segunda-feira, 29 de junho de 2026

NO SILÊNCIO DA NOITE

Dizem que nosso coração é nosso verdadeiro mastro. 
A alma é a bússola que aponta, invariavelmente, para o solo onde o primeiro sopro de vida nos acalentou. 
O que ocorre quando o destino, em suas tramas, por vezes incompreensíveis, nos afasta desse porto? 
O que sente aquele que, amando as entranhas de sua terra, vê-se obrigado a contemplar estrelas estrangeiras? 
Para o patriota, para aquele que traz nas veias o barro de sua cidade e no olhar os matizes de seu horizonte, ser exilado é viver em um eterno entardecer.
É caminhar por ruas que não conhecem o seu nome e ouvir uma língua que, embora bela, jamais terá a melodia do acalanto materno. 
O exilado é um ser partido. 
Não pertence totalmente ao chão que o acolhe, pois suas raízes clamam por outra seiva. 
E já não pertence fisicamente ao solo amado, tornando-se nele uma fotografia que desbota na parede da saudade. 
Ser exilado é sentir o frio de um inverno que não é seu, buscando o calor de um sol que brilha do outro lado do oceano. 
A dor do patriota exilado assemelha-se à do pássaro que, em gaiola de ouro, recusa-se a cantar, pois a beleza do palácio não substitui o frescor da mata. 
Porém, se a pátria é o berço das primeiras lições, o amor por ela é um vínculo que as águas de nenhum mar conseguem dissolver. 
O verdadeiro patriota leva sua terra dentro de si. 
Ele a reconstrói a cada pensamento, a cada prece, a cada lágrima vertida em silêncio. 
Ele planta as flores de seu jardim distante nos vasos de sua nova morada. 
Ele conta as histórias de seu povo para que o vento as leve de volta ao lar. 
Ele entende, com a maturidade que a dor confere, que nenhum homem é um estrangeiro no Universo de Deus, mas que o coração sempre terá um endereço sagrado, um ponto de luz que chama pelo nome. 
Entretanto, embora o corpo sofra a privação do solo, o Espírito, alado e livre, faz a travessia todas as noites, em sonhos, para repousar sob a sombra daquelas mangueiras, daqueles pinheiros ou daquelas palmeiras onde a vida, um dia, sorriu plena e absoluta. 
Por isso, chorou em versos o poeta que Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores, Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida mais amores. 
* * * 
Todos somos exilados na Terra, temporariamente, egressos de um mundo que é nosso início e nosso fim. 
O mundo espiritual é o verdadeiro mundo, normal, primitivo, e preexistente ao corporal. 
É nossa pátria original, onde existimos antes da vida material.
Por isso, muitas vezes, a melancolia nos abraça sem que possamos entender a causa.
Sentimos saudades de onde estivemos, de onde saímos para entrar na carne. 
Sentimos saudades dos amores que não puderam nos acompanhar. 
Por isso mesmo, a bondade divina permite-nos, a cada noite de sono, nos desprender do corpo e transitar por onde estivemos antes, revendo quadros de felicidade e abraçando amores. 
Alguns momentos, cada noite, para alimentarmos o coração com as lembranças de delicados reencontros.
Deus não é mesmo extraordinário? 
Redação do Momento Espírita, com base nas questões 84 e 85 de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, ed. FEB. 
Em 29.06.2026

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