sábado, 7 de março de 2026

A HORA DA MORTE

Michael Tan
Das certezas que podemos ter, neste mundo, a morte é sem dúvida uma delas. 
Nenhum ser vivo pode se furtar a ela. 
Mensageira estranha, por vezes, abraça os mais jovens e os sadios, deixando para trás idosos e doentes. Contudo, sempre chega. 
Paradoxalmente, é um dos assuntos que quase todos evitamos tocar. 
Por isso mesmo, quando chega, surpreende e muitas lágrimas são derramadas. 
Lágrimas que se casam a exclamações como: Se eu soubesse que era o seu último dia! 
-Se eu soubesse que ele iria morrer, não teria sido tão mau! Se eu soubesse que ele partiria tão cedo, teria abraçado mais, dito como o amava, sido melhor para ele. 
É bom considerarmos que nossa existência é efêmera. 
Hoje estamos aqui, amanhã poderemos não nos encontrar mais deste lado da vida. 
O ser amado que se despede para o trabalho diário pode não retornar. 
A criança que corre pela rua, rumo à escola, pode não voltar para casa. 
Como a irmã daquele menino de dez anos. 
Ele entrou em casa e chamou pela mãe. 
Ela estava no quarto, sentada, quieta. 
-Sua irmã morreu esta manhã. – Foi o que ela disse. 
O conceito de morte não tinha um significado concreto para aquele garotinho. 
Durante muito tempo ele perguntava para a mãe: Ela vai voltar? 
Por que ela teve de morrer? 
Por muitos dias, ficava em frente à casa, esperando que o ônibus escolar a trouxesse de volta. 
Entrava no quarto dela e apanhava a sua pasta escolar. 
Tudo estava bem arrumado: os cadernos de um lado, os livros do outro, o estojo de lápis no meio.
A faixa preta de elástico que ela usava nos cabelos quando fora para o colégio naquela última manhã. 
Depois, devolvia tudo no seu lugar. 
Perguntava-se se a irmã ficaria zangada por ele ter mexido em suas coisas. 
O que ele sempre lembraria foi o que acontecera duas noites antes de a irmã morrer. 
Ela chegara em casa preocupada. 
Esquecera de um trabalho de arte que devia entregar no dia seguinte. 
Ele se dispôs a ajudá-la. 
Juntos fizeram doze borboletas coloridas, de antenas enroladas e asas triangulares. 
No dia em que ela morreu, ele estranhamente despertara mais cedo. 
Observou-a se aprontando para a escola e ficou segurando a porta aberta para que ela saísse com tranquilidade. 
Em uma das mãos, ela segurava a pasta, a outra balançava, enquanto descia os degraus. 
Estava de uniforme azul.
Tinha só quatorze anos.
E suas últimas palavras para Michael foram: 
-Até logo, irmão. 
Passadas mais de quatro décadas, Michael ainda guardava a lembrança de sua irmã e de todos esses detalhes. 
Quando vê uma borboleta, recorda de imediato daquele último trabalho que fizeram juntos. 
E espera. 
Porque, um dia, ele também fará essa viagem para o Grande Além. 
Nesse dia, finalmente, ele a verá outra vez. 
* * * 
Amemos muito. 
Usufruamos a companhia dos afetos. 
Quando um deles se for, poderemos acalentar nossos dias com as doces lembranças dos afagos compartilhados. 
E isso amenizará nossa grande saudade até o dia do reencontro. 
Redação do Momento Espírita, com base no artigo A despedida, de Michael Tan, da revista Seleções Reader´s Digest, de out/2005.
Em 07.03.2026

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