quarta-feira, 30 de agosto de 2017

DEPOIS, PODE SER TARDE!

O feriado prolongado era esperado por todos os familiares com grande expectativa. A oportunidade seria boa para o reencontro daqueles que viajariam de cidades distantes em busca do aconchego do lar materno. Aos poucos, iam chegando, trocando abraços de saudade, carinho, novidades... Ninguém esperava que, na Agenda Divina, aquele dia estivesse marcado para o retorno de um dos familiares à Pátria espiritual. Menos ainda que fosse um pai e esposo dedicado, com pouco mais de quarenta primaveras, aparentemente forte e saudável... A manhã do primeiro dia do reencontro transcorreu em clima de alegria e descontração. Mas a tarde seria de despedida e dor. A filha adolescente foi a primeira a encontrar o corpo do pai, já sem vida, estendido sobre a cama. O desespero do primeiro momento foi comovente. Ela, surpreendida pela cena inesperada, tomou das mãos imóveis do pai, e falou com voz embargada de lágrimas doloridas: 
-Paizinho, você sabe o quanto eu o amo, pois eu nunca deixei de lhe dizer isso todos os dias... E eu também sei que você me ama, porque sempre ouvi isso de você. Valeu, pai! 
A cena era comovedora... A jovem, agora abraçada à mãezinha, que também chorava discretamente, aos poucos, foi relembrando os vários momentos de alegria vividos juntos, buscando fixar-se na certeza da imortalidade da alma, que aprendeu desde a infância. Fatos como esse acontecem diariamente e continuarão acontecendo. A morte não se faz anunciar e chega sempre sorrateira. O que muda é apenas a situação dos corações que partem e dos que ficam. Será que você poderia dizer, como a jovem da nossa história, a um ser querido que partisse agora, que ele sabe o quanto você o ama? Será que, se você partisse agora, seus amores saberiam que você os ama? Você costuma dizer isso a eles? Geralmente, porque pensamos que nunca chegará a nossa vez, nem a vez dos nossos de fazer a viagem de volta à Pátria espiritual, deixamos para depois tantas coisas que poderiam ser feitas hoje. São tantas oportunidades perdidas... tantas ações deixadas para depois.... Deixamos de dizer-lhes o quanto eles são importantes em nossa vida... Adiamos a oportunidade de resolver uma pequena desavença que poderia ser resolvida agora. Deixamos para mais tarde o abraço de ternura que nunca tivemos a ousadia de dar... O perdão de um pequeno deslize cometido pelo ser que admitimos amar, mas não confessamos em voz alta. Deixamos passar a oportunidade de dar a atenção que deveríamos dar agora... Adiamos para depois a vivência de momentos de alegria e descontração junto daqueles que fazem a nossa felicidade. Se você estava deixando para depois, não perca mais tempo! Vá ao encontro dos seus amores e não poupe afeto nem palavras de carinho. 
 * * * 
Quase sempre, o depois nos surpreende sem que tenhamos tempo de dizer as coisas boas que gostaríamos de dizer. A maioria das pessoas só se decide por falar dos seus sentimentos nobres, depois que os ouvidos dos entes queridos já se fecharam para a vida física. Ou, ainda, esperam para dizer depois que os lábios físicos já não atendem mais aos impulsos do cérebro. Por tudo isso, não deixe para depois, porque o depois pode chegar demasiado tarde. Pense nisso! Mas pense agora! 
Redação do Momento Espírita. Disponível no livro Momento Espírita, v. 1, ed. Fep. Em 17.08.2009.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

DEPOIMENTO DE GRATIDÃO

A proposta do programa televisivo era a de encontrar parentes que haviam perdido contato, no decorrer dos anos. Os depoimentos apresentados eram dos mais diversos, por parte de tantos que, por um motivo ou outro, desconheciam o paradeiro de familiares, em razão dos caminhos trilhados. Eram histórias de desencontros e separações, de dores que o tempo se encarregara de acalmar mas que, diante da oportunidade do reencontro, retornavam com força e intensidade. E foi assim que ela contou a história de sua vida. Estava grávida. Era jovem, sem independência, em condições financeiras precárias, sem nenhum apoio familiar. Ao dar à luz, seu coração de mãe pensara no futuro da filha. Com as dores transbordando-lhe a alma, a entregara para adoção. Conhecera vagamente a família que a adotaria: detinham boas condições financeiras e desejavam, ardentemente, uma criança. Aquela família a haveria de amar, com certeza. Décadas haviam transcorrido. Agora, ali estava ela frente às câmeras, buscando a filha, falando da dor que ainda trazia na alma. Seu grande medo, contudo, era o de não ser compreendida por ela, pois a dera em adoção, nos seus primeiros dias de vida. A história chegou até a filha, contada de boca a orelha, pelos que se comoveram com o fato. Contudo, ela morava em cidade muito distante. Então, a rede de televisão tomou a iniciativa de ir até à filha, para entrevistá-la. Mãe de família, cercada pelas duas filhas adolescentes, ela iniciou seu depoimento. 
- Eu queria agradecer profundamente a essa mulher que é minha mãe. Sou mãe e posso aquilatar a dor que ela sentiu ao ter que me dar em adoção. Só um amor muito grande é capaz de fazer isso. Ela abriu mão de criar-me para que eu tivesse uma vida melhor. Sou só agradecimento à minha mãe biológica. 
Ao concluir, lágrimas escorriam por sua face, emocionando as suas filhas também. Nenhuma palavra de reprovação. Nenhum julgamento, mágoa ou cobrança. Ela se colocou no lugar da sua mãe biológica e se compadeceu. Entendeu suas dores, seu drama e agradeceu. Permitiu-se a compaixão. 
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 A compaixão nasce da empatia que nos permitimos sentir pelo outro, quando nos colocamos em seu lugar, quando buscamos entender aquilo que o levou a tomar determinada atitude, sua situação, possibilidades e limitações. Nenhum julgamento desnecessário, e quase sempre injusto. Apenas compaixão pela dor do outro, compreensão das dificuldades e dramas que o envolvem. Antes de julgarmos, lembremos que muitas pessoas no mundo enfrentam batalhas que nem imaginamos. Não são poucos os que trafegam pelos caminhos da vida carregando dramas intensos, e dando o seu melhor para bem enfrentar as dificuldades. O bom samaritano tomou-se de compaixão, e atendeu o homem à beira do caminho. Façamos o mesmo. Há tantos caídos pelos caminhos, precisando de nossa compaixão, não de nossos julgamentos precipitados. E, em muitas situações, também necessitando da nossa gratidão. 
Redação do Momento Espírita. Em 21.4.2016.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

SE ARREPENDIMENTO MATASSE.......

Ah! Se arrependimento matasse... 
O que está implícito nesse lamento costumeiro de nossas vidas é: se o fato de estar me arrependendo, acabasse com minha vida agora, eu estaria morto. Como ainda consideramos, erroneamente, a morte como o que de pior pode nos acontecer, associamos algo de muito ruim a ela. Nesse caso, o arrependimento. Não gostamos de ter feito algo e depois nos arrependermos, essa é a verdade. Se pudéssemos voltar atrás, voltaríamos. Se pudéssemos fazer diferente, faríamos. Por isso nos penitenciamos, nos auto-culpamos e alguns até nos autoflagelamos – lembrando dos que agridem a si mesmos, nessas circunstâncias. Precisamos, porém, modificar nossa maneira de pensar. Arrependimento é bom. Muito bom. Arrepender-se é abrir-se para o bem. Só quando descobrimos que erramos é que podemos iniciar a ação reparadora. Só quando descobrimos onde falhamos é que podemos estudar como conseguiremos melhorar na próxima oportunidade. Aquele que nunca se arrepende está ainda cego, iludido, vagando por uma realidade por vezes muito frágil. Aquele que não se arrepende permanece na letargia do primarismo com a consciência adormecida, vivendo o período do pensamento instintivo. Nele predomina a herança da fase inicial de que ainda não se libertou, ou que prefere não superar. Notemos que, por vezes, quando estamos numa dessas situações do se arrependimento matasse, estamos encarando um acontecimento inevitável que, num primeiro momento, não parece bom. No entanto, ainda faz parte da escola desse mundo. Criamos expectativas falsas de esperar resultados maravilhosos de onde eles nunca viriam de qualquer jeito. Arrependimento, de todas as formas, é aprendizado, é autoconhecimento, pois identificar algo que, numa outra situação, faríamos diferente, é muito importante. Deveríamos ter conosco, nesses momentos, um instrumento de gravação ou de anotação, para registrar, com todas as letras e sons, as impressões e sentimentos, e não mais seguirmos por aquele caminho. É o primeiro passo rumo à possibilidade da reparação, que é o ajuste, o conserto. Colocar no lugar o que nós mesmos tiramos. Se tratamos mal alguém e nos arrependemos, imaginando que poderíamos ter escolhido melhor as palavras, que poderíamos ter utilizado um tom um pouco mais ameno, a reparação deve se dar na forma de um pedido sincero de desculpas, um reconhecimento do excesso cometido. Também podemos oferecer algum gesto a mais de generosidade para essa pessoa. Devemos sempre pensar em substituir um mal que fizemos por um bem. Esse é apenas um exemplo. Cada um de nós encontrará a sua maneira, como o coração sentir e indicar.
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Conhecendo a realidade, cultivemos a coragem de identificar o erro, de nos arrependermos dele e, ato contínuo, façamos a reparação. Com a mente elevada às fontes sublimes da vida, desfrutemos emoções e pensamentos ideais, que nos auxiliarão a não errar. Mas, se tal acontecer, eles ajudarão a nos arrependermos e recompormos, reparando qualquer mal que tenhamos feito, liberando-nos assim da culpa. 
Redação do Momento Espírita, com base no cap. 9, do livro Desperte e seja feliz, pelo Espírito Joanna de Ângelis, psicografia de Divaldo Pereira Franco, ed. LEAL. Em 28.8.2017.

domingo, 27 de agosto de 2017

DE POBRES E DE RICOS

A maioria dos seres humanos deseja ser rico. Dinheiro representa privilégios, prazeres, poder. É um sonho generalizado que atinge quase todo mundo. Quem é pobre deseja melhorar de vida. Quem já é rico almeja ser milionário. E o milionário? Esse também quer mais! Quer ter bilhões. O doente acredita que o dinheiro vai lhe dar acesso a tratamento VIP. Quem está saudável sonha com viagens, jantares em restaurantes sofisticados. Anônimos querem a riqueza para se tornar celebridades. Até os idealistas, sonhadores e santos querem dinheiro. Uns sonham em melhorar o Mundo, outros planejam construir hospitais e abrigos. Todos acreditam que usarão acertadamente os recursos para o bem geral. Há até quem ridicularize o provérbio popular que afirma que o dinheiro não traz felicidade. Com um sorriso irônico, sempre há quem desdenhe a sabedoria coletiva e contraponha: Dinheiro pode até não trazer felicidade, mas ajuda um bocado. Mas há alguns aspectos da vida que não estão acessíveis à influência do dinheiro. Aliás, o poder do dinheiro refere-se exclusivamente a coisas compráveis. Naquelas coisas sutis – que são de domínio exclusivo da Divindade – o dinheiro é inútil. Ele não pode tornar mais belos os filhos dos ricos. Nem a maior fortuna do Mundo compra consolo para a mãe que perde o filho. E, por mais nobre que seja, quem pode garantir que terá amor verdadeiro? Sábias são as palavras de Jesus: Quem de vós poderá acrescentar um palmo à sua altura? A natureza nos limita: quem pode viver sem ar? Ou sem comida, ou água? Quem pode evitar a morte, a velhice ou o sofrimento, por mais dinheiro que tenha acumulado? São os limites impostos por Deus e que nos servem de advertência sobre a igualdade que reina sobre nós. Afinal, estamos submetidos às mesmas regras de nascimento, vida e morte. Ricos e pobres, todos nascemos dependentes, enrugados, pequeninos. Nenhum filho de milionário nasceu com dentes ou pronunciando as palavras. Mesmo que o berço seja de ouro, crianças ricas também estão sujeitas às mesmas limitações que atingem a infância pobre. E assim crescemos – mendigos e milionários – contemplando o mesmo sol, tendo a mesma lua como testemunha silenciosa de nossas vidas. Chuva, frio, calor nos atingem igualmente, sem aumentar ou diminuir perante a quantidade de dinheiro que carregamos. E mesmo a morte, um dia, chegará para todos. Encontrará alguns em nobres leitos, cobertos por lençóis finíssimos. A outros surpreenderá em casas paupérrimas, solitários e maltrapilhos. Mas ela virá para todos. O preço do caixão, a imponência do túmulo serão então apenas diferenças externas. No interior das sepulturas, a lei da decomposição do corpo físico alcançará aos corpos de magnatas e pobrezinhos. Passadas algumas décadas, se misturados os esqueletos de ricos e pobres, quem poderá dizer quais daqueles brancos ossos era dono de mais dinheiro? Após a morte do corpo, Deus nos pedirá contas somente do amor que nutrimos, do bem que espalhamos, da ética que cultivamos e da paz que construímos. O dinheiro? Ah, o dinheiro ficará nos cofres do Mundo, utilizado por outros administradores temporários. Pense nisso! 
Redação do Momento Espírita. Disponível no livro Momento Espírita, v. 7, ed. FEP. Em 24.8.2013

sábado, 26 de agosto de 2017

DEPENDE DE NÓS

DIVALDO PEREIRA FRANCO
Conta-se que um sábio seguia por um caminho, com seus discípulos. A via era tortuosa, difícil. Em certo trecho, encontraram um carro mergulhado em um atoleiro. Admirados, viram que, ao lado do veículo, seu dono estava de joelhos, os olhos cerrados, orando fervorosamente para que Deus retirasse seu carro daquela situação. O grupo olhou aquele homem, mergulhado na prece, sensibilizou-se e prosseguiu a sua caminhada. Alguns quilômetros vencidos, encontraram outro homem com o carro igualmente mergulhado num lamaçal. Ao contrário do primeiro, esse empreendia todos os esforços para tentar tirar o carro do atoleiro. Empurrava, colocava pedras como calços, tornava a empurrar. Enquanto tudo isso fazia, no entanto, ele reclamava, esbravejava, gritava. O sábio olhou a cena, olhou para seus discípulos e os convidou a que todos juntos auxiliassem aquele desafortunado homem. Reunidas todas as forças, breve o carro foi retirado e o viajante, agradecendo, prosseguiu feliz a sua jornada. Os aprendizes, surpresos, indagaram ao mestre: 
-Senhor, explique-nos por favor. O primeiro homem que encontramos, estava orando. Era piedoso, tinha fé em Deus e não o ajudamos. Mas esse homem estava esbravejando, reclamando, era rebelde e, contudo, recebeu nosso apoio. Por quê? 
O professor, sem se perturbar, explicou: 
-Aquele que estava orando, esperava simplesmente que Deus viesse fazer a tarefa que lhe competia. Esse outro, embora desesperado em sua ignorância, empenhava-se, esforçava-se, merecendo, portanto, auxílio. 
* * * 
A breve narrativa nos convida a nos indagarmos: seremos daquelas criaturas que somente reclamam do insucesso, dos dissabores, da enfermidade? Somos dos que somente fazemos reclamar por não ter um amor, por não termos conseguido realizar o planificado para nossa própria existência? Somos daqueles que acreditamos que nascemos para sofrer, penar, sermos infelizes? Aprendemos, sim, que existem expiações que são inevitáveis, situações das quais não poderemos fugir, porque são o reflexo dos desmandos de vidas anteriores. Contudo, elas podem ser alteradas, atenuadas ou até liberadas. Isso porque os atos saudáveis conquistam méritos para superar as ações danosas. Mas, para isso, se faz necessário empreender esforços. Podemos e devemos alterar para melhor o clima que respiramos, o ambiente no qual nos encontramos. Preciso se faz alteração de rota, movimento, realização. Abandonar a queixa, os pensamentos negativos, a mesmice de cada dia. Abandonar as ideias negativas, o pessimismo porque, enquanto os alimentarmos, eles não nos abandonarão. Planejemos o presente, estabeleçamos metas para o futuro e ponhamo-nos a trabalhar, sem amargura. Lembremos, sobretudo, que não basta pedirmos ajuda a Deus. Precisamos fazer a nossa parte. E nossa parte se chama esforço pessoal, bom ânimo, perseverança. Saúde ou doença, bem ou mal-estar, felicidade ou infelicidade dependem de cada um de nós. Perguntemo-nos: O que desejamos para nosso amanhã? 
Redação do Momento Espírita, com base no cap. 5, do livro Momentos de saúde, pelo Espírito Joanna de Ângelis, psicografia de Divaldo Pereira Franco, ed. Leal. Em 18.3.2013.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

EMOÇÕES REPRISADAS

Setsuko Harmon
Possivelmente, uma das questões mais tristes para quem ama é ver os seus amados deixarem esta vida enquanto ainda estão a caminho. Falamos dos portadores do Mal de Alzheimer, essa enfermidade insidiosa que ocasiona a perda da memória, da atenção, da linguagem e da orientação. Os seres estão ao nosso lado mas é como se não estivessem, porque não interagem conosco. Falamos com eles, dividimos alegrias, acontecimentos, que eles esquecem no minuto seguinte. Não podemos aguardar que se alegrem com nossas conquistas senão pelo momento exato em que as comunicamos. Depois, tudo fica relegado ao profundo poço do esquecimento. Por vezes, isso gera conflitos de relacionamento, considerando que, repetindo e repetindo as mesmas coisas, várias vezes ao dia, rapidamente nos cansamos. Então, esquecidos da problemática que envolve em névoas os que amamos, desabafamos: 
-Será que não dá para prestar atenção no que eu falo? Preciso ficar repetindo a toda hora? 
São momentos decorrentes do nosso cansaço, pelos afazeres e preocupações que a vida nos exige. Logo, nos arrependemos, lembrando que o nevoeiro do esquecimento tomou de assalto as lembranças dos nossos amados. No entanto, existem exemplos de pessoas que superam essas fases, exercitando a paciência. Pessoas que descobrem fórmulas mágicas de tornar menos duros esses anos de alienação da memória. E não são poucas. Possivelmente, elas mesmas recordam que, na infância, por uma questão de aprendizagem, exigiram dos seus pais a constante repetição das mesmas respostas, reprisadas dezenas de vezes: 
-Por quê? Mas, por quê? 
Uma dessas pessoas se chama Christine Stone, cuja mãe sofre de Alzheimer. Ao se descobrir grávida, Christine contou para ela, que abriu um largo sorriso, iluminando a face e até bateu palmas. Na sucessão dos meses, enquanto a barriga ia denunciando a nova vida se desenvolvendo em sua intimidade, Christine tornou a contar e a recontar para sua mãe. Finalmente, no intuito de eternizar aquele fugaz momento de alegria, de quem se descobre a caminho de ser avó, ela resolveu gravar. E assim, dia a dia, foi contando a novidade e se surpreendendo com a reação da velha mãe. Setsuko Harmon sorriu a cada vez e se deixou emocionar. 
- Grávida? Você, Christine? 
Palmas efusivas de uma vez, um acariciar da barriga denunciadora da gravidez de meses de outra. Gravado... para não ser esquecido por quem veja e reveja as emocionantes cenas. 
* * * 
Nenhum de nós pode ter certeza do seu amanhã, de como concluirá seus dias, se conseguirá manter a lucidez até o final dos seus anos. Por isso mesmo, a sabedoria nos diz que devemos aproveitar cada momento, nos relacionamentos humanos, de forma irrestrita, ampla. Jamais deixar de abraçar, beijar, comemorar. Estar presente em cada vitória, em cada conquista. Tudo isso enquanto estamos com nossos amados e eles prosseguem conosco. Lúcidos. Presentes. O amanhã somente a Divindade o conhece. E pode ser que ele nos surpreenda com reviravoltas em nossas vidas, algo que nos impeça de estarmos verdadeiramente junto aos amores. Pensemos nisso. 
Redação do Momento Espírita, com relato de fato noticiado pelo www.estadao.com.br, em 7.6.2017. Em 25.8.2017.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

UM TELEFONE DIFERENTE

Itaru Sasaki
O que acontece quando nossos amores se vão pela porta escancarada da morte? Aqueles de nós que guardamos a certeza da vida que não acaba, choramos e oramos. Oramos pelo bem-estar deles. Oramos por nós mesmos, a fim de que as vibrações da prece nos tragam lenitivo à saudade. Aqueles, no entanto, que não têm o apoio da crença na Imortalidade, sofrem muito mais. Será que os amores prosseguem vivendo? Se continuam a viver, eles nos veem, nos ouvem, podem se comunicar conosco? E a dor da incerteza se soma à da saudade, tornando os dias difíceis. 
Em março de 2011, parte da costa noroeste do Japão foi devastada por um forte terremoto, seguido de um violento tsunami. Cerca de dezesseis mil pessoas morreram e duas mil e quinhentas desapareceram. Entre as vítimas, mais de quatrocentos moradores da pequena cidade de Otsuchi. Ainda hoje, em meio a ruínas e obras de reconstrução do local, habitantes vivem o luto pela perda de entes queridos. Pensando em auxiliar esses corações despedaçados, um habitante do lugar, Itaru Sasaki idealizou um poético curativo. Ele instalou em seu jardim uma cabine telefônica e, desde o terremoto, a deixou à disposição dos moradores. O jardim é muito lindo, com grama verde e flores coloridas. O telefone, desconectado, ficou conhecido como telefone do vento. A recomendação é para que a pessoa adentre a cabine, feche os olhos. Fique em silêncio. Ouça com atenção. Se ouvir o som do vento, de uma onda ou de um passarinho, deve abrir seu coração para que o seu sentimento possa alcançar a pessoa amada que se foi. O telefone do vento, que não precisa de fios, cabos, ou cartão de conta, funciona por meio da mente. Assim, faça chuva ou faça sol, todos os dias, pessoas vão usar o telefone para enviar suas mensagens. Ou simplesmente para tentar aliviar a sua tristeza. Transmitir aquele recado nunca falado. Como aquele filho que assim se expressou: 
- Oi pai, aqui é o seu filho. Deve ter sido muito duro para você ficar preso em um campo de concentração na Sibéria. Recentemente, recebi informações do governo japonês sobre a sua morte. Faz setenta anos que sofro com isso. Minha mãe morreu. Meu irmão mais novo morreu. Mas, meu irmão mais velho e eu estamos bem. Cuide-se. Estou falando do telefone do vento. Vou telefonar de novo. Tchau. 
Itaru Sasaki idealizou uma forma da pessoa se permitir conversar com quem se foi, por vezes, de forma repentina. As famílias em luto talvez tivessem algo a dizer aos seus entes queridos e não soubessem como. O telefone do vento objetiva oportunizar a conexão dos sentimentos entre os que ficaram e os que se foram para o Grande Além. Que bela e romântica maneira de auxiliar uma comunicação que, em essência, pode, simplesmente, ser realizada pelo pensamento. Diz o senhor Sasaki, em sua sabedoria de mais de sete décadas: Expressar suas emoções é uma coisa difícil de fazer. Então, as pessoas vêm extravasar seus sentimentos, aquilo que guardam no fundo da alma. O telefone é somente um instrumento palpável para estimular o que podemos fazer pelo pensamento, em qualquer lugar. Mas, para muitos, o início do exercício de uma boa comunicação entre dois mundos. 
Redação do Momento Espírita, com base em notícia da g1.globo.com. Em 23.8.2017.