sábado, 22 de março de 2025

MELINDRE OU AGRESSIVIDADE?

André Marcílio Carvalho de Azevedo
Melindre tem várias definições. 
Pode ser definido como amabilidade, delicadeza no trato, recato, pudor. 
No entanto, é quase certo que ao ser utilizado pelas pessoas, o conceito que expressa é de facilidade de se magoar, de se ofender, suscetibilidade. 
Nesse sentido, tem sido comum a sua invocação, nas relações humanas. 
As menores atitudes de um funcionário, de um amigo recebem a adjetivação imediata. 
Por isso, amizades se diluem, desentendimentos acontecem, duplicando mágoas de um e de outro lado. 
Nas várias facetas do trabalho voluntário, melindre tem sido utilizado para justificar defecções, traições, desajustes e quebra moral de contratos de voluntariado. 
Que ele existe, é verdade. 
Mas que as pessoas se dão, por vezes, um valor maior do que verdadeiramente possuem e aguardam tratamento especial, também é verdade. 
No entanto, um outro lado da questão se apresenta e tem sido esquecido, quase sempre. 
Se melindre é a manifestação do orgulho ferido, não menos verdade que medra, entre as criaturas, muita falta de tato, delicadeza e gentileza. 
Em nome de uma falsa caridade, de expressar a verdade, amigos e companheiros de trabalho se permitem lançar ao rosto do outro tudo que pensam. 
E não medem palavras nas suas expressões. 
É como se tomassem de pedras e as jogassem, sem piedade. 
E o que esperam é que o outro aceite tudo. 
Quando o agredido se insurge, quando toma uma atitude, quando fala de respeito, é tomado como aquele que se melindra. 
Contudo, em nenhum momento o agressor, aquele que foi indelicado e feroz, se desculpa. 
Não, ele está certo. 
O outro é que é portador de muito orgulho. 
Nesse diapasão, vidas honradas de trabalho têm sido literalmente jogadas no lixo. 
Servidores de anos têm tido seus esforços depreciados, como se fossem coisa alguma. 
E o que critica maldosamente, o que aponta os erros mínimos é o herói, a pessoa correta. 
Refaçamos os passos enquanto é tempo. 
Antes de destruirmos valores afetivos preciosos. 
Antes de atacarmos instituições centenárias com folha irrepreensível de dedicação e serviço à comunidade. 
Examinemos quantas vezes a culpa nos compete. 
Quantas vezes teremos sido nós os provocadores do afastamento de pessoas de nosso convívio. 
Ou da instituição a que prestamos serviço. 
Da nossa família, da nossa esfera de amizades. 
Recordamos que, certa vez, em reunião de trabalho, um voluntário interrompeu de forma agressiva a fala do coordenador. 
Reclamou e reclamou, ferindo e humilhando-o frente aos demais. 
O ferido se calou, dolorido. 
Depois de alguns dias, procurou o agressor em particular. 
A sós com ele, expressou a sua mágoa, com o sincero objetivo de modificar a emoção ferida e apaziguar seu mundo íntimo. 
O interlocutor, em vez de reconhecer a indelicadeza, reverteu a situação e deu o diagnóstico impiedoso: não houvera agressão de sua parte. 
O outro é que se melindrara. 
Pensemos nisso. 
Será que a constatação quase diária de melindre nos outros não se tornou uma válvula de escape para nós? 
Uma desculpa para a nossa rispidez cotidiana, o nosso relaxamento no trato com o semelhante? 
* * * 
Quem se melindra, deve trabalhar para se tornar menos suscetível.
Mas quem provoca o melindre não pode se esquecer da lei de caridade, da afabilidade e da doçura preconizados por Jesus: 
-Bem-aventurados os mansos e pacíficos. 
Redação do Momento Espírita com base em fato narrado no artigo O problema do melindre, de André Marcílio Carvalho de Azevedo, da Revista Presença Espírita nº 261, ed. Leal.

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