terça-feira, 21 de abril de 2026

O ESPORTE E A GUERRA

Marleth Silva
Cerca de cinquenta homens de cada lado. 
Homens preparados para lutar, para matar. 
Vindos de lugares diferentes. 
O que eles têm em comum é que são loucos por futebol. 
O clima deveria ser natalino, mas as circunstâncias os colocaram em campos opostos. 
O lugar onde se encontram é terra de ninguém. 
O apito soa em algum lugar. 
O que eles fazem? 
Eles se divertem com a bola improvisada. 
Chutam e brincam de marcar gols, de dar passes e de driblar.
Eles são soldados alemães, de um lado, e soldados ingleses, do outro. 
Ninguém perde, todos ganham. 
Depois de meia hora de brincadeira são convocados a voltar para as trincheiras. 
Era 25 de dezembro de 1915 e a Primeira Guerra Mundial mataria a maioria deles. 
Mas, naquela improvável confraternização de Natal, eles foram felizes. 
Quem deu a ordem para a brincadeira acabar foi o major britânico, que ordenou o retorno da tropa para a trincheira lembrando, aos gritos, que estavam lá para matar os alemães, não para fazer amizade com eles. 
Não há registros oficiais dessa partida, mas houve alguns relatos dos participantes. 
A “Trégua de 1915” está nos livros de História, não é um conto de Natal. 
Um dos soldados acabou conhecido por ter vivido muito.
Viveu para contar e fez um relato singelo daquele Natal.
Afirmou que, na noite de 24 de dezembro, ele e seus colegas ouviram canções de Natal, vindas do lado alemão e responderam cantando. 
Naquele Natal de 1915, houve diversas tréguas improvisadas e informais, ao longo das frentes de batalha. 
Porém, aquela breve partida de futebol, um futebol alegre, sem resquícios de batalha, foi inesquecível. 
* * * 
Nestes tempos em que as arenas de futebol parecem verdadeiros campos de batalha, campos de ódio e violência, vale a pena refletir sobre algumas questões: 
Será que estamos entendendo a verdadeira função dos esportes em nossa sociedade? 
Será que perdemos o espírito esportivo, quando transformamos essas atividades em simples negócios, onde não há mais espaço para diversão e confraternização? 
Será que estamos voltando às arenas para assistir massacres? 
Depois de tanto tempo? 
Será que ainda temos na alma esse prazer doentio? 
No que nos tornamos quando vestimos a camisa desse ou daquele time? 
Será que uniformes têm poder de nos transformar em primitivos novamente? 
Não podemos permitir isso. 
Não mais. 
Fomos tão cruéis durante tanto tempo e agora, que temos a chance de viver a Nova Era, a era de amor, de amizade, insistimos nesses vícios destruidores? 
Esporte é vida. 
Esporte é saúde do corpo e da alma. 
Esporte é superação íntima. 
Esporte não é destruição ou um simples instrumento para colocarmos para fora nossos animais internos. 
O prazer de reunir um grande grupo para torcer por essa ou aquela equipe, nessa ou naquela modalidade, deve estar na confraternização. 
O esporte perde seu sentido quando abandona a diversão, o lúdico. 
E mais, quando abandona a paz. 
Ele deve ser instrumento da paz, e não da guerra. 
Reflitamos sobre isso tudo. 
Eduquemos nossas crianças. 
Alteremos os costumes bárbaros ainda tão presentes nos esportes da Terra. 
Esporte é vida. 
Esporte é saúde, confraternização e veículo da paz. 
Redação do Momento Espírita com base em reportagem de Marleth Silva, do jornal Gazeta do Povo, de 15.12.2013. 
Em 21.04.2026

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