sexta-feira, 13 de agosto de 2021

USANDO A CRIATIVIDADE

Ignacy Jan Paderewski
Conta-se que certa mãe, desejando encorajar seu filho a tocar piano, o levou a um concerto do polonês Jan Paderewski. 
Depois de se sentarem, a mãe viu uma amiga na plateia e dirigiu-se a ela para saudá-la. Aproveitando a oportunidade, o garotinho se levantou e foi explorar as maravilhas do teatro. Seus passos curiosos o levaram a uma porta onde estava escrito: Proibida a entrada. 
Quando as luzes diminuíram e o concerto estava prestes a começar, a mãe retornou ao seu lugar e descobriu que seu filho não estava lá. Nesse momento, as cortinas se abriram e as luzes se acenderam sobre um impressionante piano Steinway, localizado bem no centro do palco. Horrorizada, a mãe viu seu filho sentado ao piano, inocentemente catando as notas de uma canção infantil. 
E Paderewski fez sua entrada. 
Rapidamente foi até o piano e sussurrou ao ouvido do menino: 
-Não pare, continue tocando. 
Então, debruçando-se sobre o pianista júnior, ele estendeu sua mão esquerda e começou a preencher a parte do baixo. Logo depois, colocou sua mão direita ao redor do menino e acrescentou um belo acompanhamento de melodia. Juntos, o velho mestre e o jovem noviço, transformaram uma situação embaraçosa em uma experiência maravilhosamente criativa. 
O público estava perplexo. 
A mãe estava imóvel na poltrona e sua voz havia sumido da garganta.
Mas, o veterano pianista não se perturbou e, usando sua capacidade criativa, tirou de letra, como se diz. 
* * * 
Algumas pessoas pensam que ser criativo é inventar coisas grandiosas e fantásticas, capazes de impressionar multidões. 
Todavia, ser criativo significa ter ideias brilhantes que nos tirem de enrascadas ou situações difíceis. 
Podemos usar a criatividade em nossas tarefas diárias, tornando-as mais úteis e eficientes. 
Quando usamos caminhos alternativos para escapar da rotina, estamos sendo criativos. 
Quando assumimos um comportamento de bondade e compaixão, promovendo a assistência aos necessitados de toda ordem. 
Ou, ainda, quando buscamos a solução de um velho problema de uma maneira diferente. 
Gandhi, por exemplo, usou a sua criatividade para libertar seus irmãos indianos do jugo inglês, sem derramamento de sangue, inovando, de forma radical, as estratégias vigentes. 
Nós também podemos pôr em prática nosso espírito criativo começando a enfrentar os problemas conhecidos, de forma inovadora. 
Pode ser tentando arranjar mais espaço no quarto apertado ou criando uma nova receita, cujos ingredientes sejam as sobras do almoço.
Portanto, quando nos depararmos com uma situação que nos pareça de difícil solução, lembremo-nos de Jan Paderewski e usemos nosso poder criativo para sair dela com elegância. 
* * * 
A criatividade é natural na infância e todos somos criativos. 
Por vezes, nós, os adultos prejudicamos essa criatividade em nossos pequenos, com julgamentos e enquadramentos forçados que os impedem de se expressar livremente. 
Reflitamos a respeito e busquemos incentivar em nossas crianças a sua capacidade criativa.
Redação do Momento Espírita, com base em fato da vida de Ignacy Jan Paderewski (1860-1941). 
Em 13.8.2021.

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

E SE...

Certamente tivemos, em algum momento, em nossas vidas, o desejo de que as pessoas se comportassem de maneira diferente para conosco. Possivelmente, já aconteceu de nos incomodarmos com a maneira de alguém agir, ou com os valores e princípios que defende. Constantemente, avaliamos os outros e nos deixamos afetar, pelas posturas que apresentam. É comum no trânsito, no supermercado, na reunião familiar ou no trabalho, nos desgostarmos com as pessoas. Por um motivo ou outro são com esses que demonstramos a nossa impaciência, agimos de forma impulsiva ou até de maneira grosseira e pouco amigável. 
É verdade que nos relacionarmos em sociedade sempre é um grande desafio. Atitudes de colegas, familiares ou conhecidos nos colocam, muitas vezes, nos limites da nossa estrutura emocional. E nossos desejos se manifestam com frases como:
Queria que Fulano fosse assim, ou 
Gostaria que Beltrano mudasse sua maneira de agir
E vamos fomentando ideias que nunca estão ao nosso alcance, porque o que desejamos é a mudança do outro. Dificilmente nos pomos a pensar que, eventualmente, o outro apreciaria que alterássemos as nossas atitudes, que o ferem, que o machucam. 
Que tal se, ao invés de avaliarmos alguém pela sua aparência, pela roupa, cabelo ou pelo vocabulário que usa, buscássemos conhecê-lo melhor?
Saber da sua história de vida, dificuldades e lutas que vem enfrentando.
Afinal, ninguém está isento delas. 
E se, ao invés de julgarmos as pessoas, seu comportamento, suas opções e escolhas de vida, buscássemos compreendê-las um pouco mais?
Entender que cada um busca ser feliz à sua maneira, mesmo que tenha que percorrer longos caminhos para tanto. Isso porque todos estamos palmilhando uma estrada de aprendizado. 
E se oferecêssemos ao outro a antítese, isto é, o contrário daquilo que não gostamos nele ou que nos agride?
Poderíamos oferecer a nossa paciência ao exaltado, dando-lhe a oportunidade de receber compreensão, atenção e cuidado que, muitas vezes, a vida não lhe oportunizou. 
Para o grosseiro, retribuir com educação, mostrando outras possibilidades de relacionamento, pautadas no respeito e consideração. 
Talvez a falta de trato social seja apenas ausência de oportunidade de aprender outras maneiras de se relacionar. 
Ao bruto ofertar a gentileza, dando-lhe ensejo de provar a doçura e leveza que podem nascer a partir de pequenos gestos. 
Por vezes, a brutalidade que se apresenta no dia a dia não lhe permite acreditar que é possível ter um tanto de suavidade na vida. 
Para aquele com posicionamentos opostos aos nossos podemos construir uma ponte de empatia. 
Tenhamos em mente que ninguém é obrigado a pensar como nós, e que cada um é fruto de seus esforços, de sua história e de suas opções.
Enfim, são muitas as oportunidades que aqueles que cruzam nossos caminhos nos ofertam para sermos melhores. 
Busquemos neles, esses professores que a vida nos oferece, a chance de construir em nós virtudes que permanecem latentes. 
Nesse esforço, estaremos contribuindo para uma sociedade pautada em elevados valores de amor e generosidade. 
Redação do Momento Espírita.
Em 12.8.2021.

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

UM GESTO IMPORTANTE

Era uma tarde de calor. 
À beira do lago, Jesus pregava e as pessoas foram a pouco e pouco se aproximando mais. 
O interesse era geral. 
As palavras brotavam daqueles lábios generosos como raios de luz, atingindo as almas. 
Uma mulher achegou-se também, trazendo duas crianças pela mão.
Sentou-se e sentou-as ao lado. 
Sua atenção, de imediato, se fixou na voz doce que lhe chegava, inundando-lhe o Espírito de esperanças. 
Era uma mulher do povo, sofrida. 
Há pouco, enviuvara e, com grande esforço, lutava para se manter e aos dois pequenos. 
Ninguém que a pudesse socorrer. 
Ao ouvir aquelas palavras que falavam de um novo reino, de um Pai amoroso e justo, sentiu o coração apaziguar-se. 
Por estar muito atenta às palavras de Jesus, não se deu conta de que os pequenos haviam levantado e se encaminhavam em direção ao lago.
Atraídos pelo encanto das águas, passaram a brincar descuidados. 
O velho pescador Simão, no entanto, tudo viu. 
Prestava atenção à pregação mas também às demais necessidades da hora em curso. 
Por isso, levantou-se e seguiu os dois meninos. 
Acompanhou-os durante algum tempo. 
Em certo momento, dirigiu-lhes a palavra e lhes transmitiu confiança.
Tomou os dois nos braços, sentou-se numa pedra e ali ficou com eles.
Terminada a reunião, restituiu ambos ao colo materno, em meio à alegria e sincero reconhecimento. 
Inspirado por uma força estranha, o discípulo compreendeu que o júbilo daquela tarde não teria sido total se as duas crianças tivessem perecido no seio das águas, despedaçando ainda mais aquele coração maternal, já tão duramente castigado pela ausência física do marido. 
Naquela tarde, com aquele pequeno gesto, Pedro descobrira o prazer de servir, a alegria de ser útil. 
* * * 
Tal qual na doce palestra do lago de Genesaré, existem sempre momentos de servir. 
São gestos pequenos, coisas mínimas que passam despercebidas por muitos, mas que fazem uma grande diferença. 
Assim é, por exemplo, que, durante uma palestra, podemos olhar para o lado e, descobrindo um idoso em desconforto, oferecer-lhe o lugar que ocupamos. 
Mesmo que tenhamos sido daqueles primeiros a chegar, somente para encontrar um lugar melhor. 
Com certeza, a palavra nobre que nos chegue nos atingirá com maior vigor, pois que nos encontramos abertos ao ensino superior. 
Observando uma jovem mãe com dificuldades com seu pequeno, talvez possamos nos oferecer para tranquilizá-lo, andando um pouco ao ar livre, retornando em seguida para o devolver sereno, quiçá, dormindo, aos braços maternais. 
Talvez pensemos que ela deveria ter deixado a criança em casa, contudo não lhe conhecemos os problemas, nem mesmo as dificuldades. 
A oportunidade de servir se apresenta em todas as horas, em todos os momentos. 
Saber ver e se dispor a servir é decisão individual. 
* * * 
O cristão é o indivíduo que deveria estar sempre disposto a servir.
Conforme o ensino de Jesus que, como Mestre, se dispôs a lavar os pés dos Seus Apóstolos, aquele de nós que desejar ser o maior no Reino dos Céus, deve se tornar o servidor atencioso, o menor dentre todos. 
E o mundo necessita intensamente de braços dispostos a amparar, ajudar; de ouvidos prontos a ouvir e de bocas desejosas de disseminar palavras de esperança, paz e consolo. 
Redação do Momento Espírita, com base no cap. 9 do livro Boa nova, pelo Espírito Humberto de Campos, psicografia de Francisco Cândido Xavier, ed. Feb. 
Em 29.07.2010.

terça-feira, 10 de agosto de 2021

FLORES DA NOITE

O sol da manhã, o novo dia, sempre foram símbolos de renovação. 
Muitos escritos já trouxeram a imagem inspiradora das flores que rompem seus botões e transbordam beleza, aos primeiros raios de luz. 
No entanto, existem algumas flores que só desabrocham à noite. 
A natureza sempre nos surpreende. 
Alguns espécimes raros revelam suas pétalas somente após o pôr do sol.
Florescem no escuro e enchem as ruas cansadas, jardins e costas, com um aroma intenso e luz encantadora.
Isso se dá porque muitas delas são nativas de áreas onde os animais são noturnos. 
Assim, só podem ser polinizadas nesse período. 
Morcegos, insetos, mariposas saem à noite e, enquanto passeiam, levam o pólen de uma flor para outra. 
Muitas flores do deserto, por exemplo, desabrocham na escuridão porque, durante o dia, não há muitos animais polinizadores. 
Uma das curiosidades dessas florescências é seu perfume intenso. 
Mais uma forma de se mostrarem presentes e chamarem a atenção, cumprindo seu papel nesse sistema perfeito, que é a natureza.
* * * 
Muitos de nós podemos nos descobrir como flores da noite. 
Não iremos nos enquadrar nos padrões das belas rosas ou margaridas, que desabrocham ao amanhecer. 
Nossa beleza talvez não seja a do lírio ou a da tulipa com suas tonalidades multicolores. 
Quem sabe sejamos mais como a dama da noite e suas pétalas, em formato de cálice, com terminações que fazem parecer estrelas. 
Seu perfume intrigante inspira a produção de fragrâncias e é apontado por muitos como o mais intenso, entre as plantas conhecidas. 
Talvez sejamos como o lótus de braham-kamal, flor dos deuses, que cresce na Índia, na China e no topo das montanhas do Himalaia. 
Ela abre imediatamente após o pôr do sol e vive apenas uma noite. 
Vive pouco, poderíamos dizer, mas vive bem, pois suas pétalas são utilizadas, na medicina tradicional do Tibete, como um meio de tratar doenças dos sistemas urinário e reprodutivo. 
Ou ainda a flor da noite, que cresce na América Central. Branca, com um aroma rico, um tipo de cacto noturno, que floresce apenas durante algumas horas e depois desaparece. Interessante é que depois de quarenta a cinquenta dias, no lugar da flor aparece uma fruta exótica, a pitaya, ou fruta do dragão. Foi bela, perfumada e ainda rendeu frutos. 
* * * 
Pensemos em tantas formas que temos de fazer parte da natureza, de servir à Criação. 
Alguns não temos desenvoltura para estar em frente a uma câmera, mas escrevemos muito bem o que aquela pessoa que estará lá, em evidência, deverá falar. 
Alguns não temos facilidade para produzir obras artísticas, mas temos um senso estético apurado, uma visão minuciosa, enxergando coisas que ninguém mais vê. 
Outros, criamos em silêncio, longe dos holofotes. 
Vamos servir no anonimato, vamos salvar o mundo sem precisar das manchetes de jornal. 
Flores da noite, igualmente belas e fundamentais nos jardins do Universo.
Que possamos fazer o bem, como flores do dia ou flores da noite. Que possamos perfumar os caminhos de nosso próximo, seja com o sol brilhando ou nos períodos de escuridão. 
Redação do Momento Espírita 
Em 10.8.2021.

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

GESTO ESPECIAL

Eles eram oito executivos trabalhando em uma grande empresa. Um deles destoava dos demais. Ele era um homem quieto, calado. Quando todos iam ao lanche, ele se retirava para um local isolado e ficava a sós. Era tido pelos demais como uma pessoa estranha. Os colegas se encontravam depois do trabalho, saíam juntos e Ernani nunca participava de nada. Mauro, o mais desinibido do grupo fazia graça, inventava piadas para os amigos onde, sempre, o motivo de riso era Ernani. Certo final de semana, Mauro anunciou que iria pescar e prometeu aos companheiros que, se fosse feliz na pescaria, traria um salmão para cada um deles. Secretamente, confidenciou aos companheiros que, para Ernani, ele destinaria as vísceras e os rabos dos peixes. Desejava pregar-lhe uma peça e todos iriam rir muito. E assim foi. Na segunda-feira, cada um deles recebeu um embrulho muito bem feito, inclusive Ernani. Cada um foi abrindo o seu e verificando o salmão limpo. Ernani ficou sentado, olhando para o pacote. Instado a abri-lo, entre risos de todos, de voz embargada ele falou: 
-Fico muito emocionado com a lembrança. Quero dizer a vocês que tenho vivido, há cinco anos, um grande drama. Minha esposa teve um acidente e ficou tetraplégica. Todos os recursos do meu salário são para atender suas necessidades médicas. 
A voz era reticente e o ar começou a pesar, no escritório. Mauro tentou retirar o embrulho das mãos de Ernani. Era tarde. Ele tinha começado a desembrulhar. Agora, as lágrimas lhe assomavam aos olhos e ele não as conseguia conter. A emoção o dominava. 
-Tenho cinco filhos, continuou. Eles não vão para a escola, porque meu dinheiro não consegue pagar o que seja necessário. Eu não tenho dinheiro nem para o material escolar, nem para os uniformes. Vocês falam a meu respeito, eu sei, porque nunca faço lanche com vocês. É que trago um lanche de casa e tenho vergonha de mostrá-lo. Por isso, sempre me retiro para comer a sós. Mas, hoje, - e retirou mais um pedaço de papel do embrulho - hoje, meus filhos comerão bem, graças a você, Mauro. 
Ernani abriu o pacote por inteiro e se deparou com as vísceras e rabos dos peixes. Um silêncio geral se fez na sala. Um mal estar tomou conta de todos. Não havia o que dizer, o que fazer. Então, um dos executivos se dirigiu até Ernani e depositou no seu colo o próprio embrulho. Todos os demais o imitaram. No próximo final de semana, eles visitaram Ernani e, se cotizando, providenciaram melhor atendimento para a esposa. Cada um deles assumiu os gastos com a escola de um de seus filhos. Eles haviam despertado para uma realidade jamais imaginada. A esposa de Ernani veio a falecer, alguns meses depois. Os filhos se formaram, um a um. Os amigos se olharam e perguntaram: 
-E, agora? 
Então, juntos optaram por fundar uma O N G, cujo objetivo fosse atender a pais com necessidades especiais e seus filhos. 
Um gesto de amizade redundou em benefício para uma larga comunidade.
 * * * 
Fique atento ao que ocorre ao seu redor. 
O companheiro arredio, por vezes é alguém que traz o coração em chaga viva. 
Observe, pergunte, disponha-se a auxiliar e faça luz em outras vidas.
Redação do Momento Espírita, com base em fato narrado por Divaldo Pereira Franco, na reunião ordinária do Conselho Federativo Nacional, em Brasília, DF, de 8.11.2008. Disponível no CD Momento Espírita, v. 16, ed. Fep. 
Em 22.11.2010.

domingo, 8 de agosto de 2021

UM PAI EM NOSSAS VIDAS

Pais existem de todos os quilates. 
Existem aqueles que somente dão o seu contributo biológico, não se envolvendo em mais nada. Existem outros que se preocupam em prover o abrigo, o alimento, a instrução, exaurindo-se no trabalho. 
Somente esquecem de oferecer as suas preciosas presenças no lar, nos folguedos, nas conquistas dos filhos, desde as menores às mais grandiosas. 
Existem outros que se revestem de ternura, atenção, cuidados. 
Alguns são os grandes promotores do sucesso dos seus filhos. Sempre prontos a ouvir os seus anseios, os sonhos, a escutar as confidências, as pequenas tolices do dia a dia. 
E colaboram, nas várias etapas da concretização dos sonhos dos seus rebentos, permitindo-se ouvir as reclamações, as queixas, os desabafos ante os percalços que eles encontram. 
São esses a quem muitos de nós devemos o sucesso na carreira, o sonho alcançado. 
Assim foi com a indiana Gunjan Saxena, que se tornou a primeira oficial da Força Aérea Indiana. 
Criança, em viagem aérea, teve oportunidade de adentrar a cabine de comando. 
Deslumbrou-se com o que viu: a aparelhagem, o imenso céu azul parecendo ser conquistado pelo enorme avião. 
Desejou ter o domínio de todos aqueles instrumentos. 
Queria sentar-se no banco do comandante que lhe disse: 
-Para sentar aqui, você precisa se tornar piloto. 
Ela foi perseguir o seu sonho. Em 1996, depois de conseguir sua graduação como bacharel em Ciências em Física, ingressou na Força Aérea Indiana. 
Dificuldades precisou enfrentar e momentos houve em que vacilou. 
Seu pai, no entanto, lhe oferecia o ombro para chorar, os ouvidos para escutar, o coração para amar. 
E as suas eram sempre as palavras de incentivo, de não desistir, de alcançar o seu intento. 
A grande diferença de um pai presente na vida de uma filha. 
O primeiro posto de Saxena foi em Udhampur, onde precisou enfrentar muitos desafios de gênero. 
De toda forma, segundo ela, os pilotos do sexo masculino aceitaram a situação mais rápido do que ela mesma esperava. 
Foi a única mulher piloto a participar da batalha de Kargil, entre maio e julho de 1999, na qual a Índia lutou contra os paquistaneses que tomaram posições na linha de controle indiana. 
Suas principais funções, durante essa guerra, eram evacuar os feridos, transportar suprimentos e ajudar na vigilância. 
Ela teve que lidar com áreas de pouso improvisadas, alturas de treze a dezoito mil pés e fogo inimigo. 
Uma única mulher entre os dez pilotos. 
Participou do resgate de novecentos soldados, feridos ou mortos. 
* * * 
Quantos de nós, como a indiana Gunjan tivemos um pai atento, responsável e incentivador? 
Importante que o saibamos agradecer, dizendo do quanto lhe devemos.
Se já idoso, mais ainda deve ser abraçado, acarinhado e ter a certeza do quanto foi destacada a sua atuação em nossas vidas. 
Para todos os que somos pais no agora, uma lição. 
Tenhamos os olhos nos nossos filhos. Ouçamos os seus sonhos, e os auxiliemos, com nossa palavra, a ir em frente, a prosseguir, a galgar os degraus até o pináculo da vitória. 
Lembremos: um pai faz a grande diferença na vida dos seus filhos.
Redação do Momento Espírita, com base nos dados biográficos de Gunjan Saxena e no filme A tenente de Kargil. 
Em 4.11.2020.

QUEM É VOCÊ?

Entre os guardados do executivo de uma grande empresa, encontramos, um dia, a seguinte nota: 
-Quem é você, que chegou tão de mansinho e conquistou meu coração de forma tão absoluta? Lembro que, quando você se fez anunciar, encheu de ansiedade o coração de sua mãe e me acenou com o doce encantamento de ser pai. Aguardei sua chegada, entre noites indormidas de sua mãe, tentando acomodar a barriga de uma e de outra forma, enquanto você crescia dentro dela. Afinal, você chegou! Era tão pequena, tão miúda, que no primeiro momento tive medo de machucá-la, ao segurá-la em meus braços musculosos. Minhas mãos pareciam tão desajeitadas e grandes para segurar algo tão delicado. Nos dias seguintes, fui descobrindo a sua fortaleza, enquanto você se entregava aos meus cuidados, tão frágil, tão dependente. Fui me sentindo um gigante, com a enorme responsabilidade de responder pela vida de um pequenino ser, que confiava totalmente em mim. Um ser que dormia em meu colo e se aquietava em meu peito, quando a aconchegava junto a mim. Uma criaturinha que ficava me olhando, emitindo sons que eu nem entendia, enquanto eu trabalhava ao computador. Depois fui descobrindo a maravilhosa potencialidade que dormitava em você, na medida em que os meses foram passando e você se foi revelando. Recordo do interesse pelos meus livros. Claro. De início, o que você mais adorava era o som das páginas rasgando. E que belo estrago você fez em algumas das minhas revistas! Aos poucos, fomos nos entendendo e você foi compreendendo que devia respeitar certos espaços e certas coisas. Que podia ter acesso aos livros, às revistas, aos CD’s para deles usufruir, sem estragar. Quando menos esperava, lá estava você frente ao computador, imitando meus gestos, tentando digitar tão rápido quanto eu, manuseando o mouse, clicando aqui e ali, vitoriosa, retirando da impressora a folha reproduzindo o bicho colorido que você escolhera na página aberta da Internet. Depois veio a escola, e cada dia você retorna com uma musiquinha, um versinho, uma dobradura. Algo que você aprendeu, fez, criou. Cada dia você me conquista mais. Hoje sei que Deus mandou você para a minha vida para transformar minha intimidade. De homem de negócios, sempre sério, postura impecável, tornei-me o garoto que se ajoelha e se permite ser o seu cavalo de estimação, andando pela casa com você nas costas. Do ser quase indiferente, que não conseguia demonstrar carinho, você me transformou num homem que retribui a doçura do seu beijo com outro. E isto fez com que eu também me voltasse para sua mãe, para minha própria mãe e a elas também conseguisse demonstrar amor. Você me desperta pela manhã, com seu canto e sua voz, enquanto saltita pela casa e a mantém alegre todas as horas. Retorno do meu trabalho, cansado e, em poucos minutos, me recomponho ante a sua presença, que me salta nos ombros, quase me sufoca de abraços, dizendo da sua saudade, e me conta as mil pequenas coisas que fizeram o seu dia. Olho nos seus olhos, sentindo um afeto profundo jorrar de minha alma. Mergulho na limpidez do seu olhar e ante tanto que recebo de você, me pergunto: Quem é você, minha filha? Quem é você, dádiva de Deus, que veio me transformar em um ser melhor e me mostrar que o mais importante no mundo não é o que se tem, o que se compra, o cargo que se ocupa ou a função em que estamos? 
Redação do Momento Espírita, em homenagem a Nadine Helena Marcon. Disponível no CD Momento Espírita, v. 19, ed. FEP. 
Em 6.8.2021.