quinta-feira, 13 de novembro de 2025

QUANDO EU CHEGAR

Léopoldine Hugo
Ela se chamava Léopoldine e era a menina dos olhos do pai, Victor Hugo. 
Quando ele viajava, escrevia para ela quase todos os dias.
Aos quatorze anos, Léopoldine apaixonou-se. 
O pai não a desejava longe de si tão cedo e somente aos dezenove anos deu seu consentimento para o casamento.
Poucos meses depois, o marido, acompanhado do tio e do primo, embarcou em um barco a remo no rio Sena. 
O tempo estava calmo e Charles convidou a esposa para se juntar a eles.
Léopoldine recusou. 
Mas acabou por aceder à insistência do marido. 
Foram surpreendidos por uma repentina rajada de vento que virou o bote, prendendo os passageiros sob o casco. 
As tentativas de Charles de resgatar a esposa e os outros passageiros falharam. 
Os quatro se afogaram. 
Victor Hugo estava viajando. 
Ninguém sabia como contatá-lo. 
Seis dias depois da morte de Léopoldine, ele voltava de uma longa caminhada ao sol. 
Estava cansado, com sede, chegou a uma aldeia e entrou num café. 
Foi ali, no jornal, que ele descobriu que a melhor metade do seu coração estava morta. 
Caiu em profunda depressão. 
Os dez anos seguintes foram os mais sombrios de sua vida.
Nada do que produzia aliviava sua angústia. 
Dez dias antes da morte da filha querida, viajando pelos Pirineus, ele lhe enviara uma carta. 
A página, cuidadosamente construída, é mais um testemunho da sua terna devoção à filha mais velha e ao marido dela.
VITOR HUGO
-Escrevi para sua mãe, minha querida filha, sobre o passeio que estou fazendo por estas montanhas. Envio no verso desta carta um pequeno rabisco que lhe dará uma ideia das coisas que vejo todos os dias, que me parecem muito bonitas, e que pareceriam ainda mais bonitas se eu as visse com você. Os Pireneus estão cheios de blocos estranhos que imitam prédios desabados. Além disso, os próprios Pireneus nada mais são do que um grande edifício tombado. Os dois triângulos brancos que você vê entre as montanhas são neve. Tenho os olhos doloridos. É verdade que trabalho muito. Diria que incessantemente. Assim é a minha vida. Trabalhar é cuidar de todos vocês. Continue rindo e se cuidando. Brilhe, minha filha. Você está nessa idade. Beijos a você e a Charles, do fundo do meu coração.
Em 1853, no exílio, na ilha de Jersey, ele foi visitado pela amiga Delphine de Girardin. 
A visita foi marcada pela realização de várias sessões mediúnicas. 
Numa delas, apresentou-se Léopoldine. 
Victor Hugo pareceu ressurgir do seu estado de tristeza para a claridade de uma certeza: sua filha vivia a imortalidade. 
E lhe dedicou um poema, cujos versos asseguravam:
Amanhã, ao amanhecer, enquanto o campo clareia, partirei.
Você está me esperando. Eu sei. 
Passarei pela floresta e pela montanha. 
Não posso mais ficar longe. 
Caminharei com os olhos fechados, sem ver nada que me rodeia, sem ouvir nenhum som. 
Sozinho, desconhecido, costas curvadas, mãos cruzadas. 
E triste. 
 Quando eu chegar, colocarei em seu túmulo um buquê de azevinho verde e urze em flor. 
* * * 
O coração do pai murmurava canções de amor à filha querida.
Redação do Momento Espírita, com base em diversas notas virtuais. 
Em 13.11.2025

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

MORRER É VOLTAR PARA CASA

Quando a morte chega, com sua bagagem de mistérios, traz junto divergências e indagações. 
Afinal, quando os olhos se fecham para a luz, o coração silencia e a respiração cessa, terá morrido junto a essência humana? 
Materialistas negam a continuação da vida. 
Mas os espiritualistas dizem que sim, a vida prossegue além da sepultura. 
E eles têm razão. 
Há vida depois da morte. 
Vida plena, pujante, encantadora. 
Prova disso? 
As evidências estão ao alcance de todos os que querem vê-las. 
Basta olhar o rosto de um ser querido que faleceu e veremos claramente que falta algo: a alma já não mais está ali. 
O Espírito deixou o corpo feito de nervos, sangue, ossos e músculos. 
Elevou-se para regiões diferentes, misteriosas, onde as leis que prevalecem são as criadas por Deus.
Como acreditar que somos um amontoado de células, se dentro de nós agita-se um universo de pensamentos e sensações? 
Não. 
Nós não morreremos junto com o corpo. 
O organismo voltará à natureza - restituiremos à Terra os elementos que recebemos - mas o Espírito jamais terá fim.
Viveremos para sempre, em dimensões diferentes desta. Somos imortais. 
O sopro que nos anima não se apaga ao toque da morte.
Prova disso está nas mensagens de renovação que vemos em toda parte. 
Ou você nunca notou as flores delicadas que nascem sobre as sepulturas? 
É a mensagem silenciosa da natureza, anunciando a continuidade da vida.
Para aquele que buscou viver com ética e amor, a morte é apenas o fim de um ciclo. 
A volta para casa. 
Com a consciência pacificada, o coração em festa, o homem de bem fecha os olhos do corpo físico e abre as janelas da alma. 
Do outro lado da vida, a multidão de seres amados o aguarda.
Pais, irmãos, filhos ou avós - não importa. 
Os parentes e amigos que morreram antes estarão lá, para abraços calorosos, beijos de saudade, sorrisos de reencontro.
Nesse dia, as lágrimas podem regar o solo dos túmulos e até respingar nas flores, mas haverá felicidade para o que se foi em paz. 
Ele vai descobrir um mundo novo, há muito esquecido.
Descobrirá que é amado e experimentará um amor poderoso e contagiante: o amor de Deus. 
Depois daquele momento em que os olhos se fecharam no corpo material, uma voz ecoará na alma que acaba de deixar a Terra.
E dirá, suave: 
-Vem, sê bem-vindo de volta à tua casa. 
* * * 
A morte tem merecido considerações de toda ordem, ao longo da estada do homem sobre a Terra. 
É fenômeno orgânico inevitável porque a Lei Divina prescreve que tudo quanto nasce, morre. 
A morte não é pois o fim, mas o momento do recomeço.
Pensemos nisso. 
Redação do Momento Espírita. Disponível no Cd Momento Espírita, v. 17, ed. Fep. 
Em 28.10.2010.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

NO CONTROLE DE TUDO

Não é medo da morte, nem medo de morrer. 
É aquela sensação de falta absoluta de controle. 
Controle sobre qualquer coisa, pois tudo está nas mãos de outros: quem fabricou a bendita aeronave; quem a inspecionou antes de cada voo (e em especial deste aqui); quem está na cabine no comando de todos aqueles dispositivos e aparelhos complexos. 
E se hoje for o último dia do avião? 
E se hoje alguém deixou de averiguar os sistemas tim-tim por tim-tim? 
E se, justo hoje, o piloto não estiver bem? 
Não é medo da morte, nem medo de morrer. 
É um sentimento de ter que confiar em alguma coisa, em alguém além de nós mesmos para gerenciar questões tão complexas. 
No entanto, vejamos que, desde que nascemos, fazemos isso, muitas vezes, talvez sem perceber. 
Confiamos no médico que fará o parto. 
Confiamos na mãe ou em quem cuidará de cada mínimo detalhe dos nossos primeiros frágeis meses de vida.
Confiamos no que diz o termômetro. 
Confiamos em quem fabricou o remédio. 
Confiamos na fábrica que produziu o ônibus ou o carro que nos leva daqui para ali todos os dias. 
Confiamos no elevador. Pois é, até no elevador nós confiamos! 
Confiamos no engenheiro e na equipe que ergueu a casa ou o prédio onde temos nosso lar. 
Nós nos achamos no controle de tanta coisa, mas, na verdade, não controlamos quase nada. 
Nós confiamos. 
Algo em nossa essência sabe confiar. 
O instinto confia. 
Vejamos como o instinto é sábio.
O instinto é uma inteligência essencial, rudimentar, colocada em todos nós pela natureza, colocada em nós pelo Criador.
Sim, exatamente Deus, a Suprema Inteligência por trás de tudo. 
Se quisermos dizer que há algo no controle de tudo, aí está: Deus. 
E não você nem eu. 
Nenhum de nós. 
Nós só controlamos os pensamentos. 
E aqui um parênteses bem grande, pois mesmo eles são difíceis de serem administrados e controlados. 
Por consequência, controlamos as palavras e os atos, ainda com bastante dificuldade. 
Assim, diante desse nosso desejo de querer controlar tudo, de querer ter tudo como imaginamos, vale uma boa reflexão. 
Um sábio certamente diria, com poucas palavras: 
-Sossega um pouco. Uma boa dose de humildade e calma vai bem. 
Olhemos mais para quem realmente está no comando de tudo e confiemos um pouco mais. 
Não deixemos que a ansiedade nos atemorize utilizando seus subterfúgios. 
Epicteto, grande filósofo estoico, afirmava que, quando vivemos dentro de nossa esfera de controle, somos naturalmente livres, independentes e fortes. 
Porém, se quisermos depositar nossas esperanças naquilo que está fora de nosso controle, tomando para nós aquilo que pertence a outros por direito, estaremos sujeitos a tropeçar, cair, sofrer e culpar tanto a Divindade quanto os homens. 
Os seguidores dessa filosofia, inclusive, atrelavam a conquista da felicidade justamente a esta compreensão íntima: entender aquilo que está sob nosso controle e aquilo que não está.
Pensemos sobre isso. 
Permitamos que o Pai faça seu trabalho. 
Confiemos e façamos o nosso. 
Redação do Momento Espírita 
Em 11.11.2025

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

A GENIALIDADE NÃO PERCEBIDA

Joseph Brodsky
Ele tinha dez anos. 
Chamava-se Joseph Brodsky e frequentava a escola na pacata cidade de Polyany, na Rússia. 
Ele a achava sufocante, enfadonha. 
O que nos recorda o personagem criado por Maurice Druon, Tistu. 
Ele aprendera as primeiras letras, as somas, subtrações e divisões com sua mãe. 
Quando o mandaram para a escola, o resultado foi lamentável. 
Quando começava o lento desfile das letras que caminham a passo pelo quadro-negro, quando começava a se desenrolar a monótona corrente dos três vezes três, cinco vezes cinco, sete vezes sete, ele caía no mais profundo sono. 
Tistu colecionou muitos zeros, recebeu reprimendas de toda ordem. 
Nada pareceu adiantar. 
Desistindo daquele aluno, o professor enviou uma carta ao pai: 
-O seu filho não é como todo mundo, não é possível conservá-lo na escola. 
Para Joseph, o relatório escolar foi mais contundente. 
Foi qualificado como teimoso, preguiçoso e mal-educado. 
Não fazia os deveres de casa ou os fazia de qualquer jeito.
Seus cadernos foram considerados uma bagunça de rabiscos.
Brodsky não era o aluno preferido de ninguém. 
Pulou de instituição em instituição, repetiu séries. 
No oitavo ano, decidiu abandonar a escola. 
Sem diploma, sem futuro promissor, sem reconhecimento, Brodsky sobreviveu em trabalhos aleatórios. 
No entanto, em silêncio, ele escrevia. 
Escrevia como quem respira, como quem se ancora ao mundo. 
Após entrar em conflito com as autoridades soviéticas e ser exilado em 1972, estabeleceu-se nos Estados Unidos, onde se tornou um poeta laureado americano e lecionou em universidades de prestígio. 
Seus livros de ensaios e as coleções de poesia abordam temas como a vida, a morte e a liberdade individual, combinando uma linguagem lírica com ideias eruditas. 
Em 1987, aquele menino de cadernos rabiscados, considerado preguiçoso e sem valor, assombrou o mundo, recebendo o Prêmio Nobel de Literatura. 
Não se tratava apenas de um reconhecimento individual, mas de uma lição universal. 
O talento, muitas vezes, floresce em terrenos improváveis, desafiando a lógica das instituições. 
A grande literatura não é produto de programas ou sistemas, mas da solidão humana que se recusa a calar, declarou ele mesmo, em seu discurso em Estocolmo. 
Sua história nos lembra de que há criaturas que não se ajustam aos padrões vigentes porque carregam dentro de si algo muito próprio, que transcende o que consideramos normal, desejável e apreciado. 
Joseph Brodsky prova que o brilho não se mede em boletins, que o talento não se curva às regras, e que alguns espíritos não foram feitos para seguir caminhos traçados. 
Mas para reescrevê-los, mostrando-nos algo diferente do nosso comum. 
Quantos seres semelhantes já tivemos em nosso mundo?
Quando aprenderemos a ser mais atentos, menos preconceituosos, mais maleáveis ao novo, ao inusitado?
Olhos de ver, ouvidos de ouvir, coração de sentir. 
Ainda e sempre valiosas recomendações para não desconsiderarmos criaturas de valor, que transitam ao nosso lado, em nosso tempo. 
Redação do Momento Espírita, com base no cap. 4, do livro O menino do dedo verde, de Maurice Druon, ed. Livraria José Olympio, e em dados biográficos de Joseph Brodsky, além de artigos e notas a seu respeito, postadas em redes sociais variadas. 
Em 10.11.2025

domingo, 9 de novembro de 2025

MORRER É NATURAL

Certos assuntos, em nossas vidas, ainda são encarados com o ranço dos posicionamentos preconceituosos. 
Ideias alimentadas na ignorância da Idade Média, em especial, passam pelas gerações, atemorizando as almas.
Existem pessoas que não podem ouvir falar em morte. Perturbam-se, perdem o sono. E nem conversam a respeito.
No entanto, vemos que as novas gerações não apresentam temor, ao contrário, trazem uma tranquilidade interior. 
E foi o que demonstrou aquela menina, surpreendendo a todos. 
Ela tinha um cachorro pequeno, Pitoco, que era toda a sua alegria. 
Quando ia para a escola, fazia questão de despedir-se do amiguinho, dizendo que logo voltaria. 
Pois Pitoco adoeceu e os remédios, receitados pelo veterinário, aliados a cuidados adicionais recomendados, não faziam efeito algum.
Naquele dia, enquanto Lia estava na escola, o cachorro piorou e, depois de uma curta agonia, morreu. 
Os pais ficaram muito apreensivos. 
Como contariam para a filha que Pitoco morrera? 
Como ela se sentiria, sobretudo por não ter estado presente à sua morte? 
Indagavam-se qual seria a reação dela. 
E, por isso, ensaiaram a melhor maneira de contar o acontecido. 
Quando Lia chegou em casa, percebeu o clima tenso, pesado.
Inteligente, logo imaginou que o seu amiguinho tivesse piorado e correu para o seu cantinho. 
A mãe lhe cortou o caminho, o pai a olhou preocupado. 
E, embora os tantos ensaios para a escolha das melhores palavras, nenhum deles conseguiu dizer nada. 
Ela deduziu e perguntou: 
-Vocês estão com este jeito estranho por que o Pitoco morreu? Meu cachorrinho se foi? 
Ante o assentimento mudo dos pais, ela foi se encaminhando ao local onde estava o cadáver do seu amiguinho. 
-Tadinho do Pitoco. Mas, como ele estava muito doente, melhor assim. Afinal, todos morremos, não é mesmo? Tudo morre: as plantas, as flores, as árvores. Também os bichos, as pessoas. É a vida. 
Os pais se olharam, surpresos. 
E descobriram, naquele momento, com as expressões da filha, que ela tinha uma visão muito mais clara a respeito da vida e da morte do que eles próprios. 
* * * 
Muita gente acostumou-se a ver a morte como ponto final de tudo. 
Há fantasias e crendices que penetram a mente das pessoas de tal modo que passam a lhes minar a segurança íntima, determinando pavores cruéis que maltratam as criaturas. 
Bom seria se na educação da criança e do jovem, nas conversas entre adultos, e em todos os meios de comunicação, não se desprezasse a importância desse tema.
Se existe uma certeza em nossa vida, é a de que morreremos um dia. 
Portanto, estarmos preparados para enfrentar essa realidade seria um grande avanço na nossa maneira de viver. 
Saber que quem morre é apenas o corpo físico, que somos imortais e conservamos nossas capacidades cognitivas e emocionais, nos deixaria mais serenos. 
Também saber que reencontraremos nossos amores; que poderemos refazer nossos enganos; que teremos novos recomeços. 
Ter certeza de que a morte, que nos tolhe a vida física, significa simplesmente que vencemos mais uma etapa na linha do progresso. 
Pensemos nisso! 
Redação do Momento Espírita, com base no capítulo 20, pt. V, do livro Todos precisam de paz na alma, pelo Espírito Benedita Maria, psicografia de Raul Teixeira, ed. Fráter. 
Em 06.10.2015.

sábado, 8 de novembro de 2025

MORRENDO PARA VIVER

KISA GOTAMI
Conta-se que, no tempo de Buda, uma jovem chamada Kisa Gotami sofrera uma série de tragédias. 
Primeiro foi seu marido que morreu, depois um outro familiar.
Tudo que lhe restava era seu único filho. 
Logo ele também adoeceu e morreu. 
Lamentando-se de dor, ela tomou nos braços o corpo do filho morto e passou a carregá-lo por toda parte, pedindo ajuda.
Deveria haver, em algum lugar, alguém ou algo, um remédio, uma poção que o trouxesse de volta à vida. 
Sua busca, no entanto, se mostrou infrutífera. 
Até que ela se achegou frente a Buda, que estava ensinando em um bosque. 
Aproximando-se, suplicou em pranto para que ele trouxesse seu filho de volta à vida. 
Buda, de imediato, concordou. 
Disse-lhe, contudo, que ela precisava lhe trazer um punhado de sementes de mostarda. 
Com um detalhe muito importante. 
Deveria obter as sementes de uma família onde ninguém tivesse morrido. 
Nem pai, nem mãe, nem esposo, nem filho ou amigo. 
A jovem voltou correndo para a vila. 
Na primeira casa que entrou e explicou a sua tragédia, logo recebeu as sementes. 
Quando se retirava, lembrou-se de perguntar se alguém morrera naquela casa. 
-Sim, disseram eles. Foi no ano passado. 
Ela saiu a correr. 
Entrou na casa ao lado. E na outra. E outra mais. 
Em todas, alguma morte havia ocorrido. 
Era uma tia, um filho amado, uma filha recém-nascida. 
Um pai amoroso. Uma mãe carinhosa. 
O que quer dizer que, depois de uma longa busca, ela não encontrou nenhum lar que não tivesse entrado em contato com a morte. 
Debruçando-se de dor, deu-se conta de que o que acontecera a ela e ao seu filho, acontece a todos. 
Todos os que nascem, morrem um dia. 
Então, carregou o corpo do filho morto até onde estava Buda e lá o enterrou. 
Depois, curvou-se diante de Buda e pediu que ele lhe ensinasse as coisas que lhe trouxessem sabedoria e refúgio, neste mundo onde se nasce e se morre. 
Os ensinamentos de Buda calaram profundamente em seu coração e ela iniciou a importante atitude de educar-se para a morte. 
DIVALDO PEREIRA FRANCO
Na qualidade de pais, nos preocupamos bastante em educar os nossos filhos, desejando vê-los se tornarem cidadãos produtivos e honrados. 
O nosso é o anseio de os ver progredir, alcançar êxito na vida, sucesso em suas carreiras profissionais. 
Tornarem-se pais e mães conscientes. 
Tudo muito louvável. 
Mas seria bastante oportuno que nos lembrássemos de os preparar, desde a infância, para a realidade da morte. 
Isto porque o encontro com a morte é certo. 
Informá-los a respeito do que ela significa e afastar o terror de a enfrentar, acenando-lhes com a vida imortal é sinal de previdência e sabedoria. 
* * * 
É curioso notar que em nosso tempo cuidamos da educação para a vida e esquecemos de que vivemos para morrer. 
A morte é o nosso fim inevitável e, no entanto, chegamos a ela sem o menor preparo. 
Quem primeiro cuidou da educação para a morte, em nosso tempo, demonstrando a necessidade do homem aprender a morrer, foi o mestre francês Allan Kardec. 
Por anos seguidos, ele falou a respeito com os Espíritos dos chamados mortos e, em agosto de 1865, lançou uma obra que descreve a situação dos Espíritos no plano espiritual.
Chama-se O céu e o inferno - a Justiça Divina segundo o Espiritismo. 
Redação do Momento Espírita, com base em conferência proferida por Divaldo Pereira Franco. 
Em 17.01.2011.

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

A FASCINAÇÃO DOS NÚMEROS

O personagem de Saint-Exupéry, o pequeno príncipe, trouxe pensamentos sábios ao mundo. 
Uma de suas constatações nos diz que as pessoas adoram números. 
-Quando a gente fala de um novo amigo, elas nunca se interessam em saber como ele realmente é. – Afirma ele. Não perguntam: Qual é o som da sua voz? Quais são seus brinquedos preferidos? Ele coleciona borboletas? Mas sempre perguntam: Qual é a sua idade? Quantos irmãos ele tem? Quanto pesa? Quanto o pai dele ganha? Só então elas acham que o conhecem. – Conclui ele. 
Exupéry nos convida a redescobrirmos o que há de bom na infância, a redescobrir a pureza, a essência das coisas e da vida. 
Quando nos fala, de forma até inocente, sobre as pessoas e os números, nos alerta para algo grave: viciamo-nos em números. Associamos o tempo a números. 
Esquecemos que os numerais atribuídos à medição do tempo são convenções, e nos escravizamos a elas. 
Muito tempo. Pouco tempo. Não vai dar tempo. Tempo de sobra. 
Sessenta segundos. Sessenta minutos. Vinte e quatro horas.
Trezentos e sessenta e cinco dias. 
São números que parecem nos perseguir. 
Vivem em nossos sonhos, pesadelos e em nossas urgências maiores. 
Esquecemos que o tempo é oportunidade, é sucessão de experiências e de fatos, e que deve ser aproveitado ao máximo, tendo em vista nosso crescimento espiritual. 
Quinze anos de vida. Trinta anos. Terceira idade. 
São rótulos que criamos no mundo, e que, na verdade, não correspondem à idade verdadeira, à idade da alma. 
A idade da alma não está associada ao tempo dos números, mas à disposição, ao humor, ao ânimo, à coragem.
Encantamo-nos ao ver relatos de pessoas que, depois dos noventa anos vão aprender a ler. 
E se dizem realizadas, sentindo-se mais jovens do que nunca.
Não é força de expressão. Elas são jovens mesmo. 
A idade do corpo pode ser disfarçada, maquiada. 
Nunca a da alma. 
Como avaliar alguém, pelo número de dígitos em sua folha de pagamento? 
Pelas roupas que pode comprar? 
Pelas viagens que pode fazer ou pelo ano de seu automóvel?
Muitos temos números como objetivos: números na balança, números das loterias, número de clientes, números de metas de vendas. 
Falta-nos descobrir que o mundo verdadeiro não é feito de numerais, que as aquisições de maior valor nunca poderão ser calculadas dessa forma. 
É tempo de conhecermos os outros e a nós mesmos pelo que somos, e não por aquilo que os números podem contar.
Números nunca poderão medir felicidade. 
Números nunca poderão mensurar alegria, nem avaliar o amor. 
* * * 
Se neste mundo não pudermos escapar dos números, pensemos nestes: 
Quantos sorrisos damos ao dia? 
Há quanto tempo não dizemos que amamos alguém? 
Aquele eu te amo dito e sentido por todas as partes da alma?
Quantos segundos duram nossos abraços? 
Qual a data que escolhemos para abandonar um vício, para nos libertarmos de algo que nos escraviza? 
Quantos dias faltam para começarmos a ser feliz? 
Redação do Momento Espírita, com base em citação da obra O pequeno príncipe, do livro Felicidade, Amor e Amizade – A sabedoria de Antoine de Saint-Exupéry, ed. Sextante. 
Em 07.11.2025