quinta-feira, 2 de abril de 2026

POSSUIR

Rachel Naomi Remen
Aquela psicóloga estabelecera um laço de amizade com o menino. 
Era comum se encontrarem para brincar com os carrinhos de corrida dele. 
Um tinha uma das rodas quebradas. 
Mesmo assim, eles viajavam com a imaginação, cada qual descrevendo o que via pelas estradas em que rodava. 
Era uma brincadeira maravilhosa. 
O garoto, no entanto, desejava muito uma coleção de carros de corrida. 
Rachel teve vontade de comprá-la, mas temia constranger os pais com essa atitude. 
Então, uma companhia de petróleo lançou uma campanha. 
A cada tanque cheio de combustível, um carrinho de corrida.
Entre amigos, Rachel fez a campanha e, rapidamente, conseguiu a coleção completa. 
Embrulhou em uma bela caixa e presenteou o garoto. 
Os carrinhos encheram todo o parapeito da janela da sala.
Curiosamente, o menino deixou de brincar com eles.
Achando aquilo estranho, Rachel quis saber o porquê. 
Então, ele não gostara daqueles carros? 
A resposta a abalou: 
-Eu não sei como gostar de tantos carros. 
* * * 
Quantos de nós temos tantas coisas que nem nos damos conta. 
E parece que, aos poucos, perdem o significado para nossas vidas. 
Por vezes, tentamos preencher nosso vazio acumulando mais e mais objetos, livros, revistas. 
De um modo peculiar, quanto mais acumulamos menos usufruímos.
Poderíamos até colocar um cartaz para nós mesmos: 
Possua tudo, usufrua nada. 
Quase sempre, não fazemos ideia de tudo o que está guardado em nossos armários, estantes e gavetas. 
Já nos aconteceu de adquirir um livro e descobrirmos, ao chegar em casa, que o tínhamos. 
Isso nos dá a ideia de quanto temos e não usufruímos. 
Em tempos de redes sociais, de whatsapp, percebemos quantas pessoas estão em nossos contatos e quase não as conhecemos? 
Algumas são amigas das nossas amigas. 
Muitas delas jamais conhecemos pessoalmente, jamais dialogamos de verdade. 
Simplesmente entramos em grupos e mais grupos. 
Alguns temos um milhão de seguidores, recebemos centenas de mensagens todos os dias. 
Mensagens que são encaminhadas e reencaminhadas.
Quantas delas foram realmente elaboradas especialmente para nós? 
Quantas, nós mesmos, elaboramos para amigos especiais?
Aqueles que fazem a grande diferença em nossas vidas, que transformam nossos dias em auroras boreais, que desenham arco-íris nas nossas mentes e iluminam as noites sem estrelas. 
Talvez devêssemos realizar um balanço de tudo que temos, do que precisamos, o que verdadeiramente desfrutamos.
Talvez devamos diminuir a quantidade de itens que temos distribuídos em tantos lugares da casa, do escritório. 
Quem sabe diminuir o número de grupos e estabelecermos relações mais autênticas. 
Talvez devamos nos permitir receber menos vídeos e mensagens e realmente aproveitar o que nos chega, como algo que possa edificar as nossas horas, alimentar-nos com nobreza. 
Talvez devamos nos ater àquilo que tenhamos tempo para usufruir. 
O livro para ler, o vídeo para assistir, a mensagem para reflexionar. 
Uma agenda com contatos de pessoas que amemos e que nos amem. 
Porque, em essência, isso faz a grande diferença em nossas vidas. Pensemos nisso. 
Redação do Momento Espírita, com base na pt. 1, cap. Possuir, do livro As bênçãos do meu avô, de Rachel Naomi Remen, ed. Sextante. 
Em 02.04.2026

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