domingo, 11 de outubro de 2020

FAZENDO A DIFERENÇA

Chen Si
Em 1968, foi inaugurada a histórica ponte do rio Yangtzé, na cidade de Nanquim, na China. 
Desde então, mais de mil pessoas já pularam dos seus cem metros de altura, diretamente para a morte. 
Depois que leu, na imprensa, reportagens sobre o suicídio, que constitui, naquele país, a principal causa de morte de pessoas entre quinze e trinta e quatro anos, Chen Si tomou uma atitude. 
Todos os finais de semana, há um ano, ele deixa o seu modesto apartamento, onde vive com sua mulher e uma filha pequena, e parte para a ponte. Costuma chegar cedo, por volta de 7h30. 
Leva consigo uma garrafa térmica de chá. Usando boné e óculos escuros para escapar do sol escaldante, ele se transformou no anjo da guarda da ponte. 
Fica observando atento o vai-e-vem de transeuntes para reconhecer os suicidas potenciais. Segundo ele, são pessoas que caminham de maneira desanimada. 
No lado da ponte em que fica, Chen distribui folhetos com o número de seu celular, uma espécie de linha de emergência. Nesse trabalho, já salvou quarenta e duas pessoas. 
Entrevistado pelo New York Times, em matéria que foi reproduzida no Brasil, na Folha de São Paulo, ele diz: 
-Temos que ensinar as pessoas a amar a vida, a vê-la como o dom mais precioso. 
Conta que ficou chocado quando leu sobre uma multidão, em outra cidade chinesa, que gritava insultos para um migrante desesperado, quando ele subiu no topo de um outdoor para se matar. 
Ao que tudo indica Chen é o primeiro voluntário a fazer esse tipo de trabalho na China, que ainda não possui um plano nacional de combate ao suicídio. 
Nos últimos meses, estudantes universitários, estimulados pelo seu exemplo, decidiram ajudar na tarefa. Agora, são vários os que se revezam na ponte, servindo de anjos da guarda aos potenciais suicidas. Além dos universitários, Chen conta ainda com o auxílio de algumas das pessoas que ele convenceu a não saltar da ponte. 
Chen não é rico, nem desocupado. Com trinta anos (data da reportagem), ele ganha a vida vendendo pequenos painéis publicitários. 
É alguém que é humano e se importa com o seu semelhante. 
Por isso, decidiu tomar providências por si mesmo, sem esperar autoridades governamentais ou grupos religiosos. 
Se todos pensássemos e agíssemos como esse chinês, o mundo já estaria bem melhor do que se encontra. 
* * * 
Sê sempre tu o que toma a iniciativa do bem. 
Não esperes por deliberações de estâncias superiores, nem delegues a outros, aquilo mesmo que te compete fazer. 
Ante a dor que se manifesta, providencia o socorro, o remédio, a enfermagem, o que possas. 
Ante o desespero que se apresenta, oferta o ombro amigo, a mão fraterna, a presença. 
E então, descobrirás como se felicita o coração de quem age, fazendo a diferença para o seu semelhante. 
Redação do Momento Espírita, com base em matéria do jornal Folha de São Paulo de 25.09.2004. 
Em 28.11.2011.

sábado, 10 de outubro de 2020

FAZ DE CONTA

Recentemente uma professora, que veio da Polônia para o Brasil ainda muito jovem, proferia uma palestra e, com muita lucidez, trazia pontos importantes para reflexão dos ouvintes. 
-Já vivi o bastante para presenciar três períodos distintos no comportamento das pessoas, dizia ela. O primeiro momento eu vivi na infância, quando aprendi de meus pais que era preciso ser. Ser honesta, ser educada, ser digna, ser respeitosa, ser amiga, ser leal. Algumas décadas mais tarde, fui testemunha da fase do ter. Era preciso ter. Ter boa aparência, ter dinheiro, ter status, ter coisas, ter e ter... Na atualidade, estou presenciando a fase do faz de conta. 
Analisando este ponto de vista, chegaremos à conclusão que a professora tem razão. 
Hoje, as pessoas fazem de conta e está tudo bem. 
Pais fazem de conta que educam, professores fazem de conta que ensinam, alunos fazem de conta que aprendem. 
Profissionais fazem de conta que são competentes, governantes fazem de conta que se preocupam com o povo e o povo faz de conta que acredita.
Pessoas fazem de conta que são honestas, líderes religiosos se passam por representantes de Deus e fiéis fazem de conta que têm fé. 
Doentes fazem de conta que têm saúde, criminosos fazem de conta que são dignos e a justiça faz de conta que é imparcial. 
Traficantes se passam por cidadãos de bem e consumidores de drogas fazem de conta que não contribuem com esse mercado do crime. 
Pais fazem de conta que não sabem que seus filhos usam drogas, que se prostituem, que estão se matando aos poucos e os filhos fazem de conta que não sabem que os pais sabem. 
Corruptos se fazem passar por idealistas e terroristas fazem de conta que são justiceiros... 
E a maioria da população faz de conta que está tudo bem... 
* * * 
Mas uma coisa é certa: não podemos fazer de conta quando nos olhamos no espelho da própria consciência. 
Podemos até arranjar desculpas para explicar nosso faz de conta, mas não justificamos. 
Importante salientar, todavia, que essa representação no dia-a-dia, esse faz de conta causa prejuízos para aqueles que lançam mão desse tipo de comportamento. 
A pessoa que age assim termina confundindo a si mesma e caindo num vazio, pois nem ela mesma sabe quem é, de fato, e acaba se traindo em algum momento. 
E isso é extremamente cansativo e desgastante. 
Raras pessoas são realmente autênticas. 
Por isso elas se destacam nos ambientes em que se movimentam. 
São aquelas que não representam, apenas são o que são, sem fazer de conta. 
São profissionais éticos e competentes, amigos leais, pais zelosos na educação dos filhos, políticos honestos, religiosos fiéis aos ensinos que ministram. 
São, enfim, pessoas especiais, descomplicadas, de atitudes simples, mas coerentes e, acima de tudo, fiéis consigo mesmas. 
* * * 
A pessoa que vive de aparências ou finge ser quem não é corre sérios riscos de entrar em depressão. 
Isso é perfeitamente compreensível, graças à batalha que trava consigo mesma e o desgaste para manter uma realidade falsa. 
Se é fácil enganar os outros, é impossível enganar a própria consciência.
Por todas essas razões, vale a pena ser quem se é, ainda que isso não agrade aos outros. 
Afinal, não é aos outros que prestaremos contas das nossas ações e sim a Deus e à nossa consciência. 
Redação do Momento Espírita. Disponível no livro Momento Espírita,v.5, ed. Fep. 
Em 25.06.2012.

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

OREMOS SEMPRE

AMÁLIA RODRIGUES
A oração pode ser considerada como um grito pedindo auxílio, um canto de gratidão, um ato de louvor, um poema de amor, dirigidos a Deus. 
De um modo geral, pensamos que para orar precisamos assumir uma determinada postura, nos distanciar de tudo que acontece ao nosso redor. Isso também. No entanto, a oração pode ser uma constante em nossas horas. 
Quando abrimos a janela e cumprimentamos o dia que surge, radioso, anunciando sol, calor, quem de nós não extravasa a alma, dizendo: 
-Que dia maravilhoso! 
Quantas vezes, admirados pela beleza das flores que, no jardim, disputam perfume, cor e encanto, exclamamos: 
-Meu Deus, que maravilha! 
São preces espontâneas que brotam do nosso coração. 
Quando, depois de longa estiagem, as nuvens se avolumam e trazem a chuva generosa, junto com o clamor da terra, que sorve a água, com sofreguidão, dizemos: 
-Graças a Deus! 
São orações formuladas de forma espontânea. 
Clamores da alma que alcançam as alturas. 
Quando nos empenhamos em atender o necessitado, em socorrer o caído, em oferecer nossos ouvidos para as lamentações de quem sofre, estamos orando. Porque orar não é somente exteriorizar pensamentos pelos lábios. 
É também agir em nome do amor. 
Amparar o animal abandonado, providenciar alimento às aves que visitam nosso jardim. 
E quando cantamos, dizendo da alegria de viver, estamos igualmente orando. A música tem o condão mágico de exteriorizar os mais excelsos sentimentos. Por isso, quando alguém canta versos que exaltam a Criação, a Divindade, está orando. Enquanto canta, os que ouvimos, nos associamos à sua prece. Algumas canções são de extrema sensibilidade e mais do que outras, nos elevam a alma, como a que diz: 
-Foi Deus que deu luz aos olhos, perfumou as rosas, deu ouro ao sol e prata ao luar. 
Foi Deus que me pôs no peito um rosário de penas, que vou desfiando e choro a cantar. 
Pôs as estrelas no céu e fez o espaço sem fim. 
Deu o luto às andorinhas e deu-me esta voz a mim. 
Se canto, não sei o que canto, misto de ventura, saudade, ternura. 
Talvez amor. 
Mas sei que cantando sinto o mesmo quando se tem um desgosto e o pranto no rosto; nos deixa melhor. 
Foi Deus que deu voz ao vento, luz ao firmamento e deu o azul às ondas do mar. 
Fez poeta o rouxinol, pôs no campo o alecrim, deu as flores à primavera. 
E deu-me esta voz a mim. 
* * *
DIVALDO PEREIRA FRANCO
É uma oração de louvor, reconhecimento ao Criador, e profunda gratidão. Enquanto a melodia e os versos nos envolvem, oramos juntos. Se repetimos a canção, vamos espalhando essas vibrações pelo mundo. E, a cada vez, elas alcançarão outros corações e se elevarão aos céus. 
Sim, há muitas formas de orar. Quando somos filhos gratos pela vida que temos, neste planeta, pelos amigos, pela família, pelo lar, ou por coisa alguma, oramos sempre. A oração é o canal desimpedido para falar com Deus e ouvi-lO. Nunca será demasiado, no cotidiano de todos nós, orarmos para nos inspirarmos, a fim de agir bem. 
Para agradecer as bênçãos recebidas. 
Por amor, louvando o Excelso Criador. 
Isso equivale a orarmos sempre que possível e mesmo quando as circunstâncias conspirarem contra. 
Oremos. 
Redação do Momento Espírita, com reprodução de versos da música Foi Deus, interpretada por Amália Rodrigues e frases do cap. 24, do livro Sob a proteção de Deus, por Espíritos diversos, psicografia de Divaldo Pereira Franco, ed. LEAL. 
Em 9.10.2020.

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

FAVORES

ARISTÓTELES
-O homem ideal - afirmou Aristóteles - sente alegria em fazer favores aos outros. 
O que está por trás de um favor? 
Talvez tenhamos, como sociedade ansiosa e inquieta que nos tornamos, atribuído um valor insignificante a ele. 
Por isso, cabe refletir com mais tempo sobre o tema. 
Por trás de um favor, seja ele pequeno ou grande – como se diz - há um movimento fundamental: a doação. 
Doação que começa pela atenção, passa pelo tempo despendido e, por vezes, chega a conteúdos maiores ainda. 
Toda vez que prestamos um favor a alguém estamos, de certa forma, dizendo que naquele momento, o da ação em prol do outro, ele é mais importante do que nós. Deixei de fazer o que estava fazendo pelo outro. Dividi meu tempo com o outro. Sacrifiquei-me, de alguma forma, pela outra pessoa. 
Esta postura é das mais nobres que existe pois constitui a essência da caridade. 
Obviamente estamos considerando aqui o favor desinteressado, realizado pelo prazer de ajudar, de contribuir com a felicidade do outro. 
Qualquer outra modalidade de favor passa a perder a essência desta ação benévola e podemos chamar de algum outro nome que não este, obedecendo à linha de razão de nossa breve análise. 
Um outro detalhe que vale a pena ser analisado, no mundo dos favores, é a recompensa íntima imediata que nos trazem. Há um sentimento - que na maioria das vezes passa rapidamente pelo nosso coração – de prazer, de alegria. É a alegria do chamado homem ideal de Aristóteles, que percebe sua consciência identificando uma ação no bem. 
O que acontece nesses momentos – ainda breves na vida da maioria de nós – é uma celebração da consciência, bem lá onde estão escritas as Leis de Deus. 
Ela percebe a Lei do amor sendo vivenciada com beleza e envia-nos o sentimento de satisfação, de alegria, de prazer. 
Não há quem não se sinta bem fazendo o bem. E nos favores existe o bem sendo praticado em diversas nuances distintas. Cada um tem seus deveres, responsabilidades e precisa dar conta deles, é certo. 
Mas, porque não posso, em alguns momentos, ajudar o outro a conseguir cumprir suas tarefas? 
O sacrifício que iremos fazer – quando houver realmente sacrifício – é muito pequeno, perto da alegria de ter sido útil na vida de alguém. 
Não façamos pela recompensa. 
Não façamos pelo reconhecimento. 
Façamos pelo prazer de ajudar. 
Perceberemos que a vida nos retribui constantemente os favores que prestamos, pois quando estamos a fazer algo por alguém, de coração, sem segundas intenções, uma aura de paz nos envolve e nos protege. Naquele instante somos como que missionários do amor na Terra. 
Somos soldados da paz, modificando o mundo, espargindo o bem pelos cantos. 
Da próxima vez que você ouvir as palavras: 
-Você me faz um favor? - pense bem antes de negar. 
Veja em cada pedido desses uma oportunidade de ser mais feliz. 
Redação do Momento Espírita. Disponível no livro Momento Espírita, v. 10, ed. FEP. 
Em 31.10.2016.

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

PESSOAS DE UM MUNDO NOVO


Por vezes, acreditamos que ainda estamos infinitamente distantes da tão anunciada Nova Era. 
Alastra-se a dor pela Terra. 
Hospitais em quase colapso pelo número expressivo de infectados, equipe médica num combate que parece desigual contra o vírus ameaçador. 
E enquanto a morte realiza sua ceifa diária, notícias nos estarrecem e fazem temer por nós mesmos. 
As imagens da explosão, na zona portuária de Beirute, no início do mês de agosto, que provocou a onda de ar que destruiu prédios e janelas em um raio de cinco quilômetros e pôde ser ouvida a duzentos e quarenta quilômetros de distância, na ilha de Chipre, correram o mundo. 
A destruição de prédios, o elevado número de mortos, feridos, desabrigados foi de estarrecer. 
Acompanhando as imagens televisivas da destruição, o trabalho das equipes de resgate, ficamos imaginando:
-E se fôssemos nós, os atingidos por essa tragédia, o que faríamos?
Teríamos força para nos erguer, agradecer a Deus por nos manter a vida, embora estejamos sem casa, sem roupas, sem amigos e parentes que se foram, arrebatados pela morte? 
Teríamos disposição para orar? 
Para nos oferecermos a auxiliar outros, em piores condições que as nossas? 
Imagens que nos chegam atestam a fortaleza moral de alguns sobreviventes. 
A senhora Hoda Melki, por exemplo, registrou em vídeo e postou as imagens de sua mãe, de cabelos brancos, sentada ao piano, tocando uma delicada melodia. Uma melodia que traduz serenidade, transmite tranquilidade. Tudo em meio aos enormes danos causados em seu apartamento, onde se veem vidros e móveis destruídos pela mega-explosão. 
Quem poderia imaginar serenidade em meio a tanto caos? 
São almas que nos falam de um outro tempo. Que nos dizem, com suas ações, que tudo na Terra é passageiro. E que o bem mais precioso, a vida, deve merecer gratidão. Também afirmam que, antes de colocar mãos à obra, para minimizar o caos estabelecido, é preciso robustecer o Espírito. Buscar energias nas forças superiores. Prece que pode brotar dos lábios ou dos dedos, no dedilhar de um piano. 
Pessoas diferentes num mundo em transição. 
Pessoas serenas que nos exemplificam e nos dizem que o mundo novo já se faz presente. 
Como aquele homem que, após trinta e sete anos de prisão, teve a sua liberdade assegurada graças a um exame de DNA. Acusado de ter violentado e matado uma jovem, ele, igualmente jovem, foi condenado. Trinta e sete anos encerrado em uma prisão. Inocente. Tentando ainda se habituar à liberdade de que goza, depois de quase quatro décadas de aprisionamento, ele não fala em vingança, nem ressarcimento de danos morais. De forma impressionante, compareceu a um programa de talentos para fazer o que sempre sonhou: apresentar-se cantando para o público.
Exemplos. 
Criaturas que afirmam que o mundo novo desponta, no horizonte das almas. 
Quantas criaturas mais haverá de igual teor? 
E nós, não poderemos nos unir a elas, nesse esforço de concretizar o mundo novo do Terceiro Milênio, mais rapidamente? 
Engrossemos essas fileiras. 
Redação do Momento Espírita. 
Em 7.10.2020.

terça-feira, 6 de outubro de 2020

FAVOR DO CORAÇÃO

Era uma sexta-feira. 
Cidade do interior. 
Uma reunião importante levara aquela advogada e sua assessora até ali. As duas tinham passagem marcada para o voo das 19h30, em outra cidade. Seriam duas horas na estrada até chegar ao aeroporto. A reunião tardou além do previsto e ambas tomaram um táxi, pedindo pressa. O taxista se dispôs a driblar o tráfego intenso da rodovia, enveredando por um atalho em estrada não asfaltada. Dizia conhecer bem o caminho, que lhes abreviaria a chegada ao destino. Não demorou muito para as jovens perceberem que aquela ideia não fora nada boa. A estrada era ruim e foi ficando pior. O carro começou a arrastar-se lentamente, e, por fim, o motor deu seu último suspiro. Ninguém nas redondezas que pudesse auxiliar. E a chuva começou a cair. Pouco depois, uma caminhonete dos correios passou e, ao aceno de Lídia, a assessora, parou. No entanto, o servidor público escusou-se dizendo que não poderia levá-las em seu veículo. Era contra o regulamento da empresa. O desespero foi chegando devagarinho. Perderiam o voo, com certeza. 
Nisso, surgiu a salvação. 
Um pequeno caminhão carregado de sacos de milho até o teto e no banco traseiro da cabine. Antes que elas acabassem de explicar todo seu drama, o motorista foi dizendo: 
-Bom, se as senhoras não se importarem, não tem problema... 
Ambas jogaram suas malas por cima do milho e se acomodaram no banco dianteiro. Livres da chuva, logo verificaram que aquele transporte também não desenvolvia boa velocidade. E os ponteiros do relógio avançavam sempre mais rápidos. Para tornar a situação ainda mais tensa, o motorista, em certo momento, fez um comentário: 
-As senhoras não deveriam andar por esta estrada. Este é o caminho do tráfico. 
Por fim, estressadas, roupas e cabelos molhados, chegaram ao aeroporto, em cima da hora do embarque. A advogada trazia em mãos uma sacola de uvas, que lhe havia sido presenteada por um dos colegas. Desejando agradecer àquela alma generosa que desviara sua rota para as deixar no aeroporto, ela lhe ofereceu as uvas. Também uma nota de cinquenta reais.  
O homem simples avaliou a situação e respondeu: 
-Dona, as uvas eu aceito. Mas, o dinheiro, não. Eu fiz esse favor com o coração. 
E, tornando a ligar o motor do seu pequeno caminhão, se foi, abrindo caminho entre carros particulares, táxis e ônibus que deixavam passageiros naquele terminal. 
 * * * 
Pessoas corretas, desejosas de auxiliar o próximo existem muitas. 
Por vezes, ante tantos noticiários tristes de assaltos, corrupção, desonestidade, esquecemos que homens e mulheres de boa índole somam-se às centenas neste imenso mundo de Deus. 
Encontram-se em toda parte, à espreita de uma oportunidade de servir.
Sequer declinam seus nomes. 
Simplesmente auxiliam. 
E, depois, com a mesma simplicidade, retomam seu caminho e suas vidas, que, a muitos, podem parecer pequenas. 
Almas simples, almas boas. 
Quantos de nós já fomos auxiliados, em algum momento, por uma dessas, em nossa jornada? 
Filhos de Deus, servidores do bem. 
Pessoas que prestam favores com o coração. Exemplos de que nós também, onde nos encontremos, podemos agir de igual forma. 
Pensemos nisso. 
Redação do Momento Espírita, com base no artigo O coração entre o milho e as uvas, da Revista da Ordem, de 30.3.2015, ed. Ordem dos Advogados do Paraná. 
Em 24.6.2015.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

FATOS INALTERÁVEIS

No desenrolar das atividades do dia a dia, por vezes, nos deparamos com situações que gostaríamos de evitar. Todavia, nem sempre sendo possível conter uma situação desagradável antes que aconteça, estando ao nosso alcance, desejamos alterá-la. 
Assim ocorre nas mais diversas assembleias quando, por exemplo, alguém extrapola os limites da educação e das boas maneiras, cometendo atos que depõem contra sua conduta. É muito comum percebermos pessoas saindo do sério, falando palavrões e agredindo os outros, sem se darem conta de que tudo está sendo registrado em ata, vídeo ou áudio. 
O que ocorre normalmente é que, passados os momentos críticos, a pessoa ou pessoas envolvidas nos desatinos buscam meios de adulterar os registros, apagando imagens, sons, palavras. Isso é perfeitamente possível e é o que alguns têm feito. 
O que é mais grave, nesse contexto, é quando os ditos arquivos são seres humanos e são eliminados sumariamente, na tentativa de queima de arquivos, como se isso fosse possível. 
O que não se leva em conta, em tais situações, é que todo ato pensado ou executado, é gravado na própria consciência do seu autor. E a consciência possui um mecanismo que só permite a alteração de uma ação má por outra de melhor qualidade. 
Dessa forma, não nos iludamos com os poderes efêmeros dos quais nos servimos para manipular as situações. Teremos que responder diante das Leis que regem o universo moral, conforme afirmou o próprio Cristo, quando disse que nem um til da lei se perderá. 
Ainda que os séculos se dobrem uns sobre os outros, não conseguirão adulterar os registros das nossas consciências, sem a devida reparação. 
A única maneira de apagar culpas é ajustando-nos às Leis de Deus, reparando equívocos é praticando o bem. 
Nós só sofremos porque nos afastamos das diretrizes seguras traçadas pela Divindade. 
Deus, que é o Criador de todas as coisas, quer que sejamos felizes e nos oferece os meios de conquistar a felicidade. O que nos impede de perceber esses meios, são o orgulho e o egoísmo, chagas que dão origem a todas as demais misérias morais. 
Quando o arado da dor penetra o solo árido dos nossos corações, é com o objetivo único de afofar a terra para que ali germinem as sementes do amor. 
Quando as enfermidades dilaceram o nosso corpo físico, é para que percebamos a nossa fragilidade e busquemos fortalecer o Espírito imortal, voltando-nos para Jesus, sol maior das nossas almas, fonte de vida perene para todos nós. 
* * * 
Assim como as plantas buscam o sol, nós, por força do Amor Divino, buscamos a luz. 
Fomos criados para a perfeição, mas essa perfeição relativa que nos cabe, só se dará por nossos próprios esforços, superando as dificuldades naturais da caminhada. 
Aproveitemos os embates da vida para nos fortalecer, buscando sempre elevar-nos na direção do Cristo, que é, sem contestação, o caminho que nos conduzirá ao Pai. 
Redação do Momento Espírita. 
Em 6.1.2014.
http://momento.com.br/pt/ler_texto.php?id=4032&let=&stat=0