sexta-feira, 2 de outubro de 2026

ACOLHENDO NOSSAS EMOÇÕES

Beatrice Alemagna
Há dias em que perdemos o controle das nossas emoções.
Num instante de frustração, num acesso de fúria diante dos desafios do cotidiano, tomamos atitudes impulsivas que nos custam a paz. 
A literatura contemporânea nos presenteia com uma história belíssima e profunda, que ilustra exatamente essa nossa condição humana. 
Ela nos apresenta o pequeno Yuki, que, num dia comum, dominado pela raiva descontrolada, faz algo impensado: joga a própria chave de casa diretamente no ralo do esgoto. 
Assim que a chave desaparece na escuridão, o fogo da ira se apaga, dando lugar a um sentimento frio e pesado: a culpa.
Sem a chave, ele não tem como voltar para o seu refúgio, para a sua casa. 
Quantas vezes nós mesmos fazemos exatamente isso?
Dominados pela impaciência, atiramos pelo ralo as chaves da nossa tranquilidade doméstica e ferimos aqueles que mais amamos. 
Mas o jovem Yuki toma uma atitude corajosa. 
Percebendo o erro, ele decide descer pela escada do ralo para encarar as profundezas e recuperar o que perdeu. 
E é aqui que a história toma um rumo poético e revelador para todos nós. 
Ao chegar ao subsolo, ele não encontra um lugar feio, assustador ou cheio de monstros, como se poderia imaginar.
Ele encontra o país do lodo, um reino subterrâneo denso, feito de terra, raízes e antigas memórias.
Ele é recebido pela guardiã daquele mundo: a princesa lamacenta, uma figura monumental, feita inteiramente de lama, mas profundamente acolhedora. 
Em vez de dar uma bronca ou punir o garoto pelo seu ato de fúria, ela o recebe com imensa empatia e ternura. 
Ela lhe explica que a lama, que representa as nossas emoções confusas e difíceis, faz parte de todo ser humano.
Com doçura, ela se oferece para guiá-lo naquela jornada pelo subsolo misterioso, ajudando-o a encontrar a chave perdida.
Que lição magnífica para aqueles que somos tão duros conosco mesmos. 
Eis aqui um convite certeiro para o autoconhecimento.
Quando descemos aos nossos próprios porões psíquicos, logo após um erro, costumamos nos condenar com extrema severidade, nos culpamos e nos maltratamos como se fôssemos seres imperdoáveis. 
No entanto, o que precisamos encontrar lá no fundo da nossa alma é a nossa princesa lamacenta, ou seja, o nosso próprio olhar de autocompaixão e entendimento. 
Precisamos compreender que a nossa lama interior – nossos medos, nossas inseguranças e nossas revoltas – é composta da terra das nossas experiências e das raízes do nosso passado milenar. 
Como nos ensina a Espiritualidade maior, não fomos criados perfeitos. 
Estamos em plena construção da nossa consciência imortal, aprendendo através das próprias quedas. 
Assim, quando tropeçarmos nas nossas emoções e perdermos a chave da nossa paz, não nos desesperemos, nem nos castiguemos com crueldade. 
Desçamos corajosamente aos nossos sentimentos.
Encaremos a nossa lama com a luz da empatia e do perdão para conosco mesmo. 
Acolhamos nossas emoções difíceis, aprendamos com elas, resgatemos a chave da nossa renovação íntima e, serenamente, voltemos para casa. 
Voltemos para o aconchego do nosso coração. 
Redação do Momento Espírita com base no livro Sua Alteza Lamacenta, princesa no país do lodo, de Beatrice Alemagna, ed. WMF Martins Fontes. 
Em 02.10.2026

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

ELA MERECE MAIS

Nico Williams e sua mãe
Nico Williams, um dos destaques da seleção espanhola – campeã do mundo de futebol de 2026 –, prestou uma bela homenagem à mãe logo após ser consagrado.
No instante mais glorioso da carreira, ele retirou a medalha de ouro do peito, caminhou até a arquibancada, e entregou à sua mãe dizendo: 
-Eu corro rápido, mas não tão rápido quanto a minha mãe. Ela escapou da morte e atravessou o Saara, de Gana à Espanha. 
Dei a medalha a ela porque ela merece mais.
Antes de os filhos nascerem, Maria e o marido deixaram Gana, na África Ocidental, em busca de uma vida melhor. 
Eles cruzaram o deserto do Saara enfrentando calor extremo, fome, medo e muitas dificuldades. 
Ela estava grávida durante parte da jornada. 
Chegando à cidade de Melila, conseguiram asilo e reconstruíram a vida em terra espanhola. 
Agora, o menino que cresceu graças ao sacrifício dos pais conquistou o maior dos títulos do futebol mundial, e fez questão de reconhecer o mérito dos que vieram antes. 
* * * 
Será que já tivemos chance de fazer o mesmo? diante das nossas conquistas, das vitórias, das fases importantes da vida que foram vencidas, reconhecemos o papel dos que vieram antes de nós? 
Às vezes são os pais. 
Às vezes é uma avó, um avô, uma tia, uma professora.
Aquela pessoa que, em momentos-chave da vida, atuou para que nós pudéssemos construir nossa história com segurança.
Será que agradecemos? 
Será que reconhecemos o papel dessas pessoas? 
Papéis apagados, parecendo quase sem importância. 
Mas persistentes e lutadores. 
Por vezes, pessoas simples, que se doaram ao extremo para que nós pudéssemos existir. 
Em outros casos, almas esclarecidas que nos ofereceram lições de vida ou que nos salvaram de problemas graves.
Reconhecer que devemos nossas conquistas também ao trabalho dos que vieram antes não nos faz menores, não nos faz perder parte do mérito. 
Ao contrário, isso mostra que amadurecemos, que sabemos ser grandes. 
Esta é uma das razões de encontrarmos o honrar pai e mãe entre os ensinos mais importantes e antigos da humanidade, no Decálogo. 
Nesse honrar está inserido o reconhecimento aos que nos abriram os caminhos da encarnação. 
Também aos que se sacrificaram para que tivéssemos melhores dias. 
Dessa forma, diante de qualquer conquista, diante de toda felicidade, lembremos de correr para a arquibancada da vida e prestar a devida homenagem aos que nos foram importantes.
E continuam sendo. 
Não os deixemos relegados ao esquecimento, simplesmente pelo fato de que não dependemos mais deles. 
Façamos questão de tê-los perto do coração. 
A gratidão é uma alegria dividida. Ser grato não é se sentir na obrigação de devolver alguma coisa, mas sim de dividir. 
Nada fará essas pessoas mais felizes do que poder fazer parte desses momentos conosco. 
Elas entenderão o quanto valeu a pena.
Entenderão o quanto o amor que ofereceram em sacrifício é grandioso. 
Assim, quando estivermos em nossos bons dias, correndo muito, ganhando medalhas, lembremos que, para que isso acontecesse, alguém correu antes. 
E muito mais... 
Redação do Momento Espírita com base em reportagem do portal Só Notícia Boa, de 19.7.2026. 
Em 01º.10.2026