sexta-feira, 15 de maio de 2026

VERBO TRANSITIVO DIRETO

SANDRA BORBA PEREIRA
Ele procurara o psiquiatra porque precisava tomar uma decisão. 
Precisava de quem lhe dissesse que estava certo no que pretendia fazer. 
 O que ele sabia com certeza: era tremendamente infeliz. 
E a primeira frase que saiu de sua boca foi: 
-Doutor, eu não amo mais a minha esposa. Quero me separar. O que o senhor me diz? 
O médico, experiente e calmo, respondeu: 
-Ame a sua esposa. 
O paciente pensou que não se expressara de forma conveniente. 
Ou talvez se tratasse mesmo de um problema de audição.
Diga-se, sempre pensamos assim quando o outro responde de maneira diversa daquela que esperávamos. 
Então repetiu, dessa vez, frisando as palavras: 
-Doutor, preste atenção. Eu estou lhe dizendo que eu não amo mais a minha mulher. Acabou o amor, eu quero me separar. O que o senhor me diz? 
O médico reprisou a mesma frase: 
-Ame a sua esposa. 
-Doutor, estou dizendo ao senhor que eu não amo mais a minha esposa. Perdi todo aquele encantamento. Estou dizendo que eu não a amo. Eu perdi aquele frisson, aquele elã, aquela coisa. 
O médico olhou para ele e esclareceu: 
-O problema do senhor é que o senhor está com a cabeça em Hollywood. 
-Como assim? – Quase gritou o homem ansioso por quem lhe referendasse a decisão. 
-O senhor está querendo o amor cinematográfico. Está querendo aquele amor com cara de adolescente. O que o senhor está querendo é ter aquelas emoções próprias da adolescência, da juventude. Amor é sentimento. Mas amar é verbo e verbo transitivo direto, ou seja, exige ação.
***
Somente descobrimos o amor quando amamos. 
O amor necessita de uma ação. 
É preciso sair daquela preguiça na qual vivemos para buscar o amor. 
Porque o amor se resume em amar.
Então, é preciso sair de nós mesmos, de nossa zona de conforto, para amar. 
O amor resume-se ao exercício de amar. 
Começamos amando, amando e aí ele vai aparecendo.
Estamos falando do exercício que é necessário para que esse sentimento de fato ecloda em nossa intimidade e crie raízes de profundidade. 
É necessário buscar essa construção, que é o exercício de amar. 
A pequena planta necessita de água, ar, luz e calor para viver.
O amor precisa de emoção e de alegria. 
Tem que ser regado, alimentado todo dia. 
E o detalhe importante é nos apaixonarmos pelo menos uma vez por semana. 
Como se cada semana fosse um novo capítulo de um livro que não queremos parar de ler. 
Cada dia, darmo-nos conta de que, mesmo convivendo tanto, ainda existe um universo no outro, um universo a ser explorado. 
Ficarmos atentos a detalhes. 
Algo especial que somente o ser amado tem, como aquele jeito de mexer no cabelo, o sorriso fácil que brota gentil a cada reencontro, mesmo que o período seja curto, da saída pela manhã ao retorno no cair da tarde. 
Estarmos sempre prontos para mudar os planos do cotidiano para fazer algo diferente, saindo da trilha batida e criando uma memória fresquinha e vibrante. 
Selarmos o compromisso, cada semana, de nunca deixar o nós virar paisagem, porque, afinal, amar é verbo transitivo direto. 
Quem ama, ama alguém. 
Redação do Momento Espírita, com base na palestra A lei de amor. Porque o amor tudo supera, de Sandra Borba Pereira, proferida na 6ª Conferência Estadual Espírita, em 24.4.2004, no Palácio de Cristal, Círculo Militar do Paraná, em Curitiba/PR. 
Em 15.05.2026

Nenhum comentário:

Postar um comentário