quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

SONS QUE NÃO OUVIMOS

Cremos que nós, os seres humanos, podemos ser os últimos a descobrir a grandeza da trilha sonora subterrânea. 
Olhando os pássaros nos gramados, os observamos pulando, com a cabeça em riste e nos perguntamos: 
-Como eles bicam o solo, no momento certo, para puxar sua presa? 
Na verdade, pesquisadores acreditam que eles ouvem as larvas e minhocas embaixo da terra. 
Há muitos sons subterrâneos, é o que estão descobrindo. 
Utilizando sensores que funcionam como nossos microfones de contato, esses observadores os estão desvendando. 
Dizem que alguns desses sons são audíveis para o ouvido humano.
Porém, muitos têm frequência e volume altos ou baixos demais para a nossa capacidade auditiva. 
Em verdade, quando, depois de dias de calor intenso, chega a chuva, se prestarmos atenção, poderemos escutar os ruídos da terra sorvendo o líquido generoso, como quem, com muita sede bebe água, ruidosamente.
Uma bióloga enterrou duas dúzias de sensores acústicos no solo para gravar as larvas cuidando das suas atividades. 
Descobriu que cada espécie delas emite sons particulares. 
Ouvindo suas gravações, algumas pessoas dizem que se parecem com os rangidos de uma árvore. 
Outras descrevem como pedaços de lixa sendo esfregados entre si.
Quanto temos a descobrir, na natureza. 
O som viaja através do ar é o que aprendemos. 
Quando atinge os nossos ouvidos, faz vibrar os tímpanos e é levado ao cérebro. 
Traduzindo, ouvimos. 
No entanto, o som pode se mover através de outros meios, como a água ou o solo. 
Os elefantes conhecem bem esse processo. 
Eles vocalizam um estrondo em baixa frequência, que se propaga através do solo, permitindo que façam contato com irmãos distantes, que captam os sinais com a sola das suas patas. 
Por sua vez, cientistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts descobriram que existem sons da própria Terra, que são como impressões digitais da estabilidade rochosa. 
Se pudéssemos penetrar fundo na crosta terrestre, poderíamos ouvir, com uma audição atenta, a cacofonia de estrondos e estalidos pelo caminho.
Fissuras, poros e defeitos ao longo das rochas são como trilhas que ressoam quando sob pressão. 
Segundo esses geólogos, o ritmo e o compasso desses sons pode dizer algo sobre a profundidade e a força das rochas ao nosso redor. 
Quanto mais profundo se vá, afirmam, elas cantarão em compassos cada vez maiores. 
Estudiosos se detêm a descobrir os sons da Terra e dos seus habitantes subterrâneos. 
E nos extasiamos com o mundo espetacular ainda a ser descoberto, na intimidade do planeta, na diversidade imensa de criaturas que a habitam.
* * * 
Interessante nos perguntarmos se estamos ouvindo o nosso semelhante.
Esse que caminha ao nosso lado, que mostra a face tristonha, a cabeça baixa, o peso do mundo em seus ombros... 
Conseguimos ouvir o lamento da sua alma a suplicar: Olhe para mim, me ajude?
Pode ser o familiar, debaixo de nosso teto. 
Ou um companheiro de trabalho, imerso em dificuldades. 
Exercitemos nossos ouvidos, aqueles da alma, porque os sons da dor e da solidão somente podem ser captados dessa forma. 
Redação do Momento Espírita, com base no artigo Como os cientistas começam a desvendar os sons desconhecidos da Terra, publicado originalmente na revista Knowable, da ed. Annual Reviews. republicado pelo site BBC Future e no artigo Boom, crackle, pop: Sounds of Earth’s crust, de Jennifer Chu, do Massachusetts Institute of Technology. Disponível em 
file:///D:/Documentos/Downloads 20231009_MIT_Sounds20Earth%20(1).pdf. 
Acessado em 14.10.2023. 
Em 13.12.2023

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

LIÇÃO INESQUECÍVEL

DIVALDO PEREIRA FRANCO
E
JOANNA DE ÂNGELIS
Na atualidade, é bastante comum os casais se queixarem um do outro. 
A esposa critica o marido por suas manias, por lhe cercear a liberdade e por outras tantas coisas. 
O marido reclama dos gastos da esposa, do tempo que demora para se arrumar toda vez que decidem sair, e daí por diante.
É natural que numa roda de amigas, quando o assunto é marido se comentem os defeitos deles e como elas poderiam ser mais felizes sem eles. 
Assim foi numa tarde, na academia, onde uma senhora, que aparentava um pouco mais de quarenta anos, se encontrava. 
Alguém comentou que invejava a sua felicidade. 
Ela era uma mulher que transpirava alegria. 
Dedicava-se a obras de caridade, estudava música. 
Mas, em tudo que fazia, havia uma tonalidade de alegria contagiante. 
-Qual era o segredo, afinal? - Perguntou uma das amigas. 
-Devo tudo ao meu marido. - Respondeu rápido.
-Como assim? Tornou a perguntar a outra.-Ele acompanha você a todo lugar, incentiva você, o que ele faz? 
E uma pontinha de inveja adornava as perguntas agora. 
Como podia aquela mulher ser tão feliz com seu marido? 
Mas a outra tornou a responder: 
-Bem, meu marido morreu. 
Na roda de amigas, houve um grande silêncio e, pela mente de todas elas, passou a ideia: 
-Claro que ela é feliz. Ele devia ser um carrasco. Ele morreu e ela se libertou. 
No entanto, continuando a explicar, a viúva disse: 
-Enquanto vivemos juntos e foi pouco mais de vinte anos, esse homem me ensinou a amar. Quando nos casamos, eu era uma jovem tola, cheia de sonhos, vivendo a irrealidade. Ele era um homem prático, mas extremamente sensível. Amante da poesia, ensinou-me a amar os versos, a descobrir a beleza nas rimas. Nas horas de folga, tornava-se jardineiro. Ensinou-me a amar a terra, as flores, a semear e esperar o crescimento e a floração. Gostava de boa música. Com ele aprendi a ir ao teatro para assistir a concertos de música clássica e shows de música popular. Ele me instruiu nos primeiros caminhos dessa bela arte. Esse homem me ensinou a amar a vida e nela descobrir valores. Deu-me a conhecer o verdadeiro valor de uma amizade, a não desprezar nenhuma manifestação de carinho, por menor que pudesse ser. Ensinou-me a amar a natureza, bendizendo o sol e a chuva, em suas alternâncias. A não reclamar do frio, nem do calor excessivo. Ele me ensinou a ver em tudo a Providência de Deus a nos abençoar. Por isso, quando ele se foi, quando pensei entregar-me à tristeza, recordei-me dos anos vividos e das lições repassadas. Em memória dele, não posso deixar de ser feliz e transmitir felicidade a todos.
* * * 
A vida é o hálito do Pai Criador em Sua soberana manifestação de amor.
Examinemos nossa vida e das experiências de todos os dias retiremos o melhor proveito. 
Nossa vida se constitui de bênçãos e sofrimentos.
Exatamente como no jardim existem duas formas de encontrar as rosas: pelo aroma ou pelos espinhos, nossa vida depende da forma que encaramos o que nos rodeia, o que nos chega, o que nos acontece.
Redação do Momento Espírita, com pensamentos finais extraídos do livro Repositório de sabedoria, v. 2, pelo Espírito Joanna de Ângelis, psicografia de Divaldo Pereira Franco, ed. Leal. 
Em 10.06.2011.

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

OS INIMIGOS DA NOSSA CASA

Toda vez que retomamos as páginas dos Evangelhos, encontramos um item que nos surpreende. 
Lemos de outras vezes e, no entanto, há um momento em que um versículo salta aos nossos olhos. 
Parece-nos que uma luz se acende na mente, como algo totalmente inédito. 
Foi assim que as letras registradas pelo Evangelista Mateus nos chamaram a atenção. 
Talvez porque, há pouco, um pequeno desentendimento tivesse nos ocorrido no lar. 
Algumas palavras, ouvidas em momento de contratempo e o diálogo não tão delicado, nos ressoavam na alma. 
Tornamos a ler: 
"Os inimigos do homem são os que vivem em sua própria casa."
-É verdade!
Dissemos em voz alta, como dando total razão à afirmativa. 
E a pequena rusga, recente, tomou vulto. 
Revivemos o episódio, agora com coloridos fortes, adicionando o amargor de termos sido contrariados em nossa vontade. 
Ruminando pensamentos por minutos, nos permitimos penetrar num ambiente de sombras. 
A estrada escura nos levou ao vilarejo da mágoa e nos perguntamos como podemos ser assim desafiados. 
Como as pessoas que vivem conosco, com as quais dividimos o teto, a mesa, o pão, podem se permitir discordar de nós? 
Logo mais, uma porta se abriu e descobrimos um cômodo escuro.
Deixamos nos envolver pelo ressentimento. 
Em breve, nos consideramos a pessoa mais infeliz do mundo, mais incompreendida, mais... 
Então, o despertador da consciência soou. 
E nos demos conta de como é fácil nos desequilibrarmos. 
Como é fácil culpar os outros pelas nossas próprias falhas. 
Saímos rapidamente daquele local sombrio e triste. 
Refletindo, entendemos que a casa de que falava o Sábio de Nazaré é a nossa intimidade. 
Os inimigos são aqueles que nos permitimos alimentar: a raiva, o ressentimento, a mágoa. 
Se não pararmos, logo chega o ódio com sua carga nociva, pronto para destruir relações de longo prazo. 
Será o mote para o conflito, para o rompimento de laços afetivos de variada ordem. 
Sim, os inimigos de nós mesmos são os da nossa própria casa. 
Da casa mental, da casa dos sentimentos. 
Tomemos a decisão de lhes dar ordem de despejo, o mais rápido possível. 
Sem apelação, sem retardo. 
Comecemos por algo simples. 
Vistamos o manto aveludado da calma, abramos nossos ouvidos para ouvir o que tenham a dizer os que convivem conosco. 
Depois, façamos um exame de nós mesmos e verifiquemos o quanto do que nos foi dito é verdade e deve ser aceito por nós. 
Se precisarmos elucidar alguma coisa, que o façamos, depois de pensar bem e escolher, no dicionário da mansuetude, as palavras mais adequadas, a fim de não criar problemas para nós e para os outros. 
Hoje, há uma grande preocupação em se falar o politicamente correto. 
Também em falarmos mais de um idioma, a fim de melhor nos comunicarmos. 
Mais do que tudo, precisamos nos preocupar com falar o que não agride, não ofende, não maltrata. 
Aquilo que esclarece, conforta, consola, apoia. 
Mais do que falar vários idiomas, cabe-nos aprender a usar as palavras mais doces, mais ajustadas. 
Pensemos nisso. 
Redação do Momento Espírita, com transcrição do Evangelho de Mateus, cap. 10, vers. 36. 
Em 11.12.2023.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

LIÇÃO INESPERADA

Era uma tarde quente e abafada. 
O céu nublado ameaçava novas chuvas em uma região já castigada pelas enchentes e deslizamentos. 
Em um posto de saúde, um grupo de médicos voluntários se esforçava para atender a tantos necessitados. 
Em um dos consultórios uma das médicas voluntárias lê a próxima ficha a chamar e fica temerosa: sua especialidade não é pediatria. 
Mas, era preciso atender, pois não havia pediatra no local. 
Invocando ajuda de Esferas Superiores, ela abre a porta e chama o próximo nome. 
A paciente, de dois anos incompletos, entra no colo de sua jovem mãe, que trazia um sorriso nos lábios. 
A queixa era de febre e falta de apetite. 
Estavam morando em um abrigo. 
Apesar de recém chegada no local, a médica já entendera que era preciso escutar o relato daquelas pessoas que perderam tanto: familiares, amigos, pertences e a própria casa. 
Perguntou, então, o que havia ocorrido. 
A família saíra de casa quando a água começara a subir, e, na busca por um terreno seco, viu casas invadidas por água e lama, casas ruindo, vizinhos em desespero. 
Não tiveram tempo para levar nada. 
Esperaram socorro molhados e com frio. 
Foram resgatados por bombeiros e levados a um dos abrigos improvisados. 
Após uma semana, a criança começara a ter febre. 
O exame clínico demonstrou amigdalite. 
Providenciada a medicação, e, após as recomendações clínicas, despediram-se com um abraço. 
A médica voluntária disse à mãe que procuraria orar por eles e ouviu a seguinte resposta: 
-Muito obrigada! Eu sei que Deus está sempre olhando por mim, pois nada me aconteceu. Minha família está viva, e eu pude contar com o socorro dos bombeiros, com o abrigo para ficar, e agora com o atendimento médico. O resto, disse ela, a gente reconstrói. A vida é o mais importante. 
* * * 
Aquelas palavras marcaram a voluntária. 
Fechada a porta, a reflexão foi inevitável. 
O sorriso da jovem mãe não lhe saía da cabeça. 
Chamou-lhe a atenção a gratidão que ela demonstrou a Deus. 
Nenhuma revolta, nenhuma reclamação, somente a gratidão pela vida. 
A médica refletiu o quanto o Mundo Espiritual atua constantemente, nos permitindo aprender sempre! 
Ela, que estava ali para ajudar, havia aprendido uma grande lição: quando a fé em Deus é verdadeira, o sofrimento parece menor, e a vida torna-se bem mais fácil. 
Sim, a vida: uma chance maravilhosa de evoluir, resgatar, crescer e de amar! 
Enquanto pensava, lágrimas lhe vieram aos olhos. 
Agradeceu a Deus poder estar ali ajudando. 
Agradeceu por ter uma casa e uma família para reencontrar. 
Agradeceu por reconhecer que os problemas que acreditava possuir eram tão pequenos!
Então, com um sorriso nos lábios, levantou-se, sentindo suas energias renovadas. 
Em seguida, abriu a porta e chamou o próximo paciente, certa de que poderia ajudar aquelas pessoas a celebrar o maravilhoso dom que lhes foi mantido: a vida!
Redação do Momento Espírita. 
Em 06.03.2009.

domingo, 10 de dezembro de 2023

LIÇÃO IMPORTANTE

O pequeno Alexandre é o quinto filho do jovem casal. 
Sem dúvida, uma criança adorável. 
No entanto, logo que começou a dominar os movimentos das mãos, o garoto mostrou certa tendência à agressividade. 
Quando um rosto estivesse ao alcance do seu minúsculo braço, ele não perdia tempo, estralava logo a mãozinha com toda sua força. 
Quando o rosto era de uma de suas irmãs ou do irmão, eles, por serem ainda crianças, achavam graça. 
Isso o fazia se sentir interessante e repetir a dose. 
Mas os pais, conscientes da sua responsabilidade de educadores, a cada tapa respondiam ao filho com uma demonstração de carinho. 
Passavam a mão com ternura no rostinho dele e lhe diziam: 
-“assim, filho, devagar. O neném é querido.” 
Aquele pingo de gente olhava, sério, para o pai ou a mãe e desferia outro tapa. 
Mas, como a missão da paternidade é um grande desafio de persistência e paciência, os pais continuaram, ao longo dos meses, oferecendo uma antítese em oposição à tese trazida por aquele espírito reencarnado num corpo infantil. 
Vendo o exemplo dos pais, os irmãos de Alexandre também passaram a responder com carinho a cada tapa recebido. 
Com o passar do tempo, o pequeno Alê, como é carinhosamente chamado pelos irmãos, foi aprendendo a lição. 
Agora, no auge do seu primeiro ano de vida, o garotinho já demonstra uma sensível mudança. 
Olha seriamente no rosto que está ao alcance do seu bracinho, diz uma porção de palavras que só ele entende, talvez justificando para si mesmo que fazer carinho é melhor que bater, e passa a mãozinha devagar. 
Outras vezes, ao invés de bater, ele encosta o cabeça no peito de quem o tem no colo, como querendo dizer:
-“senti vontade de lhe dar um bufete, mas vou me conter.” 
Não resta dúvida de que o trabalho de educação não está acabado. 
Os pais ainda terão que continuar reforçando a lição até que não reste mais nem vontade de agredir. 
Muitos pais, ao perceberem atitudes como a do menino Alexandre, agem de maneira equivocada. 
Ou reforçam a sua tese batendo também, ou acham graça. 
Considerando que a criança é um espírito milenar, que volta num corpo infantil para aprender, e se libertar de tendências e vícios equivocados, os educadores precisam ter lucidez para bem orientar. 
Se o espírito demonstra, desde o berço, propensão ao desequilíbrio ou manias infelizes, é preciso responder com lições nobres, para que ele aprenda a maneira correta de agir. 
A isso se chama amor exigente. 
É um amor que deseja ver o ser amado feliz e livre. 
E isso é trabalho que exige fôlego e muito bem-querer. 
E, às vezes, dura uma existência inteira. 
Mas, não resta dúvida de que é altamente compensador. 
Colaborar para que alguém cresça e encontre sua felicidade, é muito gratificante. 
Até porque esses espíritos que nos chegam como filhos, são os mesmos que, em tese, ajudamos a enveredar por caminhos de desequilíbrios e desatinos em existências passadas. 
Assim sendo, você que assumiu a missão de educador precisa conhecer seus educandos e fazer por eles o melhor ao seu alcance, com amor e dedicação. 
Você sabia? 
Que existem espíritos tão rebeldes que só conseguem ouvir a voz da ternura e do afeto? 
Para dissuadi-los da rebeldia não basta uma bela teoria nem a imposição da força. 
É preciso a lição do amor, exemplificado nas ações. 
Se você recebeu uma dessas almas em seu lar, é porque Deus confia na sua capacidade de lapidar esse diamante para devolvê-lo, um dia, mais belo e mais brilhante, ao seu verdadeiro Pai. 
Texto da Equipe de Redação do Momento Espírita.

sábado, 9 de dezembro de 2023

O ÚLTIMO CONCERTO

Era para ser mais um concerto da Orquestra Sinfônica da cidade, dentre a sua rica programação anual. 
Como de costume, a plateia preenchia quase que completamente os espaços do rico auditório. 
Grande a expectativa. 
Os músicos entram, recebidos com demorados aplausos. 
Após as últimas afinações dos instrumentos, um silêncio natural se faz.
Todos estão prontos para iniciar o concerto. 
A plateia aguarda a entrada do maestro. 
No entanto, é surpreendida por uma quebra do protocolo. 
Um dos músicos se levanta e toma a palavra. 
Em nome de todo o grupo, pede a um dos colegas instrumentistas para vir à frente. 
Era um músico que, desde a sua fundação, se apresentava na orquestra.
Nesse momento, é anunciada a sua aposentadoria. 
Ele seria substituído por outro ilustre instrumentista, como ele próprio. 
Os colegas, para seu último concerto, haviam lhe preparado uma homenagem. 
O auditório emocionado, em pé, rompe em aplausos calorosos. 
Os presentes dizem, dessa maneira, que estão gratos por todas as notas melódicas que, ao longo dos anos, ele arrancou do seu instrumento e lhes ofereceu. 
O músico recebe uma placa, em nome de toda a orquestra. 
Tímido e emocionado, ele agradece e retoma seu lugar, a fim de que siga a programação. 
Quem pudesse observar aquele homem, perceberia que algo diferente lhe ocorria. 
Seus olhos não percorriam apenas sua partitura mas, nos momentos de pausas mais longas, observava seus companheiros. 
Passava os olhos entre os vários naipes de instrumentos, rememorando cenas que ele houvera visto centenas de vezes. 
Era a última vez que, do lugar que ocupava, assim os podia observar, um a um. 
Olhou para o auditório suntuoso, repleto. 
Pisara tantas vezes neste palco e agora o deixaria para sempre. 
Em sua mente, com certeza, reviveu os inúmeros concertos, ensaios, repertórios diversos que teve de dominar, para oferecer o melhor de sua arte.
Encerrava ali um ciclo, etapa importante de aprendizado. 
* * * 
Assim acontece conosco, em nossa existência. 
A cada dia, somos convidados a um novo concerto na experiência da vida.
Utilizamos nosso mais nobre instrumento, o corpo físico, para executar a melodia. 
Porém, as músicas que a vida nos convoca a aprender, a ensaiar até o aprendizado feito, para uma execução impecável, são aquelas do coração.
O concerto da vida nos convida ao aprendizado de nobres sentimentos, a fim de que sejamos executores de melodias incomparáveis, em nosso caminhar pela vida. 
As plateias são as mais diversas: a família, o círculo de amigos, os colegas de trabalho, mesmo desconhecidos que cruzam nossos caminhos.
E, um dia, em nosso último concerto, nos despediremos do palco desta vida, para retornarmos ao mundo espiritual. 
Deixaremos o instrumento encerrado em um estojo e levaremos conosco o repertório emocional com o qual conduzimos nossos concertos. 
Por isso, enquanto ocupamos o palco da vida, nos ensaios e nas repetições, aproveitemos o ensejo de exercitar as emoções que ainda não executamos em nosso coração. 
Permitamos que ele entre em harmonia com as emoções nobres, que só a ele cabe executar. 
Redação do Momento Espírita 
Em 8.12.2023.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

A LIÇÃO DO TRIGAL

O trigal maduro parecia um mar imenso a ondular ao sabor do vento que brincava com as hastes. 
Logo mais, seria a época da colheita e, desejando mostrar ao filho a beleza natural, o lavrador o chamou para percorrer os campos. 
O rapazinho foi se extasiando com a paisagem, sempre mais bela e mais rica. 
Observador atento, de vez em quando se detinha um tanto mais em alguns locais. 
Após algum tempo de caminhada, perguntou ao pai: 
-Meu pai, por que é que algumas espigas de trigo estão inclinadas para o chão, enquanto outras estão de cabeça erguida?
O lavrador se abaixou e colheu uma espiga. 
Justamente uma das que se encontrava curvada. 
Mostrando-a ao filho, explicou: 
-Repara, meu filho. Esta espiga, que estava inclinada, quase encostando no chão, está perfeita e cheia de grãos. Observa aquela outra, que se levanta com tanto orgulho do trigal. Está seca e imprestável. Na nossa vida, isso também acontece, às vezes. Os que apresentamos orgulho excessivo somos ocos, nulos, enquanto os humildes são valorosos e úteis. O orgulho é um mal que habitualmente gera a ambição, que é o desejo imoderado de cargos, honrarias, poder, destaque. Eis uma grande lição, meu filho. Não se permita, jamais, o orgulho. É um grande mal e precisa ser combatido. Existem algumas regras que podem nos auxiliar a contermos nosso orgulho, reconhecendo o que somos, valorizando-nos, mas jamais nos acreditando melhores ou superiores aos demais. Primeiro item é buscarmos o autoconhecimento. É impossível nos examinarmos sinceramente e não reconhecer as próprias falhas. Segundo, pensarmos na insignificância e na transição de todas as coisas que constituem motivo de orgulho na Terra. As riquezas, por exemplo. Não são eternas e transitam, com rapidez, de determinadas mãos para outras. Famílias abastadas sofrem derrocadas financeiras, enquanto criaturas que pareciam quase nada possuir, se destacam, alcançando tópicos não imaginados. Sem se falar que, com a morte, todos os bens, títulos, haveres, permanecem na Terra. Seguem com o Espírito somente as virtudes e paixões, isto é, o bem que construímos e o mal que para nós mesmos criamos. Terceiro, recordarmos o exemplo de Jesus, perfeito modelo da humildade. Ele, o Rei Solar, nosso Governador planetário, veio até nós, viveu conosco, entregando-se ao trabalho de carpinteiro. E para a sua missão de amor, se identificou como o Pastor, que cuida das ovelhas. Maior de todos nós, apresentou-se como o Servidor. Finalmente, aceitar posições modestas para desempenho de tarefas anônimas, que a muitos beneficiam. 
* * * 
Sigamos nosso Modelo e Guia. 
Nossa passagem pela Terra é transitória, como todas as coisas do mundo.
Basta que grandes ventos se apresentem para destruir o que demoramos anos para edificar. 
Os temporais, as enxurradas, o inverno impiedoso ou a estiagem demorada são agentes do tempo sobre os quais não temos poder.
Lembremos da fragilidade humana e de que, para viver a cada dia, dependemos totalmente da Providência e da Misericórdia Divinas.
Pensemos nisso e sejamos menos orgulhosos. 
Redação do Momento Espírita, com base no cap. As espigas de trigo, do livro Lendas do céu e da Terra, de Malba Tahan, ed. Record. 
Em 12.3.2019.