terça-feira, 7 de abril de 2020

COMO OS PEQUENINOS

Os Evangelhos nos permitem, a cada nova leitura, mais profundas reflexões. Isso nos diz que os seus ensinamentos são inesgotáveis, conclamando-nos à mudança de hábitos. Relata o Evangelista Mateus que, em certa oportunidade, os discípulos se achegaram a Jesus e lhe perguntaram: 
-Quem é o maior no reino dos céus? 
Lembramos que anteriormente, o mesmo Evangelista havia registrado a fala do Mestre de que, naqueles tempos, não havia alguém maior do que João, o Batista. Mas, enfatizara que, no entanto, ele era o menor no reino dos céus. Agora, Jesus chama para perto de si uma criança, coloca-a no meio deles e ensina: 
-Em verdade vos digo que se não vos converterdes e não vos fizerdes como este menino, de modo algum entrareis no reino dos céus. 
O ensino é eloquente e, naturalmente, para todos os que temos ouvidos de ouvir, ou seja, buscamos o entendimento maior, ele não estava se referindo àquele menino em especial, mas às crianças. Utilizou-o como exemplo, no sentido de que muito devemos aprender com as crianças. Os pequeninos têm a alegria como marca registrada. Riem de tudo e de coisa alguma. Sorriem para a vida, a cada despertar, e cumprimentam as horas que se iniciam com sua vivacidade. Erguem-se da cama e começam a correr, a brincar, a procurar o brinquedo que na véspera deixaram em algum lugar. Antes mesmo de se alimentarem, saúdam o novo dia afirmando, com sua forma de se expressar, a felicidade de acordarem na carne, outra vez. Buscam o que lhes dá prazer: o brinquedo, o jogo, o filme. Esquecem mesmo de que devem se alimentar, como a registrar que, antes do corpo, a alma deve ser alimentada. As crianças são espontâneas: dizem o que lhes vai na intimidade. Naturalmente, nosso viés de boas maneiras e de educação, nos fará passarmos pelo filtro adequado as falas, em nossas relações interpessoais. Porém, elas nos dizem que devemos ser menos hipócritas, mais honestos com nossos familiares, amigos, companheiros de trabalho. Falam-nos de que os que convivem conosco são credores da nossa delicada e honesta maneira de lhes dizer o que gostaríamos ou se faz necessário alterem em sua forma de ser, de agir. As crianças nos ensinam a sermos humildes. A descobrirmos que, pequenos na alma, precisamos, como elas, de alguém que nos eleve, a fim de que enxerguemos mais além. Que imagem espetacular! Lembrarmos de que necessitamos de muitas pessoas para nosso crescimento espiritual, para dilatarmos os nossos horizontes. Precisamos nos vestir de humildade para ouvir os que sabem mais do que nós; os que têm experiência naquilo que planejamos fazer; os que experimentaram e podem nos dizer que deve haver outra forma, melhor, mais adequada, de chegar aonde queremos. Humildade. Humildade para reconhecer nossas próprias fraquezas. Humildade para pedir auxílio. Humildade para reconhecer que não somos o único ser sobre a face da Terra, detentor de todo o conhecimento. Que existem milhares de seres neste planeta, que podem nos auxiliar a galgar mais alguns degraus na escala da evolução. 
Pensemos a respeito, ainda hoje, enquanto temos tempo. 
Redação do Momento Espírita, com base no Evangelho de Mateus, cap. 11, vers. 11 e no cap. 18, vers. 1 a 3. 
Em 6.4.2020.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

EU TE AMO

O que é o amor?
Os poetas o definem em versos, os compositores tecem canções. Os filósofos têm sua própria definição. Também as pessoas comuns, cada qual à sua maneira. Nenhum de nós ama de forma idêntica ao outro porque o amor vem da intimidade da criatura e cada um de nós é um ser único na face da Terra. Exatamente porque o Criador não se repete e, ainda, porque cada um de nós edifica a própria personalidade, a partir das suas experiências, das suas vivências. Contudo, em se falando de amor, algo muito importante é sabermos que somos amados por alguém: um pai, um filho, um esposo, um amigo. Por isso mesmo esperamos, em algum momento, ouvir as palavras: 
-Eu te amo. 
Nem sempre nos damos conta disso, acreditando que a outra pessoa sabe que a amamos. Pode até saber, mas precisa dessas palavras poderosas, que alimentam a chama do sentimento: 
-Eu te amo. 
Lembramos daquele homem que internou a esposa em uma clínica. Joana estava em estágio final de um câncer dilacerador. Nos primeiros dias, ele ficava no quarto, assistindo aos programas de que ela gostava. Joana era uma romântica. Gostava de novelas, de histórias e filmes com sabor de romance, de finais felizes. Certo dia, confidenciou à enfermeira que faria qualquer coisa para que o marido lhe dissesse:
-Eu te amo. Sei que ele me ama – falou - mas nunca foi do seu feitio mandar cartões ou fazer declarações de amor. 
Depois de algum tempo, Joana passou a ficar menos tempo acordada, por conta das altas doses de medicamento que lhe ministravam. Então, o marido passeava pelo jardim da clínica, ia à lanchonete, triste, amargurado. Numa dessas vezes, a enfermeira se aproximou. Ele agarrava, com força, a xícara de café, com suas mãos calosas de carpinteiro. Notava-se-lhe a angústia que lhe tomava a alma. A moça então lhe falou de como as mulheres precisam de romance em suas vidas, como gostam de receber cartões, cartas de amor, ouvir declarações. 
- Minha mulher sabe que a amo, foi a resposta imediata.
-Sim, reforçou a enfermeira, mas precisa ouvir isso.
Dois dias depois, Joana partiu. Na mesa de cabeceira estava um grande cartão de Dia dos Namorados que o marido lhe dera. Estava escrito: 
"Para minha esposa maravilhosa... Eu te amo!" 
Quando a enfermeira entrou no quarto, entre lágrimas, ele lhe disse: 
-Tenho que lhe contar. Quero que saiba como me sinto bem em ter dito a ela. Esta manhã falei o quanto a amava. Disse-lhe como era maravilhoso estar casado com ela. Devia ter visto o sorriso dela! 
* * * 
Alguns poderão pensar que são supérfluas as palavras, que os atos valem mais. Naturalmente, demonstrações de afeto são marcantes. Também as declarações de amor. O som da voz do amor é inesquecível. Pensemos nisso. E não detenhamos a vontade de dizer uma, duas, muitas vezes, à pessoa que está ao nosso lado, o quanto ela é importante para nós, o quanto a amamos. Como sua presença nos faz bem. Pode ser a esposa, a filha, um dos pais, um amigo. Um amor. Não deixemos de nos assegurar que eles saibam que os amamos. Façamos isso, agora, enquanto podem nos ouvir, sorrir e ficar felizes, imensamente felizes. 
Redação do Momento Espírita, com base no cap. Palavras do coração, do livro Histórias para aquecer o coração, de Jack Canfield, Mark Victor Hansen e Heather McNamara, ed. Sextante. 
Em 3.4.2019.

domingo, 5 de abril de 2020

O CRISTO DEUS

Ele já houvera sido cantado por inúmeros profetas de Seu povo, que O designavam como o Messias, o Salvador. Em torno de Sua figura, as mais variadas expectativas se construíam. As esperanças de uma nação, firme e sincera em sua fé monoteísta, aguardavam a Sua vinda. Àquela época, longe se faziam os tempos dos profetas, e as bocas, desde há muito haviam se calado para as vozes dos céus. A águia romana, que dominava a tudo e a todos, fazia subjugados e servos. Assim, não eram poucos aqueles que tinham na figura do Messias a concretização dos sonhos de libertação, de retomada da Terra Prometida a Moisés, a Canaã. As expectativas em torno do Messias eram inúmeras, porém, todas de caráter temporal e passageiro, vinculadas às coisas do mundo. Ele chegou, anunciando que Seu reino não era deste mundo. Embora não negando Sua realeza, desprezava os tesouros do mundo, alertando que esses a ferrugem corrói, a traça come e os ladrões roubam. Afirmava ser a Luz do mundo, mas evitava o brilho vazio das coisas do mundo. Com a mesma naturalidade que travava reflexões profundas com sábios e estudiosos, falava à multidão iletrada e ignorante. Era capaz de explicar as coisas de Deus ao Doutor da Lei que O interpelava, assim como aos simples pescadores que O escutavam. Em uma didática perfeita, soube utilizar das coisas do cotidiano, como o grão de mostarda, a pedra do moinho, a figueira seca, para explicar profundos conceitos de vida. Analisava as leis do Seu povo não com os olhos, que veem as letras, mas com o coração, que enxerga a alma, dando novo alento às dores e às provações da vida. Dava pouca ou nenhuma importância à externalidade da fé, das ações e dos sentimentos, se esses não tinham sua nascente no coração, chegando a comparar alguns seres a sepulcros, caiados por fora, e cheios de podridão por dentro. Alertava acerca dos perigos e desafios da vida, colocando-Se sempre como o Bom Pastor, a cuidar de cada uma das Suas ovelhas que o Senhor da Vida Lhe confiou aos cuidados. Incitava ao progresso, comparando as criaturas ao precioso sal da terra e convocando-as à responsabilidade, a fim de que o sal não viesse se tornar insosso. Ofereceu roteiro de felicidade e paz, ao cantar o poema das bem-aventuranças, oferecendo caminho seguro para seguir. Não mais a guerra, a vingança, a revolta, pois bem-aventurados serão os mansos, os pacíficos, os aflitos. Disponibilizou-Se como servidor de todos, ao convidar a que a Ele se achegassem os cansados e aflitos, pois Ele lhes aliviaria as pesadas cargas e dores. E, ainda hoje, Ele aguarda a decisão de cada um de nós, a segui-lO, tomar do Seu fardo que é leve e do Seu jugo que é suave. Já se vão séculos desde que Sua voz cantou as Leis de Deus em perfeição, pelos caminhos da Palestina, encontrando eco em muitos corações que, ao longo da História, se deixaram imolar por amor do Seu nome. Ele ainda aguarda pacientemente que o Seu verbo encontre ressonância em nossa intimidade, e definitivamente O aceitemos como Modelo e Guia para nosso agir. 
Redação do Momento Espírita. Disponível no cd Momento Espírita, v. 21, ed. Fep. 
Em 09.04.2012.

sábado, 4 de abril de 2020

EUTANÁSIA

Eutanásia é definida como sendo a prática pela qual se abrevia, sem dor ou sofrimento, a vida de um enfermo incurável. A sua aplicação tem sido defendida em diversos países, tais como Bélgica e Holanda, sob o argumento de que só seria realizada em casos de doenças irreversíveis, quando o doente já se encontrasse em condições muito precárias de sobrevivência. Alguns alegam tratar-se de um ato piedoso, porque estaria sendo abreviado o sofrimento de um ser.
Outros, ainda, afirmam que muito dinheiro estaria sendo economizado, já que qualquer recurso despendido para manter aquela vida seria inútil e, por consequência, um desperdício. Há aqueles, também, que afirmam ser tal conduta uma forma de alívio também para a família do doente que estaria demasiadamente onerada por tal situação. Tais posicionamentos, porém, demonstram de forma inequívoca a predominância do conceito materialista e total ignorância das realidades espirituais. Não cabe ao homem, em circunstância alguma, ou sob qualquer pretexto, o direito de escolher e deliberar sobre a vida ou a morte de seu próximo. Afinal, doenças tidas ontem como incuráveis podem ser resolvidas pela medicina moderna. E a ninguém é dado precisar o tempo de vida de um paciente, pois sabemos que esse tipo de prognóstico é muito duvidoso e, por vezes, equivocado. A ciência humana erra. Deus não erra nunca. Há muitas histórias de pessoas tidas como doentes terminais que sobrevivem à crise e superam a própria enfermidade, vivendo por muito tempo além do que lhe havia sido previsto. Além disso, essa falsa piedade atrapalha a terapêutica Divina, nos processos redentores da reabilitação. A agonia prolongada pode ter finalidade preciosa para a alma e a moléstia incurável pode ser, em verdade, um bem. Os desígnios de Deus são insondáveis e a ciência humana por demais precária para poder decidir a respeito de problemas transcendentes das necessidades do Espírito. Cada minuto, em qualquer vida, é muito precioso para o Espírito em resgate abençoado. Quantas resoluções nobres e decisões felizes ocorrem em um relance momentâneo? Desconhecemos as reflexões que o Espírito pode fazer nas convulsões da agonia e quantos tormentos lhe podem ser poupados em um relâmpago de arrependimento. A eutanásia, portanto, interrompe o processo de depuração em que se encontra o Espírito encarnado, através da enfermidade, impondo-lhe sérias dificuldades, inclusive no retorno ao plano espiritual. Ademais, alguns familiares que buscam tal recurso, na realidade, encontram-se apenas e indevidamente ansiosos por libertar-se do comprometimento e da responsabilidade de ajudar, sustentar e amar ainda mais. E no que diz respeito aos custos decorrentes dos longos tratamentos a que se submetem doentes terminais, resta-nos analisar o fato de que muito dinheiro é gasto de forma irresponsável, sustentando-se os mais variados vícios. Como então alegar que é desperdício gastar-se com remédios e procedimentos que podem, de alguma forma, buscar o restabelecimento de alguém que sofre? 
 * * * 
Richard Simonetti
A postura do verdadeiro cristão deve ser sempre em favor da manutenção da vida e de respeito em relação aos desígnios de Deus. Compete-nos buscar não só minorar os sofrimentos de nossos irmãos, mas também, confiar na justiça e na bondade Divinas. 
Redação do Momento Espírita com base no cap. 14 do livro Após a tempestade, pelo Espírito Joanna de Ângelis, psicografia de Divaldo Pereira Franco, ed. Leal; na pergunta nº 70 do livro O consolador, pelo Espírito Emmanuel, psicografia de Francisco Cândido Xavier, ed. Feb; no item 28 do cap. V do livro O Evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, ed. Feb e no cap. Solução infeliz, do livro Quem tem medo da morte?, de Richard Simonetti, ed Gráfica São João. 
Em 13.2.2013.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

E SE A VIDA NÃO FOSSE UM SÓ LIVRO?

Comparam a existência humana a muitas coisas. Já a igualaram a uma estrada. Outros a mostraram similar a uma grande viagem. Alguns a fizeram parecer a escalada de uma montanha exuberante. Há aqueles que dizem que a vida é um grande livro, uma autobiografia que vamos escrevendo desde o momento em que nascemos. Curiosa comparação. Imaginemos mesmo se a vida pudesse ser igualada a uma obra literária, dessas bem espessas. Nas primeiras páginas os primeiros anos e nas últimas os derradeiros. Páginas de dor, páginas de alegria. Páginas de conquistas, páginas de frustrações. Páginas de sacrifício, páginas de recompensa. Todas estariam registrando ipsis literis o que vivemos, sentimos e fizemos. Um único livro. Uma única existência. Ampliemos um pouco mais essa visão, pensando fora da caixa: 
-E se a vida não fosse apenas um livro? E se a existência do Espírito fosse uma biblioteca inteira? 
-Sim, se nossa história fosse contada por dezenas, centenas de livros que vão sendo armazenados num grande salão repleto de estantes majestosas. Cada nova vida, cada nova encarnação, um novo livro. Os livros mais recentes terão sempre relação com os antigos. Quando iniciamos um novo, teremos impressão que se trata do primeiro, porém será apenas mais um. Isso explicaria muitas coisas, como por exemplo nossas habilidades inatas, nossas tendências, as dificuldades que temos, o fato de alguns nascerem em meio a facilidades e outros com tantas carências. Isso porque o que escrevemos nos livros anteriores foi uma espécie de semeadura, um prefácio para essa nova obra. Os livros antigos guardarão sempre relação com os novos. Falemos claramente: somos seres imortais e de muitas encarnações, muitas experiências. Provavelmente, não nos recordemos disso, talvez não tenhamos acesso a tais lembranças neste momento, pois a Providência Divina é muito sábia e quis que cada novo livro tivesse esse frescor de renovação, de nova oportunidade. Quando precisar lembrar ou ter acesso a essas lembranças, recordaremos. Importante é saber que nossa vida é muito maior do que apenas a história que estamos escrevendo agora. Que no momento estamos colhendo o que plantamos, e que estamos, diariamente, semeando o futuro. Pensemos nisso quando estivermos diante de qualquer decisão, das nossas escolhas importantes, daquilo que queremos para nós, de agora em diante. Interessante é saber que todos estamos nesse mesmo processo. Tanto nossos amores como nossos adversários. Assim, amemos. Amemos cada vez mais e melhor, pois o amor jamais será perdido e nunca perdemos ninguém. Também perdoemos, nos reconciliemos o quanto antes, pois se não for agora, será no próximo volume de nossa coleção de encarnações. Continuemos escrevendo uma bela história, repleta de alegria e de amor ao próximo. Que ela tenha muitos personagens e que possamos ser luz na vida de todos eles. Que mesmo nos parágrafos de dificuldades possamos nos lembrar que logo mais chegarão novas páginas, novos capítulos e também novos livros. 
Redação do Momento Espírita. 
Em 3.4.2020.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

CAMINHO DO CORAÇÃO

Em certa passagem do Evangelho segundo Mateus, Jesus exorta Seus seguidores a que ajuntem tesouros no céu. Diz que as conquistas da Terra sofrem os efeitos do tempo e podem ser roubadas. Enfatiza que os valores do céu são perenes e não correm riscos. Afirma, por fim que, onde estiver o tesouro de um homem, aí estará também o seu coração. Essa observação sinaliza que o coração e o tesouro do homem estão sempre no mesmo lugar. Pode ser entendida no sentido de que o coração determina as conquistas que serão feitas. Habitualmente se imagina que a razão guia o homem em sua jornada. Entretanto, não é a racionalidade que determina a vida que se leva. Esse papel condutor cabe aos sentimentos. O tom da vida é dado pelos desejos profundos do coração. Ele é que confere valor ou desvalor a determinada conquista ou situação. O sentimento define quem o homem é e qual caminho ele trilhará. O coração estabelece os fins, ao passo que a razão fornece os meios para os alcançar. Conforme os anseios da alma, são diferentes os caminhos. Um homem pode desejar ficar rico. Outro almejar viver grandes aventuras. Um terceiro quer deixar bons exemplos para seus filhos. Uma vez definida a meta, o papel da razão é identificar o melhor caminho. Isso funciona em todos os setores da vida. Por exemplo, na escolha da profissão. O jovem, ao escolher entre as várias opções disponíveis, costuma se indagar a respeito de seus gostos e talentos. Alguns querem ser médicos, outros apreciam matemática, outros ainda amam as artes. Os sentimentos têm um papel central na vida humana. Entretanto, de modo paradoxal, o intelecto tem merecido maiores atenções da sociedade. Os pais se preocupam em colocar os filhos nas melhores escolas. Essas se esmeram na elaboração de um currículo o mais vasto possível. Contudo, para além da instrução, é necessário educação. Ou seja, cuidar de retificar hábitos. Mas a conduta somente é aperfeiçoada com sucesso a partir do sentimento. É muito difícil manter uma conduta divorciada dos desejos do coração. Sempre se tem um tom artificial, de coisa forçada. Quando o coração participa, tudo se torna mais fácil. Um bom exemplo é dedicar-se a alguém querido. Os pais são capazes de atos de grande desprendimento em favor de seus filhos. Justamente porque os amam, conseguem persistir em cuidados exaustivos, que duram anos. Desse modo, sem qualquer prejuízo para o cultivo do intelecto, convém cuidar da emoção. Prestar atenção nos próprios gostos e desejos, identificar o que neles demanda correção. Dedicar-se a curar feridas íntimas, a perdoar e a pedir perdão. Enamorar-se da ideia de ser digno e fraterno. Uma vez estabelecido o sincero desejo do bem, vivê-lo será simples e fácil. 
Pense nisso. 
Redação do Momento Espírita. 
Em 1º.4.2020.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

EU TAMBÉM POSSO DIZER

Antoine de Saint-Exupéry
Saint-Exupéry narra com maestria, em seu Terra dos Homens, quando ainda era jovem piloto, a experiência de ter assumido o Correio Aéreo da África. Quando recebeu a notícia de que partiria na manhã seguinte para seu primeiro dia de trabalho, confessou que talvez não estivesse ainda bem preparado. Expressou sua insegurança a um companheiro de voos, naquela noite. Narra o autor que seu amigo espalhava confiança como uma lâmpada espalhava luz. Um amigo que mais tarde iria bater o recorde das travessias do Correio Aéreo da Cordilheira dos Andes e do Atlântico Sul. Diz-nos Exupéry que, sorrindo o mais reconfortante dos sorrisos, ele disse simplesmente:
-“As tempestades, a bruma, a neve, por vezes essas coisas o incomodarão. Pense então em todos os que conheceram isso antes de você e diga assim: o que eles fizeram eu também posso fazer.” 
* * * 
Usualmente os novos desafios nos trazem insegurança. É um aperto no peito; uma dor no estômago; uma noite mal dormida, onde os sonhos ficam projetando um possível insucesso. É natural que nos sintamos assim por alguns momentos. São momentos que ensejam uma busca por nossas habilidades, nossas capacidades internas. Sempre será uma chance de nos conhecermos, quando inquirimos: 
-Será que eu posso? 
Porém, se nossa autoestima estiver rebaixada, ou se nosso conhecimento sobre nós mesmos for precário, a tendência é que a insegurança reine por mais tempo. Poderá ser tão poderosa a ponto de nos fazer desistir, retornar. Como se a vida nos convidasse a dar mais um passo e, ao erguermos o pé do chão, nos sentíssemos em desequilíbrio e preferíssemos voltar a perna na posição inicial. Por essa razão, o conselho recebido pelo jovem aviador é precioso. Quem sabe pensar em todos que já conseguiram antes de nós, ou em todos aqueles que já passaram por isso e sobreviveram, seja grande ajuda. 
-O que eles fizeram eu também posso fazer. 
Esta frase nos fala do potencial que todos temos, mas também deve nos lembrar de questionar: 
-Como eles conseguiram? 
-Sim, pois vencer desafios exige sempre muita preparação, muito esforço e grande dedicação. Dessa forma, se nos tivermos preparado, feito nossa parte bem feita, não há razão de temer, não há razão para deixar que a insegurança nos domine e nos paralise. Tempestades, brumas e neves são comuns e naturais na vida. As intempéries são escolas de almas que buscam aprimoramento e resistência. Elas sempre existirão. Estão, de certa forma, fora de nosso controle ou comando. O que está sob nosso manche é nossa aeronave Espírito, e nossa habilidade de contornar as tempestades, de fazer boas escolhas, de vencer a nós mesmos. 
* * * 
Quando o Modelo e Guia da Humanidade, Jesus, afirmou: 
-Vós sois deuses; e também que Aquele que crê em mim fará as obras que eu faço e outras maiores.
Ele falava de potencial. Conhecia profundamente a destinação de cada alma, e que esta seria a perfeição. Conhecia a imutável lei do progresso, e ousou dizer àqueles homens ainda de coração endurecido que, no futuro, quando desejassem, seriam como Ele já era. Era o habitante do topo da montanha, dizendo aos que acabavam de começar a escalada, que todos poderiam chegar no cume um dia. 
Redação do Momento Espírita, com base em trecho do livro Terra dos homens, de Antoine de Saint-Exupéry, ed. Nova Fronteira. Disponível no livro Momento Espírita, v. 7, ed. FEP. 
Em 8.2.2017.