quinta-feira, 7 de abril de 2016

CAPACIDADE DE PERDOAR

Ele era apenas um garoto de dez anos que sonhava com o Natal, que chegaria em cinco dias. Desceu do ônibus que o trouxe da escola e caminhou em direção à sua casa. Hugh era seu segundo nome e era assim que o pai o chamava. Tinha cabelos castanhos, olhos ingênuos e sorriso fácil. 
- Oi, falou um homem se aproximando. Sou amigo de seu pai. Vamos dar uma festa para ele e preciso lhe fazer algumas perguntas a fim de saber que presentes comprar para ele. Você pode me ajudar?
Hugh acompanhou o homem até um trailer estacionado a duas quadras e viajaram para fora da cidade. As ruas foram desaparecendo. Acho que entrei na rua errada, falou o homem. E entregou um mapa ao menino para que procurasse localizar a rodovia principal. O garoto se debruçou sobre o mapa e então sentiu uma dor aguda nas costas, como uma picada de abelha. Depois outra picada e começou a se contorcer. O homem estava com um furador de gelo na mão e o foi espetando. Não eram espetadas profundas mas doíam muito e Hugh ficou apavorado. Depois, ele largou a arma e voltou a dirigir. Chegaram em uma estrada de terra. Vamos saltar, falou o motorista. Aliviado por sair do trailer, o menino caminhou um pouco e se sentou frente a um matagal. Os ferimentos não eram graves mas ele sentia a dor do medo. Ele não viu seu agressor vir em sua direção, apontar a arma. Tampouco sentiu a bala entrar por sua têmpora esquerda. Seis dias depois, Hugh foi encontrado. Depois de passar quase uma semana inconsciente, o menino despertou e se arrastou até a estrada, onde um motorista o apanhou. Havia perdido o olho esquerdo mas estava vivo. Pelos três anos seguintes, ele dormia quase todas as noites ao pé da cama dos pais e qualquer barulho o assustava. Acreditou que jamais teria uma vida normal. Então, ele descobriu um templo religioso perto de sua casa. Sentiu-se tocado pela mensagem cristã de esperança e perdão, que parecia lhe falar direto ao coração. Pela primeira vez ele percebeu que sua sobrevivência não deveria ser fonte de medo e de ódio, mas de inspiração para viver. Dezenove anos depois, Hugh encontrou face a face o seu agressor. Era um homem que estava morrendo em uma cama. Idoso, pesava trinta quilos. Hugh sempre pensava em como reagiria se um dia encontrasse aquele monstro frente a frente. E agora, só podia lhe estender a mão e ajudá-lo a viver de forma razoável os últimos dias. Passou a visitá-lo. Três semanas depois, o agressor morreu enquanto dormia. Naquela tarde, Hugh lhe falara da sua própria fé e da esperança de que ele também pudesse crer em Deus, na Imortalidade. Nesse dia, Hugh se deu conta que conseguira perdoar o seu agressor. 
 * * * 
Perdoa sempre. Passada a ocorrência que te feriu, retorna para a tua vida, com entusiasmo e renovação. O agressor é sempre alguém em desequilíbrio, necessitando da medicação da bondade para se recuperar. Perdoa e ilumina-te ainda hoje. 
Redação do Momento Espírita, com base no artigo Das trevas à luz, de Seleções Reader´s Digest, de outubro de 2000 e no cap. CLXXXIII do livro Vida feliz, pelo Espírito Joanna de Ângelis, psicografia de Divaldo Pereira Franco, ed. Leal. Em 15.06.2012

quarta-feira, 6 de abril de 2016

CAPACIDADE DE AMAR

MADRE TERESA DE CALCUTÁ
Até que ponto vai nossa capacidade de amar? Na História da Humanidade, temos registros de pessoas de excepcionais qualidades que amaram, sem restrições. Tais foram Gandhi, o Apóstolo da não-violência; Madre Teresa de Calcutá, a Missionária da Caridade; Irmã Dulce, chamada Irmã dos Pobres. Também se tem registros de criaturas com uma frágil capacidade de amar, que impõem condições onde a beleza física, a inteligência, a graça são requisitos imprescindíveis. Assim, para a adoção, as crianças excepcionais ou que apresentem qualquer dependência, que não sejam dotadas de encantos físicos, permanecem nos orfanatos, os olhos ansiosos, à espera de alguém que se lhes achegue e lhes dê um verdadeiro lar. Muitas delas alcançam a maioridade em tais locais, sem jamais terem conhecido carinho familiar, aconchego doméstico. Madre Teresa de Calcutá tinha sempre histórias interessantes a respeito. Seu exemplo cativava as criaturas que, à semelhança dela, se devotavam a seres considerados excluídos da sociedade, com especial cuidado. Narrou ela que, certa vez, uma família de posse, pertencente à alta classe indiana, tendo visitado as obras das Missionárias da Caridade, interessou-se em levar uma criança abandonada, que vivia no lar. Passados alguns meses, Madre Teresa soube que a criança ficara muito doente e inválida, apesar do carinho e atenção dos pais adotivos em lhe oferecer o melhor para sua cura. Ela procurou a família e pediu que lhe devolvessem a criança e ela lhes daria outra, sadia. O pai olhou para a servidora, sentindo que ela os queria poupar do sofrimento e afirmou: 
-Madre, tire-me primeiro a vida, depois leve minha filhinha. 
Ele havia aprendido a amar a menina de todo o coração. E assim é o verdadeiro amor. O amor sempre trabalha construindo o mundo melhor. O sábio que não ama se torna um monstro, aplicando indevidamente os conhecimentos de que se enriquece. A inteligência, sem o amor, é uma arma perigosa nas mãos do desequilíbrio e das paixões inferiores. Graças ao amor a jornada humana se torna menos áspera, mais ditosa, convidando o caminhante a prosseguir, sem desânimo, nem desistência, sem parar, até o momento final da vitória. E o amor de Deus, que a tudo dá vida, é o convite para que o nosso amor vitalize uns aos outros, nessa aventura maravilhosa que é a do progresso, rumo às estrelas.
* * * 
Madre Teresa de Calcutá foi capa da revista Time, que reserva suas capas a personagens célebres. Madre Teresa destacou-se como desses mensageiros de amor e de esperança que, de tempos a tempos, enriquecem o planeta. Os ideais de trabalho das Missionárias da Caridade estipulam que elas devem levar às crianças das favelas a imagem de Cristo como amigo dos pequenos. Elas ensinam também que é preciso amar os pobres com o amor do Cristo, ajudá-los com sua própria ajuda e doar-se, como Ele o fez. 
Redação do Momento Espírita com base no artigo Vozes do Espírito, do Boletim SEI, nº 1549, do Lar Fabiano de Cristo, RJ e do cap. 30 do livro Terapêutica de emergência, por Espíritos diversos, psicografia de Divaldo Pereira Franco, ed. Leal. Em 08.03.2010.

terça-feira, 5 de abril de 2016

O CANTOR INCOMPARÁVEL

Ele chegou à Terra, anunciado por um coro celestial que foi ouvido por pessoas simples, que se encontravam nos campos. Seres que dormiam sob o dossel das estrelas, enquanto guardavam as ovelhas, na noite ainda não de todo fria. O Pastor das almas se fez anunciar aos pastores... Significativa mensagem. Os versos da canção têm sido repetidos ao longo dos séculos, embalando a esperança e sustentando as almas: Glória a Deus nas alturas, paz na Terra, boa vontade para com os homens. E o Senhor das estrelas se fez carne e habitou entre nós. Aguardou os anos para Ele próprio entoar a mais enlevante canção de todos os tempos. Canção que atravessou as épocas, que sobreviveu às guerras, às perseguições, às adulterações dos homens de má fé. Às margens do Genesaré, em Cafarnaum, Dalmanuta, Betsaida, pelos caminhos da Galileia e da Samaria, os homens lhe ouviram a voz, chamando-os para o reino de Deus. Quando Ele abria a boca e falava, com a autoridade da Sua perfeição, brotavam versos de espiritualidade e conforto moral: Vinde a mim, todos vós, que estais aflitos e sobrecarregados e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei comigo que sou manso e humilde de coração e achareis repouso para as vossas almas, pois é suave o meu jugo e leve o meu fardo. Mas Sua canção não era somente de consolo, também de glorificação ao Pai e à vida. Versejador incomparável, tomava da lira da natureza para dedilhar as notas delicadas dos Seus poemas. Olhai as aves do céu, que não semeiam, nem colhem, nem fazem provimentos nos celeiros e, no entanto, vosso pai celestial as sustenta. Considerai como crescem os lírios do campo. Eles não trabalham nem fiam, e contudo, nem Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como um deles. Os homens e mulheres que O seguiram aprenderam a canção e a vêm repetindo, séculos afora. Nem a noite medieval, com toda sua sombra, conseguiu obscurecer o brilho da canção. E, até hoje se repete o doce canto de Jesus, fascinando as vidas. Não somente as vidas desgraçadas e sem esperança, mas as de todos os que desejam ter vida em abundância. E os que descobrem os segredos da canção, a agasalham na acústica da alma. E a cantam também. Assim foi com os mártires que, durante três séculos, entraram nas arenas, enfrentando as feras, o açoite e o fogo entre canções de louvor. Aos ataques dos surdos, respondiam com os arpejos da musicalidade que haviam aprendido com o extraordinário Cantor. E, até hoje, os homens repetem a canção, ansiosos por voltarem a ouvi-la, dos lábios dEle, que venceu a morte, na madrugada da ressurreição. 
 * * * 
Jesus é o celeste cantor da Imortalidade. Sua voz prossegue a nos convidar para o Seu reino, que não é deste mundo, que não tem aparências exteriores, o reino dos céus. Abrandemos a saudade, permitindo-nos ouvir no palco da nossa intimidade, a sonoridade dos seus versos: Eu sou o bom pastor. Nenhuma das ovelhas que meu pai me confiou se perderá. O bom pastor dá a sua vida pelas suas ovelhas. 
Redação do Momento Espírita, com citações de Mateus, cap. XI, vv. 28 a 30; cap. VI, vv. 26, 28 e 29 e João, cap. X, vv. 11 e 14. Em 27.6.2014.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

UM CANTO DE PAZ

MARTIN LUTHER KING JR.
Foi no dia 4 de abril de 1968, na cidade de Memphis, Tennessee, que o pacifista e Prêmio Nobel da Paz de 1964, Martin Luther King Jr. foi assassinado por um desconhecido. Desejaram calar a voz. Mas os registros dos seus discursos ainda ressoam em nossos ouvidos: Não digam que sou um Prêmio Nobel. Isso não tem importância. Digam que fui o porta-voz da justiça. Digam que procurei dar amor, que procurei amar e servir a Humanidade. Seu ideal era a paz. E as palavras do seu sermão de Natal de 1967 valem hoje, para o nosso mundo cheio de guerras, violência e egoísmo. Disse ele: Se quisermos ter paz na Terra e boa vontade para com os homens, devemos afirmar, de modo pacífico, a condição sagrada de todas as vidas humanas. Todo homem é alguém, porque é um filho de Deus. Por isso, quando dizemos "não matarás", queremos dizer que a vida humana é demasiado sagrada para ser perdida nos campos de batalha deste mundo. O homem é mais do que um diminuto capricho dos eléctrons ou um pouco de fumaça de um incêndio sem fim. O homem é uma criatura de Deus e deve, por conseguinte, ser respeitado como tal. Enquanto os homens não perceberem isso, enquanto as nações não compreenderem isto, teremos guerras. Para Jesus não há nem judeus nem pagãos. Não há nem homens nem mulheres. Para Jesus não há escravos nem livres. Somos todos Seus irmãos. E, quando acreditarmos realmente no caráter sagrado da personalidade humana, não exploraremos os outros, não espezinharemos os outros com os pés ferrados da opressão, não mataremos ninguém. O amor é compreensão, boa vontade ativa para com todos os homens. E eu acho que a nossa luta em prol da justiça racial é baseada nessa espécie de amor. Não podemos jamais desistir. Não podemos nunca contemporizar na nossa determinação de remover todos os vestígios de segregação e discriminação do nosso país, mas tampouco podemos abrir mão do nosso privilégio de amar. Tenho visto muito ódio para querer odiar. O ódio é um fardo demasiado grande para se suportar. Temos de poder dizer aos nossos mais fanáticos opositores: enfrentaremos a sua força física com a nossa força moral. Façam o que quiserem, e continuaremos a amar vocês. Não podemos, em boa consciência, obedecer as suas leis injustas e acatar o seu injusto sistema, porque a não-cooperação com o mal é tanto uma obrigação moral quanto a cooperação com o bem. Mas joguem-nos numa prisão, que nós ainda os amaremos. Bombardeiem as nossas casas, ameacem os nossos filhos e, embora seja difícil, nós ainda os amaremos. Mas fiquem certos de que a nossa capacidade de sofrer triunfará, e um dia conquistaremos a nossa liberdade. Não só conquistaremos a liberdade para nós, mas apelaremos de tal maneira ao seu coração e à sua consciência, que também os conquistaremos e a nossa vitória será dupla. Se quisermos que haja paz na Terra e boa vontade para com todos os homens, teremos que acreditar na moralidade do Universo e crer que toda a realidade se baseia em alicerces morais. Cristo veio ao mundo para nos mostrar o caminho. Enquanto continuamos à espera de paz na Terra e boa vontade para com os homens, saibamos que temos companhia cósmica. 
 * * * 
Perante Deus são iguais todos os homens. Todos nascem igualmente fracos, se acham submetidos às mesmas necessidades e às mesmas leis da natureza. A nenhum homem Deus concedeu superioridade natural, nem pelo nascimento, nem pela morte. Todos, aos Seus olhos, são iguais e todos têm uma única finalidade: atingir a perfeição. 
Redação do Momento Espírita, com base no Sermão de Natal de 1967, do livro O grito da consciência, de Martin Luther King, Jr, ed. Expressão e Cultura e do item 803 de O livro dos Espíritos, de Allan Kardec, ed. Feb. Em 20.04.2011

domingo, 3 de abril de 2016

CÂNTICO DE IMORTALIDADE

LEONARDO DA VINCI
Naquele dia, algo parecia diferente. O ar estava leve. As águas mansas imitavam um leito macio. O cisne arqueou seu pescoço flexível em direção à água e mirou longamente seu reflexo. Compreendeu o motivo de seu cansaço e do frio que invadia seu corpo, fazendo-o tremer como se fosse inverno. Soube, com absoluta certeza, que sua hora era chegada, e que devia preparar-se para a morte. Suas penas ainda eram tão alvas como em seu primeiro dia de vida. As estações do ano e o tempo haviam passado sem deixar marca alguma em sua plumagem branca como a neve. Agora podia partir. Sua vida terminaria em plena beleza. Endireitando seu lindo pescoço, nadou lenta e majestosamente em direção a um salgueiro sob o qual habituara-se a descansar quando fazia calor. Anoitecia, e o pôr do sol coloria de vermelho e roxo as águas do lago. No grande silêncio que caía em torno, o cisne pôs-se a cantar. Jamais, até então, encontrara tons tão cheios de amor pela natureza, pela beleza do céu, da água e da terra. Sua doce canção atravessou os ares com um leve toque de melancolia até, finalmente, sumir, lenta, muito lentamente, com os últimos raios de luz no horizonte. “É o cisne”, disseram os peixes, os pássaros e todos os animais dos bosques e dos prados. Profundamente emocionados, disseram: “O cisne está morrendo.
” * * * 
Deveríamos aprender com o cisne. Viver a vida em abundância, produzir beleza, oferecer ao mundo o nosso melhor. Constituir família e legar aos filhos as lições da honra, da honestidade, do trabalho nobre de cada dia. Escrever um livro, uma carta, um bilhete. Algo que fale de amor, de dedicação. Semear um jardim, plantar uma árvore, cultivar um campo. Libertar alguém da ignorância das letras e dos números. Oferecer um abrigo a quem padece frio. Alimentar a quem tem fome. Ofertar um copo d´agua fresca a quem tem sede. Em suma, fazer a diferença no mundo. Se brindado com privilegiado intelecto, dele se servir para ofertar o que de melhor ele possa produzir, no campo das ciências, das letras, do progresso humano. Se agraciado com a sensibilidade para a música, encher de sons harmoniosos os espaços por onde andam os filhos de Deus, muitos deles cansados e desalentados. E, dessa forma, recompor-lhes as energias. Se dispuser da habilidade da construção, edificar o que haja de mais útil e bom para a comunidade: pontes que unam as pessoas, casas que abriguem as criaturas, hospitais, escolas, institutos de pesquisa. E, mais do que tudo, amar. Amar intensamente a natureza, os seres. Eleger amigos, afetos e com eles dividir o que tenha de melhor. Finalmente, quando descobrir que os tempos são chegados, que tudo fez e ofertou, que os anos somados lhe apontam o final da vida física, cantar. Cantar o Hino da Imortalidade e se entregar, sem medo, sem revolta. Tudo que havia a ser feito, já o foi. E como um missionário que se dá conta de que cumpriu toda sua missão, que fez além do que o dever lhe determinara, não temer a morte que se aproxima. Como o cisne, exalar o último canto nesta vida para adentrar, louvando ao Senhor, na outra vida, a espiritual. Pensemos nisso. 
Redação do Momento Espírita, com base no conto O cisne, do livro Fábulas, de Leonardo da Vinci, ed. Melhoramentos. Em 16.2.2016.

sábado, 2 de abril de 2016

CÂNTICO DE FÉ

As ruas da imensa cidade estavam movimentadas naquele entardecer. Carros, ônibus, motocicletas e pedestres lotavam as vias e a sinfonia de buzinas era quase ensurdecedora. Nesse torvelinho, um senhor bastante idoso esperava, longa e demoradamente, uma chance para fazer, com segurança, a travessia de um perigoso cruzamento. De dentro de um estabelecimento comercial próximo, um jovem percebeu que há muito o idoso aguardava sua vez, sem obter sucesso. Tomado de compaixão, o rapaz decidiu ajudá-lo a chegar do outro lado da rua. Aproximando-se do ancião, percebeu o motivo da dificuldade para a realização da travessia: além de ser idoso, ele trazia em mãos uma bengala típica de portadores de deficiência visual. De forma cuidadosa, a fim de não assustar ou constranger, o jovem aproximou-se dele e ofereceu ajuda. O senhor, sorrindo aliviado, assentiu com a cabeça e ambos atravessaram a rua, conversando alegremente sobre coisas mais diversas do dia a dia. Tomado pela curiosidade, o rapaz indagou se ele não tinha um pouco de receio ao confiar em estranhos a fim de auxiliá-lo em travessias arriscadas como aquela. 
-Meu filho, respondeu o senhor, no início eu tinha muito medo. Mas com os anos e, por conta da necessidade, fui aprendendo a confiar. Aprendendo, digo, pois confiar é um ato, antes de tudo, de caridade. 
Surpreso com a lição que acabara de receber, o jovem despediu-se do gentil senhor, que prosseguiu, sereno, sua jornada.
 * * * 
Confiar não é tarefa fácil. Tantas são as notícias de tragédias, violência gratuita, desamor, que nossa capacidade de estabelecer vínculos de confiança com o nosso próximo torna-se cada vez mais restrita. E a confiança em Deus? A busca pela fé? Por conta das dores do mundo, muitos chegam a afirmar que Deus não existe ou, se existe, nos abandonou. A fé em Deus, no outro e em nós mesmos é virtude a ser conquistada pelo espírito caminheiro do progresso. E, por assim ser, necessita de muito trabalho e esforço íntimo. Não nos permitamos esquecer de que Deus, o zeloso Criador, jamais nos abandona. Antes, permite que passemos pelo sofrimento, a fim de que a dor, esse remédio amargo, mas eficaz, possa nos curar as almas enfermas pelo orgulho e egoísmo. Não percamos a confiança no outro, mesmo sabendo que, muitas vezes, ele fará escolhas equivocadas que poderão nos ferir o coração. Que nossa fé nos faça recordar que ele é ainda imperfeito, assim como também somos. E não percamos a confiança em nós mesmos, mesmo que possamos cair, várias vezes, ao longo da jornada. Que nossa fé nos lembre de que é somente caindo que aprendemos a caminhar. 
 * * * 
Nos momentos em que as escuras nuvens da falta de fé nublarem nosso caminho, nos lembremos da poesia de Davi, o salmista: O Senhor é meu pastor e nada me faltará. Certamente que a bondade e misericórdia de Deus me seguirão por todos os dias de minha vida. E habitarei na casa do Senhor por longos dias. 
Redação do Momento Espírita, com transcrição de versos do Salmo 23, do livro bíblico Salmos. Em 5.12.2013.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

CANTANDO COM ALEGRIA

Andrea Bocelli
Quem já não se extasiou com as interpretações de Andrea Bocelli? A sua versatilidade encanta. Ele tanto interpreta magnificamente peças religiosas quanto canções de amor, de gosto bem popular. No entanto, o que chama a atenção não é somente a voz, mas o sorriso sempre presente em sua face. E, contudo, é cego. Como pode alguém, desprovido da visão, viver a sorrir? Poderemos pensar que para quem nunca teve visão, fácil será a aceitação e adaptação. Mas, Andrea, ao nascer não era cego. Veio à luz em Lajatico, cresceu na fazenda da família, a cerca de quarenta quilômetros da cidade de Pisa, na Itália. Cedo demonstrou ser portador de evidentes problemas de visão. Estudos clínicos diagnosticaram glaucoma. Como todo menino brincava, ia à escola, praticava esportes. Aos doze anos, enquanto jogava futebol, Andrea foi atingido na cabeça e perdeu definitivamente a visão. Desde a infância, ele se apaixonara pela música e sua mãe costumava dizer que a música era a única coisa que o consolava, após a perda completa da visão. Aos seis anos de idade, iniciara suas aulas de piano, depois as de flauta, saxofone, trompete, harpa, violão e bateria. Na infância, tocava órgão na igreja que se situava próxima à casa, onde ia todos os domingos com a avó. Foi também, aos doze anos de idade, que venceu o prêmio Margherita D'oro, com a canção O sole mio. Foi a primeira de muitas vitórias em competições musicais. Bocelli graduou-se em Direito, pela Universidade de Pisa, chegando a advogar durante um ano. A música, contudo, era sua paixão e a ela se dedicou em tempo integral. Nunca parou o treinamento vocal e o sucesso foi chegando. Em 1994, apresentou-se no festival de San Remo e venceu com a canção Il mare calmo della sera, o que o levou ao primeiro disco de ouro. Depois, foram apresentações em óperas, concertos, parcerias com grandes nomes da música internacional. Se Deus colocou uma flauta mágica em sua garganta, que ele bem sabe aproveitar, para espalhar alegria no mundo, jamais esqueceu de servir ao bem. Bocelli cantou em muitos eventos de caridade, no mundo inteiro, como no local dos destroços do World Trade Center, em outubro de 2001. Participou no projeto de cd para o Fundo de Ajuda para as Vítimas do Tsunami de 2004 e apresentou-se num grande concerto transmitido pela televisão na Itália, em março de 2005, chamado Música para a Ásia. Ofereceu concertos para a Fundação de Pesquisa Arpa, da qual ele é presidente honorário. Não se limitando a cantar, Andrea contribuiu para vários trabalhos escritos. Escreveu, inclusive, uma autobiografia, A música do silêncio, que foi publicada em 1999. 
 * * *
Andrea percorre o mundo e canta, com a alma, com sua alegria. Louva ao Senhor a cada dia, tornando o mundo mais musical. Colabora para a elaboração do mundo melhor que todos desejamos. O mundo que podemos auxiliar a construir, com o que temos, com o que somos. Pensemos nisso. 
Redação do Momento Espírita, com dados biográficos de Andrea Boccelli. Em 31.08.2011.
http://momento.com.br/