segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

SEM RECOLHER DETRITOS

JOANA DE ÂNGELIS
E
DIVALDO PEREIRA FRANCO
O homem estava a caminho do aeroporto. O táxi rodava pela faixa devida, quando um outro veículo saiu, subitamente, de um estacionamento, cortando-lhe a frente. O taxista pisou no freio com força, deslizou e escapou de bater em outro carro por um triz! O motorista começou a gritar, nervoso. Porém, o taxista manteve-se inalterado. Apenas sorriu e acenou, fazendo um sinal de positivo, de maneira bastante amigável. O passageiro do táxi, de certa forma indignado, perguntou: 
-Por que você fez isso? Aquele cara quase arruína o seu carro e quase nos manda para o hospital!!! 
O taxista, traduzindo tranquilidade deu uma explicação singela e profunda: 
-Muitas pessoas são como caminhões de lixo. Andam por aí carregadas de detritos, cheias de frustrações, de raiva e traumas! À medida que o lixo aumenta, elas precisam de um lugar para descarregar e, às vezes, descarregam sobre a gente. Nunca tomo isso como pessoal. O problema não é meu! É delas! Apenas sorrio, aceno, desejo-lhes sempre o bem, e sigo em frente. Não pego o lixo das pessoas e nem o espalho sobre os outros, seja no trabalho, em casa, ou nas ruas. Fico tranquilo… Respiro... E deixo o lixeiro passar. Pessoas felizes não deixam qualquer detrito estragar o seu dia. 
* * * 
A tolerância é caridade em começo. Exercitando-a, continuamente, encontraremos excelentes resultados do bem onde estejamos, com quem convivamos. Condescendência para com os direitos alheios, não produzindo choque, não escandalizando, seguindo os mesmos caminhos de todos com atitude correta na busca de algo que nos dignifica, é relevante testemunho de tolerância. Jesus, o instrutor de sempre, convidado a pagar o tributo do templo, aceitou, elucidando: Não provoquemos escândalo. E cumpriu com esse dever para melhor poder trabalhar em Seus sublimes compromissos para com Deus. A tolerância nos evita o contágio com a inquietação do mundo. A tolerância nos salva de cair no fosso dos pensamentos negativos e insanos que, por vezes, nos atiram em armadilhas das quais dificilmente escapamos. Toleremos, relevemos, desculpemos, compreendamos. Todos temos nossos dias difíceis, nossas vidas atribuladas, nossas provas e expiações que, muitas vezes, estremecem nossos dias. Compreendamos como desejamos ser compreendidos. Atrás de alguém esbravejando sem aparente razão, atrás de uma voz grosseira, há uma alma pedindo socorro. Atrás de palavras que machucam, de atitudes deseducadas, há alguém querendo descarregar suas frustrações, seus medos, suas tristezas. Não recolhamos esses detritos. Eles não são de ninguém. Não desejemos estar certos, fazermos justiça, dizermos verdades. Não é este o momento. Oremos, peçamos por aqueles que, por vezes, se desequilibram tão facilmente, que parecem carregar uma bomba-relógio no coração. Esses precisam muito encontrar o caminho da paz interior, e não nos encontramos na mesma estrada sem motivo. Pensemos nisso. 
Redação do Momento Espírita, com base no cap 56, do livro Convites da Vida, pelo Espírito Joanna de Ângelis, psicografia de Divaldo Franco, ed. LEAL. 
Em 9.12.2019.

domingo, 8 de dezembro de 2019

ESPERANÇA DE CRIANÇA

Olá! Você passa por mim muitas vezes, e quase nunca me vê. Mas eu entendo e continuo sorrindo, em busca de alguém que me note... Poucos me notam. Poucos mesmo! Talvez seja porque quase sempre eu estou bem abaixo da linha dos olhares. Ah! Mas como é bom quando meu olhar encontra outro olhar! É tão bom quando sinto que alguém me notou. Isso é fantástico!... Talvez você pense que eu não tenho nada a dizer, pois ainda não sei articular as palavras, mas eu falo com você, mesmo que você não me ouça... Eu falo com o olhar, embora poucos atentem para os meus olhos brilhantes, e muitos não os entendam... Também falo com o sorriso, que é minha marca registrada. É claro que eu noto as nuvens carregadas que às vezes turvam o seu olhar e o impedem de sorrir... Noto que você tem medos escondidos, e muitas preocupações. Mas eu vejo o mundo pelos olhos da esperança... Pois eu sou a esperança e estou aqui justamente para lhe dizer que essas nuvens vão passar... Elas sempre passam. É só uma questão de tempo. Ah, o tempo! Eu tenho muito tempo para observar o Mundo deste ponto de vista em que me encontro, um pouco acima do chão... Talvez quando meu olhar estiver à altura do seu, eu tenha outra visão do Mundo, mas isso depende mais de você do que de mim... Sim, depende muito mais de você! E sabe por quê? Porque eu sou apenas um bebê. Sou um bebê e hoje observo o Mundo daqui de baixo, sentado no meu carrinho, que alguém empurra para mim. Quando não estou no carrinho, estou no colo de meus pais, amigos ou familiares, e é então que tenho uma visão mais abrangente das coisas que me rodeiam. Às vezes também sou carregado como um saco de batatas, pelos irmãos ou primos um pouco mais velhos que eu... Ufa! Isso nem sempre é confortável... Enfim, tudo faz parte dessa minha trajetória de bebê. Bem, mas o que eu queria dizer, mesmo sem falar, é que preciso muito que você preste atenção nos meus apelos silenciosos... Eu não desejo muito, apenas gostaria de poder viver num Mundo justo, seguro, onde as pessoas se importassem umas com as outras... Onde não houvesse violência, pois tenho medo de nunca chegar a ser grande e poder olhar o Mundo daí de cima. Queria que nunca me faltasse um lar, nem comida, nem escola, e nem remédio se eu ficar doente. E isso também quero para todos os outros bebês, meus contemporâneos. Será que isso é possível? Será que posso esperar que você ouça os meus apelos, e construa um Mundo melhor, sem corrupção, sem desamor, sem essa indiferença que assusta? E não assusta só os bebês, não. Tem muita gente grande assustada por aí. Eu noto isso nos olhares. Você sabe que eu sou a esperança do amanhã? Por isso eu vejo o Mundo com esse olhar despreocupado, cabeça apoiada num ombro seguro, observando o Mundo que fica para trás... Sim, eu quero que todas as coisas ruins fiquem para trás. E que a roda do tempo gire devagar... Eu não tenho pressa. Desejo que enquanto eu estiver crescendo você esteja construindo um Mundo novo e bom para mim... Enquanto isso, eu sigo em frente, com a cabeça apoiada no travesseiro macio do meu carrinho, ou no ombro seguro de um adulto... Às vezes você vai notar meu rostinho miúdo, com ares de sono, e perceberá que essa é a tranqüilidade de um bebê que confia no amanhã... Outras vezes notará que estou atento a tudo, principalmente quando passeio nos shoppings ou nas ruas movimentadas. E agora que você já sabe que eu sou a esperança, quando me encontrar por aí preste atenção em mim... E se notar que meu olhar está sem brilho, sorria. Sorria para mim, e eu entenderei que você está dizendo sim. Sim para todos os meus apelos... Porque eu, bebê, sou a esperança que começa a florir, desde agora, no seu caminho... 
Redação do Momento Espírita.

sábado, 7 de dezembro de 2019

A ESPERANÇA

Há dias que temos a impressão de que chegamos no fim do caminho. Olhamos para frente e não vislumbramos mais saída. Não há uma luz no fim do túnel, e não há também nenhuma possibilidade de volta. Parece que todos os nossos projetos, nossos objetivos, foram levados para bem distante, e estamos sem possibilidade de alcançá-los. Parece mesmo que o outono da existência fez com que secassem as nossas esperanças e o vento forte do inverno varresse das nossas mãos todos os sonhos acalentados. A morte vem e arrebata os afetos da nossa alma deixando-nos o coração dilacerado. Sentimo-nos perdidos. Não sabemos que rumo tomar. Ficamos atônitos. Sentimo-nos como uma árvore ressecada, sem folhas, sem brilho, sem motivo para viver. É a desesperança. De repente, como acontece com a natureza, a primavera muda toda a paisagem. As árvores secas enchem-se de brotos verdes, e logo estão cobertas de folhas e flores. O tom acinzentado cede lugar às cores verdes de tonalidades mil. É a esperança. Os entes caros, que nos antecederam na viagem de retorno à Pátria Espiritual, um dia estarão novamente junto aos nossos corações saudosos, num abraço de carinho e afeição. Tudo em a natureza volta a sorrir. A relva verde fica bordada de flores de variados matizes, as borboletas bailam no ar, os pássaros brindam-nos com suas sinfonias harmoniosas. Tudo é vida. Assim, quando a chama da esperança reacende em nosso íntimo, nossos sonhos desfeitos são substituídos por outros anseios. Nossos objetivos se modificam e o entusiasmo nos invade a alma. Jesus, o Sublime Galileu, falou-nos da esperança no Sermão da Montanha, com o suave canto das bem-aventuranças. Exemplificou-a nos Seus ditos e feitos. Enfim, toda Sua mensagem é de esperança. Se formos visitados por qualquer dissabor e o desespero nos tomar de assalto, busquemos o nosso Amigo Maior, Jesus, através da oração. Predispondo-nos pela prece, a ajuda chegará certamente, como suave bálsamo a penetrar nas fibras mais íntimas do nosso ser, dando-nos alento e tranquilidade. Se a desesperança acercar-se de nós, lembremos o Amigo Celeste a nos dizer: Meu fardo é leve, meu jugo é suave. Se Seu jugo é suave, por que não O aceitamos? Se Seu fardo é leve por que não O conduzimos? Consideremos que o rigor do inverno pode ser o resultado da nossa falta de cuidado, submetendo-nos ao jugo da mentira, da ambição desmedida, do pessimismo,das queixas sem fim... Ou talvez a desesperança resulte da nossa própria insensatez, carregando o pesado fardo dos prazeres inferiores, do orgulho, do egoísmo, da ganância, dos vícios de toda ordem, e de outros tantos fardos inúteis que nos sobrecarregam os ombros destroçando-nos as forças. Dessa forma, em qualquer circunstância, deixemos que a esperança nos invada a alma, confiantes em Deus, que sempre nos dá oportunidades novas para refazermos caminhos, buscando a nossa redenção. A esperança deve ser uma constante em nossas vidas. Esperança de melhores dias; esperança de realizações superiores; esperança de paz. 
 * * * 
Narra-se que um monge que vivia da mendicância, sem abrigo, recolheu-se numa gruta para o repouso noturno em bela paisagem banhada de luar. Adormeceu, veio um bandido e lhe furtou a capa de que se utilizava como agasalho. O frio da madrugada despertou-o e, dando-se conta do infortúnio, porém fascinado pela claridade da lua, aproximou-se da entrada da gruta e, emocionando-se com o que viu, exclamou: 
-Que bom que o ladrão não me furtou a lua! 
E sorrindo, pôs-se a meditar. Desesperar, nunca! 
Redação do Momento Espírita com base na introdução do livro Momentos de esperança, pelo Espírito Joanna de Angelis, psicografia de Divaldo Pereira Franco, ed. Leal. Disponível no CD Momento Espírita, v. 1, ed. Fep. 
Em 11.01.2010

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

DESACELERANDO

É bastante comum ouvirmos que o tempo está passando mais rápido que nunca. Que nem bem começamos o mês e ele já acabou, que o dia deveria ter mais horas porque elas não nos bastam para tudo que temos a fazer. 
Será mesmo tudo verdade? 
Que tal pararmos um momento, olharmos para a nossa vida e nos indagarmos: 
-Para onde estou indo? Estou feliz? Que desejo da vida? 
Alguns andamos muito estressados, numa maratona até uma linha de chegada que nunca alcançamos. O som do relógio nos desperta, levantamos, nos arrumamos, engolimos um café às pressas, saímos, nos irritamos no trânsito. As exigências se multiplicam no trabalho, almoçamos de qualquer jeito e prosseguimos, tentando vencer a quantidade de e-mails, de compromissos, de telefonemas. O dia se encerra, nos deitamos já pensando nas tarefas do dia seguinte. 
Será isso viver? 
Que tal tirar o pé do acelerador? 
Na década de 1980, nasceu na Itália o Slow movement. Em tradução livre, o movimento sem pressa. Nada mais do que o resgate de um modo mais tranquilo de viver, no qual se valorizam pequenas coisas. O preparo de uma comida, um bate papo em família, o sentar-se, tranquilo, para ouvir uma música. Tudo com um detalhe muito importante: estar verdadeiramente presente, ou seja, dedicar atenção ao que está fazendo. Trata-se de saborear cada momento da vida. E não pensemos que isso signifique produzir menos, ou ser menos efetivo em nossas atividades. Viver devagar é viver em equilíbrio, é observar, refletir, cuidar de si mesmo e dos outros. Estar presente de forma total em tudo que fazemos nos permitirá desfrutar de forma especial de coisas simples. Assim, ao saborear uma guloseima, permitamo-nos sentir o cheiro, comer devagar, deliciando-nos. Veremos que não somente comeremos menos, o que, de modo geral, buscamos para manter a forma física, quanto sentiremos o verdadeiro prazer da degustação. Quando um amigo nos falar de um problema que enfrenta, não nos apressemos em dar conselhos. Ouçamos com calma. Perguntemos. Sentemos ao lado dele. Permitamos que ele nos diga algo mais, que desabafe o que lhe machuca a intimidade. Se ouvirmos uma canção, busquemos prestar atenção na letra. 
O que nos diz? 
Percebemos a forma poética e a harmonia das palavras que se juntam em versos e em melodia? 
Sejamos, em cada ação, dedicados totalmente. E aprendamos a nos desligar, temporariamente, do celular. Aprendamos a perceber o movimento do nosso próprio corpo em cada atividade física que realizarmos. Caminhemos, ao ar livre, pouco que seja, mas o façamos com qualidade. Sintamos o pulsar do coração, que nos garante a vida, o trabalho dos pulmões que se inflam no processo da respiração ritmada. Por fim, pensemos quem são as pessoas mais importantes em nossa vida. Deixemos de nos desculpar com não termos tempo e valorizemos as relações humanas. Abracemos, olhemos nos olhos do outro, ofereçamos afeto. Cuidemos de quem amamos, brinquemos, pratiquemos a escuta atenta. Isso é desacelerar, viver com qualidade. Trabalhemos, estudemos, ofereçamos o melhor de nós. E façamos pequenas pausas em nossas horas. Comecemos hoje. 
Redação do Momento Espírita, com ideias extraídas da reportagem Não se afobe, não, de Helaine Martins, da revista Sorria, de setembro/outubro 2019.
Em 5.12.2019.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

ALGO GRANDE QUE SIRVA PARA ALGUÉM

A moça trabalhava como voluntária numa loja de roupas usadas, um brechó de um hospital. Certo dia, conta ela, adentrou a loja uma certa senhora bastante obesa. Logo a atendente pensou, entristecida: 
-Puxa... Ela não vai encontrar nada na numeração dela... 
A partir daquele momento, ficou bastante apreensiva, conforme observava a senhora passando de arara em arara, procurando algo. Pensava numa forma de evitar que a cliente se sentisse mal, uma vez que tinha certeza de que não encontraria nada que lhe servisse. Não queria que ela se sentisse excluída e nem que a questão de seu sobrepeso viesse à tona, deixando a estranha sem jeito. Fez, então, uma breve oração, pedindo uma luz para se sair bem daquela situação delicada, evitando que a senhora passasse por qualquer tipo de humilhação naquele momento. Foi quando o esperado aconteceu. A cliente se dirigiu à moça e afirmou, um pouco entristecida e constrangida: 
-É... Não tem nada grande, não é? 
E a moça, que até aquele instante não soubera o que fazer, abriu os braços de uma ponta a outra e lhe respondeu, sorrindo: 
-Quem disse?? É claro que tem! Olha só o tamanho desse abraço! 
E a abraçou com muito carinho. A loja toda parou para observar a cena inusitada e bela. A senhora, pega de surpresa, entregou-se àquele abraço acolhedor, deixou-se tomar por algumas lágrimas discretas e exclamou: 
-Há quanto tempo ninguém me dava um abraço... 
Depois de alguns instantes, buscando se recompor, ainda emotiva, finalizou a conversa breve dizendo: 
-Não encontrei o que vim buscar, mas encontrei muito mais do que procurava... 
 * * * 
Inspirados nessa singela passagem, poderíamos perguntar: Será que dentro de nós, procurando nos baús de nossa intimidade, nas prateleiras da alma, também não podemos encontrar algo grande que sirva para alguém? Somos aprendizes, sim. Muito nos falta de bagagem moral e intelectual, mas muito já temos para oferecer. Quem não tem condições de dar um abraço sincero? Quem não consegue alguns minutos de sua semana para dedicar a algum tipo de trabalho voluntário? Quem não está apto a proferir uma palavra de estímulo, um elogio, um voto de sucesso ou de paz? Temos todos algo grande dentro de nós: o amor maior em estado de latência, a assinatura do Criador em nossas almas perfectíveis. O que temos de bom não precisa ser guardado a sete chaves conosco. A candeia precisa ser colocada sobre o alqueire para que brilhe para todos. Brilhe, assim, a nossa luz, sem economia e sem medo. Há tantos que precisam dela... Não deixemos passar um dia sequer sem ter sido importante na vida de alguém, na história de um ser que respira ao nosso lado. Haverá dia em que finalmente entenderemos o que é viver como irmãos na Humanidade inteira. Que esta pergunta possa ecoar em nosso Espírito durante todo este dia: Será que não temos algo grande que sirva para alguém?
Redação do Momento Espírita com base em depoimento anônimo, recebido pela internet. 
Em 4.12.2019

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

QUANDO A MORTE LEVA NOSSOS SONHOS

A morte é sempre a indesejada que aparece nos momentos mais impróprios. Estamos felizes, preparando a grande festa e ela nos surpreende, levando um dos nossos amores. Estamos aguardando a chegada de um novo ser ao nosso lar, ela vem e nos arrebata alguém querido, tornando o momento esperado menos brilhante. Encontramo-nos em preparativos para uma viagem, há muito esperada, planejada, e um acidente, nos primeiros quilômetros, leva nosso afeto. Caprichosa, parece apreciar estragar os nossos melhores anseios. Quando se apresenta de forma repentina, em imprevistos acidentes, mais nos choca. Nesses momentos, é bastante comum que desejemos encontrar culpados. Se foi um desmoronamento, nossa indignação tende a se voltar contra a divindade. Afinal de contas, não é ela quem governa os ventos e administra as tempestades? Se foi um acidente de trânsito, desejamos encontrar o culpado ou culpados. Embriaguez, incompetência, distração ao volante, violação de uma lei? Por vezes, nem nos damos conta de que mais nos atormentamos nessa caça a infratores, do que com a perda de alguém ou com alguma incapacitação física ou mental, resultante do acidente em que foi envolvido. Nos versos de Iracema, música lançada em 1956, encontramos algumas lições do compositor Adoniran Barbosa. Na forma simples de se expressar, percebemos um homem que contempla o corpo da noiva com quem iria se casar em vinte dias. Ele chora o seu grande amor, e lhe diz da imensa dor que está sentindo. Ele a lamenta lembrando quantas vezes a advertira para ter cuidado ao atravessar as ruas, contudo, ela não atendera suas recomendações. Atravessara, sem olhar, e um automóvel a atingira, ocasionando-lhe a morte. Para ele, pouco sobrou como lembrança. Apenas alguns pertences pessoais dela. Quem pode descrever a dor de um coração que há pouco fazia planos para a vida a dois? Quem sabe planejava algo especial para a festa do enlace matrimonial. Contudo, o que ressalta da canção é a ideia da imortalidade apresentada pelo compositor. Ele tem certeza de que ela se encontra no céu, ou seja, adentrou a Espiritualidade. Ao contrário de muitos de nós, que ficamos a indagar como estará aquele que partiu, ele fala da certeza de que sua noiva está juntinho de Nosso Senhor. Ela está bem e ficará aguardando que, algum dia, ele lhe vá ao encontro. A lógica é simples. Ela era uma boa pessoa, ele lhe conhecia o caráter, a índole. Se era boa, bem está no mundo espiritual. Outra lição que nos oferecem os versos é a isenção de culpa do motorista. No seu sofrimento quase insano de ver-lhe arrebatada a noiva, ele afirma que o carro não teve culpa. Eis algo para pensarmos. Será sempre o outro o culpado da nossa infelicidade? Em uma ou outra circunstância, não teremos sido nós mesmos, por descuido, por invigilância, os promotores do incidente? Que nosso sofrimento não nos torne alucinados. Que saibamos honrar nossos amores, lembrando-os amparados pelo Pai de todos nós. Que prossigamos a amá-los, com a mesma intensidade de quando os tínhamos ao nosso lado. Por fim, que a nossa busca por eventual justiça não nos transforme em pessoas obstinadas e infelizes. Pensemos nisso. 
Redação do Momento Espírita, com base em versos da música Iracema, de Adoniran Barbosa. 
Em 3.12.2019.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

E SERÁ NATAL PARA SEMPRE!

Carlos Drummond de Andrade
Toda realização grandiosa começou com uma ideia, um sonho e uma vontade. Tudo começa no pensamento para depois ganhar vida no mundo das possibilidades. Pensar bem, pensar grande, é construir antes da construção, é acreditar no que pode vir a ser, é mover o mundo para que o melhor se realize. Carlos Drummond de Andrade construiu seu futuro, acreditando na melhoria dos homens, dizendo: Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de dez meses. Imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: dez meses de Natal e dois meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom. Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente. Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade. Os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma. Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura, nem de suicídio. O correio só transportará correspondência gentil, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores; toda pintura, inclusive o borrão, estará a serviço do entendimento afetuoso. A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? Perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a Terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro. A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram. Equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém. Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz. O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor. Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível. A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã. O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas. E será Natal para sempre. 
Redação do Momento Espírita, com base em texto do livro Cadeira de balanço, de Carlos Drummond de Andrade. 
Em 25.12.2017.