deus dá alimento aos pássaros, também é certo que Ele não o joga dentro do ninho. O trabalho de busca pelo alimento é por conta de cada pássaro, e muitas vezes isso não é fácil. Há situações em que eles se arriscam e até saem com alguns arranhões. Por essa razão, lembre-se sempre de que Deus a todos ampara, mas a caminhada, os passos, a busca, é por conta de cada um. Por vezes a escalada é árdua, exaustiva, solitária. Mas é preciso fazer esforços para alcançar o fruto desejado, principalmente em se tratando dos frutos que saciam a sede da alma. Jesus ensinou: 
-Batei, e a porta se abrirá. 
Mas os passos até chegar à porta e o esforço por bater, são necessários. 
-Buscai e achareis. 
Outra recomendação na qual está contida a ação necessária. Buscar é movimento, é esforço, é ação. Seria diferente se Jesus tivesse dito: 
-Espere passivamente que a porta se abrirá, ou, fique aí parado que o que deseja chegará até você. 
No entanto, é preciso saber o que se busca e por qual porta desejamos entrar. Ainda aí nossa escolha é totalmente livre. Nossa vontade é que nos conduzirá aonde queremos chegar. Sendo assim, façamos a nossa escolha e optemos por chegar lá, e chegar bem. 
 * * * 
Deus dá asas a todos os pássaros, mas enquanto as andorinhas voam em busca dos climas primaveris e os colibris descobrem novas flores, os abutres farejam a morte para se alimentarem com os restos dos animais vencidos. 
Redação do Momento Espírita
Em 16.11.2010.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

É POSSÍVEL AGIR

Primeiro levaram os negros, mas não me importei com isso. Eu não era negro. Em seguida levaram alguns operários, mas não me importei com isso. Eu também não era operário. Depois prenderam os miseráveis, mas não me importei com isso, porque eu não sou miserável. Depois agarraram alguns desempregados, mas como eu tenho um emprego, também não me importei. Agora... Agora estão me levando. Mas já é tarde. Como eu não me importei com ninguém, ninguém se importa comigo. 
 * * * 
O poema grave é de Bertolt Brecht, influente dramaturgo e poeta alemão do século XX. A questão gravíssima é do ser humano, desnudado em linhas poéticas, exposto pelo pensador que aqui nos convida a refletir sobre a indiferença. A vida individualista, que prioriza o eu em detrimento do outro, apresenta-se como um dos problemas mais sérios da atualidade humana. O egoísmo, a cobiça, o medo, transformaram grande parte dos seres em autômatos ilhados. Autômatos, sim, pois evitam pensar, refletir, ponderar, em nome de uma falsa falta de tempo. Autômatos que se plugam na tomada pela manhã, e se desplugam à noite, sem terem realmente estado presentes em seus dias, em suas próprias vidas. Ilhados também, pois se isolam das pessoas, do contato humano. Não se pode mais confiar em ninguém, não se pode mais contar com ninguém. Todos são suspeitos... – Afirmam alguns. Ilhados, usam das tecnologias do mundo moderno, que visam apenas auxiliar o homem em suas tarefas, para manterem uma distância segura do mundo. E o virtual parece ser mais seguro, mas fácil do que o real... Enganamo-nos em nome de uma suposta segurança. Assim deixamos de nos importar com os outros, vivendo um constante salve-se quem puder, como se o desespero fosse grande auxílio. E quanto mais nos afastamos, mais difícil é a volta. Amizades que deixamos de cultivar na infância, na juventude, hoje fazem falta a muitos homens e mulheres, vítimas de transtornos psicológicos, como a depressão. Relacionamentos familiares fortes, envolvendo cumplicidade e carinho, no futuro nos farão falta, pois quando precisarmos nos abrir, desabafar, perceberemos que não temos intimidade com ninguém para tal. É preciso agir. Agir enquanto há tempo. Será tão difícil dar atenção, se importar com aqueles que estão ao nosso redor? Será tão difícil romper esta barreira da indiferença, e perguntar: Como você está? – realmente desejando saber como anda a vida do outro? O mundo não sou eu mas os outros. O mundo somos nós. Estamos todos expostos ao mesmo tipo de experiências, às mesmas provações, aos mesmos aprendizados. É preciso agir. É preciso se importar mais. 
 * * * 
Quebra o gelo da indiferença, e perceberás que as águas que irão verter aplacarão tuas sedes mais secretas. Desperta ainda hoje, e perceberás que o brilho do sol é mais seguro do que a escuridão dos olhos fechados. 
Redação do Momento Espírita, com base em poema de Bertolt Brecht (1898-1956), a partir de poema escrito originalmente por Martin Niemoller, que viveu na Alemanha nazista. Disponível no livro Momento Espírita, v. 7, ed. FEP. 
Em 24.1.2017.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

A PAZ DE CRISTO

CHICO XAVIER E EMMANUEL
O Evangelista Mateus anotou palavras de Jesus que, até hoje, causam um certo espanto ao estudioso dos Evangelhos, ao menos no primeiro momento. Dentre elas, a afirmativa: 
-Não cuideis que vim trazer a paz à Terra. Não vim trazer a paz, mas a espada. 
Acontece que o conceito de paz, entre os homens, desde muitos séculos está viciado. Na expressão comum, ter paz significa ter atingido garantias do mundo, dentro das quais possa o homem viver, sem maiores cuidados. Paz, para muitos, significa ter a garantia de grandes somas de dinheiro, não importando o que tenha que fazer para as conseguir. Isso porque muito dinheiro significa poder se rodear de servidores, de pessoas que realizem as tarefas que, normalmente, a criatura deveria executar. Também tem a ver com viagens maravilhosas para todos os lugares possíveis, ida a restaurantes caros, roupas finas, perfumes exóticos. Desfrutar de tudo o que é considerado bom no mundo. Naturalmente, Jesus não poderia endossar esse tipo de tranquilidade, onde o ser vegeta e não vive realmente. Assim, em contrapartida ao falso princípio estabelecido no mundo, Jesus trouxe consigo a luta regeneradora, a espada simbólica do conhecimento interior pela revelação divina, para que o homem inicie a batalha do aperfeiçoamento em si mesmo. Jesus veio instalar o combate da redenção. É um combate sem sangue, uma frente de batalha sem feridos. A guerra que o Senhor Jesus propõe é contra o mal. Ele mesmo foi o primeiro a inaugurar o testemunho pelos sacrifícios supremos. Convidado a se sentar no Sinédrio, junto aos poderosos do templo de Jerusalém, optou, sem desprezar ninguém, por se dedicar à gente simples, para quem ensinou bondade, compaixão, piedade. Exatamente numa época em que a lei do mais forte imperava. O dominador romano mandava e o povo escravo deveria obedecer. Uma época em que os portadores de hanseníase, que conheciam como lepra, eram colocados para fora das cidades, longe do convívio dos seus amores, sem cuidado algum. Uma época em que as crianças enjeitadas eram abandonadas nas ruas, entregues a ninguém. Há mais de vinte séculos a Terra vive sob esses impulsos renovadores da mensagem de Jesus. Buscar a mentirosa paz do conforto exclusivo, pensando somente em si próprio, é infelicitar-se. Todos aqueles que pretendem seguir Jesus encontram, pela frente, a batalha pela conquista das virtudes. Mas, igualmente, a serenidade inalterável, na divina fonte de repouso dos corações que se unem ao amor de Jesus. Ele é o sustentáculo da paz sublime para todos os homens bons e sinceros. 
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A conquista da paz do Cristo, em essência, é fácil. Basta seguir pequenas regras: não ter ambição em demasia e saber valorizar o que se tem. Amar e perdoar, sem acumular mágoas, que somente pesam na economia da alma, infelicitando-a. Cumprir fielmente os seus deveres, na certeza de que a paz de consciência se alcança com o dever retamente cumprido. Finalmente, entregar-se confiante aos desígnios de Deus. O bom Deus que cuida das aves do céu e dos lírios do campo, vela incessantemente por todos nós.
Redação do Momento Espírita com base no cap. 104, do livro Caminho, verdade e vida, pelo Espírito Emmanuel, psicografia de Francisco Cândido Xavier, ed. FEB e no verbete Paz, do livro Repositório de sabedoria, v.2, pelo Espírito Joanna de Ângelis, psicografia de Divaldo Pereira Franco, ed. LEAL. 
Em 11.7.2019.